sexta-feira, 17 de maio de 2013

No embalo da sua resposta anterior, e abordando o assunto da filosofia da mente, você crê e uma mente de natureza natural ? Justifique.

Certamente que sim. A mente é uma ocorrência que se dá a partir do funcionamento do organismo, especialmente do cérebro, de seus anexos, do sistema nervoso, dos órgãos dos sentidos, das glândulas endócrinas e tudo o mais. Mas não é material apenas, como alguns consideram. É física, certamente, mas a realidade física não consiste apenas na matéria. Também inclui os campos, a radiação, as interações, as estruturas, as ocorrências, os fenômenos e suas dinâmicas. Tudo isso é natural e a mente advém disso tudo. Não há nada de sobrenatural ou de alguma pretensa "alma". As funções psíquicas todas, como sensação, percepção, memória, emoção, raciocínio, volição, consciência, auto-consciência e qualquer outra acontecem porque neurônios se comunicam, sinapses são construídas e destruídas. E isso tudo é biologia, é química e á física. Em suma, tudo se reduz, em última análise, à física. Mas esse reducionismo tem que ser entendido de modo não linear. Ou seja, o todo é função das partes, mas não apenas a soma das partes. Há contribuições produto, potências, retro-alimentações e tudo o mais. Nesse contexto, o reducionismo encampa a emergência e o holismo. Esse moo de encarar a mente é sobejamente demonstrado por experimentos e observações neurocientíficas, especialmente nos casos de lesões cerebrais. Em verdade toda a psicologia é um capítulo das neurociências. É uma ciência biológica, ou seja, parte da medicina, como a gastroenterologia, por exemplo. Todo psicólogo teria que ser um médico com pós-graduação em psicologia. Outra evidência do caráter natural da mente é o efeito das drogas psicotrópicas, tanto medicinais quanto as alucinógenas ilegais.

De acordo com o contexto, os reais significados podem sim, sofrer acréscimos ou reduções? Se sim, você acha preocupante, e que tal tema deve ser pautado com relevância?

A questão toda é o que se entende por "real significado". Todo significado representa uma interpretação. E essa interpretação muda em função de mudanças contextuais, bem como de novas informações que se apresentem. Assim o "real significado" não é nada fixo, pelo contrário, muda conforme as circunstâncias. Isso não é preocupante, pelo contrário, seria preocupante se não mudasse. Sempre que se considera o significado que se atribui a algo é preciso que seja dito em que circunstância (época, lugar, estrato social, nível de conhecimento, ideologia e o que mais seja) tal significado tenha sido dado. Por exemplo, qual é o "real significado" da gravidade. À época de Aristóteles era considerado que seria uma propriedade inerente a tudo de tender para o centro do Universo, que seria a Terra. À época de Newton passou a ser considerado o resultado de uma força à distância exercida pelas massas. À época de Einstein passou a ser considerado como uma manifestação inercial em um espaço-tempo com curvatura. Qual desses significados é o "real"? Isso se aplica a qualquer assunto. Outro exemplo: o que é a mente?

Qual é o melhor jeito para segurar um empregado e impedi-lo de trabalhar na concorrência?


1. Pagando-lhe muito bem;
2. Reconhecendo sua importância;
3. Propiciando-lhe um trabalho satisfatório e realizador;
4. Sendo seu amigo de verdade.

A canção "La Ravachole" incita morte à burguesia. Alguns podem chamar de "ação direta"... para o senhor não parece mais como terrorismo? Ação direta só é válida se pacífica?

Claro. Violência deliberadamente provocada não é admissível e é contra qualquer cânone de civilização. O anarquismo não é contra a burguesia, nem contra a aristocracia, nem contra o proletariado. O que ele quer é a igualdade sócio-econômica completa, isto é, que não existam classes. Não quer uma "Ditadura do Proletariado", porque não quer ditadura nenhuma. Não quer que nenhuma classe tenha privilégios. Assim é contra os privilégios da aristocracia e da burguesia ou, até, do proletariado, se houver algum. Mas não é contra as pessoas que fazem, por enquanto, parte dessas classes. Então não há porque matá-las. Quanto a suas riquezas, é preciso que sejam distribuídas sim. Mas dentro de um processo legal e pacífico em que os ricos terão que pagar extremamente mais impostos até que sua riqueza diminua enquanto os pobres vão se enriquecendo (e pagando mais impostos por isso), até se atingir um equilíbrio em que a renda máxima não passe de umas cinco vezes a renda mínima. Tipo: mínima 4 mil reais; máxima 20 mil reais (por mês). Isso por enquanto, até que o dinheiro deixe de existir.

Como poderíamos convencer a igreja católica em voltar a ser a favor do aborto? Acha que ainda poderia ser possível?

A opinião da Igreja Católica, ou de qualquer outra religião, sobre o assunto, bem como sobre qualquer assunto relativo à esfera do comportamento social e pessoal a serem regidos pela legislação civil, é inteiramente dispensada e nem precisa ser levada em consideração. O que se tem que saber é se se pode admitir legalmente o aborto e em que condições o seria. Isso é um problema de saúde pública e de ética, não de religião.

O universo é infinito?

Ao que parece, sim. Os mais recentes dados observacionais sobre a aceleração da expansão e sobre a densidade de massa e energia, tanto da matéria ordinária, quanto da matéria escura e da dita "energia escura", indicam que a expansão é indefinida, não atingindo nenhum ponto de retorno. Nas expressões da Relatividade Geral, ao se calcular o volume total do Universo nessas condições, ele fica infinito. Uma vez infinito, sempre o foi, desde o Big Bang. Isso se refere ao Universo todo e não ao Universo Observável, que é finito e cuja dimensão cresce com o tempo. Essa parte do Universo, no Big Bang, é que ocupava um volume extremamente diminuto (menor do que o de um elétron), com densidade extremamente elevada de energia (já que não havia, ainda, massa, uma vez que não havia matéria, mas só campo).

Mas é isso q me é estranho, no anarquismo parece ver uma natureza boa no ser humano, colocando a culpa da belicosidade na sociedade. Em Dostoievski eu vejo uma visão mais pessimista, um necessidade de suprimir as pulsões, se Deus n existe tudo é permitido.

Discordo de Dostoievski quanto ao niilismo expresso pelo personagem Ivo Karamazov. Não acho que tudo seja permitido e que só a noção de Deus possa reprimir a maldade. A ética é uma noção social, isto é, tem que existir para que a sociedade possa sobreviver ao individualismo e ao egoismo. Isso não tem nada a ver com Deus. O anarquismo não vê no homem nem uma natureza boa nem ruim, mas ambas. A sociedade é que tem que impedir a manifestação do lado mau. Mas não é preciso governo para isso. Basta, primeiro, a própria estrutura social e, segundo, a educação. Sem propriedade e com igualdade e prosperidade geral, a motivação para qualquer crime não existe. Se houver algum, a sociedade pode coibi-lo. O segredo do anarquismo é a educação em alto nível de todas as pessoas, bem como a prosperidade generalizada. Por isso o anarquismo não é um meio para se obter o bem estar social. É o estado que se atinge ao fim do processo de distribuição total das riquezas e de erradicação total da ignorância e da doença. As pulsões para o mal são suprimidas pela falta de razão para exercê-las. Nem crimes passionais haverão, pois o relacionamento amoroso fica livre e aberto, sem exclusividade.

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