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terça-feira, 23 de junho de 2015
Ernesto, por exemplo, para eu ser um anarquista eu teria que deixar de lado os luxos? Uma pessoa magnata não pode ser anarquista?
A renúncia aos luxos não se liga ao anarquismo mas ao comunismo. É preciso distinguir: comunismo é um sistema econômico. Anarquismo é um sistema político. O ideal é que se unam. Mas é possível um comunismo não anarquista e um anarquismo não comunista. No anarquismo não há governo. No comunismo não há empregados (nem do governo). O anarquismo pode ser capitalista e o comunismo pode ter governo, seja democrático, seja autocrático. O que eu defendo é o anarco-comunismo. Não acho bom nem o anarquismo capitalista nem o comunismo autocrático. Mas, como transição, admito o comunismo democrático, ou mesmo um semi-socialismo democrático, que é a social-democracia. A diferença entre comunismo e socialismo é que no comunismo todos são patrões e no socialismo todos são empregados.
Professor, você é a favor das paralisações e greves previstas para as universidades federais? Não creio que tal atitude resolva o problema. Eu defendo os professores mas no fim os alunos saem prejudicados...
Sou. Completamente. Se não se der prejuízo aos alunos mesmo, e prejuízo pra valer, isto é, fazer eles perderem um ano na vida não se vai resolver pagar bem aos professores como tem que ser. A força da greve é, justamente, o prejuízo que causa. Nas universidades tem que prejudicar as pesquisas também. Porque, no meu entendimento, professores não só têm que ganhar um salário digno, mas um salário atraente. Ou seja, mais do que médicos, advogados ou engenheiros. Para que as melhores cabeças prefiram ser professores, mesmo que possam ser médicos, advogados ou engenheiros, porque professor ganha mais. Enquanto isso não acontecer a educação no Brasil não deslancha. E a educação tem que ter prioridade maior do que a saúde, o emprego, a habitação, a segurança ou o que mais for. Porque, com o povo todo muito bem educado, esses outros problemas serão resolvidos, especialmente porque um povo muito bem educado vai saber votar direito. Note que não estou falando de um povo educado e sim de um povo muito bem educado. Seria preciso criar uma nova carreira de magistério, com ótimos salários, e alta exigência para preenchimento. A atual carreira seria colocada em extinção, com a possibilidade de seus ocupantes migrarem para a nova, se forem aprovados nos concursos de alto nível. Tem que fazer como na Coréia e na Finlândia. Professores primários ganharem seus dez mil reais por mês e universitários, seus cinquenta mil, no fim da carreira. E o magistério teria que ser como um exército. Os professores seriam designados pelo governo para servir onde fosse preciso. O ensino particular seria abolido completamente em todos os níveis. Isso teria que ser feito mesmo que se aumentem os impostos para tal. Mas a gestão escolar teria que ser feita nos moldes da gestão de uma escola privada. Sem estabilidade no emprego (como também para o resto do funcionalismo público). Isso até que os governos fossem extintos. Mas até lá, por uns poucos séculos, é preciso se acostumar com um ensino de altíssima qualidade para todo mundo. E igual para todos, independentemente de seu nível econômico ou social. Todo mundo misturado. Nada de escola particular. Como de medicina particular.
A abolição da propriedade privada implicaria em redução de privacidade?
Não, mesmo não sendo propriedade pessoal, a ocupação de aposentos e o uso de objetos comunitários, como, por exemplo, computadores, enquanto estiver por conta de algum usuário, deve ter a garantia de privacidade assegurada. Em verdade, o que interessa, nesses casos de dados digitais, é a privacidade dos dados, que não precisam estar armazenados nos aparelhos e sim em hospedarias de dados, com usuário e senha. A abolição da propriedade privada, em verdade, se refere a bens de vulto, como imóveis, veículos e outros que tais. As pessoas poderiam ter os seus óculos, sapatos, roupas e assemelhados pessoais. Ao mesmo tempo em que haveria vestuários públicos para quem quiser pegar e usar as roupas disponíveis. O que não se pode admitir é alguém ter uma coleção de centenas de sapatos, por exemplo, enquanto outros andam de pé no chão. Outra consideração é a de que a privacidade não é um valor tão importante assim. Qual o problema de que tudo em minha vida seja de conhecimento público? Isso só seria problema se eu tivesse algo a esconder. Mas se se admite, por exemplo, a pluralidade dos relacionamentos amorosos, ninguém tem que esconder seus amantes e suas amantes. Tudo pode ser público. E se não existe dinheiro, ninguém tem que esconder qualquer riqueza que possua, pois ninguém a possuirá. Numa sociedade ácrata não há, também, razão para se cometer nenhum crime, exceto insanidade mental. Cobiça, inveja, ambição, ganância, ciúme e coisas do tipo não existirão.
http://www.respostasaoateismo.com/2011/06/paradoxo-de-epicuro-o-problema-do-mal.html - como você reagiria a isso? Eu acho complicado, porque no fundo vira uma peteca quente, passada de mão à mão (o ônus da prova da maldade do mundo coexistir ou não com deus, que é um dos princípios do paradoxo).
Simples. Ou Deus não existe, que é o que considero, ou, se existe, não é bondoso, já que se não for onipotente nem onisciente não seria Deus. A maioria das concepções de deuses existentes consideram que não seja bondoso. A própria Bíblia é contraditória em relação à bondade de Deus. Todavia o mais viável é considerar que Deus seja apenas um conceito inventado, sem existência real.
Você acha que o correto para um professor de física lecionar bem uma disciplina é primeiro ministrar aulas em laboratório para depois ministrá-las em sala de aula? Ou o contrário?
Primeiro no laboratório é que é o correto. Porque, então, os alunos, tendo descoberto por si mesmos, nas experiências que fazem (mas eles é que têm que fazer e não o professor para eles verem), a validade das leis, quando, depois, na aula teórica, eles a virem, já estarão convencidos de sua validade e saberão de sua aplicabilidade e dos casos em que não se aplica (o que é muito importante saber). Isso é o método da "redescoberta", que transforma os alunos em cientistas, orientados pelo professor. Para as ciências naturais esse é o melhor método pedagógico de aprendizagem. É claro que tem que ser acompanhado de outras técnicas imprescindíveis para o sucesso da aprendizagem. O importante é que nada é, propriamente, "ensinado". O que o professor tem que fazer é provocar o aluno para que aprenda por conta própria, descobrindo por si mesmo. Para tal se tem que usar esse método, bem como a maiêutica e outros. Um aspecto importantíssimo é a forma de se abordar os erros dos alunos, sem humilhá-los, mas partindo do erro (que eles pensam que foi um acerto) para discutir, perante a turma, as razões que os levaram ao erro, a fim de que não se equivoquem mais.
Para conseguir vencer um medo é necessário refletir bastante, não é ?
Sim, mas não só. Tem que se convencer de que algum medo seja racionalmente infundado (mas há os que sejam racionalmente fundamentados) e criar coragem para vencê-lo. O segredo é, mesmo não estando ainda bem convencido de sua improcedência, mas já tendo alguma noção dela, fazer o que se tem medo com medo mesmo, até ver que ele não tinha razão de ser. Todavia é preciso ter o bom senso de ver que, em alguns casos, o risco é real e o medo é válido. Mas, se houver um imperativo para a ação de risco, fazê-la com o risco, consciente do perigo e da possibilidade do dano ou da morte.
Você tem esperança na humanidade? de que o mundo será um lugar melhor?
Tenho sim, e muito. Sei que vai melhorar. Mas demora alguns milhares de anos. Só que a humanidade ainda tem alguns milhões de anos pela frente. Então confio que, na maior parte de sua existência, a humanidade conseguirá fazer desse planeta um paraíso, não só para si, mas para toda a natureza. Confio que as fontes de discórdias, como as religiões, a ganância, a intolerância e outras serão extirpadas e a paz triunfará. Porque a maioria das pessoas é boa e que isso. O que lhes falta é disposição e coragem para enfrentar e derrotar o mal. O problema dos bons é a sua tibieza. Mas a bondade pode vencer. Como já o mostraram Gandhi, Luther King, Mandela e outros.
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