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quinta-feira, 16 de abril de 2020

FILOSOFIA



A Filosofia é erroneamente considerada por muitos como uma ciência humana. Ela não é uma ciência, mas uma metaciência. Abarca tudo o que pode ser cogitado pelo intelecto, seja ou não conhecimento científico. Em se tratando de ciência, abrange todas: exatas, biológicas, geológicas, humanas, sociais e o que mais seja, além de se dedicar à consideração de toda e qualquer atividade, cognitiva ou não, como o trabalho e os relacionamentos. Cuida também das linguagens, dentre elas a matemática, dos valores, do sentir, do agir e do fazer, como no caso das artes, a par do pensar e do falar. O filósofo, logo, tem que ser possuidor do mais vasto e eclético cabedal de saberes, não tão superficial assim, além de, é claro, dominar com maestria seu "métier" filosófico propriamente dito. Assim ele não é, absolutamente, um profissional da área humanística, mas de todas as áreas.

Filosofia é um complexo que engloba uma atitude, uma atividade, um corpo de conhecimentos e uma arte. É a atitude de ser sempre questionador, é a atividade de refletir sobre a realidade, é o conhecimento que esta atitude e esta atividade produzem e a arte de proceder a esse afã e bem usar seu resultado. O conhecimento filosófico não é vulgar nem científico porque vai além, uma vez que é crítico. A Filosofia não prescinde da ciência, mas a supera, pois, inclusive, discute sua própria validade e traça as diretrizes de como fazê-la. Filosofar, mais do que citar filósofos, cujo estudo, sem dúvida, é de alta relevância, é assimilar tudo o que disseram para formular as próprias considerações e formar a visão pessoal de mundo, que, a todo o momento, vai sendo reconstruída.

 Filosofar é debruçar-se sobre a realidade em todos os seus aspectos (lógico, matemático, geométrico, físico, astronômico, cosmológico, geológico, químico, biológico, psíquico, social, econômico, ético, político, cultural, artístico, linguístico, científico, tecnológico, metafísico, espiritual e qual outro seja); assimilar seu conteúdo, refletir sobre ele, informar-se o máximo possível sobre o que já disseram filósofos, cientistas, literatos, a humanidade enfim, e daí tirar suas próprias conclusões, contestando o que se considerar incorreto; formular conceitos que descrevam de forma adequada a realidade assimilada, delimitando sua esfera de aplicabilidade; fazer levantamentos e experimentos no que for pertinente e possível, para verificar as relações existentes entre aquilo que os conceitos representam nas várias categorias existentes; formular hipóteses que proponham explicações para as relações obtidas; deduzir consequências a partir dessas hipóteses; testar a validade e veracidade das conclusões achadas, reformulando as hipóteses, caso as conclusões não se adequem à realidade e articular argumentos que defendam o resultado concluído e sejam capazes de se opor às explicações alternativas existentes e verificadas errôneas. Procurar as palavras mais adequadas, analisar sua semântica, suas limitações de aplicabilidade e expressar as conclusões em um linguajar acessível não apenas ao especialista, mas à pessoa comum, com certo grau de cultura. Antes de qualquer afirmação, porém, é preciso dizer em que sentido cada palavra está sendo empregada, pois grande parte das discussões filosóficas é puramente semântica. Essa é a metodologia científica que proponho seja também aplicada à Filosofia, para que esta deixe o patamar de uma esfera de conhecimentos baseada em pontos de vista pessoais e se coloque como um corpo objetivo do saber, independente de escolas de pensamento.


Nisso tudo, é mister ter desenvolvido os conhecimentos, habilidades e competências filosóficas que o estudo formal propicia. Mas é preciso ir além do costume de se fazer apenas o estudo crítico da produção filosófica de algum autor ou escola e ter a ousadia de propor sua contribuição pessoal, ou mesmo, quem sabe, criar uma escola. O ideal é que a Filosofia se dispa de qualquer rótulo, escola ou adjetivação, isto é, que se apresente em toda beleza de sua nudez, pois assim é que poderá ser admirada em sua verdade e esplendor.

Deleuze está certo, em parte, pois filosofar não é apenas construir conceitos. Certamente que isso é um dos mais importantes aspectos da Filosofia, mas não é o mais importante. Os conceitos são arbitrários. Um conceito é uma atribuição de significado a um significante, limitando-o de forma a se saber a que se aplica e a que não se aplica. Isso é necessário para se fazer uma imagem representativa da realidade, em todos os seus aspectos, para que se possa discorrer sobre ela com o uso da linguagem, que é a única maneira racional de se poder fazer compreender o modo como se apreende essa mesma realidade. Mas o fundamental é investigar as relações que aquilo que esses conceitos significam guarda com todo o resto, no mundo real objetivo. O cerne da Filosofia é justamente refletir e especular sobre essas relações e propor modelos mentais que as representem em termos dos conceitos formulados. Mas é preciso se proceder a uma verificação fatual ou a uma comprovação lógica, que, em última instância se baseia em evidências fatuais, que valide as hipóteses formuladas, na realidade objetiva do mundo. Não me refiro apenas ao mundo natural, mas também ao mundo das abstrações, das normas, dos valores. Quando Kant postula a existência de juízos sintéticos a priori, é preciso entender o que ele quer dizer com “juízo”, “sintético” e “a priori”, para compreender o significado disso. Mas não só. É preciso investigar se, de fato, existe tal tipo de coisa. Isto é, construir a Filosofia, que precisa adotar critérios científicos de validação de suas proposições. Assim ela se libertará da existência de escolas de pensamento e se tornará uma disciplina que descreva as razões primeiras e necessárias de tudo o que existe, qualquer que seja a ordem considerada. Nisso se inclui lógica, ética, estética, epistemologia, política e, inclusive, metafísica, que não é nada famigerada, até mesmo em seu capítulo principal, a ontologia.

Ao filosofar, o importante não é citar quem disse isso ou aquilo, mas debater o que é dito, não importa por quem. Ler muitos textos de vários filósofos, concentrando-se no conteúdo. Então fazer uma apreciação das diferentes abordagens e explicações de dado fato e tirar a conclusão pessoal, procurando refutá-la para ver se é suficientemente bem estabelecida. Depois, buscar argumentos que a possam defender. Nesse processo, certamente que se usa bastante a intuição, mas é preciso munir-se de argumentos lógicos. O que não é importante é saber se a conclusão segue tal ou qual corrente de pensamento. A Filosofia precisa se despir de adjetivos e procurar chegar a um consenso, como o fazem muitas ciências, inclusive quanto às definições dos termos empregados. Por isso, antes de se iniciar qualquer discussão, os debatedores precisam fazer um acordo sobre o que estão entendendo por cada palavra. Se não houver consenso, que sempre se mencione em que acepção o termo está sendo usado.

A Filosofia, contudo, é muito mais do que um empreendimento destinado a compreender o mundo: É uma proposta de vida, uma mestra que exerce uma função, muitas vezes assumida pelas religiões, mas muito mais bem executada pela Filosofia, que é a de propiciar um modo de apreender a realidade e de fazer face a ela de forma a conduzir a vida com proveito, sentindo-se assim realizado e pacificado consigo mesmo. De manter a mente sempre aberta, inquiridora e questionadora, sem servilismo de qualquer natureza a qualquer ideologia, credo ou facção, comprometido apenas em descobrir e fazer prevalecer a verdade, não importa a quem ou a que possa incomodar. De pautar toda ação por esse compromisso, em benefício da maximização da felicidade para o maior número de seres, quiçá em detrimento do proveito pessoal. Enfim, de levar a vida de forma virtuosa, por seus sentimentos, pensamentos, comportamentos, opiniões, atitudes, posições e obras, jamais sendo omisso, pois sempre se tem a ver com tudo aquilo de que se toma conhecimento.

Isso é o sentido primário da Filosofia, isto é, a busca da sabedoria. Considero que intelectual não seja apenas uma pessoa que domine vastos conhecimentos. Um médico, um engenheiro ou um empresário podem dominar vastos conhecimentos sem serem intelectuais. O intelectual é aquele que tem conhecimentos mais teóricos e consegue correlacionar o saber de sua área específica com as demais áreas do conhecimento humano. O passo seguinte é ser um erudito, isto é, quem domine seu campo de saber em profundidade e abrangência superlativas. Erudição consiste, justamente, em se entender tão ampla e profundamente de um assunto que se seja capaz de argumentar, articular o pensamento, persuadir, expor uma ideia, desenvolver um raciocínio, sempre com grande embasamento e traduzi-lo de uma maneira inteligível para públicos de diferentes níveis e áreas de conhecimento. Um polímata é um erudito em variados campos de conhecimento.

Já o filósofo se caracteriza principalmente por ser uma pessoa que reflete e questiona. Normalmente ele deve ter conhecimento de Filosofia e História da Filosofia, e, portanto, ser um intelectual, mas não necessariamente. Alguém pode ser um filósofo sem que seja intelectual e nem todo intelectual será um filósofo. Uma característica do filósofo é seu amor e sua busca pelo saber e, mais que o saber, pela sabedoria. Erudição e sabedoria são, certamente, conceitos bem distintos, como já está mais que provado. Existem dois conceitos de filósofo. Um amplo e um restrito. Segundo o amplo, filósofo é todo aquele que se debruça sobre a realidade para refletir, questionando e buscando respostas, mesmo que não as ache. Assim, não se requer nenhum tipo formal de estudo para ser-se filósofo, na concepção ampla. Na concepção restrita, um filósofo é um profissional, com diploma universitário, mestrado e doutorado na área, detentor de um amplo e profundo conhecimento de tudo o que trata a Filosofia e do que disseram os grandes filósofos, aliado à habilidade de, ele próprio, fazer uso das ferramentas de raciocínio para construir sua visão da realidade, com a devida competência retórica e pedagógica para expô-la didática e convincentemente ao público. Todavia, há casos em que a pessoa, mesmo não tendo treinamento formal em Filosofia, se dedica a seu estudo e à elaboração de propostas filosóficas de forma bem embasada, argumentada e articulada, de tal sorte que pode ser dita filósofa na acepção restrita. Isso ocorreu com vários pensadores na história da Filosofia.

Em sua origem, a Filosofia era a busca da sabedoria, mais que do saber. O filósofo é o amante da sabedoria. E sabedoria é como bem conduzir a vida, em harmonia com o outro e a natureza. De tal modo que se propicie a própria felicidade e a do outro.

Ser filósofo é, pois, saber como viver. Filosofar é, principalmente, refletir sobre a vida e o Universo, procurando encontrar o sentido, a razão, o propósito de tudo o que existe. Nisso se aplica a inteligência, com grande proveito. Mas o que se vê, inclusive nos cursos de Filosofia, é uma busca de erudição vazia, um acúmulo de informações sobre tudo o que disseram os filósofos, mas, nem sempre, de modo a usar todo esse conhecimento na construção da vida. Filósofo é aquele que filosofa e não o que sabe tudo o que os filósofos disseram. Parece que os cursos de Filosofia optaram por não formar filósofos, mas apenas “entendidos em Filosofia”. É preciso romper com isso e ter a coragem de possuir e expressar suas próprias ideias, de contestar os filósofos por si mesmo e abrir a mente para todas as possibilidades. Isso é sabedoria, desde que seja acompanhada do testemunho da própria vida.

Chego, agora, ao sentido original da Filosofia, que é a busca da sabedoria. Sábio é aquele que usa o conhecimento que tem, que pode ser muito ou pouco, sua inteligência, sensibilidade e vontade, de modo proveitoso e adequado, isto é, de forma a acarretar a maximização da felicidade do maior número de pessoas e, em tudo, ser justo, equitativo e respeitoso do direito alheio, inclusive dos seres irracionais e inanimados. Principalmente, é quem age sempre colocando a bondade como primeira prioridade. Sim, porque ser bom é mais valioso do que ser justo e honesto, pois o justo e o honesto podem ser frios e calculistas, mas o bom é sempre justo e honesto, e, portanto, sábio. Se o sábio for também erudito então temos a pessoa humana com as melhores qualidades que se pode encontrar, pois ela será também modesta e virtuosa em todos os outros aspectos. É o ideal do filósofo da Grécia antiga ou do “santo” dos primeiros cristãos. Isso não significa que seja casmurro. Certamente o verdadeiro sábio é alegre e jovial.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Prof., qual a razão do desprestígio da Filosofia no mundo atual em prol exclusivo da STEM (science, technology, engineering, mathematics)? Essa compartimentalização do conhecimento é benéfica ou seria essa visão da Filosofia como algo supérfluo e redundante a razão para o estado atual de coisas?

A peste do pragmatismo é a grande vilã que provoca a ojeriza pela filosofia. As pessoas só querem saber do que seja imediatamente útil e aplicável no dia a dia. Não querem cogitar das razões e significados profundos de tudo. Há uma nefanda primazia, colocada tanto pela direita quanto pela esquerda, da economia sobre os demais temas da vida das pessoas, em sociedade ou em privado. Claro que ciência e tecnologia são temas super interessantes e muito importantes. Mas não são os únicos. Há muitos, totalmente inúteis, que são interessantíssimos, como Cosmologia, em que fiz o meu mestrado. Do mesmo modo que música clássica, paleontologia, antropologia, linguística, astrofísica e, principalmente, filosofia. E note que filosofia é algo útil também, especialmente ética, mas, também, epistemologia e metafísica. O mais importante, em relação à filosofia, não é estudar a sua história e sim aprender a filosofar. Em todos os temas. Isso é essencial para se intervir no mundo e mudá-lo para que se torne bom para todos. O conhecimento pode ser compartimentalizado com o fito de se fazer uma abordagem, mas tem que haver algo que promova a sua junção a fim de que se tenha a compreensão global da realidade. Isso a Filosofia faz. Filosofia, absolutamente, não é redundante.

Você diz que ensinar a filosofar é mais importante do que ensinar a História da Filosofia, mas como ensinar alguém a Filosofar? Isso não é algo que cada um deve desenvolver do seu jeito?

Ensina-se a filosofar do mesmo modo que se ensina a nadar ou a andar de bicicleta. Colocando as pessoas para filosofar. Isso não é um conhecimento, é uma habilidade. História da Filosofia é que é um conhecimento. Por isso é que não é possível medir a habilidade em filosofar em um exame de múltipla escolha, como o ENEM. Mas, não é porque não vá cair no ENEM que não se deve ter treinamento em filosofar no processo educacional. Não é algo que cada um possa fazer sem um treinamento específico. O professor tem que instar com os estudantes para que conduzam o seu pensamento de forma correta. Note que não estou dizendo que tenham que chegar a conclusões tidas como certas e sim que devam desenvolver um processo de raciocínio correto, que leve em conta a lógica em todas as suas formas, incluindo a indutiva, bem como a difusa, a modal e todas elas. Isso se aplica a todas as componentes curriculares. Aprender a filosofar também é importante para bem saber as demais matérias. E, principalmente, para bem saber conduzir a própria vida. Porque, em geral, as pessoas são condicionadas a aceitar muito do que é impingido pela sociedade em que se insere sem contestar. Como a religião de sua família, por exemplo. Isso é péssimo. Tudo há que ser contestado. Até a democracia. Contestar não significa discordar. Significa não aceitar sem um exame criterioso. Isso se aplica a tudo. Especialmente às prescrições morais. Tem que examinar se são éticas ou não, se ferem a ética ou não. Do mesmo modo que os costumes e tradições. Eles não são necessariamente válidos e nem necessariamente inválidos. Cada um tem que ser examinado e aceito ou rejeitado conforme seja válido ou inválido e não porque a maioria considere que seja. Há que se arrostar a sociedade naquilo em que ela toma como válido ou inválido de modo incorreto.

Um filósofo deve saber sobre qualquer assunto ou existe especialização como as que existem na Medicina, por exemplo?

Há especializações nos diversos campos da Filosofia, como Epistemologia, Metafísica, Lógica, Ética, Estética, Filosofia Política, Filosofia da Mente e outras. Todavia, todo filósofo, seja especializado no que for, tem que saber do restante da Filosofia também, e não apenas superficialmente. Em geral, contudo, os filósofos não são especializados. É característico da Filosofia, justamente, ser abrangente. O filósofo, também, precisa ter muito boas noções de ciências, especialmente Matemática, Física e Biologia, de artes, de história e outros assuntos, como Antropologia, Sociologia, Geografia, Geologia, Astronomia, Cosmologia etc. O filósofo tem que ser o polímata por excelência. Por isso é que ser filósofo é a atividade mais difícil que existe. Bem mais do que ser físico, por exemplo. Claro que estou falando a respeito de filósofos competentes. Infelizmente muitos cursos de filosofia são bem rasteiros e focados na Filosofia como uma ciência da área das humanas apenas.

"" dos filósofos, Nietzsche estava descaradamente ao lado dos poucos, Marx com todo o coração ao lado dos muitos." Bertrand Russel. O que acha?

Acho que seja uma opinião pessoal do Russell. Não o resultado de um levantamento criterioso. Porque ele não concordava como NIetzsche e concordava com o Marx.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Sabemos que a filosofia possuí muitos espectros quando tratamos de sua definição. Qual é a sua forma de conceituar a filosofia ?

Filosofia é um complexo que engloba uma atitude, uma atividade, um corpo de conhecimentos e uma arte. É a atitude de ser sempre questionador, é a atividade de refletir sobre a realidade, é o conhecimento que esta atitude e esta atividade produzem e a arte de bem usar este conhecimento. O conhecimento filosófico não é nem vulgar nem científico porque vai além, uma vez que é crítico. A filosofia não prescinde da ciência mas a supera, pois, inclusive discute a própria validade dela. E traça as diretrizes de como fazê-la. Mas, principalmente, a filosofia se distingue da ciência por buscar não só o saber e a verdade, mas, principalmente, a sabedoria. E sabedoria é a arte de bem conduzir a vida, de modo a que seja razão de maximização da felicidade para o maior número de seres. Filósofo é o que filosofa e filosofar é questionar a realidade, estudá-la por todos os aspectos, refletir sobre tudo isto, tirar as próprias conclusões e proclamá-las para que sejam debatidas. Não é preciso curso para ser filósofo, mas o estudo ajuda, e muito. Todavia, filosofar não é apenas saber o que os filósofos disseram. Isto é apenas “entender de filosofia”. Filosofar é ter suas próprias idéias e expô-las à crítica. E levar a vida coerentemente com isto, buscando a sabedoria, que reside na virtude e no bem. Sem esquecer que, maior do que ser justo e ser sábio é ser bom, pois o bom é sempre justo e o sábio é o que sabe disto.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Então você não pode ser considerado um filósofo pois em sua "filosofia" a claramente um viés Marxista. Além de se autodeterminar comunista. Com viés ideológico não dá para filosofar isentamente.

Absolutamente não sou marxista. Sou um comunista não marxista. E meu comunismo não é consoante nenhuma vertente estabelecida. Cada aspecto da filosofia econômica eu penso a respeito e tiro minha conclusão que não segue a de ninguém. Do mesmo modo com relação à filosofia política, em que adoto o anarquismo sem me filiar a nenhuma escola existente. Assim não tenho viés ideológico nenhum. Concordo com Marx em alguns aspectos e em outros não. Acho os marxistas extremamente dogmáticos, o que não aceito de modo nenhum. Nenhuma espécie de dogmatismo. Nenhuma gnose, como nenhuma agnose. Sou um cético em relação a qualquer assunto. Formo minhas convicções sempre provisoriamente, até que seja convencido, por alguém ou por mim mesmo, de estar equivocado e, então, mudo.

Na filosofia existem diversas concepções acerca de um mesmo tema. Há filósofos que dizem que a propriedade privada é um direito natural, outros afirmam que é um roubo. Então façamos a seguinte indagação: você seria um criminoso (ser dono de uma propriedade privada) ao comprar sua casa própria ?

Não porque o que está estabelecido socialmente é que a propriedade privada seja lícita. Todavia o que está errado é essa licitude. O que é preciso não é impedir que alguém seja proprietário na situação em que isso seja possível e sim mudar a situação para que isso não exista. Então ninguém será proprietário de nada. Mesmo assim, por coerência, eu não sou proprietário de bem nenhum. A casa em que eu moro é dos filhos da minha mulher (com quem não sou casado) em usufruto para ela. Até o meu carro velho (de 23 anos) eu ando querendo doar e ficar sem nenhum. A casa que eu já tive eu vendi e doei o dinheiro para minhas duas mulheres. Não concebo que uma pessoa comunista possa ter alguma propriedade ou que seja rica.

Qual a corrente filosófica que você considera mais plausível?

O mais plausível para a Filosofia é que não seja atrelada a corrente nenhuma. Isso é muito ruim. É preciso que cada tema filosófico seja analisado "per se" sem estar atrelado a escola nenhuma e, então, se concluir pela melhor abordagem possível, que pode coincidir ou não com alguma proposta de alguma escola. Essa Filosofia despida de adjetivos é que é a correta Filosofia.

Eu gostaria de ter uma experiência filosófica, uma experiência que começasse a partir dos sentidos sensoriais... Sentir-se deslumbrado com o mundo, espantado. Mas tudo isso teria que surgir naturalmente.

Não necessariamente. Se se está convencido de que uma experiência filosófica seja algo de bom e se deseje possuí-la, pode-se forçar a sua ocorrência racionalmente, levando a mente a cogitar de considerações a respeito, mesmo sem uma experiência sensorial inicial. Isso acabará levando a se ter essa experiência sensorial, provocada pela atividade racional da mente.

Ernesto, porque alguns filósofos escrevem de modo tão difícil? Eles são gênios mesmo ou não querem dizer nada com nada?

Alguns parece que consideram que o empolamento do discurso filosófico seja sinal de alta erudição e profundo entendimento. De modo nenhum. Quem, realmente, entende de algo, é capaz de expressá-lo de forma entendível, sem obscuridade e, mesmo assim, sem deixar nada faltando.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Professor o que é "Ser" em filosofia, ato puro ente e entidade? Já li o que você respondeu no seu blog, mas não compreendi. O Ser é algo absoluto?

Ser é o ente que, de fato, existe. Ente é aquilo que pode ser concebido com existente ou possivelmente existente no mundo (físico e não físico). Cada ente possui uma essência que são suas características sem as quais ele não é o que é e que o particularizam. O ser, sendo existente, não é absoluto, no sentido de ser imutável. Sua essência é aquilo que ele "está sendo" a cada momento. Mas pode ir mudando. Um ser pode ser o resultado de um processo de transformação a partir de outro ou outros seres, do mesmo modo que pode se transformar em outro ou outros seres. Mas não necessariamente. Um ser pode ter surgido sem ter de que provir e jamais se transformar em nada mais. Por exemplo, o Universo inteiro. Esse negócio de potência e ato é bobeira.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Quais teus filósofos favoritos, ou, melhor, que mais influenciaram seu modo de pensar, agir e perceber o mundo?

Bertrand Russell, David Hume, Arthur Schoppenhauer, Friedrich Nietzsche, Ludwig Wittgenstein, Immanuel Kant, Edmund Husserl. Note que não sou adepto ao pensamento de nenhum deles em sua totalidade, mas esses são os que acato mais do que pensaram. Não sou adepto de nenhuma escola em particular. Concebo a filosofia de modo não adjetivado. Minha escola de pensamente é a minha mesmo.

domingo, 2 de junho de 2019

É possível ser filosofo sem ter lido nada sobre filosofia?

Sim, no sentido amplo do termo, isto é, de uma pessoa que filosofa, ou seja, que examina e reflete sobre o mundo, tirando conclusões. Isso inclui o mundo natural, pessoal, social e cultural.

terça-feira, 23 de abril de 2019

O futuro dos professores de Filosofia ficou mais sombrio com a reforma do Ensino Médio?

Ao que me parece, apenas quem escolher a área de Ciências Humanas cursará Filosofia, de modo que as aulas serão reduzidas. Acho isso um absurdo. Para mim Filosofia é muito mais importante, para todo mundo, seja de Humanas, Exatas e Biológicas, do que todas as outras disciplinas do Ensino Médio. É a Filosofia, se bem dada, é claro, que abre a mente das pessoas para refletir, cotejar, questionar, contestar ou aprovar qualquer assunto. Todavia é importante frisar que estudar Filosofia não é aprender a História da Filosofia, mesmo que também seja, mas, principalmente, é treinar a habilidade de se filosofar. Isso é que é essencial para a vida e não pode ser relegado a um segundo plano, seja qual for a atividade que a pessoa vá ter. E essa é a grande responsabilidade dos professores de Filosofia que têm que ser os mais versáteis, os mais polímatas, os mais argutos, os mais inteligentes, os mais cultos, os mais articulados, os mais capazes de todos eles. Não é para qualquer um. Tem que ser entendido de muita coisa mesmo.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Alguma dica acerca da interpretação de alegorias na filosofia? Eu, particularmente, prefiro coisas mais objetivas.

Também não gosto de alegorias, parábolas, metáforas, analogias e esse tipo de coisa. Gosto de descrições objetivas, claras, com descrição precisa de tudo, coisas e fatos, em termos das palavras próprias para designar cada coisa, sem comparação com nada. Se preciso, que se faça todo um parafraseado para que não reste dúvida sobre o significado de cada palavra que esteja sendo usada, bem como todo o contexto em que está sendo empregada. O perigo das analogias é sua extrapolação para situações em que ela não se aplica mais, como se fosse válida. Jamais uma alegoria, parábola, metáfora, analogia ou algo assim vai ser fiel ao que está se pretendendo comunicar.

domingo, 14 de abril de 2019

Quem é Marx perto de um Aristóteles ou um Leibniz? Pra mim, não passa de uma criança pirracenta. E ainda assim elegeram o maior filósofo da história.

Quem fez isso foram os marxistas. Marx, em verdade não foi um filósofo e sim um sociólogo e um economista. Suas contribuições para a filosofia foram bem pequenas e, normalmente, equivocadas, mais focadas na filosofia da história. Mais do que tudo, no entanto, Marx foi um teórico revolucionário, que articulou movimentos políticos, mesmo não tendo sido, ele próprio, um político. Mas não pegou em armas, como Bakunin.

Soube que o professor Oswald Porchat morreu. Suas críticas à formação filosófica universitária, que visa mais a história do que o desenvolvimento filosófico dos alunos, são muito pertinentes. Em sua opinião, por que essa fixação na história acontece?

Soube que o professor Oswald Porchat morreu. Suas críticas à formação filosófica universitária, que visa mais a história do que o desenvolvimento filosófico dos alunos, são muito pertinentes. Em sua opinião, por que essa fixação na história acontece?

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Tua filosofia te faz descartas a microeconomia?

Não. Mas sim a sua monetarização. Economia não é sinônimo de finanças. A microeconomia pode e deve ser uma economia de doações. Não de escambo. Não é preciso haver reciprocidade nem nenhuma equivalência em termos de qualquer valoração dos bens, seja monetária ou seja a que for. Todavia é preciso planejamento e gestão, para que os bens sejam produzidos e distribuídos de modo a suprir as necessidades da população. Essa é uma forma de economia inteiramente diferente e novel, que precisa ser desenvolvida para que o estado (situação e não estado politico) de anarquia comunista possa ser estabelecido no mundo. Aliás estou querendo achar uma palavra melhor para "comunismo", uma vez que seu verdadeiro sentido se desgastou em razão de seu uso inapropriado nos lugares em que se implantou o capitalismo de estado que foi erroneamente chamado de "comunismo". Daí quando digo que sou comunista as pessoas pensam que defendo o tipo de regime nefasto que vigorou na União Soviética e nos lugares em que ele foi copiado.

Sobre Agostinho/Tomas: A filosofia não prevê ceticismo. Ceticismo é um ramo da filosofia. Cético é aquele que segue a corrente ceticista. Ter como ideia a priori que deus existe não descarta alguém como filosofo. O que importa é sua argumentação logico-filosofica que permitira chegar a tal conclusão

Não. Ceticismo é uma ferramenta de trabalho essencial para se filosofar e se fazer ciência. Ter a ideia a priori de que exista algum tipo de divindade descarta alguém como filósofo sim. Porque isso não é algo estabelecido com nenhuma garantia. Uma argumentação que pretenda mostrar que divindades possam existir pode ser filosófica sim. Mas nenhuma das que já foram apresentadas logrou confirmar o que pretendiam.

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