sábado, 26 de dezembro de 2009

Minha Índole Filosófica



Athena Velletri




Bach - Oferenda Musical


Quem tem interesses e conhecimentos razoáveis em áreas distintas, como eu que, sendo um educador e cientista, possuo um bom trânsito nas artes e na filosofia, sofre de um tipo curioso de solidão que nos deixa deslocados entre cientistas, por sermos filósofos e artistas, entre artistas por sermos cientistas e filósofos e entre filósofos por sermos artistas e cientistas. Entre religiosos, somos discriminados por sermos ateus e entre ateus por admirarmos alguns aspectos das religiões e algumas pessoas religiosas de valor. Em suma, por prezarmos acima de tudo a verdade e a bondade e não a vaidade e as vantagens. Daí sentirmos uma grande solidão e, muitas vezes, nos fecharmos em nós mesmos. Mas é preciso reagir e externar a riqueza que esta interação de saberes em uma única mente é capaz de produzir.

Disso tudo, o mais importante é a Filosofia, mas não apenas conhecer Filosofia, e sim, filosofar. É claro que, para tal, há que se conhecer o que outros já filosofaram, não só para encurtar o tempo e não precisar reinventar a roda, para para treinar a embocadura. E, sem dúvida, da mesma forma que é essencial ao cientista o conhecimento filosófico, também o é ao filósofo, o conhecimento científico, especialmente de Matemática (Lógica, Geometria e Análise), Física (Quântica e Relativística), Cosmologia, Biologia (Genética e Evolução) e Psicologia (Neurociências). Claro que a capacidade de expressão verbal e articulação de argumentos é requisito essencial, não descuidando de uma boa cultura geral e artística.

Filosofar é debruçar-se sobre a realidade em todos os seus aspectos (lógico, matemático, geométrico, físico, astronômico, cosmológico, geológico, químico, biológico, psíquico, social, econômico, ético, político, cultural, artístico, científico, tecnológico, metafísico, espiritual e qual outro seja); assimilar seu conteúdo, refletir sobre ele, inteirar-se de tudo o que já se disse a respeito, contestando o que se considerar incorreto; formular conceitos que descrevam de forma adequada a realidade assimilada, delimitando sua esfera de aplicabilidade; fazer levantamentos e experimentos no que for pertinente e possível para verificar as relações existentes entre aquilo que os conceitos representam nas várias categorias existentes; formular hipóteses que proponham explicações para as relações obtidas; deduzir consequências a partir dessas hipóteses; testar a veracidade das conclusões achadas, reformulando as hipóteses, caso as conclusões não se adequem à realidade e articular argumentos que defendam o resultado concluído e sejam capazes de se opor às explicações alternativas existentes e verificadas errôneas. Esta é a metodologia científica que proponho seja também aplicada à Filosofia, para que esta deixe o patamar de uma esfera de conhecimentos baseada em pontos de vista pessoais e se coloque como um corpo objetivo do saber, independente de "escolas de pensamento".

Nisso tudo é mister ter desenvolvido as habilidades e competências filosóficas que o estudo formal pode propiciar. Mas é preciso ir além do costume de se fazer apenas o estudo crítico da produção filosófica de algum autor ou escola e ter a ousadia de propor sua contribuição pessoal, ou mesmo, quem sabe, criar uma escola. Todavia meu ideal é ver a Filosofia despida de qualquer rótulo ou adjetivação, isto é, que se apresente em toda beleza de sua nudez, pois assim é que poderá ser admirada na sua verdade e explendor.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Natal Anarquista


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Apesar de não crer que Jesus Cristo seja Deus, considero que foi um homem formidável e um exemplo de conduta que admiro e sigo, no sentido de promoção de um mundo harmônico e fraterno, como o concebo em minha visão anarquista e atéia, na qual a humanidade seja única, não hajam fronteiras nacionais nem econômicas, raciais, religiosas, sexuais ou de qualquer natureza. Tal situação não é utópica e poderá ser alcançada como fruto de um trabalho educativo contínuo ao longo de várias dezenas de décadas. Que os educadores possam inculcar na mente das crianças e dos jovens o espirito altruista de solidariedade, generosidade, operosidade, despreendimento e bondade, esmagando todo o egoísmo, cobiça, preguiça, ganância e maldade. Que se cultive o hábito do trabalho comunitário gratuito e o de compartilhamento de tudo o que se possua. Então, quando esses jovens forem os adultos que estarão gerindo a sociedade, talvez se possa ver que a propriedade e o dinheiro não sejam mais necessários, que não haja mais crime, que muitas profissões não mais existam por absoluta falta de razão, como as de militares, policiais, advogados, promotores, juízes, contadores, bancários, banqueiros, políticos, funcionários públicos, corretores, vendedores, despachantes, empresários, comerciantes, fazendeiros, industriais, capitalistas, carcereiros, lixeiros, faxineiros e muitas outras, pois tudo será comunitário e não haverá governos, nem prisões, nem residências particulares (aliás, nada será particular, nem os cônjujes, nem os filhos). Todo homem será marido de toda mulher, toda mulher será mulher de todo homem, todo adulto será pai e mãe de toda criança e toda criança será filha de todo adulto. É este o mundo que a canção "Imagine", de John Lennon mostra e que o movimento "Zeitgeist" procura alcançar e que eu coloco como motivo de reflexão para este Natal, pois é como viviam as primitivas comunidades cristãs, de completos despossuídos de todo e qualquer bem, mas ricos de amor e firmes em seus laços de cooperação, de trabalho, de abnegação, de altruísmo, de renúncia à toda vaidade. Que o Natal possa nos converter em santos ateus, pois são as diferentes concepções de Deus que mais cruelmente dividem o mundo.

A Árvore de Natal


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A época do Natal enseja uma série de reflexões sobre o significado da existência do homem. O cristianismo coloca em Deus essa razão, sendo nossa vida justificada pela glória e louvor que propiciarmos àquele que nos criou tão somente para este fim. Com o pecado original a humanidade desconciliou-se com Deus, que, em represália, expulsou-a do paraíso, condenando-a a envergonhar-se do próprio corpo, a ganhar o pão com o suor do rosto, a padecer as dores do parto e a envelhecer e morrer, ocasião em que a alma, separando-se do corpo, passaria a vagar em um limbo, apartada da beatitude da contemplação de Deus. A misericórdia de Deus, contudo, sendo maior que sua ira incapaz de ser aplacada pelos sacrifícios propiciatórios dos cordeiros imolados, concedeu à humanidade a chance de redimir-se do pecado original e, com isto, poder contemplar a face de Deus na glória celeste e, posteriormente, na consumação dos séculos, tendo sua alma novamente unida ao corpo, poder ascender ao paraíso para gozar em plenitude a vida eterna. Tal oportunidade se daria com um sacrifício infinito, que seria a imolação do próprio Deus a si mesmo.
Cristo foi a pessoa de Deus que fundiu-se indissoluvelmente a um homem, tornando-se o único ser híbrido a possuir corpo, alma e divindade, de tal modo que sua imolação, como um cordeiro sacrificatório, fosse capaz de aplacar a ira de Deus pelo pecado original e possibilitar a redenção do gênero humano, concedendo a todo aquele que aceitar Cristo como salvador, a possibilidade de alcançar a glória celeste. A ressurreição do homem Jesus (a parte divina, certamente, não morreu) é a prova da vitória sobre o pecado, do qual a morte é uma das conseqüências. A condição para a salvação é colocada, pois, na fé, e, para algumas confissões, como o catolicismo romano, também na vida piedosa e nas boas obras.
O Natal cristão é, pois, a celebração do nascimento daquele que trouxe à humanidade a possibilidade de redimir-se do pecado. Sem Cristo a humanidade perderia eternamente a capacidade de retornar ao paraíso para o qual fora criada. Esta é a exegese que faço do que conheço da doutrina cristã.
Para quem não seja cristão o Natal não teria significado algum, especialmente para os ateus, como eu. Não é assim , contudo, que vejo as coisas. Num contexto puramente humanista, Jesus foi simplesmente um homem que pregou uma nova visão religiosa, em que Deus não é mais uma entidade vingativa a se temer e nem tampouco o cioso guardião de um particular povo escolhido, mas o pai amoroso de todo o Universo e, em decorrência, de todos os povos. É possível que Jesus estivesse imbuído de sua divindade, porém, creio eu, este atributo foi-lhe aplicado pelos seguidores. Assim, o cristianismo, em seus primórdios, firmou-se como uma religião do perdão, da paz, da concórdia, da fraternidade, da tolerância. Nisto reside a grandeza do Cristo, que se eleva ao lado de outros líderes congêneres, como Buda ou Ghandi. Os desdobramentos históricos leva-ram o cristianismo a atitudes intolerantes e belicosas, como ocorreu por ocasião das cruzadas e da inquisição. Mas isto não faz parte da mensagem primordial de seu fundador.
Nos dias atuais presenciamos dolorosos conflitos travados a pretextos religiosos, envolvendo judeus, muçulmanos, cristãos, hinduístas e outros, em várias partes do mundo. Se a mensagem humanista fundamental do cristianismo pudesse ser seguida em todo o mundo, independente de que religião se professe (ou que não se professe) teríamos como alcançar a paz e a harmonia que nos propiciariam um mundo melhor em que as crianças poderiam crescer e tornarem-se adultos felizes e realizados plenamente em sua humanidade. Por isso acho válida a comemoração do Natal de Cristo em toda a Terra.
Que essas disposições sejam levadas por todos em todas as suas atividades. Nas relações internacionais, na política, nos negócios, nas profissões, no trato social, no ambiente familiar, entre pais e filhos e no íntimo dos casais. Que o egoísmo seja banido e que nossas ações se pautem pela maximização da felicidade para o maior número de seres e não pelo lucro ou pelas vantagens pessoais. Lembro-me de meu falecido pai, rotariano atuante, que me passou a filosofia da “Prova Quádrupla” como guia para tomada de decisões em qualquer circunstância. No que for que se faça, pergunte-se: É a verdade? É justo para todos? Criará boa vontade e melhores amizades? Será benéfico para todos? Se usarmos algo como isto na conduta pessoal, certamente estaremos contribuindo para um mundo melhor. E, se pensarmos que, numa visão de mundo que exclua a existência de Deus, não há razão nem finalidade para nada, inclusive para nossa vida, mas que sentimos uma necessidade interior de que tudo tenha um propósito (o que não garante que tenha), então, se colocarmos para nós mesmos que nossa vida terá sentido se, por causa dela, o mundo venha a se tornar melhor e mais pessoas fiquem felizes, podemos aceitar a mensagem humana de Cristo como um farol guia a nortear nossa vida.
Chego, finalmente, ao título deste artigo: “A Árvore de Natal”. Que símbolo melhor representaria tudo isso que não ela. Como um abrigo da inclemência do Sol, uma proteção para a fúria da atmosfera e um refúgio contra a gana dos predadores, a árvore também simboliza a generosidade da natureza ao nos propiciar o fruto, a madeira e, até, a medicina contra todos os males. E a árvore quer dizer o abraço fraternal entre todos, de todas as origens, credos, raças, gêneros, condições sociais. Especialmente a Árvore de Natal, com sua forma ponteaguda, apontando para cima, como a nos dizer que não é para a esquerda e nem para a direita que devemos seguir, mas para cima, para o que é mais elevado, para o progresso, com a colaboração e o trabalho conjunto, não com disputas e guerras. Nesse símbolo eu posso congregar toda a humanidade, transcendendo o espírito do Natal ao próprio cristianismo, ao conscientizarmos de que somos membros de uma mesma espécie, habitando um mesmo planeta e que temos que nos unir para que possamos ser partícipes dessa maravilhosa e incrível realidade que é a existência e a evolução da vida, fato possivelmente singular, cuja preciosidade não podemos deitar a perder por questiúnculas religiosas ou econômicas.
Que esta ocasião, portanto, possa ser para você, leitor, um momento de reflexão sobre a razão e o propósito que você deve encontrar dentro de si mesmo para estar aqui. Imaginando-se em seu momento final você poderá sopesar o que de fato é importante na vida e verá que, não será o dinheiro, o poder ou a fama adquiridas que lhe serão valiosos. Você certamente só se arrependerá do perdão não concedido e do amor não espalhado, do abraço reprimido, da gentileza esquecida, da palavra não dita. Mas é tempo ainda de mudar tudo isso e levar a vida de alma lavada e leve, na certeza de que se está vivendo de modo a dar sentido à própria vida.

Disposições Natalinas


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Natal não significa apenas a comemoração do nascimento do fundador de uma religião, mas uma data que transcendeu a qualquer religião e se revestiu de um valor humano muito mais amplo e profundo. É a data em que se renovam os propósitos de tornar o mundo um lugar pacífico, harmônico, fraterno, justo, aprazível e acolhedor para todos viverem. É preciso, contudo, que essa resolução não fique só na intenção e logo se esvaia na rotina do cotidiano do ano que se inicia. Se realmente se deseja tal coisa, urge que uma revolução no íntimo de cada um tenha lugar e que, de fato, mudando a si mesmas, as pessoas sejam capazes de mudar o mundo. Que se troque a disputa, a ganância, a perfídia, a ambição e o egoísmo pela colaboração, a solidariedade, a benevolência, o desprendimento e o altruísmo. Que a gentileza, o perdão e o amor substituam a agressividade, o ódio e a vingança em todos os corações. Que a preguiça e a omissão dêem lugar à operosidade e ao compromisso de agir positivamente para tais objetivos. Que a compreensão e a tolerância passem a vigorar onde antes havia incompreensão e intolerância. Que se renuncie ao lucro e à vantagem em prol da generosidade e da equidade. Só assim serão dados os primeiros passos da longa caminhada em direção a uma sociedade verdadeiramente livre, justa, próspera e feliz para todos e não só para alguns. Um mundo em que não haja pobreza, ignorância, fome, doença, opressão e injustiça. Em que não se tenha discriminação por motivo de raça, credo, gênero, riqueza, idade, pensamento ou o que quer que seja. Tal lugar não é uma utopia e pode ser alcançado, basta que queiramos. Mas que, de fato, nos dispamos do egoísmo, do rancor, da vaidade, da inveja, da avareza e de toda espécie de maldade e pautemos nossa vida pela honestidade, pela justiça, pela bondade e pela sabedoria. Estas são as resoluções que quero ver assumidas e levadas a cabo por todos, pois assim cada qual poderá dizer que sua vida não foi em vão e que o mundo se tornou melhor por que passamos por ele.

Mas não é só isto. É preciso também que se tome uma atitude positiva, que resulte em ações enérgicas e eficazes no sentido da erradicação de todo o mal, de denúncia de toda vilania, de punição de qualquer desonestidade, de impedimento de todo tipo de opressão, discriminação e injustiça, mesmo que tais atitudes redundem em prejuízo pessoal ou represálias. Não é omitindo-se perante a ignomínia que se pode andar de cabeça erguida. Temos sempre a ver com tudo de que tomamos conhecimento e não nos resta alternativa ética senão tomar providências a respeito. Mas não apenas as que não nos privem de nosso conforto e regalias ou em nada nos afete e prejudique. Para sermos merecedores do singular privilégio de existir, há que empenhemos nosso tempo, nosso esforço, nossa dedicação, nossa inteligência, nossa vontade, nossos bens e nosso dinheiro para trazer o triunfo do bem sobre a Terra e a derrota final do mal nesse mundo.

Outra coisa que está em nossas mãos fazer para tornar o mundo melhor é dedicar, para começar, um décimo do nosso tempo semanal para projetos sociais na forma de voluntariado, plantando hortas comunitárias em algum terreno vazio do quarteirão, para todos tirarem proveito, dando aulas de reforço de graça para alunos carentes (ou não), participando de mutirões para consertos na rua ou em casas de vizinhos, fazendo a limpeza das vias e praças públicas. É preciso entender que a solução dos problemas da comunidade não precisa ser colocada sob a responsabilidade do poder público e que cada um pode e deve arregaçar as mangas e fazer muita coisa por sua própria conta. É o começo de um mundo em que governo e dinheiro não se façam mais necessários.

E que essas disposições levem a todos aquela sensação de enlevo, sobranceria e nobreza que é característica de todo aquele que tem a consciência tranqüila e, com isto, vive em paz e alegria, cercado da admiração e do afeto de todos que merecem o seu respeito e sua consideração.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Eventos sem causa


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Eventos sem causa são possibilidades e, mais que isto, realidades. O princípio, segundo o qual todo evento seja efeito de uma causa, é uma indução, baseada na observação de fenômenos acessíveis à observação direta, isto é, na escala de tempos e dimensões compatíveis com os sentidos humanos. Como toda consequência induzida, ele não tem garantia de validade e nem de veritabilidade, como nos casos de dedução, em que, sendo as premissas verdadeiras e o raciocínio válido (não falacioso), a conclusão é verdadeira também. O que se pode dizer é que a ocorrência de muitos casos, em que eventos sejam efeitos, leva a induzir que assim o seja em todos os casos, sem contudo se poder garantir tal assertiva, que é derrubada com a constatação de uma simples exceção.
Para prosseguir, preciso dizer que "causa" é um evento determinante da ocorrência de outro, dito seu efeito, enquanto “condição” é um fato que possibilita, mas não determina a ocorrência de um evento. Uma relação causal se dá entre eventos (fenômenos, acontecimentos, ocorrências) e não entre seres (entidades realmente existentes e não apenas conceituais). Não se pode falar sobre a causa do Universo e sim sobre a causa do surgimento do Universo (evento que consiste na passagem de inexistência para a existência). Além disto é preciso distinguir os eventos elementares ou simplesmente “eventos”, que envolvem apenas entidades elementares (uma partícula, por exemplo) dos fenômenos ocorridos com sistemas complexos, constituídos de inúmeras partículas reais, quer da matéria (férmnions), da radiação (bósons) ou de partículas virtuais (campos).
Dentre os eventos elementares e mesmo os que envolvem sistemas de poucas partículas, como átomos, vários ocorrerem de modo fortuito, isto é, incausado. Dentre eles destacam-se o decaimento radioativo e a emissão de fótons por átomos ou moléculas excitados. A excitação não é causa e sim condição para o decaimento. Nada há que determine o decaimento. Cada átomo decai após um tempo aleatório, sem que nada determine que o faça, da mesma forma que a radioatividade. A única informação que se tem é sobre o tempo médio de decaimento ou o tempo para que metade de uma amostra grande tenha decaído, a meia vida (mas uma é função da outra, de modo que se trata da mesma informação).
Alguém pode dizer que há uma causa, só que não se conhece. Pode até ser, mas não necessariamente. Como não se identifica causa alguma e nada há que exija que se tenha uma causa, é perfeitamente razoável considerar que não haja causa.
No caso de fenômenos ocorridos com sistemas de muitas partículas, o grande número leva a probabilidades bem direcionadas a certas possibidades, configurando um aspecto causal e determinístico que não existe nos eventos elementares de modo geral. Mesmo neste caso, contudo, há a ocorrência de comportamentos caóticos, de modo que o determinismo e a causalidade não são a regra da natureza.
Sobre o surgimento do Universo, a passagem da inexistência para a existência não requer causa alguma, nem conteúdo algum do qual tudo o que existe tenha que ser proveniente. Exigir tais coisas é um preconceito não justificado. Isto não significa “provir do nada”, pois nada não é algo do qual outra coisa pode provir. Nada é a ausência total de tudo, não só de conteúdo mas de espaço vazio, de tempo e de leis naturais. O que significa é não ser proveniente de coisa nenhuma. Antes do conteúdo do Universo ter surgido (campo, matéria, radiação, espaço, tempo, interações e leis que descrevem o comportamento disso tudo e de seus atributos, como, extensão, localização, duração, movimento, energia, intensidade das interações, spin, carga elétrica, massa e muitos outros, expressos pelas grandezas mensuráveis que aparecem nas leis) não havia leis naturais a serem obedecidas (aliás não havia nem “antes”, pois não havia tempo), de modo que o surgimento de qualquer coisa não desobedeceu lei alguma. Mesmo que houvesse tais leis de conservação, possivelmente o conteúdo total de carga, massa-energia, momento angular e outras grandezas que se conservam, no Universo atual, seja nulo, exatamente como se não houvesse nada.

sábado, 28 de novembro de 2009

Problemas da crença cristã

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Queria saber porque fora necessário um sacrifício expiatório para Deus perdoar o homem pelo pecado original, isto é, porque ele não poderia simplesmente ter perdoado, como pregou Jesus? Não respondam com citações de versículos bíblicos, mas com argumentos.
Se a união da divindade com a humanidade de Jesus fosse indissolúvel, ele, como Deus, não morreria. Se morreu é porque sua parte humana dissociou-se da divina. Outra coisa: tendo ressussitado e ascendido aos céus de corpo e alma, como seu corpo sobreviveria sem alimentos? E onde fica o céu? Se for no espaço sideral, sem apoio, então Jesus está em órbita? Mas o céu é só dos terráqueos? E os outros possíveis seres conscientes de outros planetas, que podem haver? Também foram redimidos por Jesus? Ou não cometeram pecado original? Ou houve outro Jesus lá? Ou o cristianismo não admite sua existência? Não estou fazendo brincadeira. Estou falando sério. Como se pode extender o cristianismo aos extra-terrestres (que suponho que possam haver, mas não que possam comunicar-se conosco e nem nos visitarem)?
Toda pessoa inteligente, pode, deve e tem que questionar as informações constantes da Bíblia, senão estará abdicando de sua humanidade e se transformando em zumbi. É muito esquisito isso de Deus ter querido sacrificar-se a si mesmo para expiar nossos pecados. Acho uma parvoiçe de Deus, caso exista.
Não contesto a possibilidade de poder haver um Deus incriado. O que contesto é que exista de fato. Como saber que existe? Porque, se não houver prova de que exista, há que se considerar que não exista. Isto não requer prova.
Não creio que a natureza tenha o poder de criar-se a si mesma. O que considero (mas isto não é crença) é que nada foi criado e sim surgiu expontaneamente, sem causa e nem propósito. Não do nada, mas sem ter algo de que proviesse.
A ciência tem um crédito superior às crenças, exatamente porque não pretende ser detentora da verdade, mas sim estar empenhada em buscá-la, a despeito de se derrubar todas as convicções. Porque a ciência é honesta e verdadeira, enquanto as crenças insistem na validade de suas proposições sem comprovação. E como existem multiplas crenças, com proposições contraditórias a respeito de vários fatos, não há como saber qual delas é verdadeira. A suposição mais sensata é de que nenhuma o seja. A fé, realmente, não tem credencial alguma para servir de critério de verdade.
“Sentir” a existência de Deus é uma experiência subjetiva que não garante, em absoluto, sua veracidade. Podemos “sentir” inúmeras coisas, inteiramente falsas.
De certa forma, mesmo que existam pessoas altamente inteligentes, informadas e cultas, que crêem em várias modalidades de Deuses, nas diferentes religiões, considero que sua crença é um tipo de ignorância, a respeito dos fatos concernentes à existência de Deuses. Na verdade sua consideração de que Deus exista não procede de uma verificação racional e fatual mas de uma adesão a uma crença infundada, justificada por razões afetivas e emocionais, e não empíricas ou racionais. Não digo que os aspectos afetivos e emocionais sejam menos importantes do que os racionais na condução da vida, pelo contrário, tanto é que respeito a crença em Deus das pessoas. Só considero que, quanto a esse respeito, os afetos não garantem a veracidade e, então, lamento o fato de viverem uma ilusão, mesmo que ela possa ser consoladora e gratificante.
Não tenho medo de morrer e de castigo eterno nenhum, pois sei que isto não existe.
Pergunta-se “quem?” apertou o botão para dar origem ao Universo ou criou as forças que o produziram. Esta noção de que seja necessário “alguém” (isto é, uma pessoa dotada de inteligência, vontade e poder) para produzir os eventos da natureza é inteiramente falsa. Trata-se de uma concepção humana, advinda da observação, desde tempos pré-históricos (ou mesmo de nossos predecessores pré-humanos) de que as ocorrências se davam por ação de alguém. Então, por extensão, os primitivos humanóides, consideravam que tudo requereria a interveniência de “alguém”, que, quando não identificado, foi inventado, na figura de um “gênio”, “espírito” ou “deus”, como causador do fenômeno (chuvas, trovões, raios, enchentes, vulcões, eclipses, nascer e por do Sol, fases da Lua e todas os fenômenos naturais). Com a evolução da humanidade e o surgimento das civilizações, tais coisas se transformaram em mitos, que, numa etapa posterior, passaram a doutrinas religiosas, consignadas nas diverentes “escrituras sagradas”, muitas vezes, umas espelhadas em outras, como as judaicas se basearam nas babilônicas, que o foram nas hinduístas e assim por diante. Tal encadeamento de considerações chegou até a algo tão sofisticado como o “Direito Canônico” da Igreja Católica, por exemplo. A ciência, contudo, pouco a pouco foi achando explicações naturais para tudo, de forma que o que provém dos conhecimentos mitológicos nada mais é do que “ficção lendária”, como a Bíblia, sem valor epistemológico algum.
Em resumo, não é preciso haver “ninguém” para apertar botão nenhum e fazer surgir o Universo. Ele pode surgir por acaso, de forma expontânea, sem criador.
Ao discutir religião e fé, peço argumentos racionais e fatuais pois não vejo porque a Bíblia seria depositária da verdade e não as outras escrituras, como os Vedas, o Corão, ou mesmo os escritos de Allan Kardec. Todos esses textos foram redigidos por pessoas que estavam convencidas de serem portavozes de Deus e, no entanto, escreveram coisas que se contradizem umas às outras. Há crentes sinceros, fiés, pios e santos em todas as religiões, como há os aproveitadores desonestos da fé do povo. Então o critério para decidir em qual delas se encontra a verdade tem que ser extrínseco a elas. Até hoje não ví, em nenhuma, provas de serem as donas da verdade. O único e legítimo critério de verdade é a prova por evidências ou raciocínios válidos, em última análise, calcados em evidências. A existência do Deus abrahaãmico, bem como do pecado original, da redenção de Jesus, do juízo final e dos demais pontos fundamentais da doutrina cristã, são tão desprovidos de fundamento como a existência de Rá, Amon, Hórus, ìsis, Brahman, Brahma, Shiva, Vixnu, Krishna, Maya, Yin, Yang, Aúra-Masda, Arimã, Allah (não tripessoal), Zeus, Apolo, Athena, reencarnação, metempsicose e outras divindades e conceitos das demais religiões. Todos eles, contudo, são objeto de citações nas escrituras sagradas de suas religiões.
A exigência de justiça por parte de Deus, em relação ao pecado de Adão e Eva, não tem nada a ver com sacrifícios expiatórios. Justiça se traduz em prêmio ou punição ao autor da ação objeto de apreciação. Sacrifícios ou oferendas são caprichos exigidos pelo Juiz em completo desacordo com o próprio espírito imparcial e desinteressado da justiça. A satisfação propiciatória de Deus apenas com o sacrifício de seu próprio filho Jesus revela um caráter mesquinho e egoísta de Deus, muito longe do padrão de bondade e santidade que se atribui a Ele.
Além do mais tudo isto só tem significado se se admitir a criação do homem diretamente por Deus nas pessoas de Adão e Eva, o que é inteiramente desprovido de confirmação, além de ser extremamente ingênuo.
A questão fundamental do ateísmo não se prende a possíveis deslises morais dos personagens bíblicos e nem, realmente, ao que a Bíblia ou qualquer outra escritura sagrada diga ou não. Todas elas são códices redigidos por pessoas, mesmo que convictas de sua inspiração divina, mas que, na verdade, expressam o modo de pensar de sua época, sua localização, sua etnia, seu extrato social e demais circunstâncias, além da opinião pessoal do próprio autor do texto. O fundamento do ateísmo, ao afirmar que não existem divindades de espécie alguma, nem tampouco semideuses, almas, anjos, demônios, gênios, djins, duendes, elfos, gnomos ou qualquer tipo de espíritos ou elementais de qualquer natureza, é que não há comprovação nem evidência da existência de tais entidades e, portanto, tudo o que existe é natural, as únicas substâncias de que qualquer coisa seja feita são os constituintes naturais do Universo, isto é, matéria, radiação e campos (mas não energia, pois não é uma entidade e sim um atributo de entidades).
É claro que o ateísmo considera a existência de abstrações, mas elas são apenas concepções mentais, não tendo existência sem mentes que as concebam. E as mentes são apenas ocorrências advindas da composição, estrutura e funcionamento do organismo, especialmente do cérebro.
Deuses são, pois, conceitos, ideías concebidas por mentes, sem existência no mundo real. Nada há que comprove sua existência e, como não são evidentes, a hipótese zero, isto é, “por default” é de que não existam, sendo requerida comprovação para considerar que existam. E isto ainda não se deu, pois as pretensas “revelações” não comprovam coisa alguma, nem tampouco as falaciosas "provas" da existência de Deus.
A existência de personagens históricas, incluindo Jesus, Maria, Moisés, Abraão e outros da Bíblia, é aceita face os testemunhos orais e escritos dos contemporâneos, transmitidos até os dias atuais. A existência de Deus não pode se basear no mesmo critério, senão seria preciso admitir a existência de todos os deuses da mitologia pagã, hinduísta e assim por diante. Se nós concordamos que os deuses mitológicos da Grécia e de Roma são invenções consignadas em textos, como a Ilíada e a Odisséia, porque não colocamos o Deus judaico-cristão-muçulmano na mesma categoria, mesmo que constem da Biblia e do Corão? Porque seria a Bíblia uma revelação e o Corão não? Porque os cristão têm fé? Mas os muçulmanos também têm! E, para eles, Jesus foi só um grande profeta, logo abaixo de Maomé, mas não o Deus encarnado. E nem existe nada de Santíssima Trindade. E quanto ao zoroastrismo, que considera o demônio uma divindade? E o panteão hinduísta? E o espiritismo, que nega divindade a Jesus?
Deuses não são evidências sensorias diretas, como pessoas. Eu acredito que Jesus existiu, e, inclusive, o admiro e procuro imitar, mas não acho que seja Deus.
É claro que os argumentos racionais não abalam a fé, pois a fé é irracional. O que proclamo é que se precisa abandonar a fé, pois ela não tem cabimento. Pode-se crer sem prova, provisoriamente, em algo não comprovado, desde que hajam fortes indícios, mas com a disposição de abandonar a crença quando evidências a derrubarem. Tal não se dá com a fé, que é proposta ser aceita sem discussão. Isto é inteiramente inadmissível. Concito a todos que possuem fé, que a deixem em suspenso e façam uma análise crítica de seus fundamentos, como eu, que fui católico, o fiz e a abandonei.
É claro que existem cientistas que crêem em Deus. Isto não prova que Deus existe, como o fato de haver outros que não acreditam não prova que não exista. Ou, ainda, alguns que, mesmo não sendo crentes, não aceitam a “Teoria da Evolução”. A questão é que a Teoria da Evolução (como atualmente entendida e não como originalmente formulada) é consensual na comunidade biológica, sendo seus detratores uma corrente marginal. E, note-se que, a Teoria da Evolução não faz nenhuma afirmação sobre a inexistência de Deus, apenas que as espécies evoluiram umas a partir das outras e não que foram criadas individualmente. Nem cogita do surgimento da vida, que é objeto de outras teorias, de biogênese, mas que mostram ser perfeitamente possível o surgimento da vida a partir da matéria inanimada, sem criação. Mas não diz que foi assim que ocorreu. No entanto, a inserção de um ente extranatural interveniente é perfeitamente dispensável, por não ser necessária.
Quanto ao Universo ser finito ou infinito, ter surgido ou sempre existido, são possibilidades inteiramente admissíveis na cosmologia, a serem decididas, não por informações mitologicas, mas pela análise de dados observacionais, que, no momento, ainda não são conclusivos a respeito. O que não significa que não venham a ser. Há que se aguardar. O fato de não se ter ainda uma certeza não significa que não se possa alcançá-la. Acontece que a humanidade é jovem no planeta (menos de meio milhão de anos) e a ciência menos ainda (só uns 500 anos). Dá para esperar algumas dezenas de milhares de anos, ou mesmo milhões.

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