sábado, 2 de janeiro de 2010

O Valor da Pessoa




Uma pessoa humana pode ter valor em razão de vários fatores. Pode valer pelo que possua de riqueza e bens materiais, ou mesmo beleza, força ou inteligência, pois assim será capaz de propiciar a satisfação da maioria de seus desejos e pode, se for generosa, fazer o bem a muita gente. Mas pode também ser motivo de desgraça e sofrimento, se sua riqueza tiver sido auferida de forma fraudulenta, corrupta ou violenta. Mesmo sem ser possuidora de riquezas materiais, ela pode auferir seu valor pelo poder que seja capaz de exercer, como mandatária política, militar, religiosa, empresarial, sindical ou de outra ordem. Tal poder de mando também lhe capacita a satisfazer muitos desejos e de fazer o bem ou o mal, pelas mesmas razões de quem seja rico.

Tais valores, contudo, são efêmeros, pois riqueza e poder são passageiros e quem já mandou muito pode acabar enforcado ou guilhotinado, muitos ricos terminaram na miséria e a força, a beleza e a inteligência fenecem com a velhice.

Outra fonte de valor é o saber. O conhecimento é capaz de exercer um grande poder, mesmo sem que seu possuidor seja rico ou detenha algum tipo de mando. Esta foi e ainda é a fonte de poder dos feiticeiros, pagés, xamãs e dos sacerdotes de todos os tipos, mesmo nas arquicivilizadas religiões católica, evangélicas, judaica, islãmica, hinduísta, budista e todas as que, ainda hoje, valem-se da credibilidade do povo em seus pretensos saberes exarados nas suas sagradas escrituras e nos pronunciamentos de seus insígnes profetas e patriarcas. Muitos estão sinceramente convencidos da verdade e do valor deste conhecimento e o usam para o bem. Outros o desdenham, mas o usam para proveito próprio, em prejuízo dos crentes. Tal tipo de poder também é exercido pelas pseudociências, como a astrologia, por exemplo. Este poder também não confere valor a quem o possua, pois sua validade não está em si mesmo, mas na credulidade que lhe é atribuída, coisa que também pode se evanescer.

O saber, contudo, pode exercer um poder legitimado na veracidade de seu conteúdo, comprovado e evidenciado pelas ciências de todos os matizes. Pode-se dizer que uma pessoa que detenha conhecimento científico ou habilidades tecnologicas e humanistas, realmente possui um valor que não pode lhe ser retirado. Da mesma forma ele pode ser usado para promover o bem ou o mal, caso em que o valor de quem assim dele faça uso fica prejudicado. Mas, de modo geral, o conhecimento é um grande fator de disseminação do bem e erradicação do mal, que, em geral, lhe devota grande repulsa.

Grande valor também possui a pessoa de ação. Aquela que faz, que lidera e executa projetos de repercussão benéfica para a população. Aquela que empreende, que não tem preguiça, que é solidária, participativa, entusiasta, congregadora de esforços, mas também operosa, incansável, articuladora, planejadora e executora. É claro que alguém pode ser isto tudo em projetos maléficos para a comunidade como um todo e destinados apenas ao lucro de sí mesma ou de grupos restritos, como acontece com o crime organizado e o tráfico de drogas. Como fica o valor dessa pessoa?

O que se pode depreender de tudo o que se comentou atá agora é que o valor da pessoa não está no que ela tem, nem no que pode, no que sabe ou no que faz. Então está em quê? Está no que ela é!

Mas ser o quê? Para entendermos isto há que reflitemos no sentido que se está dando ao "valor" da pessoa. Este valor está aquí colocado de forma deontológica, isto é, ética. Trata-se do valor em termos do quanto de bem a pessoa é capaz de mostrar que é capaz de fazer. Então o que importa que ela seja não é rica, nem poderosa, nem sábia, nem operosa. É claro que tudo isto pode colaborar, e muito, para seu valor. O verdadeiro valor, porém, está em seu caráter. É pelo caráter que se mede a capacidade de fazer o bem, de ser bom, nobre, justo, honesto, sincero, generoso, altruísta em tudo o que faça, especialmente em seu relacionamento com os outros seres, não só humanos, mas que também seja um batalhador combativo, corajoso, destemido e heróico na luta pelo prevalecimento do bem e erradicação do mal.

Então, que essa pessoa possa ser rica, poderosa, sábia e operosa, pois ela sempre o será em prol do bem, da justiça, da paz, da harmonia e do estabelecimento de um mundo em que prevaleçam sempre o amor, a alegria e a felicidade entre as pessoas, em comunhão com a natureza. Caso contrário, de nada vale a riqueza, o poder, o conhecimento ou a disposição para trabalhar. Por outro lado se alguèm possua tais qualidades de caráter mas seja pobre, humilde, ignorante e sem iniciativa, seu valor, como pessoa, será muito maior do que o de quem seja rico, poderoso, culto ou empreendedor, se não os possuir. Na verdade é o amor e, por amor, se entende querer o bem, que dá valor a qualquer pessoa. Amar o máximo possível ao maior número de seres é a verdadeira meta capaz de dar significado à vida de qualquer pessoa, pois amando se fará sempre o bem e se será sempre justo e honesto. Nisto, em suma, é que consiste a verdadeira sabedoria.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Cultura e Ciência


Costuma-se entender por cultura (não na acepção antropológica) um cabedal de erudição linguística, literária, poética, histórica, filosófica, psicológica, sociológica, econômica, política, administrativa, empresarial, jurídica, religiosa, musical, teatral, cinematográfica, artística ou de outras áreas das ditas "humanidades". A pessoa culta, ou "intelectual" é considerada ser alguém versado, fluente, articulado e capaz de bem argumentar sobre esses temas em qualquer discussão. Todavia não lhe é exigido e nem lhe é imputado como demérito, na qualidade de intelectual, não entender de ciências como matemática, estatística, física, química, cosmologia, astronomia, geologia, meteorologia, geografia, biologia, genética, evolução, medicina, neurociências, agronomia, zootecnia, mecânica, eletrônica, engenharias e tecnologias em geral.

Para mim esta é uma terrível inversão de valores, que leva a sociedade a ter uma visão incompleta e, até mesmo, distorcida, da realidade do mundo em que se encontra inserida. Pelo menos no nível do Ensino Médio, é preciso que advogados, negociantes e todos que lidam com as humanidades tenham sólidos conhecimentos de ciências exatas e biológicas, que médicos, dentistas e quem mexa com ciências biológicas o tenham em exatas e humanidades da mesma forma que engenheiros, físicos e técnicos da área de ciências exatas transitem facilmente nas humanas e biológica (repetindo, no nível do Ensino Médio, que é simplesmente o básico para todo mundo). Sem mencionar que a fluência retórica, dialética e textual precisa ser um domínio comum a todo cidadão.

Não sendo assim, como poderá alguém emitir uma opinião embasada sobre qualquer tema candente que envolva conhecimento fora de sua área específica? Como saber se o desvio do Rio São Francisco é bom ou mal? E o uso de células tronco embrionárias? E a responsabilidade humana pelo aquecimento global? Quem não entenda o básico desses assuntos ficará à mercê das opiniões de especialistas ou oportunistas, que defendem, muitas vezes eristicamente, sua posições numa babel desconcertante de possibilidades.

O fato de não ser da sua área não é desculpa para não entender análise sintática, logarítimos, progressões geométricas, termodinâmica, eletrônica, bioquímica, genética, oriente médio, "El niño", mais valia, silogismo ou o que for. E quanto ao Inglês, não se pode admitir que alguém que possua nível superior, pelo menos, não seja capaz de ler sem problemas um texto em inglês, senão não vai conseguir fazer nenhuma busca relevante de conteúdo pela internet.

Para isto é que o ingresso nas Universidade pede uma exame geral do todos os conteúdos. Alíás, é o que bastaria, sendo inteiramente dispensável uma avaliação por área de estudo. O ingresso ao Nível Superior precisa apenas avaliar a saída do Nível Básico. Mas não pode se ater à exigência mínima de apenas 30%. Este mínimo teria que chegar, pelo menos, a 60%, sendo ideal uns 80% para capacitar alguém a fazer curso superior.

A Educação Básica, por sua vez, tanto no Nível Fundamental quanto no Médio, nas escolas públicas e privadas, precisa cumprir a sua parte e colocar na praça uma meninada com aproveitamento mínimo de 80% em todos os conteúdos, aferido de forma inteligente e honesta. Como fazer isto? Esquecendo o que cai nos vestibulares e praticando um processo de ensino-aprendizagem voltado para o que verdadeiramente seja necessário para a vida. Fazer o menino e a menina pegarem gosto pelo conhecimento de forma que eles queiram, de fato, aprender conteúdos e habilidades, para formar competências fortemente vinculadas às necessidades da vida, expurgando os conteúdos inúteis e fazendo da atividade discente uma coisa lúdica, excitante, tão prazerosa como um videogame ou tão gostosa quanto namorar.

Isto poderá ser conseguido quando a remuneração docente for, não apenas digna, mas ATRAENTE, de forma que as melhores cabeças PREFIRAM ser professores do que médicos, engenheiros ou advogados, porque GANHARÃO MAIS. Quanto? Pelo menos CINCO MIL REAIS para início de carreira, com dedicação exclusiva, chegando ao fim de carreira com uns VINTE MIL REAIS, na Educação Básica. E isto precisa começar já, neste ano de 2010, para que consigamos um progresso em TRINTA ANOS, quando todo o corpo docente hoje existente já estiver aposentado. De onde virá este dinheiro? De tudo o que não será usado para pagar suborno, propinas, superfaturamentos, desvios escusos e tudo quanto é tipo de condutas imorais. Como conseguir isto? Candidatando-se VOCÊ, a vereador e deputado e trabalhando sem esmorecer para a moralização da coisa pública, estando disposto a dar milhares de murros em ponta de faca, a sofrer perseguições e represálias e, quem sabe mesmo, ser assassinado por combater a corrupção.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A importância do Amor




Texto extraído do Perfil do Orkut de minha amiga Mari Gomes

"Descobri muito cedo que a coisa mais importante da vida é o amor...e que tudo o que as pessoas desejam é alguém que as ame de uma maneira forte e constante. Com aquele tipo de carinho que dispensa palavras. Que não fica criticando o tempo todo, mas que é um braço estendido na hora em que a gente mais precisa. Encontrar alguém que ama assim, é uma alegria e põe a gente feliz, sorrindo pra vida. Há pessoas que têm o dom de levar a beleza por onde elas passam...parece que carregam na boca um pedaço do céu e os seus rostos têm a clareza e o frescor de uma manhã de sol. São frascos de perfume que mesmo quebrados exalam a mais encantadora fragrância: o amor.
Acho bonito quando os sábios dizem que é pela inteligência e caráter que a pessoa resplandece as qualidades que têm. Só não consigo concordar inteiramente. Não por oposição, mas por insuficiência. Porque o caráter e a inteligência podem impressionar, mas é o amor que damos a alguém que nos faz brilhantes e inesquecíveis em sua vida. Não basta ser inteligente...ter caráter não chega; é preciso amar. Porque o amor torna as pessoas indispensáveis. Se eu amo, eu preciso de você...e isso me faz melhor. Se eu amo, passo a gostar mais da sua voz do que da minha...então, calo para você falar, e ao escutar estarei amando. Por isso, se você quiser acender um sorriso, iluminar um coração ou acordar a esperança em alguém, precisa lembrar de uma coisa: as pessoas se alegram com sua inteligência, apreciam o seu caráter, mas precisam de seu amor. O amor tem o poder de transformar todas as coisas e destrancar todas as portas. Só ele faz luzir nossos talentos e resplandecer quem a gente é. Então, se você calar, cale com amor; se gritar, grite com amor; se corrigir alguém, corrija com amor; se perdoar, perdoe com amor. Se você tiver o amor enraizado em você, diz um antigo profeta, nenhuma coisa senão o amor serão os seus frutos...e todos se aproximarão. E, aos que perguntaram porque nessa ou naquela circunstância agimos assim, como será gostoso responder: É QUE O AMOR LUZIA EM MIM!"

sábado, 26 de dezembro de 2009

Minha Índole Filosófica



Athena Velletri




Bach - Oferenda Musical


Quem tem interesses e conhecimentos razoáveis em áreas distintas, como eu que, sendo um educador e cientista, possuo um bom trânsito nas artes e na filosofia, sofre de um tipo curioso de solidão que nos deixa deslocados entre cientistas, por sermos filósofos e artistas, entre artistas por sermos cientistas e filósofos e entre filósofos por sermos artistas e cientistas. Entre religiosos, somos discriminados por sermos ateus e entre ateus por admirarmos alguns aspectos das religiões e algumas pessoas religiosas de valor. Em suma, por prezarmos acima de tudo a verdade e a bondade e não a vaidade e as vantagens. Daí sentirmos uma grande solidão e, muitas vezes, nos fecharmos em nós mesmos. Mas é preciso reagir e externar a riqueza que esta interação de saberes em uma única mente é capaz de produzir.

Disso tudo, o mais importante é a Filosofia, mas não apenas conhecer Filosofia, e sim, filosofar. É claro que, para tal, há que se conhecer o que outros já filosofaram, não só para encurtar o tempo e não precisar reinventar a roda, para para treinar a embocadura. E, sem dúvida, da mesma forma que é essencial ao cientista o conhecimento filosófico, também o é ao filósofo, o conhecimento científico, especialmente de Matemática (Lógica, Geometria e Análise), Física (Quântica e Relativística), Cosmologia, Biologia (Genética e Evolução) e Psicologia (Neurociências). Claro que a capacidade de expressão verbal e articulação de argumentos é requisito essencial, não descuidando de uma boa cultura geral e artística.

Filosofar é debruçar-se sobre a realidade em todos os seus aspectos (lógico, matemático, geométrico, físico, astronômico, cosmológico, geológico, químico, biológico, psíquico, social, econômico, ético, político, cultural, artístico, científico, tecnológico, metafísico, espiritual e qual outro seja); assimilar seu conteúdo, refletir sobre ele, inteirar-se de tudo o que já se disse a respeito, contestando o que se considerar incorreto; formular conceitos que descrevam de forma adequada a realidade assimilada, delimitando sua esfera de aplicabilidade; fazer levantamentos e experimentos no que for pertinente e possível para verificar as relações existentes entre aquilo que os conceitos representam nas várias categorias existentes; formular hipóteses que proponham explicações para as relações obtidas; deduzir consequências a partir dessas hipóteses; testar a veracidade das conclusões achadas, reformulando as hipóteses, caso as conclusões não se adequem à realidade e articular argumentos que defendam o resultado concluído e sejam capazes de se opor às explicações alternativas existentes e verificadas errôneas. Esta é a metodologia científica que proponho seja também aplicada à Filosofia, para que esta deixe o patamar de uma esfera de conhecimentos baseada em pontos de vista pessoais e se coloque como um corpo objetivo do saber, independente de "escolas de pensamento".

Nisso tudo é mister ter desenvolvido as habilidades e competências filosóficas que o estudo formal pode propiciar. Mas é preciso ir além do costume de se fazer apenas o estudo crítico da produção filosófica de algum autor ou escola e ter a ousadia de propor sua contribuição pessoal, ou mesmo, quem sabe, criar uma escola. Todavia meu ideal é ver a Filosofia despida de qualquer rótulo ou adjetivação, isto é, que se apresente em toda beleza de sua nudez, pois assim é que poderá ser admirada na sua verdade e explendor.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Natal Anarquista


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Apesar de não crer que Jesus Cristo seja Deus, considero que foi um homem formidável e um exemplo de conduta que admiro e sigo, no sentido de promoção de um mundo harmônico e fraterno, como o concebo em minha visão anarquista e atéia, na qual a humanidade seja única, não hajam fronteiras nacionais nem econômicas, raciais, religiosas, sexuais ou de qualquer natureza. Tal situação não é utópica e poderá ser alcançada como fruto de um trabalho educativo contínuo ao longo de várias dezenas de décadas. Que os educadores possam inculcar na mente das crianças e dos jovens o espirito altruista de solidariedade, generosidade, operosidade, despreendimento e bondade, esmagando todo o egoísmo, cobiça, preguiça, ganância e maldade. Que se cultive o hábito do trabalho comunitário gratuito e o de compartilhamento de tudo o que se possua. Então, quando esses jovens forem os adultos que estarão gerindo a sociedade, talvez se possa ver que a propriedade e o dinheiro não sejam mais necessários, que não haja mais crime, que muitas profissões não mais existam por absoluta falta de razão, como as de militares, policiais, advogados, promotores, juízes, contadores, bancários, banqueiros, políticos, funcionários públicos, corretores, vendedores, despachantes, empresários, comerciantes, fazendeiros, industriais, capitalistas, carcereiros, lixeiros, faxineiros e muitas outras, pois tudo será comunitário e não haverá governos, nem prisões, nem residências particulares (aliás, nada será particular, nem os cônjujes, nem os filhos). Todo homem será marido de toda mulher, toda mulher será mulher de todo homem, todo adulto será pai e mãe de toda criança e toda criança será filha de todo adulto. É este o mundo que a canção "Imagine", de John Lennon mostra e que o movimento "Zeitgeist" procura alcançar e que eu coloco como motivo de reflexão para este Natal, pois é como viviam as primitivas comunidades cristãs, de completos despossuídos de todo e qualquer bem, mas ricos de amor e firmes em seus laços de cooperação, de trabalho, de abnegação, de altruísmo, de renúncia à toda vaidade. Que o Natal possa nos converter em santos ateus, pois são as diferentes concepções de Deus que mais cruelmente dividem o mundo.

A Árvore de Natal


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A época do Natal enseja uma série de reflexões sobre o significado da existência do homem. O cristianismo coloca em Deus essa razão, sendo nossa vida justificada pela glória e louvor que propiciarmos àquele que nos criou tão somente para este fim. Com o pecado original a humanidade desconciliou-se com Deus, que, em represália, expulsou-a do paraíso, condenando-a a envergonhar-se do próprio corpo, a ganhar o pão com o suor do rosto, a padecer as dores do parto e a envelhecer e morrer, ocasião em que a alma, separando-se do corpo, passaria a vagar em um limbo, apartada da beatitude da contemplação de Deus. A misericórdia de Deus, contudo, sendo maior que sua ira incapaz de ser aplacada pelos sacrifícios propiciatórios dos cordeiros imolados, concedeu à humanidade a chance de redimir-se do pecado original e, com isto, poder contemplar a face de Deus na glória celeste e, posteriormente, na consumação dos séculos, tendo sua alma novamente unida ao corpo, poder ascender ao paraíso para gozar em plenitude a vida eterna. Tal oportunidade se daria com um sacrifício infinito, que seria a imolação do próprio Deus a si mesmo.
Cristo foi a pessoa de Deus que fundiu-se indissoluvelmente a um homem, tornando-se o único ser híbrido a possuir corpo, alma e divindade, de tal modo que sua imolação, como um cordeiro sacrificatório, fosse capaz de aplacar a ira de Deus pelo pecado original e possibilitar a redenção do gênero humano, concedendo a todo aquele que aceitar Cristo como salvador, a possibilidade de alcançar a glória celeste. A ressurreição do homem Jesus (a parte divina, certamente, não morreu) é a prova da vitória sobre o pecado, do qual a morte é uma das conseqüências. A condição para a salvação é colocada, pois, na fé, e, para algumas confissões, como o catolicismo romano, também na vida piedosa e nas boas obras.
O Natal cristão é, pois, a celebração do nascimento daquele que trouxe à humanidade a possibilidade de redimir-se do pecado. Sem Cristo a humanidade perderia eternamente a capacidade de retornar ao paraíso para o qual fora criada. Esta é a exegese que faço do que conheço da doutrina cristã.
Para quem não seja cristão o Natal não teria significado algum, especialmente para os ateus, como eu. Não é assim , contudo, que vejo as coisas. Num contexto puramente humanista, Jesus foi simplesmente um homem que pregou uma nova visão religiosa, em que Deus não é mais uma entidade vingativa a se temer e nem tampouco o cioso guardião de um particular povo escolhido, mas o pai amoroso de todo o Universo e, em decorrência, de todos os povos. É possível que Jesus estivesse imbuído de sua divindade, porém, creio eu, este atributo foi-lhe aplicado pelos seguidores. Assim, o cristianismo, em seus primórdios, firmou-se como uma religião do perdão, da paz, da concórdia, da fraternidade, da tolerância. Nisto reside a grandeza do Cristo, que se eleva ao lado de outros líderes congêneres, como Buda ou Ghandi. Os desdobramentos históricos leva-ram o cristianismo a atitudes intolerantes e belicosas, como ocorreu por ocasião das cruzadas e da inquisição. Mas isto não faz parte da mensagem primordial de seu fundador.
Nos dias atuais presenciamos dolorosos conflitos travados a pretextos religiosos, envolvendo judeus, muçulmanos, cristãos, hinduístas e outros, em várias partes do mundo. Se a mensagem humanista fundamental do cristianismo pudesse ser seguida em todo o mundo, independente de que religião se professe (ou que não se professe) teríamos como alcançar a paz e a harmonia que nos propiciariam um mundo melhor em que as crianças poderiam crescer e tornarem-se adultos felizes e realizados plenamente em sua humanidade. Por isso acho válida a comemoração do Natal de Cristo em toda a Terra.
Que essas disposições sejam levadas por todos em todas as suas atividades. Nas relações internacionais, na política, nos negócios, nas profissões, no trato social, no ambiente familiar, entre pais e filhos e no íntimo dos casais. Que o egoísmo seja banido e que nossas ações se pautem pela maximização da felicidade para o maior número de seres e não pelo lucro ou pelas vantagens pessoais. Lembro-me de meu falecido pai, rotariano atuante, que me passou a filosofia da “Prova Quádrupla” como guia para tomada de decisões em qualquer circunstância. No que for que se faça, pergunte-se: É a verdade? É justo para todos? Criará boa vontade e melhores amizades? Será benéfico para todos? Se usarmos algo como isto na conduta pessoal, certamente estaremos contribuindo para um mundo melhor. E, se pensarmos que, numa visão de mundo que exclua a existência de Deus, não há razão nem finalidade para nada, inclusive para nossa vida, mas que sentimos uma necessidade interior de que tudo tenha um propósito (o que não garante que tenha), então, se colocarmos para nós mesmos que nossa vida terá sentido se, por causa dela, o mundo venha a se tornar melhor e mais pessoas fiquem felizes, podemos aceitar a mensagem humana de Cristo como um farol guia a nortear nossa vida.
Chego, finalmente, ao título deste artigo: “A Árvore de Natal”. Que símbolo melhor representaria tudo isso que não ela. Como um abrigo da inclemência do Sol, uma proteção para a fúria da atmosfera e um refúgio contra a gana dos predadores, a árvore também simboliza a generosidade da natureza ao nos propiciar o fruto, a madeira e, até, a medicina contra todos os males. E a árvore quer dizer o abraço fraternal entre todos, de todas as origens, credos, raças, gêneros, condições sociais. Especialmente a Árvore de Natal, com sua forma ponteaguda, apontando para cima, como a nos dizer que não é para a esquerda e nem para a direita que devemos seguir, mas para cima, para o que é mais elevado, para o progresso, com a colaboração e o trabalho conjunto, não com disputas e guerras. Nesse símbolo eu posso congregar toda a humanidade, transcendendo o espírito do Natal ao próprio cristianismo, ao conscientizarmos de que somos membros de uma mesma espécie, habitando um mesmo planeta e que temos que nos unir para que possamos ser partícipes dessa maravilhosa e incrível realidade que é a existência e a evolução da vida, fato possivelmente singular, cuja preciosidade não podemos deitar a perder por questiúnculas religiosas ou econômicas.
Que esta ocasião, portanto, possa ser para você, leitor, um momento de reflexão sobre a razão e o propósito que você deve encontrar dentro de si mesmo para estar aqui. Imaginando-se em seu momento final você poderá sopesar o que de fato é importante na vida e verá que, não será o dinheiro, o poder ou a fama adquiridas que lhe serão valiosos. Você certamente só se arrependerá do perdão não concedido e do amor não espalhado, do abraço reprimido, da gentileza esquecida, da palavra não dita. Mas é tempo ainda de mudar tudo isso e levar a vida de alma lavada e leve, na certeza de que se está vivendo de modo a dar sentido à própria vida.

Disposições Natalinas


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Natal não significa apenas a comemoração do nascimento do fundador de uma religião, mas uma data que transcendeu a qualquer religião e se revestiu de um valor humano muito mais amplo e profundo. É a data em que se renovam os propósitos de tornar o mundo um lugar pacífico, harmônico, fraterno, justo, aprazível e acolhedor para todos viverem. É preciso, contudo, que essa resolução não fique só na intenção e logo se esvaia na rotina do cotidiano do ano que se inicia. Se realmente se deseja tal coisa, urge que uma revolução no íntimo de cada um tenha lugar e que, de fato, mudando a si mesmas, as pessoas sejam capazes de mudar o mundo. Que se troque a disputa, a ganância, a perfídia, a ambição e o egoísmo pela colaboração, a solidariedade, a benevolência, o desprendimento e o altruísmo. Que a gentileza, o perdão e o amor substituam a agressividade, o ódio e a vingança em todos os corações. Que a preguiça e a omissão dêem lugar à operosidade e ao compromisso de agir positivamente para tais objetivos. Que a compreensão e a tolerância passem a vigorar onde antes havia incompreensão e intolerância. Que se renuncie ao lucro e à vantagem em prol da generosidade e da equidade. Só assim serão dados os primeiros passos da longa caminhada em direção a uma sociedade verdadeiramente livre, justa, próspera e feliz para todos e não só para alguns. Um mundo em que não haja pobreza, ignorância, fome, doença, opressão e injustiça. Em que não se tenha discriminação por motivo de raça, credo, gênero, riqueza, idade, pensamento ou o que quer que seja. Tal lugar não é uma utopia e pode ser alcançado, basta que queiramos. Mas que, de fato, nos dispamos do egoísmo, do rancor, da vaidade, da inveja, da avareza e de toda espécie de maldade e pautemos nossa vida pela honestidade, pela justiça, pela bondade e pela sabedoria. Estas são as resoluções que quero ver assumidas e levadas a cabo por todos, pois assim cada qual poderá dizer que sua vida não foi em vão e que o mundo se tornou melhor por que passamos por ele.

Mas não é só isto. É preciso também que se tome uma atitude positiva, que resulte em ações enérgicas e eficazes no sentido da erradicação de todo o mal, de denúncia de toda vilania, de punição de qualquer desonestidade, de impedimento de todo tipo de opressão, discriminação e injustiça, mesmo que tais atitudes redundem em prejuízo pessoal ou represálias. Não é omitindo-se perante a ignomínia que se pode andar de cabeça erguida. Temos sempre a ver com tudo de que tomamos conhecimento e não nos resta alternativa ética senão tomar providências a respeito. Mas não apenas as que não nos privem de nosso conforto e regalias ou em nada nos afete e prejudique. Para sermos merecedores do singular privilégio de existir, há que empenhemos nosso tempo, nosso esforço, nossa dedicação, nossa inteligência, nossa vontade, nossos bens e nosso dinheiro para trazer o triunfo do bem sobre a Terra e a derrota final do mal nesse mundo.

Outra coisa que está em nossas mãos fazer para tornar o mundo melhor é dedicar, para começar, um décimo do nosso tempo semanal para projetos sociais na forma de voluntariado, plantando hortas comunitárias em algum terreno vazio do quarteirão, para todos tirarem proveito, dando aulas de reforço de graça para alunos carentes (ou não), participando de mutirões para consertos na rua ou em casas de vizinhos, fazendo a limpeza das vias e praças públicas. É preciso entender que a solução dos problemas da comunidade não precisa ser colocada sob a responsabilidade do poder público e que cada um pode e deve arregaçar as mangas e fazer muita coisa por sua própria conta. É o começo de um mundo em que governo e dinheiro não se façam mais necessários.

E que essas disposições levem a todos aquela sensação de enlevo, sobranceria e nobreza que é característica de todo aquele que tem a consciência tranqüila e, com isto, vive em paz e alegria, cercado da admiração e do afeto de todos que merecem o seu respeito e sua consideração.

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