segunda-feira, 4 de maio de 2015

Professor, para atingir uma proposta anarquista, devemos abdicar ou expandir o conceito de "família"?

Expandir, certamente. Família é algo muito bom para que a pessoa tenha um apoio na vida. Mas não precisa ser só pai, mãe e filhos. Podem ser mais de um pai e mais de uma mãe e os filhos de todos eles. E pode ser algo dinâmico ao longo do tempo. Podem coabitar um só lar ou mais de um. É bom que a família (digo a nuclear, que trabalha junto para o sustento comum) possa incluir, também, tios e primos, avós e netos. Sem individualismos. Uma coletividade labutando para levar a vida, para fruir o prazer da companhia recíproca, para se apoiarem nas vicissitudes, para se amarem, para fazer sexo uns com os outros (não com as crianças, certamente). Isso não é libertinagem nem prevaricação. É amor sincero, respeitoso, dedicado. Mas não necessariamente exclusivista. Essa família ampliada é muito mais benéfica para a felicidade global do que a família exclusivamente monogâmica que se considera como a única aceitável atualmente.

Mas professor, a psicologia envolve uma complexidade enorme, tal como a medicina. Não acha que seria mais cabível que médicos e psicólogos trabalhassem juntos em sintonia?‎

Psicologia é complexa sim. Mas é uma ciência biológica a respeito do comportamento humano e o ser humano é o seu corpo, do qual a mente faz parte como uma ocorrência do cérebro. Não dá para entender de psicologia sem entender de anatomia e fisiologia do corpo todo, especialmente do sistema nervoso e endócrino. Não existe mente sem corpo. A mente é uma função do corpo, como a digestão e a circulação. Os fenômenos psíquicos são biológicos. Psicólogos têm que ser biocientistas.

Você já foi cristão certo? Até que ponto de sua vida? Já participou de outras religiões?

Fui católico desde que passei a entender do que se tratava, isto é, desde uns cinco anos de idade até que concluí que nenhum fé tem o menor cabimento, o que ocorreu entre meus 19 e 24 anos. Nunca foi adepto de nenhuma outra religião ou crença religiosa. No tempo em que fui católico eu era fiel e piedoso, muito compenetrado em meu empenho em ser santo.

"A natureza pode até ser bela, mas o que ela tem de beleza tem também de crueldade." Concorda?‎

Sim. Há beleza e há feiura, há bondade e há maldade na natureza. Ela, absolutamente, não é perfeita. Todavia somos parte dela e precisamos nos harmonizar com ela para não só sobrevivermos, mas levarmos a vida de modo aprazível. Precisamos conhecê-la cada vez mais para podermos agir sobre ela e evitarmos suas crueldades, bem como fazê-la benigna para nós.

Você também acha um absurdo o preço de faculdade de medicina?Para fazer medicina, ou tem que se matar de estudar ou tem que ser rico? É verdade que vestibular de medicina é muito difícil?

Nas universidades públicas, como são de graça e o ensino é bem melhor, a procura é muito alta, o que exige um alto desempenho nas avaliações de ingresso. Não há como evitar isso. Se quiser entrar, tem que ser bom em conhecimentos mesmo. Geralmente isso se dá com quem, em toda a vida escolar, foi sempre um dos melhores alunos da turma. É possível recuperar no último ano, estudando feito um desgraçado. Mas, nem sempre resolve. A alternativa são as particulares, em que o ingresso é mais fácil e, inclusive, o próprio curso é menos exigente. Mas, em compensação, cobram muito caro. Isso é o resultado da lei da oferta e da procura. Os donos aproveitam a grande demanda para cobrar mais. Para mim o ideal é que todo o sistema educacional fosse governamental. Mas acho que deveria cobrar. Só que um valor razoável. E com um nível de qualidade alto. Então todo mundo poderia estudar sem muita despesa. Por outro lado, também acho que o exercício da medicina teria que ser apenas governamental. Isto é, o Ministério da Saúde ser uma espécie de exército em que os médicos seriam os oficiais e os hospitais os quartéis. Então os médicos teriam um salário bom, mas não exagerado. Como de um militar. E seriam designados para servir onde fosse preciso. Para a população a medicina seria inteiramente de graça, não importa o procedimento. Os planos privados de saúde seriam fechados. Todo mundo, seja rico ou seja pobre, só teria o serviço médico público para se valer. E os médicos não ganhariam por consulta ou por cirurgia e sim o seu salário para fazer o que fosse preciso. Isso, de certa forma, contraria meus princípios anarquistas e anti-estatizantes. Mas eu acho que educação e saúde, até que o mundo se torne anárquico, têm que ser atividades oferecidas exclusivamente pelos governos.

Qual o papel da religião na filosofia?‎

Teoricamente, nenhum. A Filosofia não depende em nada da Religião. Historicamente, contudo, a Religião teve uma grande influência na Filosofia, pois grandes filósofos o foram porque buscavam uma confirmação racional para sua fé religiosa. Foi o caso de Tomás de Aquino. Alguns, como Duns Scoto e William of Ockham, viram que essa confirmação não existe. Enquanto isso, fizeram muita filosofia. Outros se debruçaram sobre a Filosofia, justamente, para contestar as religiões.

Acerto

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails