A doutrina de Boff é a "Teologia da Libertação" que, em resumo, considera Jesus Cristo (e, em decorrência, sua Igreja) como agente libertador da opressão dos pobres pelos ricos. Que os pobres sejam oprimidos pelos ricos e precisem ser libertados (tornando-se ricos), não resta dúvida. Que isto tenha sido o projeto de Jesus Cristo é que não confere, pois sua pregação foi no plano espiritual. Pretender associar o cristianismo ao marxismo é um equívoco, pois o marxismo, dentre outras propostas, pretende exatamente libertar o homem do jugo das religiões, consideradas "o ópio do povo". Sou um ateu anarco-comunista, mas não um marxista, pois repudio a luta de classes e a ditadura do proletariado. Minha linha se aproxima mais de Bakunin, Kropotkin e Malatesta, mas sou pacifista. Considero que o anarquismo é um caminho natural da humanidade, fatalmente a ser atingido, cujo alcance, contudo, pode ser abreviado por um processo educativo e por medidas políticas democráticas. Mas é um longo processo, da ordem de séculos.
Postagens do pensamento, textos, poemas, fotos, musicas, atividades, comentarios e o que mais for de interesse filosófico, científico, cultural, artístico ou pessoal de Ernesto von Rückert.
terça-feira, 11 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
"Nada não é coisa alguma e não pode gerar nada." O nada-jocaxiano não é considerado por você?
O nada jocaxiano é simplesmente o nada, isto é, a ausência de tudo, inclusive de regras. Logo não é capaz de gerar coisa alguma. Mas as coisas podem surgir sem ter sido geradas. Quando se diz "surgir do nada", quer se dizer que surge sem ter do que provir.
vc considera a posição agnóstica viavel ou é apenas um engano na compreensão do significado desta palavra quando algumas pessoas se classificam unicamente como agnósticas?
Não aceito o agnosticismo porque considero que a existência ou não de Deus é algo passível de verificação, mesmo que ainda não se tenha uma resposta definitiva. Posiciono-me pelo ateísmo cético (não dogmático) pois vejo que os maiores indícios são no sentido de sua não existência.
Em que você baseia sua moral? e pq?
Acho que a moral tem que seguir três princípios éticos: que toda ação promova a maximização da felicidade para o maior número de seres, que possa ser erigida como norma universal e que seja tal que a desejemos para nós mesmos. Atendendo a tais critérios as ações serão sempre benéficas à coletividade e à própria pessoa, no cômputo final. O bem e o mal são noções válidas por si mesmas, sem necessidade de referências extrínsecas à ética, como uma possível vontade divina.
e como você se porta em relação ao vegetarianismo?
Não sou vegetariano mas considero salutar o consumo moderado de carne, preferivelmente branca. O que observo é que, na natureza, animais comem outros animais e o ser humano é capaz de digerir carne, portanto não é herbívoro. Acho, contudo, que o abate de animais deve ser feito do modo mais indolor possível.
domingo, 9 de maio de 2010
Religião e crença
Pode-se possuir crenças religiosas sem se ser filiado a religião alguma, da mesma forma que pode-se ser filiado a uma religião, por conveniências sociais, sem se possuir a crença correspondente.
Minha percepção é de que, antropologicamente, as crenças surgiram num estágio bem anterior que as religiões. Sua origem se prende à busca de explicações para as ocorrências inexplicáveis a uma primeira abordagem. Como, normalmente, toda ocorrência podia ser imputada à ação de um sujeito (humano ou animal, em geral) considerou-se que as que não possuíam um sujeito identificável seriam devida a sujeitos ocultos, invisíveis, porém capazes de produzir ações sobre a natureza. Tais sujeitos seriam os espíritos. No caso de serem detentores de poderes especiais, seriam deuses. Em todas as culturas, de modo independente, tais noções foram concebidas. Com o passar do tempo elas vieram a ser corporificadas em uma narrativa consistente, inventadas por anônimos e passada de geração a geração, com acréscimos e variações, consistindo nos "mitos", dos quais surgiram as primeiras religiões.
As religiões, contudo, não são um produto espontâneo do povo, mas uma apropriação dessas noções por um grupo especial dos "feiticeiros", "xamãs" ou outro nome que lhes seja dado, que, certamente diferenciado por sua maior inteligência e poder de manipulação das pessoas, passaram a gerir tais conhecimentos, não só em benefício do povo, mas, especialmente, do próprio grupo, que, nesta circunstância, passou a gozar de vários privilégios, vindo a se tornar os "sacerdotes". Um fator, contudo, foi determinante no estabelecimento das religiões como força coerciva e controladora do comportamento social. Trata-se da associação dos sacerdotes com os detentores do poder político, em geral derivado da força militar. Como a manutenção da submissão do povo à vontade do potentado pela coação pela força é algo por demais custoso, pelo menos nos períodos de paz, e não se pode viver permanentemente em estado de guerra, a submissão pelo convencimento religioso, que se dá em função do medo de castigos sobrenaturais ou da danação na vida eterna, é sumamente conveniente e isto foi logo percebido pelos chefes das nações que se auto-proclamaram sumo-sacerdotes e descendentes diretos dos deuses. Por um sistema de troca de favores e coação física os sacerdotes foram cooptados pelos mandatários e os dois grupos dominaram e ainda dominam as massas populares. Alguns podem até estarem convencidos genuinamente da origem divina de seu poder, mas, certamente, a maioria sabia que isto era uma invenção para dominar o povo.
As complexas religiões hinduísta, judaica, zoroastrista, budista, taoísta, o paganismo greco-romano, a cristã e a islâmica foram uma evolução desses mecanismos sociais, em alguns casos, umas surgindo das outras, como o budismo do hinduísmo e o cristianismo e o islamismo do judaísmo. O espiritismo provém de uma racionalização do hinduísmo com o cristianismo.
Na atualidade, o crescimento do conhecimento científico em todas as áreas mostra que sempre é possível achar-se explicações naturais para tudo, minando as bases das crenças religiosas, pois a hipótese de deus e de espiritos não precisa ser invocada para coisa alguma. Mesmo assim, a rejeição de crenças religiosas e a adoção do ateísmo, ou, pelo menos, do agnosticismo, ainda não é tão disseminada. Em parte porque o analfabetismo científico ainda impera para as massas populares. Mas, mesmo entre a camada culta da sociedade, o ateísmo ainda não é a regra. Isto se dá, no meu entendimento, primeiro porque a cultura humanística ainda prepondera sobre os conhecimentos das ciências naturais, segundo porque assumir-se ateu ainda é, de certa forma, uma atitude anti-social em muitos meios, em alguns casos, como nos estados teocráticos muçulmanos, podendo levar, inclusive, à pena de morte.
No entanto, a tendência é no sentido de se ter uma rejeição cada vez maior das religiões. Isto é bom ou ruim? Há um lado ruim, uma vez que a perda das referências éticas da religião leva a um comportamento desprovido de balizamento moral que propicia o aumento da licenciosidade e da criminalidade. Ética, contudo, não tem nada a ver com religião. As religiões é que se apropriaram dela como parte de seu corpo doutrinário. Pode-se, com toda a certeza, desenvolver-se um comportamento ético na sociedade sem apelo nenhum para prêmios e castigos na vida eterna. O lado bom é, justamente, o afastamento de ilusões, que, mesmo caras a quem as adota, são enganosas. É preferível encarar-se a realidade da inexistência de deus e de seu socorro nas aflições, uma vez que orações são inteiramente inócuas. Há que se confiar na própria sociedade e nos outros para o socorro de cada um e para a disseminação do bem e erradicação do mal.
