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sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Ainda psiquismo e energia
O mais interessante a respeito de toda a complexidade da relação entre a mente e o aparato orgânico responsável por sua ocorrência, com todas as suas propriedades, é que não há, de fato, uma “localização” definida para cada coisa, apesar de serem detectadas regiões de maior atividade metabólica para cada evento psíquico. Todavia, mesmo em traumas que deixam fora de ação certa região associada a dada ocorrência, com o passar do tempo e estimulação, outras assumem aquela função. Nem mesmo se pode atribuir localizações precisas para registros particulares da memória. Cada lembrança é evocada com a participação de diversos locais do cérebro, onde aspectos diferentes da lembrança estão armazenados, como imagens, odores, emoções, movimentos etc. Há, inclusive, uma proposta de estrutura holográfica para o armazenamento de dados no cérebro, mas não se tem uma base sólida para defendê-la (Em um holograma, o que se armazena são informações sobre a fase da luz e não seu espectro de intensidade localizada, como numa fotografia. Para se reconstruí-lo é preciso iluminá-lo de modo que a figura de interferência resultante recupere a imagem original. Para tal, um pedaço do holograma é capaz de reconstruir a imagem inteira, só que com menos intensidade). De fato, cada pensamento, sentimento, emoção, lembrança ou decisão, é desencadeado por fluxos de inversão de polaridade elétrica nos dendritos e axônios e por jorro de neurotransmissores nas sinapses. Tais fluxos consomem energia maior que o funcionamento muscular (exceto nos picos de esforço rápido e localizado). O que poderia diferenciar essas ocorrências, não só para caracterizar o seu tipo, mas definir o seu conteúdo? Isto ainda não é conhecido, mas, muito provavelmente, a resposta está no desenho estrutural espaço-temporal da ocorrência, como uma partitura orquestral, em que a execução da música, em todos os seus aspectos (melodia, harmonia, altura, intensidade, ritmo, timbre, modulação, expressão…), está registrada na pauta pelas notas, figuras e acidentes.
A evocação de uma lembrança ou a ativação de um pensamento, sentimento ou emoção, como toda ocorrência psíquica se dá por uma varredura dos neurônios e células gliais (que acarretarão estímulos para secreções endócrinas) por um tipo de “onda” de inversão de polarização e de jorros de neurotransmissores. A complexidade (e, talvez, o aspecto holográfico) reside em que o cérebro é lugar de inúmeras dessas ondas simultâneas, que se interferem, além de desencadearem elos de processamento tanto sequencial como paralelo. Tudo isso representa o que está ocorrendo no momento na mente. Por exemplo, enquanto eu digito (e o cérebro tem que comandar a ação de cada músculo acionador de minhas falanges em intensidade e orientação precisas, evocando a memorização da localização das teclas), também leio a tela, escuto os ruídos do ambiente (e atendo a algum chamado, ou mesmo presto atenção em alguma conversa), continuo respirando e tendo o coração pulsando, minha digestão está em processo, meus rins funcionam, minha cabeça está ereta sobre meu pescoço etc, etc, além de estar pensando o que vou escrever. Tudo isto requer extrema coordenação do cérebro e do cerebelo ao mesmo tempo. E tudo isto envolve trocas de energia.
O ponto que discordo é que exista alguma qualidade na energia que seja identificadora do tipo e conteúdo do processo em que está envolvida. Tal informação, como já disse, não está registrada na energia, mas no “aspecto” espaço-temporal da ocorrência.
Acho que a confusão se dá por uma diferença semântica em nosso entendimento do conceito de “energia”, que exporei mais adiante.
Antes porém quero tecer uma digressão sobre a consciência. Como uma ocorrência mental ela também se dá em decorrência da anatomia e fisiologia do organismo, em especial do cérebro, mas não só. A consciência psíquica (consciousness - não estou falando da moral: conscience), é a capacidade de estar ciente do mundo, isto é, saber o que está percebendo, sentindo, pensando ou fazendo. Dentre os aspectos da consciência o mais importante é a “auto-conciência” (note-se que se pode ter consciência sem se ter “auto-consciencia”, patologia que transforma as pessoas em zumbis). Trata-se da consciência de si mesmo como algo distinto do resto do mundo, possuidor das próprias percepções, sentimentos, pensamentos, desejos e decisões. Trata-se do “eu”, ou, como se gosta de se dizer atualmente: “experiência de primeira pessoa (EPP)”. Para muitos filósofos, psicólogos e outros cientistas, tais experiências são irredutiveis a explicações “de terceira pessoa”, isto é, acessíveis a qualquer um e não apenas à própria pessoa que as experimenta. em outras palavras, que não seria possível reduzir a psicologia à neurologia, que é fisiologia, que é biologia, que é química, que é física.
Tal não é o meu entendimento. Considero que, de fato, psicologia é física e a auto-consciência é resultante do funcionamento bio-físico e bio-químico do cérebro, demais órgãos do sistema nervoso, órgãos dos sentidos, glândulas endócrinas, musculatura e esqueleto e demais visceras, enfim… do organismo inteiro. Como? Ainda não se sabe!
Contudo os experimentos neurológicos apontam para o caminho de que a auto-consciência advém de uma varredura constante que o cérebro faz do organismo e do mundo, por meio dos 16 sentidos (9 externos e 7 internos), incluindo informações sobre o próprio funcionamento cerebral e coloca isto como uma percepção. A persistência e continuidade, dentro da variação, dessa percepção seria a noção do “eu”. Há, contudo, controvérsias.
Abordo agora a questão da Energia. Tal palavra pode ser referir a dois conceitos principais: o físico e o comportamental. O primeiro sentido refere-se à capacidade de um sistema físico realizar trabalho ou transferir calor, o segundo, ao modo de ser vigoroso, à disposição, ao entusiasmo. Diz-se, nesta acepção, que alguém possui ‘energia’ (entre aspas simples), se está disposto a trabalhar. Este conceito não é uma propriedade a que se possa atribuir uma grandeza mensurável, não obedece a uma lei de conservação, como o físico e não tem correlação com o primeiro, pois pode-se estar entusiasmado sem possuir energia para realizar o trabalho, na acepção fisica, que é definida pela disponibilidade de nutrientes no organismo. Da mesma forma pode-se dispor de muita energia e não se ter ‘energia’. Quando se diz que meditação, ioga, contemplação, oração ou outras atividades similares passam ‘energia’ é da segunda modalidade que se fala, pois a primeira só é fornecida a um organismo vivo pelo alimento. No entanto, muitos fazem confusão entre os conceitos, especialmente as pessoas envolvidas com atividades esotéricas (o que não é o caso dos debatedores deste tópico), inclusive cientistas, como Amit Goswami, Fritjof Capra, Deepak Chopra e mesmo Roger Penrose. Diz-se também da transmissão de ‘energia’ entre mentes. Certamente que se pode passar disposições positivas a uma pessoa por meio de um contato pessoal. Mas não é a energia (física) que é trocada no contato (luz, som, trabalho mecânico (um abraço)) a responsável pela transmissão do entusiasmo e sim o conteúdo conotativo e denotativo da mensagem, que, interpretada pela mente receptora, em função de suas vivências, lhe passa a ‘energia’ psicológica. Essa ‘energia’ nada tem a ver com a energia absorvida pela retina e pelo ouvido interno, carreada aos neurônios pelos impulsos nervosos.
A “qualia” das experiências mentais não é função da energia física dos impulsos nervosos.
Estou elucubrando umas considerações que exporei em breve, assim que assentadas em minha cabeça. Trata-se de uma extensão da dialética para uma variação contínua de possibilidades desde a tese até a antítese, inclusive ao longo de um número maior de dimensões, isto é, uma forma difusa e policotômica de “lética” que eu chamaria de “polialética”. Outra característica é a não linearidade. A extensão nesses três aspectos possibilita considerar o comportamento da natureza (física, química, biologia, geologia, psicologia) e da sociedade (sociologia, cultura, economia, política) de uma forma integrada que funde o holismo com o reducionismo, desde que, como já mencionei, considerado de forma não linear (isto é, o todo provém das partes, mas não da sua “soma”). Além disso é preciso entender que não existem “partes” autônomas no contexto do Universo como um todo. Cada ser é um subconjunto do Universo, sempre ligado ao todo. O psiquismo é um produto da composição, estrutura e funcionamento do organismo em interação com o meio em que se insere como parte integrante.
Digo que a mente é determinada não apenas pelo cérebro (mas principalmente) como também por todo o organismo (sistema nervoso, órgãos dos sentidos, glândulas endócrinas, visceras, músculos…) e pela interação com o resto do mundo (natureza, pessoas…). Isto não derruba a concepção monista-fisicalista-reducionista, que advogo, desde que tudo seja interpretado dentro dessa polialética, continuamente policotômica, multidimensional e não linear. Posso até considerar que fenômenos creditados aos ditos “espíritos” podem ser completamente naturais nesta visão extendida da realidade natural. Tais possibilidades, contudo, precisam passar pelo crivo rigorosa da checagem experimental, dentro de minha visão “cienticifista” da Filosofia.
Ainda farei comentários sobre a concepção de David Chalmers e a falácia das “qualia” e dos “Zumbis”, que seriam os seres com cérebro e sem uma mente dualista, bem como da experiência da “Supercientista Maria”, de Franck Jackson.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Energia e Psiquismo
Há uma proposta de fazer a conexão entre cérebro e mente por meio do que se chama de "variante energética". E que tal conexão operaria dialeticamente, como aliás se considera que seja o modo operante da natureza, e não apenas da sociedade. Mas, pode-se considerar que a dialética seja apenas um modo humano de conceber o funcionamento da natureza e não algo inerente a ela mesma.
Antes de tudo é preciso entender que não há divergência entre ciência e filosofia. Ambas buscam explicar o mundo, cada qual com o seu objeto e método, mas complementando-se. No entanto, uma explicação científica assentada como uma teoria comprovada tem mais peso veritativo que uma explicação filosófica, pois esta, provinda que é da reflexão e não da experimentação, tem um grau maior de subjetividade, consistindo mais numa "doxa" (algumas vezes elevada a "eudoxa") do que numa "episteme".
A questão do "status" ontológico da dialética, em verdade, é a mesma de toda explicação científica e filosófica. Tais disciplinas são construtos humanos. A natureza não se importa com elas e funciona por conta própria, independente de que explicação se dâ a seu funcionamento. Todas as grandezas e leis físicas são modelos descritivos da realidade, que poderiam ser completamente diferentes e tão bem a descreverem (como decerto deve ser a ciência de extra-terrestres, se houver algum).
Assim, se a natureza opera dialeticamente ou não, é algo que tem que ser respondido dentro de um modelo explicativo da realidade física e, por extensão, do resto da realidade, inclusive psíquica e social.
Pelo que posso depreender do modelamento descritivo da natureza nas diversas ciências, de fato, o modo de operação da natureza é dialético. Mas é precioso considerarmos as não linearidades e as multidimensionalidades.
Há também grandes equívocos no entendimento do conceito de energia, especialmente em temas ligados ao esoterismo. Energia é um atributo físico de sistemas (subconjuntos do Universo) que lhes confere a capacidade de agir, provocando alteração em seu próprio estado ou no de outros sistemas, com os quais interaja. O conceito é, muitas vezes, confundido com o de "disposição" ou "ânimo", que são estados mentais, certamente relacionados com a disponibilidade orgânica de energia, mas coisas distintas. O que confere energia ao organismo é apenas "alimento", nada mais. Ânimo pode ser conferido por uma conversa, uma visão, uma lembrança etc.
Além disto, energia é, às vezes, considerada uma entidade e não o é. Energia é uma propriedade de entidades, expressa, inclusive, por uma grandeza mensurável, mas não existe, substancialmente falando. Nada "é" energia, mas pode (ou não) "possuir" energia. Além do mais, a energia é uma grandeza relativística de calibre, isto é, seu valor depende do referencial em relação ao qual é medida e da escolha arbitrária de seu nível zero. Ou seja, pode ser negativa.
Certamente que os fenômenos psíquicos, originários que são do funcionamento neuronal e do meio circundante, envolvem consumo de energia (Apesar de representar apenas 2% da massa corporal, o cérebro consome 15% do sangue, 20% do oxigênio e 25% da glicose). No entanto não vejo que haja diferença no tipo de energia consumida para cada função psíquica (percepção, memória, emoção, raciocínio, controle motor, linguagem etc), seja de modo consciente ou inconsciente. É sempre energia química, proveniente dos alimentos.
Como já mencionei na postagem sobre fisicalismo, a explicação para a mente está no fato de ser uma "ocorrência" advinda da composição, estrutura e dinâmica do cérebro, cerebelo, bulbo, medula, nervos, glândulas endócrinas e todo o organismo.
A mente é uma ocorrência bio-eletro-química.
Note que não estou me referindo a um “epifenômeno” do cérebro, mas a uma outra categoria que depende do cérebro mas possui uma natureza não substancial (como seria a alma, cuja substancia não é física). Sua natureza é de ordem estrutural e dinâmica, isto é, trata-se de uma “ocorrência” advinda da complexa estrutura cerebral e de seu funcionamento. Fazendo uma comparação pobre é como uma “música”. A música não é a partitura, nem os instrumentos, mas o “acontecimento” dos instrumentos estarem executando a partitura. Só que este acontecimento só pode se dar se existirem os instrumentos e a partitura (mesmo que memorizada pelos músicos). Só que a mente é algo extremamente mais complexo.
Desta forma, não há como a mente subsistir sem o substrato físico-biológico que a suporta, a não ser que, antes que ele se perca, seu conteúdo seja transferido para outro substrato, de mesma natureza (um transplante de consciência entre cérebros) ou de outra natureza (um artefato robótico) que fosse capaz de assimilar tal conteúdo. Isto, em tese, é possível, mas ainda não há competência tecnológica para tal. De modo que, fora isto, a morte do organismo biológico significa também a cessação completa da consciência, de todas as memórias e do “eu”. Tal constatação leva atribuir à vida biológica e psíquica uma importância muito maior do que lhe atribuem as concepções espiritualistas que admitem a sobrevivência do “eu” ao organismo, seja na forma de um “espírito” ou outra qualquer, seja ou não transferido para novo organismo. A unicidade e finitude do “eu” lhe dá uma significância ímpar, pois cada um de nós só tem mesmo esta vida e acabou.
As pesquisas neurológicas sobre a consciência estão avançando. O fato de ainda não se ter a explicação cabal de como o organismo gera a consciência não significa que ela não exista.
Quanto ao epifenomenalismo, ele entende que os processos mentais “emergem” do funcionamento do cérebro mas não podem ser a eles reduzidos, pairando “acima” do comportamento físico, constituindo, pois, um “dualismo de propriedades”. Minha concepção do psiquismo como “ocorrência” é inteiramente redutível aos fenômenos físicos, constituindo-se, pois, em um “monismo fisicalista”, desde que entendamos o mundo físico (natural) como constituido não apenas de matéria, mas também de campos, estruturas, interações e comportamentos dinâmicos e que o reducionismo não seja concebido na forma de uma função linear mas que admita não linearidades e retro-alimentações (isto é, o todo é uma função das partes, mas não a “soma” das partes).
A consciência psíquica não depende da linguagem e a precede bastante no tempo tanto na evolução da espécie humana, quanto no crescimento do bebê e, mesmo, na evolução das espécies como um todo. Outras espécies também possuem consciência, além da humana. Humanos desprovidos de linguagem formal (surdo-mudos de nascença, criados sem terem sido alfabetizados de nenhuma forma) possuem consciência e inteligência tão normais como os outros. Certamente que a linguagem propicia uma ferramenta poderosíssima de raciocínio, mas não imprescindível. Sem linguagem é possível fazer escolhas e tomar-se decisões pensando-se apenas por meio de imagens sensoriais visuais, olfativas, táteis, motoras etc. As próprias imagens retidas na memória funcionam como os símbolos linguísticos representativos do que eles significam e é possível, inclusive, construir raciocínios condicionais, isto é, pensar hipoteticamente e planejar ações futuras. Isto é, raciocínio proativo e não apenas reativo. Isto ocorre também com alguns animais.
O pensamento trata-se de uma ocorrência que se dá na mente, como um sentimento, uma emoção, uma percepção, uma volição, uma evocação, uma memorização, um raciocínio etc. E mente nada mais é do que a entidade que consiste em um cérebro em funcionamento atual ou potencial. A mente não é o cérebro, mas não existe sem ele. É um acontecimento que se estabelece devido a seu funcionamento, que depende de sua constituição, estrutura e dinâmica. O pensamento é como uma música. Ela não existe sem que um instrumento (ou a voz) a produza, mas ela não é apenas o som, mas tudo o que a maneira com que esse som é gerado sequencialmente no tempo seja capaz de produzir, devido á variação da altura, da intensidade, do timbre, do ritmo, da melodia, da harmonia e de todas as demais características. Assim o pensamento é uma sequência de evocações de percepções, de associações, de sentimentos, e de tudo o que o funcionamento do cérebro pode produzir. Note-se que o pensamento pode mesmo ser inconsciente (consciência já pode ser o tema de outro tópico). Certamente para pensar a mente requer que o cérebro funcione e, portanto, consuma energia. Mas o pensamento não é energia, nem tampouco reações químicas. Não é matéria e nem espírito (que, aliás, não existe). Se o pensamento fosse substancial ele poderia ser extraído com uma seringa de um cérebro e injetado em outro, que passaria a pensar a mesma coisa. Pensamento pertence à categoria de realidades que denominam-se “ocorrências”. Isto é: pensamento é um processo que se dá na mente, um acontecimento, um evento. Para que tal evento ocorra é requerido o fornecimento de energia como, de resto, em todo processo orgânico. Mas esta energia é a fornecida pela metabolização do alimento que se ingere. Ela não provem de fonte externa ao organismo.
Tal ocorrência consiste em transmissões de sinais entre neurônios. Estes sinais caminham pelos dendritos e axônios como uma onda de inversão de polarização de suas membranas, em função da variação da concentração de íons de sódio, potássio e cálcio. A comunicação entre os dendritos e os axônios é feita pelos neurotransmissores, que estão disponíveis no meio glial, tratando-se, pois, de um transporte químico de moléculas. Tais assuntos podem ser vistos em qualquer tratado de anatomia e fisiologia neural. Não há nenhuma evidência experimentalmente testificada de que o pensamento possa, naturalmente, emanar da mente que o experimenta, propagar-se pelo espaço e ser captado por outra mente, lembrando que a mente é uma ocorrência do cérebro. A interpretação dos fatos havidos com os macacos lavadores de batatas como transmissão de pensamento é gratuíta.
Uma questão, contudo, é inteiramente pertinente: de onde vém o pensamento? Isto é, o que desencadeia a ocorrência de um pensamento na mente? Várias coisas. Em sua orígem, todo processamento mental provém das sensações que os órgãos dos sentidos levam ao cérebro. São os estímulos visuais, sonoros, térmicos, táteis, olfativos, gustativos bem como dos sentidos que percebem o equilíbrio, o posicionamento do corpo e o funcionamento dos órgãos internos que provocam as primeiras cadeias de transmissões de sinais neurais que se transformam em percepções, assim que interpretados. Em segundo lugar, o próprio cérebro, em seu funcionamento, evoca, por associação ou mesmo aleatoriamente, a percepção de imagens já registradas na memória. E as processa, produzindo novos resultados que passam a ser registrados. Esse fluxo de processamento neural é que é o pensamento. Ele pode se dar de modo consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário. Quando consciente, o “eu” (self) toma ciência da ocorrência. Nos sonhos e alucinações há uma emulação inconsciente da consciência, que, inclusive, pode acarretar respostas motoras (sudorese, micção e mesmo, locomoção, além do movimento dos olhos, característico do estágio REM do sono). Dependendo de seu modo de ser, o pensamento pode ser um raciocínio, uma emoção, um sentimento, uma decisão.
Em todos estes casos, o processamento mental desencadeia alterações somáticas (hormonais, vago-simpáticas ou outras), como excitação, taquicardia, sudorese, rubor, palidez, secura na boca, vaso constrição ou dilatação. Todas essas alteração são percebidas pela varredura dos sentidos e registradas na memória com parte da ocorrência, de modo que o processamento mental não é apenas cerebral, mas envolve todo o organismo.
De um modo geral o que se pode depreender é que os fatos da vida psíquica são decorrentes do funcionamento do organismo (especialmente o cerebro, mas não só) e se dão com o consumo de energia. Mas as peculiaridades de cada tipo de ocorrência não advém da modalidade de energia, mas da estrutura e dinâmica do processamento que se dá. E a complexidade é imensa. O cérebro funciona com processamento paralelo colossal, imensamente maior do que a mais vasta rede neural de computadores já montada. E o número de conexões entre os neurônios é da ordem de centenas de trilhões, mil vezes maior que o número de estrelas em uma galáxia ou de que o número de galáxias do Universo. De modo que o número de combinações possíveis de se montar uma estrutura de sinapses que signifique um dado pensamento é estupidamente maior (isto é, o somatório das possíveis combinações de todas essas conexões, desde apenas uma até todas elas - isto é maior que a fortuna do Tio Patinhas). Tal coisa é capaz de armazenar a memória de tudo o que se percebeu na vida, bem como elaborar todos os raciocínios, todos os sentimentos, todas as emoções, todos os desejos, todas as decisões, enfim, tudo o que puder ocorrer em uma mente ao longo da vida. Certamente que muito do que é formado é destruído, mas muito ainda permanece. Isto é o psiquismo!
Certamente que o psiquismo requer suprimento de energia, mas não apenas. Ele também responde a estímulos externos advindos do relacionamento da pessoa com o mundo, tanto natural, quanto social. Todos esses estímulos são mediados pelos órgãos sensoriais, único canal de contato do "eu" com o mundo (mas note-se que os sentidos não são apenas os cinco tradicionais, mas cerca de vinte). Não há nada de transmissão de pensamento ou coisa que o valha. E a recíproca, isto é, a estimulação de outros pela pessoa, se dá por seus orgãos da fala, sua musculatura esquelética, ou até pela exudação de odores. Todas essas trocas de mensagens intersubjetivas se fazem com o aporte de energia, mas não é a modalidade (sonora, térmica, mecânica (tátil), luminosa ou química), ou quantidade de energia que conterá a informação transmitida a ser assimilada pela mente de forma a produzir respostas imediatas ou mediatas em termos de conformação da personalidade e do carater, formação de lembranças, aquisição de habilidades etc.
O conteúdo da mensagem interpessoal ou transmitida pela coletividade ou o mundo natural está no seu "formato", que, considerando linguagem de um ponto de vista bem amplo, envolve denotação e conotação. Não apenas o significado estrito dos significantes trocados, mas também os aspectos afetivos envolvidos (novamente entendido de um modo amplo) formarão o conteúdo da mensagem absorvida. O que se transmite não está na "energia", mas no "aspecto" em que a mensagem, certamente portando energia, senão não passa, apresenta à mente. Em alguns casos é possível que a maior parte da mensagem esteja na energia, como ao se bronzear ao Sol, ou ao se levar um murro, mas são casos bem particulares.
Instintos, emoções, sentimentos, criatividade artística, volições e outros fatos da vida psíquica, do mesmo modo que memorização e lembrança, pensamento, raciocínio, inteligência, consciência, auto-consciência e também, fala, locomoção, digestão, respiração, circulação sanguínea, funcionamento endócrino, enfim, todas as ocorrência do organismo (dentre elas as mentais) se dão em decorrência do funcionamento do sistema nervoso controlador. Por mais sutil que possa parecer um sentimento de ternura que leve às lágrimas, ele é decorrente da físico-química do cérebro. Quanta complexidade é preciso considerar para que uma explicação possa ser dada de forma estritamente reducionista é muito mais do que qualquer rede neural hoje passível de concepção seja capaz de fazer. Imensamente maior. Mas não infinita e nem impossível de ser produzida artificialmente. Acontece que a humanidade é extremamente jovem neste planeta (menos de um milhão de anos) e a ciência existe apenas a um átimo no tempo geológico (o que não dizer do cosmológico). Pensemos no que poderá ter desenvolvido dentro de apenas algumas dezenas de milhares de anos, quanto mais quando a humanidade já tiver alguns milhões de anos. Tudo o que de mais avançado a ciência já produziu é uma infantilidade perante o que ainda virá. Não condenemos a ciência por ainda não ter explicações para a maior parte de tudo, porque ela está sempre a buscar, sem nunca supor que já encontrou. É assim mesmo e não esperemos demais em nossa curtíssima vida. Mas isto não justifica considerar que o reducionismo está equivocado, desde que visto da forma não linear que já mencionei. Assim ele abranje o holismo, que, na verdade, como é normalmente colocado, é uma capitulação perante a barreira de complexidade exigida para as explicações reducionistas. Mas eu confio que a "ciência dura" logrará escalar esta íngreme montanha, que é desbravar o conhecimento de modo estritamente científico. Inclusive, para mim, a própria Filosofia acabará por tornar-se científica.
A Ciência não tem (e nem tem a pretensão de ter) as explicações definitivas sobre todas as coisas. A cada passo em que algo consegue ser explicado, mais questões ainda surgem por esclarecer. Dizer que esse processo é infinito é temerário mas, certamente, sua extensão é imensa. Fico imaginando o futuro, não no próximo milênio, mas dentro de inúmeros milhões de anos, quando nossa espécie já poderá ter evoluído para várias outras que lhe seguirão, ou outras que surgirão de linhas evolutivas distintas e que poderão ser muito mais inteligentes. Esses seres ainda estarão buscando explicação para muita coisa. Um dos problemas que vejo com as explicações mitológicas e dogmáticas (religião e pseudo-ciências) é que elas têm a pretensão de serem definitivas. Isto é perigoso. É preciso ter a mente aberta para abandonar tudo o que se acredita face a evidências iquestionáveis. Assim é a ciência, que vejo como o único caminho para o conhecimento. A filosofia extrai suas proposições da reflexão sobre o mundo (exterior e interior) tal como é apreendido por nossa consciência a partir de nossas percepções sensoriais. É preciso entender que a compreensão que temos da realidade se constrói em cima dos conceitos que já assimilamos. Quando Ptolomeu concebeu o sistema geocêntrico ele absolutamente não era nenhum burro ignorante. Pelo contrário, poucos escolares que aceitam o sistema heliocentrico hoje seriam tão inteligentes. Mas ele não concebia o mundo de outra forma. O próprio Einstein ao dizer “Deus não joga com dados” revela seus preconceitos arraigados. É o sucesso da ciência em explicar (parcialmente) o mundo que nos permite aceitar que é preciso suplantar o “bom senso” e aceitar que tudo é possível. Até a reencarnação, se for o caso. Mas tem que ser provado por evidências ou, pelo menos, grande plausibilidade. Opinião e crença, só como hipótese provisória.
E o valor do conhecimento não está na sua utilidade prática, de modo nenhum.
Saber como se formou o Universo (minha área de estudos) não tem utilidade prática nenhuma.
Dialética e energia
Sobre o comportamento dialético da natureza, considero que seja preciso extender a dialética além da tríade "tese-antítese-síntese". Explico. Podemos entender o Universo como um único e vasto "campo", primordialmente indiferenciado e extremamente denso, no caroço a partir do qual se iniciou a expansão no momento zero da sequência atual dos tempos, denominado, impropriamente, "Big Bang". Daí para cá, todas as ocorrências, desde a formação das partículas elementares até os problemas políticos atuais da humanidade, passando pela formação de átomos, moléculas, radiação, galáxias, estrelas, planetas, vida, inteligência, consciência, sociedade e tudo o mais, se deu pelo surgimento de assimetrias, flutuações de densidade, numa sequência de reptos e réplicas, que, dialéticamente, conduziram a novas assimetrias, que desencadearam novas réplicas e sínteses, e assim por diante, num emaranhado complexíssimo, como deve-se perceber que seja, por exemplo, um relacionamento amoroso descrito em termos de interções de partículas elementares (especialmente elétrons da camada de valência, isto é: química!). O holismo, então, entendido como o comportamento do todo que não se reduz à soma de suas partes, precisa ser compreendido de outra forma. Na verdade todo sistema é um subconjunto do Universo e nunca dele se desliga. Então cada parte de um todo é apenas um subconjunto menor. O comportamento do sistema maior depende das interações internas de suas partes e, também, das interações com o que está fora. No mecanismo dialético antes descrito, existem retro-alimentações e efeitos sobrepostos, que, matematicamente, incluem termos com quadrados, cubos e outras potências, além de termos produto de várias ordens, desconfigurando a noção de soma vetorial da geometria euclideana e da física newtoniana. A isto eu chamo um "reducionismo não linear". Em que isto muda a dialética?
O que se pode perceber é que, se bem que, elementarmente, toda ocorrência advenha de uma oposição (tese-antítese) que consiste na flutuação da densidade do campo cósmico, criando um local concentrado e um rarefeito (o que se dá, por exemplo, com o movimento, pois sair de um lugar para outro é deixar uma ausência na saída e criar uma presença na chegada), no caso de conglomerados de partículas, a não linearidade descrita, faz com que a ocorrência não seja necessariamente descrita como uma oposição mas como uma "variação", que pode ter nuances de diferença. Isto é o que eu considero um tipo de "dialética não dicotômica", similar à "lógica difusa, ou à lógica policotômica". E, mesmo, pode-se conceber esta variação de uma forma multidimensional, e não apenas ao longo de um eixo de opostos. Por exemplo, em política, as posições não se distribuem apenas ao longo do eixo esquerda-direita, mas também em direções perpendiculares a essa, como cima-baixo e frente-atrás (a serem devidamente interpretadas). Então existe um verdadeiro "cubo" de possibilidades. A evolução dos eventos se dará, pois, pela interação entre essas possibilidades, que conduzirá a uma nova "síntese", que poderá, inclusive, envolver não apenas dois fatos iniciais, mas vários, que provocarão resultados de uma forma não vetorial (linear ou soma), mas envolvendo os termos potência e produtos de potências já mencionados. Isto é o que eu chamo de "dialética não linear", que, no meu entendimento, é a forma com que a natureza funciona e, por extensão toda a realidade, mesmo a psíquica, social, política, cultural, econômica ou qualquer que seja, pois, pelo "reducionismo não linear", tudo se reduz à natureza. Só fica de fora a realidade sobrenatural, por não existir.
As explicações teleológicas para os fenômenos da natureza têm origem mitológica. Uma vez que temos inteligência, agimos proativamente, pois nossa mente concebe hipotéticas situações futuras, o que permite que planejemos nossas ações para a obtenção do cenário futuro concebido. Não é o que ocorre com os seres vivos meramente reativos e nem com os seres inanimados. Tal comportamento é decorrente da complexidade do cérebro humano (e alguns outros), bem como de todo o organismo a que pertence. Assim, por analogia, o homem primitivo considerava que toda ocorrência se dava com um propósito e, portanto, teria sido planejada por algum ser inteligente misterioso, que ele concebia análogo a um homem, só que invisível e todo-poderoso, isto é, Deus. Então, numa evolução contínua, tal concepção do modo como opera a natureza, inclusive, passou a ser aceita até por considerável porção da comunidade científica. Somente o advento da teoria da evolução e da mecânica quântica sepultaram de vez qualquer consideração teleológica nas explicações científicas dos fenômenos naturais. Mesmo a evolução, nos primórdios do lamarckismo, admitia que a finalidade dirigia o sentido da evolução. A aceitação da seleção natural como o mecanismo evolutivo, associado às mutações fortuitas, mostrou que a natureza não trabalha visando fim nenhum. O vulgo, contudo, ainda está preso a este tipo de concepção, cuja derrubada é feita em paralelo à perda da noção da existência de Deus. A mecânica quântica, ao derrubar tanto a causalidade quanto o determinismo, pôs a pá de cal sobre o teleologismo, com a concepção probabilística da relação entre o antecedente e o consequente.
Nas ciências humanas, como a sociologia, a economia, a política, a história, a coisa não é tão simples, pois ações são planejadas e executadas pelo homem com objetivos. Todavia, estudos de comportamentos de massas, mostram padrões mais próximos das ciências naturais do que se poderia supor. Tais estudos são aplicados, inclusive, em mercadologia e publicidade.
Finalmente comentar sobre a terminologia "Energicismo" para substituir o "Materialismo". Para mim, ainda não fica bem. Prefiro o termo "Fisicalismo". "Naturalismo" também poderia ser, mas já é um termo associado a outro conceito.
O que se pretende considerar é que o mundo, fundamentalmente, é inteiramente natural, não existindo nenhum tipo de realidade sobrenatural, como espíritos, almas, anjos, gênios, demônios ou deuses. Nem tampouco algum "mundo das idéias" platônico, ou o conceito hinduista de "Maya". Mas o mundo natural não é constituído apenas de matéria, daí a improcedência do termo "Materialismo".
Mas também não é constituído de "Energia". Energia não é uma entidade substancial de que algo seja feito. Energia é uma propriedade de sistemas físicos, como também massa, carga elétrica, spin (momento angular), momento linear, helicidade, e, macroscopicamente falando, volume, densidade, temperatura etc. A essas propriedades são atribuídas grandezas mensuráveis, geralmente com o mesmo nome da propriedade.
Mas nada é feito de energia. Algo "possui", ou não, energia.
Substancialmente o universo é composto de três tipos de entidades: matéria, radiação e campos. Além do espaço-tempo. Fundamentalmente a matéria e a radiação são conglomerados de quantizações de dois tipos de campos, o fermiônico e o bosônico, respectivamente, de modo que tudo se reduz a "campo", que, por sua vez, não é feito de coisa alguma. Ele é a coisa de tudo é feito, qualquer que seja a interpretação da estrutura do conteúdo do Universo, inclusive nas teorias de supercordas, branas e na Teoria "M".
Assim, considero mais apropriado se usar o termo "fisicalismo" para se referir a esta concepção da realidade que exclui tudo que não seja natural.
Certamente que existem realidades de outras categorias, como a das idéias, dos valores, das normas. Mas são abstrações sem conteúdo substancial, isto é, só existem se houver mentes que as concebam.
O que se pode perceber é que, se bem que, elementarmente, toda ocorrência advenha de uma oposição (tese-antítese) que consiste na flutuação da densidade do campo cósmico, criando um local concentrado e um rarefeito (o que se dá, por exemplo, com o movimento, pois sair de um lugar para outro é deixar uma ausência na saída e criar uma presença na chegada), no caso de conglomerados de partículas, a não linearidade descrita, faz com que a ocorrência não seja necessariamente descrita como uma oposição mas como uma "variação", que pode ter nuances de diferença. Isto é o que eu considero um tipo de "dialética não dicotômica", similar à "lógica difusa, ou à lógica policotômica". E, mesmo, pode-se conceber esta variação de uma forma multidimensional, e não apenas ao longo de um eixo de opostos. Por exemplo, em política, as posições não se distribuem apenas ao longo do eixo esquerda-direita, mas também em direções perpendiculares a essa, como cima-baixo e frente-atrás (a serem devidamente interpretadas). Então existe um verdadeiro "cubo" de possibilidades. A evolução dos eventos se dará, pois, pela interação entre essas possibilidades, que conduzirá a uma nova "síntese", que poderá, inclusive, envolver não apenas dois fatos iniciais, mas vários, que provocarão resultados de uma forma não vetorial (linear ou soma), mas envolvendo os termos potência e produtos de potências já mencionados. Isto é o que eu chamo de "dialética não linear", que, no meu entendimento, é a forma com que a natureza funciona e, por extensão toda a realidade, mesmo a psíquica, social, política, cultural, econômica ou qualquer que seja, pois, pelo "reducionismo não linear", tudo se reduz à natureza. Só fica de fora a realidade sobrenatural, por não existir.
As explicações teleológicas para os fenômenos da natureza têm origem mitológica. Uma vez que temos inteligência, agimos proativamente, pois nossa mente concebe hipotéticas situações futuras, o que permite que planejemos nossas ações para a obtenção do cenário futuro concebido. Não é o que ocorre com os seres vivos meramente reativos e nem com os seres inanimados. Tal comportamento é decorrente da complexidade do cérebro humano (e alguns outros), bem como de todo o organismo a que pertence. Assim, por analogia, o homem primitivo considerava que toda ocorrência se dava com um propósito e, portanto, teria sido planejada por algum ser inteligente misterioso, que ele concebia análogo a um homem, só que invisível e todo-poderoso, isto é, Deus. Então, numa evolução contínua, tal concepção do modo como opera a natureza, inclusive, passou a ser aceita até por considerável porção da comunidade científica. Somente o advento da teoria da evolução e da mecânica quântica sepultaram de vez qualquer consideração teleológica nas explicações científicas dos fenômenos naturais. Mesmo a evolução, nos primórdios do lamarckismo, admitia que a finalidade dirigia o sentido da evolução. A aceitação da seleção natural como o mecanismo evolutivo, associado às mutações fortuitas, mostrou que a natureza não trabalha visando fim nenhum. O vulgo, contudo, ainda está preso a este tipo de concepção, cuja derrubada é feita em paralelo à perda da noção da existência de Deus. A mecânica quântica, ao derrubar tanto a causalidade quanto o determinismo, pôs a pá de cal sobre o teleologismo, com a concepção probabilística da relação entre o antecedente e o consequente.
Nas ciências humanas, como a sociologia, a economia, a política, a história, a coisa não é tão simples, pois ações são planejadas e executadas pelo homem com objetivos. Todavia, estudos de comportamentos de massas, mostram padrões mais próximos das ciências naturais do que se poderia supor. Tais estudos são aplicados, inclusive, em mercadologia e publicidade.
Finalmente comentar sobre a terminologia "Energicismo" para substituir o "Materialismo". Para mim, ainda não fica bem. Prefiro o termo "Fisicalismo". "Naturalismo" também poderia ser, mas já é um termo associado a outro conceito.
O que se pretende considerar é que o mundo, fundamentalmente, é inteiramente natural, não existindo nenhum tipo de realidade sobrenatural, como espíritos, almas, anjos, gênios, demônios ou deuses. Nem tampouco algum "mundo das idéias" platônico, ou o conceito hinduista de "Maya". Mas o mundo natural não é constituído apenas de matéria, daí a improcedência do termo "Materialismo".
Mas também não é constituído de "Energia". Energia não é uma entidade substancial de que algo seja feito. Energia é uma propriedade de sistemas físicos, como também massa, carga elétrica, spin (momento angular), momento linear, helicidade, e, macroscopicamente falando, volume, densidade, temperatura etc. A essas propriedades são atribuídas grandezas mensuráveis, geralmente com o mesmo nome da propriedade.
Mas nada é feito de energia. Algo "possui", ou não, energia.
Substancialmente o universo é composto de três tipos de entidades: matéria, radiação e campos. Além do espaço-tempo. Fundamentalmente a matéria e a radiação são conglomerados de quantizações de dois tipos de campos, o fermiônico e o bosônico, respectivamente, de modo que tudo se reduz a "campo", que, por sua vez, não é feito de coisa alguma. Ele é a coisa de tudo é feito, qualquer que seja a interpretação da estrutura do conteúdo do Universo, inclusive nas teorias de supercordas, branas e na Teoria "M".
Assim, considero mais apropriado se usar o termo "fisicalismo" para se referir a esta concepção da realidade que exclui tudo que não seja natural.
Certamente que existem realidades de outras categorias, como a das idéias, dos valores, das normas. Mas são abstrações sem conteúdo substancial, isto é, só existem se houver mentes que as concebam.
domingo, 2 de agosto de 2009
Trovas despretenciosas
Filosofar bem nos faz,
para a vida conduzir.
Pois o que mais nos apraz
e’ pensar pra bem agir.
Há de ajudar a nação
Um pouco de educação.
Mas acho que a mocidade
só pensa em banalidade.
Houve mais mimo que amor.
Mas inda resta esperança.
Só não me façam favor
de espalhar a malqueirança.
Onde a mente incerta jaz
faz-se caos e escuridão,
mas de tudo é capaz,
quem pensar com retidão.
Quem pensar com retidão
vai decerto concluir
que não há explicação
para todo esse existir.
Para todo esse existir
tem que haver explicação?
Pensando bem sem mentir
não vejo porque razão.
Não vejo porque razão
devo crer sem refletir.
Buscar a comprovação
de tudo é preciso ir.
De tudo é preciso ir
munido do ceticismo,
pois tudo o que se ouvir
duvidar é o catecismo.
Duvidar é o catecismo
sem nenhum preciosismo
de quem busca com ardor
a verdade e o seu valor.
A verdade e o seu valor
são a luz da caminhada.
Sobre tudo há que por
sem ficar envergonhada.
Sem ficar envergonhada
a pessoa educada
brada em alto e bom som
a glória disso que é bom.
A glória disso que é bom
é a fronte altaneira
da pessoa sobranceira
cuja bondade é o tom.
Cair em erro, um tropeço,
ocorre com que descuida
em contar desde o começo
sete sílabas miúdas.
Sete sílabas miúdas
compõe uma redondilha
e a trova, não tão graúda,
leva quatro na presilha.
Leva quatro na presilha:
não confundir com quadrilha.
Pois trova da que é boa
não mais que elas ecoa.
Não mais que elas ecoa
em rima intercalada.
Quem sabe na alternada,
ou parelhada que é boa.
Este café perfumoso,
de paladar amargoso,
me deixa todo saudoso,
do meu avô tão bondoso.
Se faço filosofia
e tudo que mais valia,
meu pelo todo arrepia
de tanto pensar todo dia.
A todos que aqui poetam,
deixo o abraço sincero.
Mas não digo o que esperam,
só falo daquilo que quero.
Buscar a felicidade,
quero eu e quer você.
Mas prá falar a verdade,
é preciso merecer.
Esta turma trovadora
É gente fina bastante.
Mesmo sem ser doutora,
Traz alegria constante.
Domingo que é bom domingo,
tem macarrão e cachimbo.
Galinha e batata frita,
não falta à mesa bendita.
Mas o meu povo sofrido,
quer libertar da prisão.
Prá não viver oprimido,
só vendo televisão.
A cachacinha fagueira,
desce a goela maneira,
deixando um pingo pro santo,
queimando o peito: um espanto!
Sete sílabas no verso,
quatro versos, faça prova,
é na rima que converso,
escandindo a minha trova.
É bom pensar sem demora,
em quem votar lá na hora,
pois se a gente der bobeira,
tem que agüentar a besteira.
O pessoal boa gente,
tem que dizer o que sente,
pois, se quem cala consente,
quem fala, dorme contente.
Não se sujar na política,
quer todo homem decente.
E de uma forma analítica,
escolhe seu presidente.
Prá fazer trovas corretas
há que escandir cada verso.
E não deixar incompletas
as rimas deste universo.
Só rimava uma vez
o poeta português.
Para ficar bom freguês
ou de preguiça, talvez.
Ou de preguiça, talvez,
ficamos a matutar.
Custando prá arranjar,
uma rima pro freguês.
Uma rima pro freguês,
quer fazer de uma só vez.
Sem parar para pensar,
o que dizer com vagar.
O que dizer com vagar,
é preciso com cuidado.
Sem ficar entabalhado,
com palavras sem lugar.
Com palavras sem lugar
fica o poeta a bolir.
Jogando sem acertar,
esquecendo de escandir.
Esquecendo de escandir,
nada de bom vai sair.
A trova tem sua métrica
senão ela fica tétrica.
Com curva e reta de lado,
faço um poema arretado,
que pode ser bem bolado,
sem nunca ficar quadrado.
Sem nunca ficar quadrado,
pensando vou pela vida.
Pois não acho adequado,
a prosa ser só comprida.
Distribui paz e amor
quem trova com coração
e ainda faz o favor
de espalhar muita emoção.
Aberto como o de poucos,
coração de trovador,
não se faz de ouvidos moucos,
e cuida de toda dor.
Amar, brilhar, aprender,
há que a gente encarecer.
para não se arrepender
e a vida fenecer.
Nasce, brilha e decai:
tudo na vida se esvai.
Só ficam para lembrança,
os feitos de bemqueirança.
Os feitos da bemqueirança
muito se deve louvar
e deles aproveitar,
resgatando a esperança.
Resgatando a esperança
no porvir da humanidade,
sem deixar para lembrança
agir com seriedade.
Bem trágica, meu rapaz
é a vida todo dia.
Para poder ser capaz
de não deixá-la vazia.
Prá não deixá-la vazia,
mister se faz trabalhar.
fazendo com alegria,
nosso povo prosperar.
para a vida conduzir.
Pois o que mais nos apraz
e’ pensar pra bem agir.
Há de ajudar a nação
Um pouco de educação.
Mas acho que a mocidade
só pensa em banalidade.
Houve mais mimo que amor.
Mas inda resta esperança.
Só não me façam favor
de espalhar a malqueirança.
Onde a mente incerta jaz
faz-se caos e escuridão,
mas de tudo é capaz,
quem pensar com retidão.
Quem pensar com retidão
vai decerto concluir
que não há explicação
para todo esse existir.
Para todo esse existir
tem que haver explicação?
Pensando bem sem mentir
não vejo porque razão.
Não vejo porque razão
devo crer sem refletir.
Buscar a comprovação
de tudo é preciso ir.
De tudo é preciso ir
munido do ceticismo,
pois tudo o que se ouvir
duvidar é o catecismo.
Duvidar é o catecismo
sem nenhum preciosismo
de quem busca com ardor
a verdade e o seu valor.
A verdade e o seu valor
são a luz da caminhada.
Sobre tudo há que por
sem ficar envergonhada.
Sem ficar envergonhada
a pessoa educada
brada em alto e bom som
a glória disso que é bom.
A glória disso que é bom
é a fronte altaneira
da pessoa sobranceira
cuja bondade é o tom.
Cair em erro, um tropeço,
ocorre com que descuida
em contar desde o começo
sete sílabas miúdas.
Sete sílabas miúdas
compõe uma redondilha
e a trova, não tão graúda,
leva quatro na presilha.
Leva quatro na presilha:
não confundir com quadrilha.
Pois trova da que é boa
não mais que elas ecoa.
Não mais que elas ecoa
em rima intercalada.
Quem sabe na alternada,
ou parelhada que é boa.
Este café perfumoso,
de paladar amargoso,
me deixa todo saudoso,
do meu avô tão bondoso.
Se faço filosofia
e tudo que mais valia,
meu pelo todo arrepia
de tanto pensar todo dia.
A todos que aqui poetam,
deixo o abraço sincero.
Mas não digo o que esperam,
só falo daquilo que quero.
Buscar a felicidade,
quero eu e quer você.
Mas prá falar a verdade,
é preciso merecer.
Esta turma trovadora
É gente fina bastante.
Mesmo sem ser doutora,
Traz alegria constante.
Domingo que é bom domingo,
tem macarrão e cachimbo.
Galinha e batata frita,
não falta à mesa bendita.
Mas o meu povo sofrido,
quer libertar da prisão.
Prá não viver oprimido,
só vendo televisão.
A cachacinha fagueira,
desce a goela maneira,
deixando um pingo pro santo,
queimando o peito: um espanto!
Sete sílabas no verso,
quatro versos, faça prova,
é na rima que converso,
escandindo a minha trova.
É bom pensar sem demora,
em quem votar lá na hora,
pois se a gente der bobeira,
tem que agüentar a besteira.
O pessoal boa gente,
tem que dizer o que sente,
pois, se quem cala consente,
quem fala, dorme contente.
Não se sujar na política,
quer todo homem decente.
E de uma forma analítica,
escolhe seu presidente.
Prá fazer trovas corretas
há que escandir cada verso.
E não deixar incompletas
as rimas deste universo.
Só rimava uma vez
o poeta português.
Para ficar bom freguês
ou de preguiça, talvez.
Ou de preguiça, talvez,
ficamos a matutar.
Custando prá arranjar,
uma rima pro freguês.
Uma rima pro freguês,
quer fazer de uma só vez.
Sem parar para pensar,
o que dizer com vagar.
O que dizer com vagar,
é preciso com cuidado.
Sem ficar entabalhado,
com palavras sem lugar.
Com palavras sem lugar
fica o poeta a bolir.
Jogando sem acertar,
esquecendo de escandir.
Esquecendo de escandir,
nada de bom vai sair.
A trova tem sua métrica
senão ela fica tétrica.
Com curva e reta de lado,
faço um poema arretado,
que pode ser bem bolado,
sem nunca ficar quadrado.
Sem nunca ficar quadrado,
pensando vou pela vida.
Pois não acho adequado,
a prosa ser só comprida.
Distribui paz e amor
quem trova com coração
e ainda faz o favor
de espalhar muita emoção.
Aberto como o de poucos,
coração de trovador,
não se faz de ouvidos moucos,
e cuida de toda dor.
Amar, brilhar, aprender,
há que a gente encarecer.
para não se arrepender
e a vida fenecer.
Nasce, brilha e decai:
tudo na vida se esvai.
Só ficam para lembrança,
os feitos de bemqueirança.
Os feitos da bemqueirança
muito se deve louvar
e deles aproveitar,
resgatando a esperança.
Resgatando a esperança
no porvir da humanidade,
sem deixar para lembrança
agir com seriedade.
Bem trágica, meu rapaz
é a vida todo dia.
Para poder ser capaz
de não deixá-la vazia.
Prá não deixá-la vazia,
mister se faz trabalhar.
fazendo com alegria,
nosso povo prosperar.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
MEU CREDO
Creio na realidade do mundo exterior, independente de uma mente perceptiva.
Creio na natureza física da realidade objetiva, isto é, na inexistência de espíritos e deuses.
Creio no caráter puramente físico-biológico da mente e da consciência, que não sobrevivem à morte do organismo.
Creio no surgimento expontâneo do mundo e da vida.
Creio na evolução natural das espécies vivas.
Creio no indeterminismo e na incausalidade como possibilidades no encadeamento de eventos.
Creio no acaso e em nenhuma predeterminação como o fator condicionante do rumo da evolução.
Creio na impessoalidade do bem e do mal e na superioridade do primeiro.
Creio que a felicidade é o supremo bem, mas que ela não é gozo desenfreado de prazeres, mas sim a satisfação interior de se fazer o bem.
Creio que a verdade seja o maior valor a ser perseguido.
Creio no ceticismo metodológico como a melhor ferramenta para a busca da verdade.
Creio que a conduta humana pode ser balisada por principios éticos decorrentes de concepções puramente naturalistas.
Creio na capacidade humana de disseminar o bem e erradicar o mal.
Creio na capacidade humana de atingir a verdade por seus próprios recursos intelectuais.
Creio na ciência como o único caminho para se atingir a verdade.
Creio que o amor incondicional, ilimitado e irrestrito seja a atitude a ser tomada e o conselheiro a ser ouvido em tudo o que se faça.
Creio na possibilidade de se construir uma sociedade justa, fraterna, pacífica, harmoniosa e feliz.
Creio na tolerância, na solidariedade, na operosidade e na honestidade como condutas exemplares para a construção dessa sociedade.
Creio na virtude e não na vantagem, como a regra exemplar de vida a ser perseguida por toda pessoa.
Creio na bondade como a maior de todas as virtudes.
Creio na educação e na cultura artística, científica e filosófica e não na religião ou na violência, como meios para se atingir essas condições.
Creio no sonho de se realizar tudo isto como a grande motivação para se viver.
Creio na luta pela concretização desse sonho como o maior significado que se possa dar à vida.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Livre Pensador
Perante a realidade, tanto natural quanto social, cultural e individual, cada um assume uma visão pessoal de como, porque e para que ela é como é. Trata-se de sua "cosmovisão". Uma atitude, contudo, é essencial para que a pessoa possa assimilar o mundo da forma mais próxima possível de sua verdadeira essência. Trata-se do "Livre-pensamento". Isto consiste em deixar a mente aberta a qualquer possibilidade, considerando tudo como merecedor de ser examinado sem nenhuma préconcepção, para ser aceito, rejeitado ou deixado em suspenso em razão de sua maior plausibilidade e dos indícios de veracidade, justeza e adequação com o conjunto de tudo o que a pessoa já assentou como sua visão do mundo. É preciso também, para o livre-pensador, estar disposto a rever suas concepções e cosmovisão sempre que novas evidências mostrarem maior veracidade e justeza. Isto é mais importante que a filiação a um credo religioso ou à rejeição a todos eles, a uma escola filosófica, a uma ideologia política ou econômica, a alguma concepção moral ou o que quer que seja. Não se deve dizer que se é cristão, judeu, espírita, islamita, budista, hinduísta, ateu, agnóstico, comunista, capitalista, idealista, realista, fisicalista, espiritualista, racionalista, empirista, holista, reducionista, cético, estóico, epicurista, democrata, totalitário, liberal, conservador ou o que quer que seja. Pode-se sim, dizer que se "está" (mas não que se "é") propenso a adotar tal ou qual concepção, até que seja convencido do contrário, mas que sempre se está aberto a considerar novas possibilidades. Por isso, ser "livre-pensador" é a condição básica para ser filósofo (e todos têm que ser filósofos - na verdade não há como se escapar de o ser). O aferroamento a qualquer concepção rígida é um atestado de verdadeira ignorância, e, por que não dizer, estultícia mesmo. Somente o livre-pensador é uma pessoa liberta, inteligente e esclarecida, mesmo que ainda seja um ignorante em muitos assuntos. Mas não só está aberto a tudo como também é sôfrego por se inteirar de todas as possibilidades para, sobre elas, ponderar e escolher. É missão fundamental da escola desenvolver na juventude este espírito de livre-pensamento e de análise crítica de todo conhecimento. Tal treinamento tem que ser o prato do dia de todas as matérias escolares e os professores têm que ser preparados para incutir isto na juventude.
terça-feira, 7 de julho de 2009
Dona Lygia, minha mãe
Na juventude minha mãe havia entrado para um convento para poder fazer mais caridade, mas saiu porque viu que as freiras não queriam saber nada de pegar no batente e só se ocupavam com frivolidades, além de darem uma importância enorme para detalhes idiotas, como não poder tomar banho nua. Imiscuir-se no meio do povo e viver suas agruras para ajudar de verdade, inclusive dando bronca, mas compartilhando seu dia a dia e fazendo o seu trabalho, sem ficar chocada com a realidade crua das favelas, isto elas não queiram saber, só sabiam rezar. Minha mãe não aguentou e saiu fora. Minha mãe parecia uma Madre Teresa de Calcutá. Magérrima, sempre de saia na canela, sapato sem salto, meias soquete, paletó de lã, cabelos grisalhos e nenhuma maquiagem. Mas um dínamo de pessoa, de uma bondade e de uma honestidade e justiça sem a mínima jaça. Mas era brava, principalmente com os aproveitadores, tanto os pobres quanto os ricos. Não queria saber de política imiscuindo em seu trabalho de caridade e nem de padres e freiras que sempre queriam fruir os méritos do trabalho dela. Ela não queria reconhecimento nenhum, nem publicidade. Só se comovia com a gratidão das pessoas humildes que ajudava. Nossa casa parecia uma creche e eu já dormí com meninos pobres doentes na minha cama, para cuidar deles. Minha mãe cuidava do “Clube dos Engraxates” que lhe dava um trabalhão para disciplinar dezenas de garotos de favela para trabalhar com suas caixas de engraxar (no tempo em que não se usava tênis) nas praças da cidade de Barbacena. Eles ficavam dos onze anos até entrar para o serviço militar e depois minha mãe arranjava emprego para eles. Todos tinham que levar dinheiro para as mães (sim, mães, pois os pais gastavam com cachaça e as mães com o leite dos irmãozinhos, um de cada pai diferente, que geralmente, as abandonavam para se virar sozinhas no cuidado das crianças - porque mãe vira prostituta, mas não abandona os filhos - para mim são heroínas e os pais folgados os verdadeiros vermes). Hoje, na praça principal de Barbacena tem uma placa de bronze em homenagem à minha mãe. Meu pai, eu e minhas irmãs também metiamos a mão na massa para participar. Eu levava minha mãe no nosso antigo Renault Dauphine pelas ruas da periferia e carregava gente doente para hospitais e coisas assim. Sem alarde, sem divulgação, sem pretender dividendos políticos ou de qualquer espécie. Este foi um dos pontos que me fizeram filosofar sobre a perversidade do capitalismo e a lorota da providência divina e que me levaram a amadurecer, desde cedo, minhas convicções ateistas e anarquistas. Além, é claro, de meus estudos de Física, Cosmologia, Religião e Filosofia. Mas eu sempre tive um certo pé atrás com os esquerdistas de botequim que falam bonito mas vivem no bem bom. E, é claro, que devoto um desdém incomensurável pelos mauricinhos, patricinhas e socialites em geral. Mesmo que admire e até tenha um estilo aristocrático de ser, mas naquele espírito do cavaleiro medieval, como se fosse um Arthur de Camelot. Na verdade eu sou uma síntese dialética da nobreza com a burguesia e o proletariado, se é que isto possa existir, ou seja, um ateu com vocação para a santidade e um anarquista aristocrático.
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