terça-feira, 7 de julho de 2009

Dona Lygia, minha mãe

Na juventude minha mãe havia entrado para um convento para poder fazer mais caridade, mas saiu porque viu que as freiras não queriam saber nada de pegar no batente e só se ocupavam com frivolidades, além de darem uma importância enorme para detalhes idiotas, como não poder tomar banho nua. Imiscuir-se no meio do povo e viver suas agruras para ajudar de verdade, inclusive dando bronca, mas compartilhando seu dia a dia e fazendo o seu trabalho, sem ficar chocada com a realidade crua das favelas, isto elas não queiram saber, só sabiam rezar. Minha mãe não aguentou e saiu fora. Minha mãe parecia uma Madre Teresa de Calcutá. Magérrima, sempre de saia na canela, sapato sem salto, meias soquete, paletó de lã, cabelos grisalhos e nenhuma maquiagem. Mas um dínamo de pessoa, de uma bondade e de uma honestidade e justiça sem a mínima jaça. Mas era brava, principalmente com os aproveitadores, tanto os pobres quanto os ricos. Não queria saber de política imiscuindo em seu trabalho de caridade e nem de padres e freiras que sempre queriam fruir os méritos do trabalho dela. Ela não queria reconhecimento nenhum, nem publicidade. Só se comovia com a gratidão das pessoas humildes que ajudava. Nossa casa parecia uma creche e eu já dormí com meninos pobres doentes na minha cama, para cuidar deles. Minha mãe cuidava do “Clube dos Engraxates” que lhe dava um trabalhão para disciplinar dezenas de garotos de favela para trabalhar com suas caixas de engraxar (no tempo em que não se usava tênis) nas praças da cidade de Barbacena. Eles ficavam dos onze anos até entrar para o serviço militar e depois minha mãe arranjava emprego para eles. Todos tinham que levar dinheiro para as mães (sim, mães, pois os pais gastavam com cachaça e as mães com o leite dos irmãozinhos, um de cada pai diferente, que geralmente, as abandonavam para se virar sozinhas no cuidado das crianças - porque mãe vira prostituta, mas não abandona os filhos - para mim são heroínas e os pais folgados os verdadeiros vermes). Hoje, na praça principal de Barbacena tem uma placa de bronze em homenagem à minha mãe. Meu pai, eu e minhas irmãs também metiamos a mão na massa para participar. Eu levava minha mãe no nosso antigo Renault Dauphine pelas ruas da periferia e carregava gente doente para hospitais e coisas assim. Sem alarde, sem divulgação, sem pretender dividendos políticos ou de qualquer espécie. Este foi um dos pontos que me fizeram filosofar sobre a perversidade do capitalismo e a lorota da providência divina e que me levaram a amadurecer, desde cedo, minhas convicções ateistas e anarquistas. Além, é claro, de meus estudos de Física, Cosmologia, Religião e Filosofia. Mas eu sempre tive um certo pé atrás com os esquerdistas de botequim que falam bonito mas vivem no bem bom. E, é claro, que devoto um desdém incomensurável pelos mauricinhos, patricinhas e socialites em geral. Mesmo que admire e até tenha um estilo aristocrático de ser, mas naquele espírito do cavaleiro medieval, como se fosse um Arthur de Camelot. Na verdade eu sou uma síntese dialética da nobreza com a burguesia e o proletariado, se é que isto possa existir, ou seja, um ateu com vocação para a santidade e um anarquista aristocrático.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Arte, inutilidade, beleza, ciência e filosofia.

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Na acepção mais básica possível, arte é o fazer e seu produto, englobando aí o artesanato, a engenharia, a indústria e as belas-artes. Em oposição, ciência é o conhecer, o saber, também englobando aí, nesta acepção básica, saberes empíricos e mitológicos. Numa acepção mais restrita, a arte (neste caso, as belas-artes) é um fazer enquanto comprometido com levar à fruição de um prazer sensorial e intelectual, advindo de alguma qualidade do produto, denominada estética, que leve a isto, não importando outras qualidades que possa ter, de caráter utilitário ou outros. Assim, a arte é inútil.
Acho que a arte, como criação, é um construto intelectual do homem em que ele usa sua sensibilidade, inteligência, vontade, habilidades, técnica adquirida e talento nato para fazer uma representação do mundo real ou imaginário, almejando levar ao apreciador uma sensação de prazer no ato de percebê-la, consistente em uma emoção advinda da interpretação feita pela inteligência do que a sensibilidade comunica.
Esse caráter estético pode ser considerado do ponto de vista do autor ou do apreciador. Um quadro pintado por um macaco pode não ser arte na intenção do autor, mas pode o ser na apreensão do apreciador. Do ponto de vista do autor a arte tem a intenção de provocar tal prazer. Notem-se três coisas: A arte não tem compromisso com mensagem alguma, exceto a estética. O prazer estético não tem nada a ver com beleza, o conceito de belo é outro. O feio pode ser arte. Finalmente, como qualquer ação humana, a arte não pode se furtar a ter um valor ético, que pode deliberadamente ser descartado, mas não deixa de estar presente.
Minha opinião é de que a arte não tem utilidade. Não é este o seu propósito. Mas justamente para as inutilidades, o supérfluo, é que faz sentido se lutar pela vida. O necessário à sobrevivência é mínimo. O que distingue o homem é almejar o inútil e se comprazer nisto. Trabalha-se para, afinal, se conseguir ser feliz e se é feliz quando se desfruta da vida com prazer. A arte dá esse prazer. A arte não precisa levar mensagem alguma para ser arte. Basta, do ponto de vista do apreciador, dar prazer em ser contemplada. Do ponto de vista do criador, certamente, a arte não é mero externar de sen-timentos e emoções. É, principalmente, um produto da inteligência, do trabalho, da vontade. O quadro feito pelo macaco não é uma obra de arte porque não foi produzido intencionalmente para tal. Mas pode ser apreciado como tal, se levar a quem o vê uma sensação de prazer estético. É claro que eu estou descartando a atitude imbecil de fingir que gosta ou entende de arte para dar a impressão de ser intelectual.
Dizer que a arte é inútil envolve uma ambiguidade proposital. A questão é o conceito de “útil”. No sentido pragmático, do que é necessário para a sobrevivência, a arte não tem utilidade. Mas ela se presta a promover o bem estar e a elevar o nível de felicidade. Quanto ao caráter formativo, no sentido de passar uma mensagem transestética, de valor ético ou ideológico, a arte se presta muito bem para tal, mas este não é o seu compromisso. Uma obra de arte conserva o seu valor estético mesmo que seja comprometida com nada ou que o seja com valores equivocados. Mas, é claro, a ética perpassa todo o fazer humano e, logo, não há como escapar. Mas a arte não precisa ter um compromisso, digamos, pedagógico.
Esta questão das inutilidades, da arte e de muita coisa nas ciências, na verdade é a mola mestra do progresso, não só técnico e material, mas, princi-palmente, cultural. Vejam minha especialidade em física: Cosmologia. Serve para quê? Para o mesmo que servem a poesia, a música, as belas artes: para elevar a mente, expressar o sentimento de deslumbramento frente ao Universo e, principalmente, em relação ao prodígio que somos nós mesmos. Não tem nenhum valor prático e nem precisa ter. É para o inútil que a humanidade aplica tanto esforço em produzir além do necessário para a mera sobrevivência. É nas inutilidades que se compraz o homem e alcança a felicidade de gozar um prazer inteiramente descompromissado.
Quanto à questão do belo e da relação entre o belo e a arte é preciso, antes de tudo, ver que são conceitos disjuntos. A noção de beleza tem a ver com a percepção do mundo por um ser sensiente e consciente. A arte tem a ver com certa produção de um ser inteligente. Um ninho de passarinho não é uma obra de arte. Assim alguma coisa é bela se provoca no observador sentimentos prazerosos ao percebê-la. Pode ser algo inteiramente natural ou um produto intencionalmente feito para provocar este tipo de emoção, dita estética. Assim concebida, a beleza de uma obra de arte não é necessariamente superior à beleza da natureza. Mas também não é necessariamente inferior. Depende de que obra de arte se está apreciando.
Uma característica importante da arte é que o artista tem que ser livre. A arte por encomenda só tem valor quando quem a encomenda deixa o artista livre. Mozart e Haydn compunham sob encomenda, mas Mozart, especialmente, fazia o que queria. Isto porque Mozart era um gênio e Haydn um grandioso talento. Já Beethoven rebelou-se completamente das encomendas. É claro que, mesmo sendo livre, a arte pode não ser boa, mas se não for livre é certo que não será boa. Note que disse boa, e não bela. O belo, na arte, não é necessariamente belo, na acepção corriqueira da palavra. A beleza da arte não é a beleza do que ela retrata. O artista pode passar ao apreciador algo feio como recurso de comunicação do que pretende externar com sua arte. Mas, fazendo-o com valor artístico, esse feio é belo.
Artista é isso: quem é capaz de expressar o sentimento em algo palpável, que outrem possa contemplar e captar. Mas arte não é só emoção e sentimento: é reflexão sobre como colocar o que se pretende, é inteligência, é trabalho, é vontade. São as idas e vindas, as decisões e indecisões. É o cansaço em cima da obra, até que se chegue ao que se concebeu. E, finalmente, o júbilo do parto, a contemplação da própria criação, aquela satisfação interna de ser um criador e não apenas uma criatura. Dá vontade de reter tudo consigo. Mas não se pode esquecer-se de ganhar a vida… E vender também é uma arte. A arte só vale se for para o outro, para o povo, para disseminar a beleza e, principalmente revelar uma postura de quem acredita na vida e nos valores maiores da humanidade. Assim sendo, rejubile-se o artista, pois é colega de Deus (supondo que exista).
Iniciei-me como cientista, mas desde cedo percebi que não se pode fazer ciência sem filosofar. E filosofar é debruçar-se, principalmente, mas não só, sobre a vida. A vida, contudo, só tem sentido se viver for a eterna busca de um significado que leve à felicidade de se estar vivo. Tal significado é dado principalmente pela arte. A arte, como expressão livre do espírito criativo do homem é sua maior realização, pois que não está comprometida com nenhuma utilidade, sendo, portanto, aquilo que o homem faz por puro deleite, mesmo que possa usufruir retorno por ela. Mas quem faz arte só pelo retorno financeiro não está fazendo arte. Assim comecei com o desenho e a pintura, depois a música, inclusive o canto, o ensaio, a crônica e, por fim a poesia. Meu ciclo se fechou e eu concebo todas as artes num único arcabouço, em que os diferentes sentidos se expressam por variados meios. Sempre há música e poesia na pintura, como há imagens na música, música na poesia e assim por diante. Chico Buarque compunha a letra e a música num único ato criativo. Esta é a minha concepção que, inclusive, vai mais longe. Vejo uma imensidão de música, poesia e beleza plástica na construção da ciência, especialmente na que me dedico, a Cosmologia, na qual me debruço sobre a origem, estrutura e evolução do Universo. E a Filosofia, então, nem se fala. Da mesma maneira, eu faço arte filosofando e coloco nela toda a ciência de que sou senhor. Assim é a série de "paisagens cósmicas" que estou pintando ou os poemas que escrevi e podem ser lidos no blog do meu site (procurar pela categoria "poesia"): www.ruckert.pro.br/blog.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

O Valor do Ateísmo

Não é por falta de formação religiosa que sou ateu. Pelo contrário. É por excesso de formação religiosa. Em minha juventude, quando era católico, fui convidado a participar da TFP e frequentei sua sede em Barbacena por um bom tempo, inteirando-me de sua proposta. Em função disto, aprofundei-me em estudos religiosos e filósóficos ao mesmo tempo em que também estudava muita física e cosmologia, que sempre foram a minha paixão. Esses estudos, tanto teológicos quanto científicos e filosóficos é que me levaram a perder a fé e tornar-me, a princípio, agnóstico e, posteriormente, ateu. No entanto, admiro a coerência, a dedicação à causa e a prática virtuosa dos membros da TFP, entre eles conhecida como “Grupo de Catolicismo”, e, certamente, as mesmas qualidades de seu mentor, Plínio Correa de Oliveira, que conheci pessoalmente. Todavia deploro suas posturas intransigentes com relação a outros pontos de vista e o comportamento à moda do “Opus Dei”.
Na verdade eu nunca aceitei interiormente a cosmovisão direitista da TFP. Intimamente sempre fui um anarquista convicto. Minha aproximação com a TFP se deu por uma admiração à sua postura ética estóica e ao modo de vida intelectual e culturalmente sofisticado. Mesmo tendo sido criado como católico, sempre encarei a religião de um ponto de vista cético e antropológico. Assim vi que a noção de “Revolução e Contra-revolução” é paranóica. A visão marxista é mais próxima da realidade, mas também é dogmática. Minha posição no espectro político não é de esquerda nem de direita, mas libertária, que é oposta à retrógrada e se lança para frente numa direção perpendicular ao eixo esquerda-direita.

Não considero que a descrença no sobrenatural e a adoção de um cosmovisão científica tire o encanto da vida. Em primeiro lugar a ciência é deslumbrante e maravilhosa, muito mais do que as sagas mitológicas dos Vedas, a Ilíada, a Odisséia, a Biblia ou o Corão. E a ciência não exclui a filosofia (mesmo a metafísica), nem a poesia, nem a música, nem a dança, nem o amor, nem a alegria, nem a bondade. Enfim, um ateu, inteiramente cético como eu, pode ser uma pessoa imensamente alegre, feliz, bondosa, idealista, prestativa, solidária, justa, honesta, sincera e um bravo lutador pelo prevalicimento do bem e a erradicação do mal. Mas também um eficaz esclarecedor que pretende difundir a luz da verdade onde imperam as trevas da ilusão e da ignorância. Por argumentos, esclarecimentos, demonstrações, sempre procuro levar a todos a mensagem de que as crenças no sobrenatural, em espíritos, em Deus, anjos, demônios e esse tipo de coisa são inteiramente infundadas. Que a oração é uma ilusão, que não há céu nem inferno, que a morte é o fim de tudo. Mas levar também o otimismo pelo fato de ter-se o privilégio de existir. Sim, pois esta vida é uma ocorrência raríssima no Universo e nós fomos os premiados por esta loteria que é mais difícil do que ganhar sozinho na mega-sena toda semana. Valorizar a própria vida e não viver a vida por causa da outra vida, que não existe. Nisto pode-se ser muito mais realizado, responsável e alegre do que na crença no sobrenatural. Aplicar-se a fazer o bem sem pretender nada em troca, nem o céu. E substituir a religião pela filosofia. É o que penso.

Como professor de Física (agora aposentado e só atuando na administração acadêmica), ao longo de minha vida profissional que completa agora 40 anos de magistério e mais de 20 mil horas-aula, nos níveis médio, superior e de pós-graduação, tenho sempre introduzido, em paralelo ao conteúdo precípuo da disciplina, minhas concepções filosóficas materialistas (hoje diria “fisicalistas”) de que não há nenhuma necessidade de se apelar para qualquer ser extra-natural onipotente para dar conta de se explicar tudo na natureza. Sempre respeitando os pontos de vista divergentes dos alunos fideístas, procuro mostrar que a ciência prescinde do conceito de Deus. E mais: mostro que todos os aspectos da vida, inclusive éticos, não dependem de divindade para se fazerem prevalecer. Que o bem existe por si mesmo e que ser ateu absolutamente não significa ser imoral. Infelizmente apaguei meus perfis anteriores mas, neles, os testemunhos de meus alunos, mostravam o quanto me prezavam e, até, admiravam minha postura e modo de vida. Acho que cada um de nós, ateus, na sua vida social, nas conversas com os amigos, deve aproveitar as oportunidades para levantar essa treva das crenças infundadas e fazer ver a luz do conhecimento real, da verdade cristalina de que Deus não existe e que isto é algo muito bom de se saber. Que é motivo de grande paz e felicidade, como também de maior responsabilidade em fazer prevalecer o bem sobre o mal. Tenho amigos e amigas que são religiosos mas, mesmo assim, respeitam meu ponto de vista e admiram minha postura. Infelizmente custam a se convencer. Mas isto, para mim, é um ponto de honra e, digo mesmo, uma missão de vida.

A militância ateísta de Richard Dawkins, Daniel Dennett, Sam Harris, Michel Onfray e outros não me parece, da modo algum, agressiva e mesquinha. Pelo que já li desses autores (todos os livros do Dawkins, “Quebrando o Encanto” do Dennett, “Tratado de Ateololgia”, do Onfray e “Carta a uma nação Cristã” do Harris) eles são muito mais educados e têm muito mais consideração pelos crentes do que reciprocamente os crentes em relação aos ateus. Outros autores ateístas que já lí, como Bertrand Russell e Andrè Conte-Sponville, por exemplo, também são respeitosos em relação aos crentes. Certamente que mostram, sem meandros, como eles estão equivocados e condenam, mas mesmo assim com cortesia e elegância verbal, os aproveitadores da credulidade do povo. Esta é uma postura que precisa mesmo ser posta em prática, pois está mais do que cabalmente demonstrado como as crenças, e sua pior manifestação, as religiões organizadas, são nefastas à humanidade. É certo que muita coisa boa se fez em nome de crenças e religiões, mormente no quesito filantropia, mas nada que não pudesse ser feito sem o envolvimento das crenças e religiões. Veja-se, por exemplo, os “Médicos sem Fronteiras”. É preciso que políticos ateus, como o Fernando Henrique, assumam sua condição de peito aberto (não estou abonando e nem estigmatizando o Fernando Henrique em nada aqui, exceto nisto). Tenho orgulho em me proclamar ateu perante todo mundo, sempre que inquirido a respeito, e defendo com bons argumentos minha posição. Apesar disto sou um pessoa conceituada e respeitada em meu meio social por tudo que faço e por minha conduta pessoal e social, além de admirado em meu exercício profissional de professor e administrador escolar. Aproveito tudo isso em benefício da causa ateísta e vejo como missão de minha vida tornar o mundo melhor pelo esclarecimento do povo neste aspecto.

A coisa mais importante para uma correta conduta intelectual é o espírito livre-pensador, inteiramente dissociado de qualquer dogmatismo mas também aberto a todas as possibilidades. O dogmatismo ateísta, bem como o marxismo dogmático são extremamente nocivos, do mesmo modo que o fanatismo religioso de muitos muçulmanos e mesmo de certas facções cristãs. A postura cética correta é a postura da dúvida, jamais levada a um plano dogmático. A dúvida é um dos instrumentos da busca do conhecimento, e, portanto, da verdade. A verdade é um valor superior a qualquer crença. Assim, meu ateísmo é uma condição atual e provisória. Como já fui católico romano fiel, passando para agnóstico e depois para ateu, posso me tornar espírita ou budista. Tudo vai depender de onde eu acharei a verdade. Mas meu ceticismo é fundamental, pois sempre vou precisar duvidar de ter possuído a verdade, justamente para obter mais garantias de que a possua. O que almejo ver disseminado na humanidade, especialmente na juventude, é esta posição franca e aberta de tudo examinar e considerar, nada objetando “a priori”, por mais esquisito que seja. O problema das crenças, mesmo do ateísmo dogmático, é justamente a inflexibilidade, os antolhos da mente. Por exemplo, ando muito interssado no espiritismo, pois tenho uma irmã que o professa. Com todo o meu ceticismo, tenho lido as obras de Allan Kardec, como já li a Biblia, muitos trechos do Corão e pretendo ler os mais importantes Vedas. Mas leio também Richard Dawkins, Michel Onfray, Sam Harris e Daniel Dennett, como lí Bertrand Russell. A questão que coloco é como decidir por esta ou aquela explicação do mundo. Para mim só há duas possibilidades: a evidência dos sentidos ou as ponderações da razão. Penso que a Fé, qualquer que seja, não pode ser usada como critério de verdade, uma vez que há fiéis sinceros que creem em coisas inteiramente diferentes. Quanto ao espiritismo, não está conseguindo me convencer.

domingo, 12 de abril de 2009

Boa Páscoa!





Como no Natal, alguns perguntam: se você não possui religião, porque deseja boa páscoa a alguém? Não ser cristão, muçulmano, judeu ou budista não significa não ver ponto positivo nenhum no cristianismo, no islã, no judaísmo ou no budismo. E o valor que sempre se encontra nessas grandes religiões é a sua pregação pela fraternidade, pela paz (apesar de grande parte de seus seguidores usarem suas doutrinas como pretexto para fomentar a guerra), pela bondade, pela solidariedade, pela amizade e todos os valores que descendem do amor, em oposição à prepotência, a competição, a avareza, o egoísmo e a ganância. Essas são, na verdade, virtudes humanas, abraçadas por todos os que vêem o seu valor superior para a condução de uma vida plena, feliz e harmoniosa para toda a humanidade, mesmo que sejam ateus ou agnósticos. Assim, vejo essas datas (Natal e Páscoa), que são comemoradas pela maior parte da população, como uma excelente ocasião para reavivar esse espírito, mormente o de tolerância em relação a todas as crenças, especialmente quanto ao ateísmo e agnosticismo, visto por muitas pessoas como uma posição “do mal”, quando, na verdade, a maioria dos ateus e agnósticos são mais virtuosos e bondosos que muitos propalados fiéis que, na vida prática, comportam-se como hipócritas, falsos, aproveitadores, oportunistas e paladinos do vício e dos mais inconfessáveis comportamentos e atitudes. Além dessas virtudes outras há que serem fomentadas: aquelas ligadas à verdade, à justiça, à honestidade, à retidão. E mais: as ligadas à coragem, à fortaleza e à disposição para a luta pelo bem e o combate ao mal. Todas elas podem ser exemplarmente contempladas na pessoa do Cristo, que mesmo em sua simples humanidade, foi uma das maiores figuras históricas jamais surgidas.

domingo, 5 de abril de 2009

Incausalidade na origem do Universo



Sabe-se que tudo o que existe era um campo que começou a se expandir em um momento. Se tudo isso já existia, surgiu ou foi criado, é especulação. Mas o fato é que nada impede (nenhuma lei de conservação) que tenha surgido do nada. Se existia, mas de forma completamente estática, não havia decurso de tempo, até que a expansão iniciou-se, sendo aí o “início do tempo”. Quanto ao espaço, todo ele seria o que conteria esse campo, que, dado a sua altíssima densidade, teria imensa curvatura. Não havia e não há espaço “fora” do conteúdo do Universo. Tal conteúdo primevo seria “campo puro”, sem quantização em nada, nem quarks, nem glúons, nem leptons, nem fótons, nem W’s nem Z’s. O interessante é que a temperatura seria zero. A energia seria toda potencial. Somente quando alguma perturbação originou a expansão, teria havido a súbita transformação em cinética (temperatura), que, inicialmente seria altíssima, significando que a aceleração da expansão, em seu início, seria imensa. O espaço-tempo é função de seu conteúdo, mas não é algo substancial, mas sim estrutural, isto é, um atributo do conteúdo que lhe define a extensão e ritmo de evolução.
Entendendo espaço como a “cabência”, isto é, cabacidade de caber, como também a “locância”, ou seja, possibilidades de localização, pode-se perceber que não há vazio, isto é, só há espaço se preenchido por conteúdo. Vácuo existe, pois vácuo não é espaço vazio, mas apenas espaço desprovido de matéria (quantizações fermiônicas), mas preenchido por campo (não quantizado) e radiação (quantizações bosônicas). Quanto ao tempo, trata-se de uma propriedade do campo universal relatada à suas mudanças de estado (estado é o modo como um sistema “está”, isto é, como se configura (distribui-se pelo espaço) e como se dinamiza (tende a evoluir)). Mesmo que alguma região não evolua, se houver evolução em qualquer lugar (pois o Universo é todo interconectado), decorre tempo. Mas se todo o Universo estiver estático (na morte térmica ou no ovo primordial), não decorre tempo.
A redução localizada de entropia (às custas de um aumento maior na vizinhança) pode ser obtida naturalmente por meio de interações atrativas e cumulativas, como a gravidade, as pontes de hidrogênio e a força de Van der Walls (mas não pelo eletromagnetismo). Isto permite a formação de galáxias, de estrelas, de planetas, de bio-moléculas e, a partir daí, da vida. Uma concentração aleatória de gás interestelar, por exemplo, devido às flutuações caóticas, dá origem, pela gravidade, a um incremento cada vez maior da concentração, com a sucção do gás circunvizinho, que leva à formação de estrelas (e galáxias, numa escala maior). A conservação do momento angular promove a formação de um disco, do qual surgem planetas, por outras concentrações. Nesses planetas, havendo condições propícias de pressão, densidade e temperatura, formam-se agregados de átomos que se unem para a formação de moléculas mais complexas até a vida. A vida trabalha com redução de entropia às custas do aumento maior do ambiente devido à respiração e todas as excreções, inclusive perda de calor. Mas isto não poderá se dar indefinidamente e, algum dia, esse mecanismo não mais será possível, levando à degeneração completa do Universo (se não houver “big crunch”). O princípio antrópico forte não suporta uma analise mais apurada e o fraco nada mais é do que uma mera coincidência.
Um Universo estático é uma possibilidade lógica sim. Alíás, é o que mais provavelmente ocorrerá dentro de uns cem bilhões de anos, quando todas as estrelas tiverem esgotado seu combustível e o Universo como um todo estiver em seu nível mais baixo de energia e a entropia total tiver atingido o seu máximo. Não haverá nenhuma possibilidade mudança, porque tudo já estará no fundo do poço de energia. Mesmo a energia potencial da presumida quintessência terá se esgotado, não podendo mais acelerar a expansão. E o afastamento mútuo de todas as coisas terá atingido o limite de energia potencial gravitacional nula, de modo que não poderá mais haver contração. Então a expansão cessará, tudo estará escuro, todos os fótons da radiação de fundo terão atingido frequência zero, a temperatura terá atingido o zero absoluto e nada mais mudará. O tempo não passará. Mais isto será atingido assintoticamente.
Como a temperatura é a densidade de energia cinética translacional, e como a energia potencial gravitacional aumenta com a separação, a expansão do Universo provoca o aumento da energia potencial gravitacional (que , sendo negativa, atinge seu máximo valor no zero) e a redução da temperatura. A presença da quintessência (uma das possibilidades do que seja a Energia Escura - nome bem inapropriado) introduz uma energia potencial positiva (interação repulsiva), que deve decair com a distância, atingindo zero no infinito. Assim, a morte térmica é uma constatação de que a energia total do Universo seria nula. Isto, inclusive, diz que, mesmo sem ser preciso, possivelmente, o surgimento do Universo “do nada”, não infringiu a conservação da energia, pois ela era, foi, é e será sempre nula.
Nada não é uma entidade, não possui potencialidade para coisa alguma. É só uma designação para a ausência total: de matéria, de campos, de radiação, de espaço, de tempo, de espíritos, de mentes, de consciência, de leis e de valores, ou o que seja. Dizer “surgir do nada” não significa que o “nada” deu origem à coisa, mas sim que ela surgiu sem que tivesse algo de que fosse proveniente. Isto não contraria nenhuma lei de conservação, no surgimento do Universo, porque as leis de conservação se referem aos valores de alguma propriedade, que permanecem os mesmos em diferentes momentos. Como não há momento anterior ao inicial, qualquer coisa que apareça nesse momento não precisa obedecer a nenhuma lei da conservação, não só porque antes não havia nada, nem leis, mas também porque não havia “antes”. Dizer que qualquer coisa que surja deva ter existido potencialmente naquilo que a produziu é uma concepção da filosofia aristotélico-tomista que não se verifica na realidade. Trata-se de um preconceito filosófico, do mesmo tipo do que diz que todo evento tem que ser efeito de uma causa e que toda causa, nas mesmas circunstâncias, produz o mesmo efeito. Nada disso prevalece após a constatação empírica, no mundo atômico e sub-atômico, de eventos sem causa, de resultados diferentes de causas iguais em iguais circunstâncias e outras ocorrências aparentemente padadoxais, que só assim são chamadas por se ter uma concepção lógica e metafísica da realidade que a realidade não possui. Não que nunca ocorra, mas que não precisa sempre ocorrer.
No caso da pré-existência de um conteúdo estático que tivesse dado origem ao Universo, pode-se considerar que tudo estava contido nele. O início fortuito da expansão (que poderia nunca ter ocorrido) não requer uma causa. Pode-se dizer que isto existia “em potência” naquele conteúdo, que era algo e não nada. Mas também pode ser que não havia mesmo nada e o surgimento de tudo já se deu em expansão. Nada disso é sabido a partir dos dados e das teorias disponíveis, mas são possibilidades física e filosoficamente permitidas.
A incausalidade não significa que não haja ligação entre eventos, mas sim que não haja ligação “causal”, ou seja, provocativa, mas pode haver ligação condicionante ou ligação de continuidade substancial ou simplesmente sequencial, sem que o anterior provoque o posterior, o que se denomina “causa”. Não é necessário que todo evento possua uma causa. Isto é um preconceito advindo da observação das ocorrências que se dão no nível de dimensões e intervalos acessíveis à percepção humana. Não é o que se dá no nível atômico e subatômico.
A expansão atual não implica necessariamente que o Universo tenha tido um início, pois é possível que ela tenha se dado como um tipo de “ricochete” de uma contração anterior. Isto é questão de se analisar os dados de velocidade e densidade. Pode ser que o Universo tenha sempre existido em uma infinidade de ciclos de expansão e contração. A morte térmica que descreví é uma das possibilidades, mas não a única. Atualmente é a que goza de maior plausibilidade, face aos dados conhecidos.
Um Universo estático não seria eterno, pois nele não decorreria tempo e eternidade é um tempo que decorre sem limite. Mas isto pode se dar no futuro ou ter havido no passado, de modo que o tempo teria existência em um intervalo finito. O fato de hoje haver uma dinâmica não significa que sempre houve ou sempre haverá.
A singularidade inicial do Universo não tinha densidade infinita, pois isto só se dá nos modelos da Relatividade Geral, que não se aplicam a altas densidades (isto é, não seria uma singularidade). O fato de se desconhecer sua estrutura não impede de se conjeturar que qualquer coisa seria possível, especialmente se o seu conteúdo tenha surgido sem ser originário de nada (que é o que teria havido se o surgimento fosse uma “criação” por algo extrauniversal). Certamente que poderia haver o nascimento de outro Universo, se o atual se aniquilasse e se voltasse a não haver nada (ou não). Pode ser que este Universo seja único ou que tenham havido outros antes ou em paralelo, mas incomunicáveis. Tal não é o caso para um Universo cíclico ou para a morte térmica, pois nestas hipóteses o Universo não deixa de existir. Na morte térmica cessa a passagem do tempo, mas o espaço e seu conteúdo continuam a existir numa situação do ser que “é”, ao invés do que se tem hoje, em que todo ser não “é”, mas “está sendo”, ou seja, tudo o que existe hoje, existe ao longo do tempo. É o “dasein” de Heidegger, pois o “sein” seria imutável. Mas o tempo não é absoluto e independente da evolução do conteúdo do Universo, como bem o descreve a equação de Einstein que, do lado esquerdo contém a geometria do espaço-tempo e do lado direito a dinâmica do conteúdo: Gμν = kTμν. Logo seu fluxo pode variar e, mesmo, cessar. Se houver algum Universo paralelo, ele(s) não se comunica(m) com este, de modo que não se pode saber se há.
Há três conceitos de Universo: observável, conectável e total. O primeiro é o conjunto de tudo o que pode ser detectado (mesmo que por falta de tecnologia não se consiga). O segundo é o conjunto de tudo que possa ser detectável, em algum momento futuro (que é o conceito com que estamos trabalhando). O terceiro é o de tudo o que existe, mesmo que seja impossível detectar. Estas coisas não estariam neste universo, pelo segundo conceito. Então chamariamos o terceiro conceito de “Multiverso”. Tenho para mim que o Multiverso é apenas este Universo, mas isto é só uma crença, impossível de confirmar ou contrariar.
A relação de antecedente e consequente muitas vezes é confundida com a de causa e efeito, mas pode não ser. Mesmo em ciência isto tem que ser muito cuidadosamente investigado e pode levar a falsas conclusões, que ocorrem, às vezes, em Medicina, Sociologia, Psicologia, Economia, Agronomia, Biologia e outras ciências em que as investigações dos fenômenos que lhe são próprios muitas vezes é feita por meio de levantamentos estatísticos. O fato de se encontrar uma correlação estatística entre eventos sequenciais costuma ser considerado como causalidade sem o ser. Na prática forense todo cuidado tem que ser tomado para não se condenar um inocente por ilações desse tipo (e os advogados são mestres em distorcer os fatos para convencer o juri de sua tese). Exemplos de eventos incausados na natureza são os decaimentos radioativos e a emissão de fótons por átomos ou sistemas de átomos excitados. David Hume já apontou este tipo de problema em sua “Investigação sobre o Entendimento Humano”.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Bento XVI na África

Este Bento XVI está me saindo melhor que a encomenda para deixar claro para o mundo a verdadeira face conservadora, intransigente, racista, elitista, plutocrata e ditatorial da Igreja Católica. Nada semelhante à mensagem deixada por seu fundador, Jesus Cristo, que, mesmo que eu não ache que seja Deus encarnado, foi um homem admirável sob inúmeros aspectos. Uma pessoa em que me miro como exemplo a ser seguido de conduta, em que pese minha discordância de alguma de suas opiniões. Mas a Igreja Católica, assim como as Ortodoxas Russa e Grega, além da Anglicana, são instituições criadas pelos dominadores para manter o povo sob controle. No reverso da medalha, muitas igrejas neo-pentecostais, adversárias do catolicismo, embrenharam-se na lama da ganância comercial de seus mentores, enganando o povo com promessas de salvação às custas de pagamentos monetários, como as indulgências que levaram Lutero a fazer a Reforma. Sou ateu mas respeito quem creia em Deus, desde que isto seja espelhado em sua vida santa e virtuosa. E a Igreja Católica está lotada de contra-exemplos de tal conduta, acobertados por sua hierarquia até o máximo nível. Sinto pena dessa irmã negra que está pegando com tanta veneração a mão do Papa. Minha impressão é que ele se considera até pertencente a uma espécie mais elevada por sua raça, sua cultura, sua importância, sua procedência européia (especialmente germânica) e sua soberba santidade. Quero ver quando haverá algum papa negro, semita, indígena ou oriental. Sou mais o paganismo de um Epicteto.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Minha Herança

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Às vezes quedo absorto,
olhando longe o vazio,
pensando a vida passada,
lembrando os anos vividos.

Será que foi proveitosa?
Será que deixo saudade?
Será que parto sem mágoa?
Será que fui bem amado?

À minha posteridade,
filhos da carne e da lousa
e aos por amor adotados,
quero passar minha herança.

Na vida não fiz fortuna
nem deixo bens de valor,
nada que valha dinheiro,
nada que seja poupança.

Mas deixo meu horizonte:
a vista descortinada,
do mundo belo e fraterno,
dos homens em harmonia.

Deixo a fé no trabalho,
orgulho da coisa bem feita.
Deixo a honra e a modéstia
de ter sido verdadeiro.

A luta cotidiana
contra toda hipocrisia,
A peleja altaneira
prá acabar a vilania.

E a ternura escondida
pela gente mais sofrida.
A raiva bem merecida
da soberba presunçosa.

Derrotas acachapantes,
frente ao vil e prepotente,
são folhas edificantes
de uma vida merecida.

Mas algo passo adiante
a toda a posteridade:
a flama da esperança
na tocha da humanidade.

Levem adiante sem medo,
prá que essa luz poderosa
do bem, saber e justiça,
alto vá resplandecer.

E as trevas da ignorância,
os freios da iniquidade
e a peste da malqueirança
não mais poder hão de ter.

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