quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O 'nada' não seria apenas um conceito mental? Veja minha argumentação: http://noticiasdobill.blogspot.com/2010/12/contra-o-nada.html



De fato, "nada" não pertence à categoria ontológica dos seres (entes reais), nem das entidades (seres hipotéticos), mas sim dos conceitos, isto é, abstrações mentais sem existência real fora de alguma mente que as conceba. E como a gramática tem que acompanhar a ontologia, não se pode atribuir artigo ao substantivo "nada". Assim só se pode dizer "surgir de nada" e nunca "surgir do nada". A questão que você propõe é que não pode haver nenhuma situação em que nada exista. Consideremos o conceito de "existir". Ele significa estar presente no mundo. Não existir nada significaria que não haveria coisa alguma no mundo. Mas como o mundo é o conjunto do que existe, nem haveria mundo. Note que mundo é um conceito mais amplo do que Universo, pois este é o conjunto de tudo natural que existe, enquanto mundo inclui também o que não seja natural, como o sobrenatural, caso exista. "Não existir nada" não é a mesma coisa que "existir o nada". Isto não é possível, ontologicamente falando. Mas a primeira hipótese o é. Resta saber se é fenomenologicamente possível. Eu digo que sim, porque não há obrigação nenhuma para que exista algo, ao invés de nada. O fato de haver algo, isto é, de haver mundo, é um capricho desnecessário. É perfeitamente possível se conceber que nada exista. É claro que, assim sendo, não se estaria concebendo isto. Resta saber se, uma vez que existe mundo (estou excluindo o solipsismo), sua existência necessariamente se estende por um tempo infinito, tanto para o passado quanto para o futuro, ou poderia ser limitada em um ou nos dois extremos, isto é, poderia haver um começo ou um fim para o mundo? Primeiro vamos considerar apenas o Universo. De acordo com a mitologia de quase todas as religiões, o Universo começou em um momento, que é o início dos tempos, por um ato voluntário criativo de uma entidade extrínseca a ele, Deus. Em relação ao próprio Universo, antes da criação, não havia nada, nem "o nada". E Deus teria criado tudo sem que tivesse nada do que fosse proveniente, nem de si mesmo, pois Deus não seria uma entidade natural e o Universo é natural. Se não se considerar a existência de Deus, há duas hipóteses. Ou o Universo sempre existiu, mesmo que tenha começado a expandir no Big Bang, mas o conteúdo que começou a expandir já existia desde sempre, ou esse conteúdo surgiu espontaneamente, começando logo a se expandir. Note que, em ambos os casos, o tempo não existia antes do começo da expansão, pois ele é decorrente da mudança no estado do Universo e, se o conteúdo existia, estava imperturbável. O início da expansão foi a primeira mudança e, logo, o zero do tempo. Note que não há proibição ontológica para que o tempo se estenda infinitamente para o passado, como o quer o argumento Kalam. Dizer que houve um início dos tempos é uma conclusão fenomenológica, que não implica em dizer que houve um início do Universo. Mas não proíbe que isto tenha acontecido. Por que se pode admitir que tudo tenha surgido de nada (e não "do nada") naquele instante zero? O que obrigaria haver algo de que o conteúdo proviesse seriam as leis de conservação. Mas as leis físicas não prescrevem o comportamento da natureza, senão que o "descreve". E elas só descrevem o comportamento de algo que exista. Além disto elas se referem a valores de grandezas, que medem atributos do que existe, em momentos diferentes do tempo. Se antes do surgimento do Universo não havia nada, nem tempo, não haviam leis de conservação também. Então não há proibição para o surgimento de tudo sem provir de nada. Além disso não há também necessidade de causa e nem de propósito para esse surgimento, mas isto é questão para outras considerações. Todavia, esta possibilidade não implica em que, realmente, não havia nada antes do Big Bang. Mas é claro que o que não existia era o "antes", ou seja, momentos anteriores àquele. Nem as teorias hoje existentes, nem as observações, permitem concluir se havia ou não havia algo antes do Big Bang. E as considerações filosóficas não obrigam a que houvesse. Minha opinião é a de que não havia nada, já que, para mim, conceber a existência de algo imperturbável é mais estranho. As equações de Einstein para a dinâmica da Geometria não admitem soluções estáticas, mas elas só se aplicam a um conteúdo que existe no tempo. Existir fora do tempo não é impossível, mas é muito mais estranho do que não existir nada.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Professor, não seria errado esse: "Deus seja louvado" nas notas, sendo que nosso Estado é laico??

Claro que sim. Completamente inconstitucional. Já falei sobre isto em outra pergunta aqui.

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Qual é o problema da Aposta de Pascal?

Medrosa, só isto. É para se garantir de não ir para o inferno, se Deus existir. Mas esse Deus, que ao mesmo tempo manda alguém para o inferno e provê a humanidade com bondade, não pode existir, pois é incoerente. Pascal foi um homem inteligente, mas não conseguir se libertar desse medo. Quem consegue sente um alívio imenso e uma paz inigualável. A morte não lhe abala, pois é o fim de tudo. Mas não se pode cair no niilismo. A inexistência de Deus não dispensa a ética, pois não somos indivíduos independentes. Somos uma espécie gregária e o bem maior é o bem de todos e não o de cada um. Daí a fundamentação puramente humana da ética e da virtude.

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O que acha de afirmações como "Os pobres são preguiçosos, eles é que não trabalham. Dependem do bolsa família pra viver.", "Quem trabalha mesmo são os ricos.", "O pobre que quiser ficar rico, fica, mas não querem. Tá muito bom viver a custa do g

Uma idiotice de marca maior. Pobres e ricos os há trabalhadores ou não. Muitos herdeiros dilapidam o patrimônio herdado e acabam na miséria. Muitos pobre se enriquecem, veja o Sílvio Santos e tantos outros. Todavia, as chances de um pobre enriquecer são muito menores do que a de um rico continuar cada vez mais rico. Isto porque o ambiente do pobre tem muito menos oportunidades e ele tem muito menores condições de aproveitar oportunidades do que no caso de um rico. As excessões ocorrem porque nossa vida é muito mais delineada pelo acaso e pelas coincidências do que se pode pensar. Não conheço caso de pobre que não desejaria ficar rico e que não tente, mesmo que seja por meio do crime. É claro que alguns são preguiçosos, mas não acho que a proporção seja maior do que a dos preguiçosos ricos. É que um preguiçoso rico tem como sobreviver à custa da família e um pobre não. O bolsa família é um remédio para não morrer de fome, mas precisava ser mais exigente em termos de reciprocidade e mais bem controlado. Muitos ricos o condenam por despeito, mas se fossem os pobres que o ganham não recusariam.

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Boa noite, Ernesto! Por favor, pode dizer pra gente como chegou à conclusão de que a humanidade terá uma história de dezenas de milhões de anos? Obrigada. (:

Existe um estudo biológico da permanência das espécies na Terra que dá um valor médio de 20 a 30 milhões da anos. Como a espécie humana tem um controle muito maior sobre si mesma, considero que possa ser um caso bem acima da média. Dizer que o homem pode dizimar-se por provocar catástrofes ecológicas ou devido a guerras, mesmo nucleares, não é verdade, pois, em todos os casos, haverá sobreviventes que iniciarão tudo de novo, até inúmeras vezes. Ainda não temos mais de 200 mil anos de existência, logo estamos na primeira infância da existência como espécie.
Veja o livro: Evolution and Ecology: the pace of life, de K.D. Bennett, da Cambridge University Press.

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Professor, o que o sr. acha dos ditos "sons dos planetas" que tem no Youtube? São farsas ou eles existem mesmo? Exemplo: http://www.youtube.com/watch?v=e3fqE01YYWs&feature=player_embedded

É possível que os ventos na atmosfera de Júpiter produzam sons, já que é muito turbulenta (os nossos também soam). Mas a Voyager passou fora da atmosfera e, como o som é uma onda mecânica, não se propaga no vácuo. Logo não há microfone que possa captar algum som de qualquer planeta estando fora de sua atmosfera. O que pode ser é uma captação de ondas de rádio produzidas por oscilações dos campos magnéticos ou por correntes turbulentas de gases ionizados, capazes de irradiar a diferentes frequências, conforme o período das oscilações.

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Você acha que socialismo ou uma variação de socialismo com um incentivo extra seria uma ideia idiota?

Considero que o comunismo e o socialismo têm grandes defeitos que são o planejamento centralizado e o controle estatal da economia. Para mim, que sou anarquista, mas sei que isto é algo a ser atingido num prazo bem longo, o melhor caminho para se conseguir chegar lá é pelo capitalismo pulverizado em que todos sejam capitalistas e ninguém seja empregado. Mas, enquanto não se atinge uma situação de autogestão que prescinda do governo, este precisa atuar como balizador, incentivador e podador de excessos. Atualmente, algo como a social-democracia liberal seria preferível, em termos de benefícios ao povo em geral e crescimento econômico. É preciso entender que economia é a ciência e a arte da produção e da distribuição de bens e não de dinheiro. Dinheiro é só um meio de troca, que, no futuro, poderá ser abolido. Mas isto ainda demora centenas ou milhares de anos. Como antevejo para a humanidade uma sobrevivência de algumas dezenas de milhões de anos, isto é pouco.

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