quarta-feira, 31 de março de 2010

MENSAGEM DE PÁSCOA

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Aproxima-se novamente a Páscoa da Cristandade. Estou publicando a mesma mensagem do ano passado, pois julgo que continua válida. Apesar de não ser cristão, como é uma data comemorada por grande parte da população, inclusive muitos amigos meus, não me furto a comentá-la.

Como no Natal, alguns perguntam: se você não possui religião, porque deseja boa páscoa a alguém?

Não ser cristão, muçulmano, judeu ou budista não significa não ver ponto positivo nenhum no cristianismo, no islã, no judaísmo ou no budismo. E o valor que sempre se encontra nessas grandes religiões é a sua pregação pela fraternidade, pela paz (apesar de grande parte de seus seguidores usarem suas doutrinas como pretexto para fomentar a guerra), pela bondade, pela solidariedade, pela amizade e todos os valores que descendem do amor, em oposição à prepotência, a competição, a avareza, o egoísmo e a ganância. Essas são, na verdade, virtudes humanas, abraçadas por todos os que vêem o seu valor superior para a condução de uma vida plena, feliz e harmoniosa para toda a humanidade, mesmo que sejam ateus ou agnósticos. Assim, vejo essas datas (Natal e Páscoa), que são comemoradas pela maior parte da população, como uma excelente ocasião para reavivar esse espírito, mormente o de tolerância em relação a todas as crenças, especialmente quanto ao ateísmo e agnosticismo, visto por muitas pessoas como uma posição “do mal”, quando, na verdade, a maioria dos ateus e agnósticos são mais virtuosos e bondosos que muitos propalados fiéis que, na vida prática, comportam-se como hipócritas, falsos, aproveitadores, oportunistas e paladinos do vício e dos mais inconfessáveis comportamentos e atitudes. Além dessas virtudes outras há que serem fomentadas: aquelas ligadas à verdade, à justiça, à honestidade, à retidão. E mais: as ligadas à coragem, à fortaleza e à disposição para a luta pelo bem e o combate ao mal. Todas elas podem ser exemplarmente contempladas na pessoa do Cristo, que mesmo em sua simples humanidade, foi uma das maiores figuras históricas jamais surgidas. A imitação de seu comportamento e atitudes, mesmo discordando de sua pretensão em se considerar divino e não acreditando no fato de ter ressuscitado, pode e deve ser feita e isto, sem dúvida, trará grandes benefícios para a paz, a harmonia e a fraternidade entre os povos e na vida familiar e pessoal. Não possuir religião e não acreditar em Deus não exime ninguém da ética, da honestidade, da justiça e, principalmente, do amor e da bondade.

O que havia antes do Big Bang




Teoria do Big Bang




A teoria do Big Bang é um modelo que explica o fato observável das galáxias estarem afastando-se mutuamente. Sua formulação parte de uma solução das equações de Einstein para a gravitação, em que se considera o Universo como um todo como se fosse um fluido homogêneo e isotrópico. A obtenção de soluções para este modelo foi feita por Alexander Friedmann a partir das quais Georges Lemaître propôs o modelo do Big Bang, complementado pelo trabalho de George Gamow e Ralph Alpher. O nome da teoria foi dado por seu opositor Fred Hoyle.
Este artigo esclarece a maior parte dos pontos sobre a teoria:
http://en.wikipedia.org/wiki/Big_Bang_Theory
Infelizmente a versão em português não é tão completa.
É preciso entender bem que o Big Bang não foi, como se pensa, uma explosão de um conteúdo para um espaço vazio, mas sim um súbito e acelerado "inchamento" do próprio espaço, pois não há vazio fora do Universo. Não há nada e vazio não é nada e sim um espaço sem conteúdo (no nada não tem nem espaço). Todo o espaço do Universo sempre foi ocupado. Quando não é por matéria, tem-se o vácuo, que é ocupado só por campos e radiação. Não existe vazio no Universo (nem fora dele).
Para uma compreensão melhor, sugiro os livros:
"Big Bang", de Simon Sigh (Record) e "Os três Primeiros Minutos", de Steven Weinberg (Gradiva).




Origem do conteúdo primevo


A questão da origem do conteúdo primevo, que começou a se expandir, não é considerada na teoria do Big Bang, pois ela não se aplica às condições de alta densidade e temperatura de então. De fato a teoria só se aplica a partir do instante 10^(-43)s (tempo de Planck). Vejam este artigo:
http://en.wikipedia.org/wiki/Timeline_of_the_Big_Bang
Uma hipótese é que tal conteúdo (um campo denso e indiferenciado) já existia mas imperturbável, de tal forma que não havia passagem de tempo, que começou quando uma perturbação fortuita (não causada) deu início à expansão e ao transcurso do tempo. Outra hipótese é que tal conteúdo surgiu sem ser procedente de coisa alguma, de modo também fortuito e já começou a se expadir. Outra ainda é que ele seja o resultado de uma contração de um prévio Universo que terminou sua existência (incluindo seu espaço e seu tempo). Há mais possibilidades, como a conjectura dos muitos mundos (multiversos) e esta do "Universo Fecundo" de Smolin. Todavia tal hipótese encontra oposição de muitos físicos de bom calibre, como Leonard Susskind, Joe Silk, Joseph Polchinski e outros, como os proponentes da teoria das cordas e seus desdobramentos (p-branas e teoria M).
Concordo com Smolin em sua rejeição ao princípio antrópico, mas não vejo com simpatia a proposta de que a singularidade de um buraco-negro seja outro Universo. Para mim esta singularidade nada mais é do que um hiper-hiperon com a massa de toda a estrela em uma única partícula de densidade imensa (mas não infinita) em um volume não nulo, mas possivelmente da ordem do "volume de Planck", 10^(-105)m³, que seria o "quantum" de volume na teoria do loop gravitacional de Smolin.

Inexistência do tempo


Antes que o Universo começasse a se expandir, ou houve o surgimento do conteúdo a expandir ou ele estava presente, mas inteiramente estático. Em ambos os casos não havia decurso de tempo. O tempo não é algo que existe por conta própria. O tempo advém das mudanças de estado do conteúdo do Universo que caracterizam momentos, sendo sua ordem ditada pelo aumento de entropia. Assim, se nada se alterar, não há fluxo de tempo. É o que pode acontecer se houver a morte térmica do Universo, situação em que tudo estará em seu nível mínimo de energia e máximo de entropia, impossibilitando qualquer alteração de estado.

Matéria e antimatéria


Matéria e antimatéria não existiam antes do Big Bang. Suas partículas surgiram após a inflação, cerca de 10^(-36)s após o início. Antes disso devia ter surgido, do campo primordial, apenas os bósons de Higgs.

Assimetria bariogênica


A radiação de fundo provém do desacoplamento entre a matéria e a radiação, quando o Universo tornou-se transparente, 379.000 anos após o Big Bang. Até então o Universo era todo opaco (como o interior de uma única estrela) preenchido por um plasma de prótons, nêutrons, elétrons e fótons, que eram absorvidos e re-emitidos. Quando a tempertura tornou-se menor do que 3.000 K o plasma transformou-se em átomos neutros de hidorgênio e hélio (nucleosíntese primordial) e os fótons não foram mais absorvidos, passando a vagar pelo espaço. Com a expansão houve o resfiramento e a redução da frequência desses fótons, que hoje estão com 160GHz, correspondentes a microonda de 2,0mm de comprimento de onda, o que dá uma temperatura de 2,7K. Sua distribuição é altamente isotrópica (variação de 1 parte em 100.000).
Esse plasma anterior ao desacoplamento, por sua vez, originou-se da capitulação da antimatéria perante a matéria pela "violação da simetria CP (carga e paridade)", nas interações fracas (decaimento radioativo), uma vez que, o resfriamento do plasma inicial produziu igual número de partículas e antiparticulas. Esta é uma proposta de explicação. Isto significa que o decaimento radioativo de partículas e suas antipartículas não possuem a mesma taxa (meia vida). Se náo houvesse essa assimetria, todas as partículas se aniquilariam com suas antipartículas e o Universo só teria fótons (que não possuem antifótons). As partículas primordiais formadas eram híperons não estáveis, que decaem até prótons e nêutrons. Normalmente cada uma de um par formado é lançada em direções opostas (pela conservação do momentum), de modo que se aniquila com a oposta de outro par. Quem decair mais rapidamente terá mais chance de chegar até a final estável sem encontrar outra para aniquilar. Do total de partículas de matéria e antimatéria formados, a sobra de matéria é apenas um trilhonésimo do inicial (pois há um trilhão de fótons para cada próton, nêutron ou elétrona).

Outra explicação


Até onde alcança a observação do Universo (Universo Observável), não existe sinal de antimatéria no Universo. Todavia há muito mais Universo além do observável. O que pode também ter acontecido é que, durante a fase de inflação, houve um espalhamento de matéria de tal forma que alguns lugares houve predominância de antimatéria, outro de matéria, como é o caso de onde estamos. Mas os lugares em que a antimatéria predomina (e que é, de fato, a matéria de lá), estariam fora do alcance de nossa observação, isto é, fora do nosso cone de luz do passado (alhures).

Observações


Quando o campo indiferenciado primordial começou a expandir-se (e isto é o que se chama de Big Bang), logo apareceram as primeiras quantizações na forma de bósons de Higgs, que, logo, por sua vez, deram origem a quarks, antiquarks, leptons e antileptons (partículas fermiônicas). Os primeiros formaram hiperons e antihiperons que se aniquilavam ou decaiam e seus produtos de decaimento também se aniquilavam e decaiam naquela grande densidade, até pararem nos prótons e nêutrons. Isto fazia surgir fótons, mas estes não eram os da radiação de fundo, pois logo se transformavam em novas partículas, restando, após esta fase, apenas partículas (férmions) e fótons e não antipartículas, a não ser que tenham sido levadas pela inflação a regiões não observáveis do Universo. Este plasma de partículas permaneceu quase 400 mil anos interagindo enquanto o Universo se expandia, não mais inflacionariamente, até que a matéria (os férmions) se desacoplou da radiação, formando os átomos de Hidrogênio e Hélio e o Universo ficou transparente. Os fótons então existentes é que passaram a ser a radiação de fundo.
Quanto ao princípio cosmológico de homogeneidade e isotropia, ele é verificado em todo o Universo Observável e extendido, por hipótese, à região não observável. A presença de antimatéria não feriria tal princípio, já que ele se refere, especialmente, à densidade de massa-energia, à carga elétrica líquida, ao momento angular e ao momento linear, estes três últimos tendo valores médios nulos no Universo. A antimatéria não muda nenhum desses parâmetros.

A aniquilação da matéria com a antimatéria não é a causadora do Big Bang. Ela é posterior ao Big Bang. No Big Bang, não havia matéria nem antimatéria, nem radiação (fótons) mas apenas um campo indiferenciado (não era elétrico nem magnético, nem bosônico, nem fermiônico, nem gluônico, nem gravitacional, mas tudo isso ao mesmo tempo). A temperatura era a densidade de energia desse campo, que não possuia massa, pois massa é uma propriedade de partículas (quantizações de campo). Toda a massa e energia do atual Universo estava nele. O interessante é que, se o Universo é infinito, ele sempro o foi, mesmo no momento do Big Bang. Só que, então, sua densidade seria altíssima, mas extender-se-ia indefinidamente. Se o conteúdo primordial fosse limitado, entao o Universo é finito. Há controvérsias sobre isto. A expansão que se deu foi (e continua sendo) uma expansão do espaço, isto é, as coisas vão ficando mais longe umas das outras sem se afastarem, mas porque o espaço entre elas aumenta em si mesmo. Isto vale não só para galáxias, mas para qualquer distância, mesmo dentro do átomo. Nós estamos aumentando de tamanho junto com o Universo, mas isto é imperceptível no nosso tamanho.

Surgimento do conteúdo primevo


Não há necessidade de se considerar um processo cíclico para explicar a origem do conteúdo primordial que iniciou sua expansão no Big Bang. Tanto pode ser que seja proveniente de uma contração de um ciclo de tempo anterior (nesse caso haveria uma terminalidade do tempo anterior e um recomeço no novo Big Bang), mas não necessariamente. Inclusive os modelos cosmológicos de Universo fechado não implicam em ciclos. Pode ser que seja um único ciclo, que tenha um começo, um fim e pronto: acabou! Ao que parece, as medidas observacionais indicam um Universo em expansão indefinida, isto é, infinito e sem ciclos para o futuro. O erro experimental da medida da densidade de massa-energia do Universo faz com que os valores limites situem-se acima e abaixo do valor crítico de um espaço plano, que parece ser o real. Possivelmente o total de massa-energia seja nulo, como o são a carga e o momento linear e angular totais. Assim, mesmo que não haja necessidade de haver obediência a leis de conservação no surgimento do conteúdo primevo, pode ser que elas não tenham sido desobedecidas, isto é, o conteúdo total de tudo no Universo continua sendo nulo, como seria se não houvesse nada (nem conteúdo, nem espaço, nem tempo). Mas isto não é observacionalmente confirmando quanto à massa-energia (note que não falei matéria-energia, pois matéria, radiação e campo pertencem à categoria de entidades, enquanto massa e energia pertencem à categoria de atributos de entidades). Esse conteúdo primordial (com o espaço que lhe abriga) pode muito bem ter surgido sem ser proveniente de algo anterior ("do nada") e logo começado a expandir (originando o tempo).

A seta do tempo


A questão da seta do tempo pode ser melhor entendida quando se verifica que, fenomenologicamente, o tempo não é algo que existe por si mesmo, mas decorre do fato do estado do Universo sofrer alteração. Estados diferentes são associados a momentos diferentes e o ordenamento deles é dado pela ligação causal. A ligação causal só existe em sistemas complexos. Em sistemas simples os eventos são fortuitos e reversíveis, mas uma ocorrência que seja resultante de um grande número de eventos elementares terá uma relação de dependência com um outro estado que fica sendo a sua causa e cria um direcionamento temporal. Uma grandeza capaz de medir este sentido é a Entropia, pois as ocorrências macroscópicas são probabilísticas, sendo a entropia uma medida logarítimica da probabilidade de um macroestado, pela contagem do número de microestados acessíveis. Isto é, um efeito é um estado mais provável que sua causa, em termos do Universo como um todo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ideal de simplicidade


Existe uma noção de que as coisas simples são preferíveis às complexas. Esta é uma falsa noção. O que se deve buscar, em primeiro lugar, é a perfeição, entendida como a melhor adequação de cada coisa a seu propósito, de forma a produzir um resultado que atenda ao máximo de requisitos satisfatórios. Uma vez que isto seja obtido, dentre as possibilidades que assim o fazem, é preferível se optar pela mais simples, que envolva a menor complexidade. Mas não é interessante sacrificar-se a perfeição em favor da simplicidade. De um modo geral, os procedimentos mais eficazes são mais complexos. Veja-se o organismo humano ou uma nave espacial. A complexidade é quase uma exigência para a perfeição. Esta é a mesma discussão da dicotomia entre a eficiência e a eficácia. A primeira diz respeito a que o processo seja executado de forma mais econômica em termos de trabalho, tempo e custos. A segunda a que o produto atenda às pretensões a que se propõe. Considero que a eficácia seja prioritária em comparação com a eficiência. É mais importante um bom resultado do que um procedimento econômico. É claro que isto é uma questão de ponto de vista. Geralmente, no mundo dos negócios, o empresário quer eficiência, enquanto o consumidor quer eficácia. Aumento de eficiência, em geral, promove redução de eficácia, e vice-versa, em curvas de crescimento e decaimento cujo produto tem uma forma de sino, com um máximo no ponto de intercessão das curvas. O atendimento simultâneo dos dois lados do mercado estaria neste ponto. Contudo eu considero que a atividade empresarial tem sua justificativa no atendimento às demandas da sociedade e não da classe empresarial. O empresário possui uma delegação tácita da sociedade para empreender em benefício dela, pelo que tem a contrapartida do lucro. Mas o foco é o atendimento social, expresso pelo interesse do consumidor. Daí minha consideração de que a decisão ter que ser tomada no sentido da maior eficácia do que maior eficiência, mesmo com maior custo financeiro, logístico, energético (inclusive de trabalho humano) e de tempo. A solução para que isto não reflita em alta de preços é a redução da margem de lucro. Numa sociedade mais uniforme, em termos de distribuição de renda, como deve ser uma sociedade justa, não se podem admitir as altas margens de lucro praticadas em economias capitalistas selvagens como a nossa. Tudo isto pode ser melhorado pela a pulverização do capital, com a transformação dos empregados em sócios. E um caminho inverso ao da estatização e que pode levar a um socialismo anárquico, muito melhor do que a ditadura do proletariado, pois promoverá exatamente a extinção do proletariado e a transformação de toda a população em burguesia. Aliás este é o desejo dos proletários: não converter os burgueses em proletários, mas sim os proletários em burgueses. Pelo menos, é o desejo individual de cada proletário.

A verdade





Como conhecer a verdade


Ninguém pode pretender ser o conhecedor da verdade em relação a qualquer coisa. Não que a verdade seja inatingível. A verdade é a adequação entre a realidade em si mesma e o que se afirma a respeito dela. É pois uma propriedade lógica e não ontológica. Assim não existe uma coisa denominada "verdade" mas apenas um atributo das proposições (e dos juízos a que elas se referem) que lhes atribui a qualidade de estarem de acordo com a realidade em si. Surgem dois problemas: O que é a realidade em sí? Como saber se algum juízo sobre a realidade está de acordo com ela? A segunda questão se reporta aos critérios de verdade. Como estes são proposições por sua vez, há que se conferir se são verdadeiras, o que só pode ser aferido por outro critério. Isto leva a uma regressão infinita de critérios, que é o fundamento do ceticismo pirrônico, ao afirmar ser impossível ter-se o conhecimento da verdade sobre o que quer que seja. Como isto também é uma proposição, não se pode, pelo ceticismo, dizer que é verdadeira. Assim o ceticismo filosófico contém uma contradição intrínseca que, de pronto, lhe descarta como posição epistemologica válida. Há, pois, que se admitir, axiomaticamente, algum ponto de partida como critério de verdade e fazer uso dele na forma de uma crença, isto é, de uma proposição aceita sem comprovação como verdadeira. Este é o critério da evidência, constatada pelo órgãos sensoriais. Mas esta não é simplesmente uma evidência primária, pois os sentidos fornecem ilusões. A ciência possui muitos meios de testar cruzadamente o caráter de evidência. Algumas proposições, não evidentes por si mesmas, podem ter sua veracidade verificada por comprovação lógica com argumentos que, em última análise, se reportam a evidências sensoriais. Mas, de qualquer modo, é salutar se adotar um ceticismo metodológico, de forma que a certeza, dita absoluta, fica em suspenso indefinidamente, mas a veracidade é aceita provisoriamente até que alguma nova evidência venha a derrubá-la. Esta é a posição mais sensata.

A realidade


A primeira das questões levantadas diz respeito ao que venha a ser a realidade em sí. Existe uma realidade exterior à mente prescutante ou tudo não passa de uma imagem mental, sendo a única realidade a minha própria mente? Pode ser, e isto consiste no silopsismo. Todavia, a coincidência de descrições sobre o mundo exterior por várias mentes (se é que existem outras mentes) leva a uma tomada de atitude, sugerida pelo bom senso, de que o mundo exterior existe. Mas isto é uma crença. Não uma fé inabalável e irremovível, mas uma crença sensata, que a qualquer momento pode ser abandonada, caso argumentos poderosos venham derrubá-la. Esta questão da realidade merece um tópico à parte e só a estou levantando por sua ingerência na questão da verdade.
Assim, eu creio que existe uma realidade exterior independente de mim, que continua a existir mesmo que não haja mente nenhuma no Universo. Mas, como existem mentes, e eu tenho uma (quem é esse eu que é dono da minha mente é outra questão interessante para um tópico), ela procura compreender a realidade e emite juízos sobre ela, expresso por proposições, uma vez de que disponho de uma linguagem (ou juízos existem mesmo sem uma linguagem que os expresse). Então é válida a questão de saber se as proposições expressam a verdade ou não.
O critério de verdade que mencionei é o de valor objetivo, independente do particular sujeito que afirma o juízo. Mas há outra questão concernente à verdade que é o seu caráter subjetivo.

Verdade subjetiva


Como a percepção do mundo comunicada pelos sentidos não é necessariamente fiel, é possível que um sujeito afirme algo sobre a realidade exterior que, de acordo com sua percepção, é uma descrição fiel da realidade, mas que, segundo outros perceptores (que, inclusive, podem ser instrumentos inconscientes, como gravadores, câmaras ou filmadoras), não. Este sujeito tem para si mesmo que diz a verdade, mesmo que, objetivamente, não seja. Então ele não mente. Esta é uma questão jurídica primordial. Só se pode imputar culpa de faltar com a verdade se houver desacordo deliberado entre a percepção mental da realidade e o que o sujeito afirma sobre ela. Isto é mentira. Pode estar-se falando a verdade, de acordo com a própria percepção, sem que o que se afirme seja verdadeiro, objetivamente falando. A verdade, por isso, não pode ser aferida por testemunho verbal, não somente por este fato (da falha dos sentidos) mas porque o ser humano tem a capacidade de, deliberadamente, mentir. A única solução é o desenvolvimento de dispositivos confiáveis que analisem as funções mentais no momento em que se afirme algo, para verificar se se está mentindo ou não. Tais dispositivos não existem, por enquanto. Então há que se valer de provas objetivas para se apurar juricamente a verdade, sem o apelo a testemunhos. Para isto a ciênca forense, pelo menos nos países mais avançados, dispões de muitos instrumentos.


terça-feira, 23 de março de 2010

Primeira Classe de 24 de março



A programação do “Primeira Classe” do dia 24 de março de 2010 será dedicada a “Concertos para Piano”.
Serão ouvidos os seguintes:
Schumann – Lá menor, op. 54
Grieg – Lá menor, op 16
Tchaikovsky – Sol maior, op. 44 (nº 2)
Glasunov – Mi maior, op. 100 (nº 2)

Informações sobre as obras podem ser achadas em:
http://en.wikipedia.org/wiki/Piano_Concerto_(Schumann) ,
http://www.naxos.com/mainsite/blurbs_reviews.asp?item_code=8.553268&catNum=553268&filetype=About this Recording&language=English# ,
http://en.wikipedia.org/wiki/Grieg_piano_concerto ,
http://www.naxos.com/mainsite/blurbs_reviews.asp?item_code=8.550118&catNum=550118&filetype=About this Recording&language=English# ,
http://en.wikipedia.org/wiki/Piano_Concerto_No._2_(Tchaikovsky) ,
http://www.naxos.com/mainsite/blurbs_reviews.asp?item_code=8.557824&catNum=557824&filetype=About this Recording&language=English# ,
http://www.naxos.com/mainsite/blurbs_reviews.asp?item_code=8.553928&catNum=553928&filetype=About this Recording&language=English#

O programa “Primeira Classe” pode é produzido e apresentado por mim na Rádio FM universitária da Universidade Federal de Viçosa, em 100,7 MHz em Viçosa, Minas. Também pode ser sintonizado pela internet, através do site www.rtv.ufv.br . O horário é às quartas feiras, das 20 às 22 horas.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Filosofia Científica



Cientifização da Filosofia

Ao longo da história a Filosofia foi gradativamente perdendo lugar para a Ciência. Considero que isto não apenas seja inevitável mas, realmente, bom. E veja que me considero um filósofo. O método filosófico se centra em conceituação, exame, reflexão e conclusão. Tudo isto feito de forma puramente racional, isto é, sem apelo a verificações empíricas. Contudo, à medida que a ciência forneceu meios de se obter tais verificações, as conclusões filosóficas sobre os temas considerados perderam sentido, pois, se concordassem com a ciência, seriam científicas e se discordassem, seriam descartadas. Pode ser que haja algo que resista a toda tentativa científica de abordagem e permaneça estritamente filosófico, mas o que percebo é que o escopo de abrangência da Filosofia tende a diminuir. A não ser que se passe a considerar a Filosofia como uma ciência, fazendo uso de métodos científicos e apenas mantendo o nome de Filosofia em razão dos objetos de estudo a que se dedicar, como ética, epistemologia, metafísica ou outro. Cosmologia já vimos que é ciência. Psicologia também não é mais filosófica, depois da introdução das neurociências. A lógica parece não ser científica, mas há correntes que consideram que ela decorre do comportamento da natureza. Esta proposta de uma Filosofia Científica eu já fiz em várias comunidades do orkut e está em discussão.

Filosofia Científica

Faço, pois, minha proposta de uma nova abordagem da filosofia, que denomino “Filosofia Científica”. Em que consiste? A Filosofia é uma disciplina que se dedica à busca do saber e à obtenção da sabedoria. A Ciência também é uma busca do conhecimento, mas os métodos e os objetos não são os mesmos. A Ciência (os as ciências) busca o conhecimento das entidades e fenômenos de modo sistematizado e fundamentado em evidências e comprovações, pela formulação e testes de hipóteses, com o uso de metodologias que aferem seus modelos explicativos com a realidade objetiva do mundo, tanto natural quanto das idéias. Mas se atém aos níveis imediato e mediato das relações entre seus objetos de estudo. A Filosofia, por sua vez, procura as razões fundamentais, as causas primeiras, as últimas consequências. Não só os “comos”, mas, principalmente, os “porquês”. Nessa busca, principalmente voltada para tirar lições de vida, a Filosofia se vale principalmente da especulação, que consiste na aplicação do raciocínio ao objeto de estudo, para tirar conclusões racionais. É um processo de reflexão sobre a realidade em suas múltiplas facetas, que conduz à formulação de esquemas interpretativos e explicativos. Nesse mister muito valiosos são os conhecimentos de lógica e linguística (no sentido mais amplo de uma ciência dos signos) pois que qualquer explicação é uma representação simbólica da realidade. A Filosofia dita analítica, corrente predominante no mundo anglo-saxão do século XX, envereda por uma abordagem diferente da especulativa, justamente por fazer uso maior dos métodos lógicos e linguísticos. O que eu proponho vai mais adiante. O que estou denominando “Filosofia Científica” é uma abordagem dos objetos pertinentes à Filosofia por uma perspectiva científica. Isto evita a existência de “escolas de pensamento”, colocando as explicações num patamar superior ao de “opiniões” ou “modos de ver”, permitindo que se chegue a um consenso da comunidade filosófica.

Desta maneira, qualquer tema filosófico, é analisado, não só pela reflexão e cotejo de tudo o que já foi dito a respeito com os dados da realidade, mas que as propostas de explicação sejam consideradas com o status de “hipóteses” a serem testadas em suas consequências com o uso de toda a metodologia científica existente. Este tipo de procedimento permite convergir as explicações para uma explicação única, evitando-se “interpretações” segundo as diferentes escolas. É o tipo de coisa que falta, por exemplo, na Psicologia. A Psicanálise é uma interpretação, de acordo com uma escola de pensamento. Não é o que ocorre na Medicina, por exemplo. Quando se descobre uma nova e melhor explicação para certa doença, por exemplo, as anteriores são abandonadas (o que ocorreu, recentemente, com a questão da úlcera gástrica). O mesmo se dá na Física. É esta forma de ser científica que estou propondo para a Filosofia. Quero que neste tópico sejam apresentadas ponderações e argumentos favoráveis e contrários, para que possamos ver a questão de uma modo mais iluminado. Por outro lado também seria interessante que se colocassem de que modo isto poderia (ou não poderia) ser feito no domínio da Metafísica, da Ética, da Estética, da Epistemologia, da Política, da Lógica, da Psicologia e dos outros temas abordados pela Filosofia.

O modelo da Física

O positivismo exclui a metafísica e considera inacessível a busca dos “porquês”, centrando-se na pesquisa científica dos “comos”. O positivismo é uma anti-filosofia. Não estou propondo que a metafísica e a filosofia sejam extintas e nem que se desista da investigação das causas primeiras nem dos fins últimos. O que proponho é que, nesta investigação, mesmo que se aplique a especulação, o critério de aferição da veracidade dos juízos que forem estabelecidos seja um critério científico. As escolas podem existir na escolha das definições, pois estas são arbitrárias. O ideal é a obtenção de um consenso. No caso das ciências, existem comitês que se reúnem periódicamente e dão a chancela às definições que devem ser adotadas pela comunidade. Isto poderia ocorrer com a filosofia. A existência de escolas na sociologia, na psicologia, na filosofia, na economia e em outras ciências, principalmente nas sociais, no meu modo de ser, enfraquece essas ciências, pois revela insegurança no conhecimento. Nas ciências naturais, especialmente nas exatas, a existências de mais de uma explicação alternativa é sempre uma condição provisória, até que uma delas se estabeleça como o padrão. Novas explicações sempre surgem para novos fenômenos, mas elas permanecem como hipóteses até que o consenso geral da comunidade científica as eleve ao estágio de teorias, no qual permanecem até que novos fatos venham requerer sua revisão. Este modelo de estrutura de ciência, mais nitidamente observado na Física, para mim, é um padrão ideal ao qual devem aspirar as demais ciências para que tenham um grau maior de confiabilidade.

A permanência das escolas na Filosofia

Na Física e na Química, quando uma teoria é contestada e substituída por outra, a anterior passa a ser considerada errada ou, no máximo, uma aproximação. Assim ocorreu quando a teoria cinética da matéria sepultou a teoria do calórico, quando a teoria atômica explicou a estrutura da matéria, quando a teoria da relatividade substituiu a mecânica newtoniana, quando a física quântica suplantou a física clássica, quando a teoria eletromagnética soterrou a teoria corpuscular da luz e em várias outras situações. Hoje em dia, a cromodinâmica quântica e a relatividade geral são as teorias estabelecidas para o micro e o macro-cosmo. Mas estão sendo contestadas pelas hipóteses (impropriamente denominadas teorias) das super-cordas e das p-branas. Estas, contudo, ainda não estão estabelecidas (e pode ser que nem o sejam). Mesmo reconhecendo o grande valor de Newton, nenhum físico é adepto de suas teorias. Não é o que ocorre na Filosofia. Novas correntes surgem, mas não substituem as antigas. Ainda existem platônicos, tomistas e kantianos, ao lado de existencialistas, estruturalistas, fenomenologistas e outros “istas”. Ora, se uma nova visão da realidade for proposta, penso que deva mostrar cabalmente que as anteriores estavam erradas, de modo que ninguém mais as adote, exceto como objeto de estudo histórico. Este também é o problema da psicologia, que admite a coexistência de escolas mutuamente exclusivas ao mesmo tempo. Não é possível que a explicação dos fatos psíquicos possa ser igualmente dada por teorias antagônicas. Ou uma ou outra ou nenhuma delas. Por isso é que acho que a psicologia tem que ser integrada à medicina, como parte da neurologia. É este tipo de problema que vejo existir na economia e na sociologia, que me fazem desacreditar de todas as explicações econômicas. Trata-se da falta de “cientificidade”.

O “Salto de Fé” científico

As explicações das ciências se dão por raciocínio indutivo (mesmo na Matemática, como exporei depois). Ao passar do particular para o geral, realmente se dá um “salto de fé”. Prefiro usar o termo “crença”, uma vez que reservo o termo “fé” para uma crença sem fundamento. Ao se estabelecer uma lei física com base em experimentos, a ciência acredita em sua validade enquanto as consequências advindas dela forem corroboradas experimentalmente. Tão logo um fenômeno a contrarie, ela é revisada. Não é o que ocorre com a fé religiosa. Esse mesmo tipo de coisa se dá com os modelos explicativos da origem do Universo. Com base nas teorias existente e nos dados observacionais, traça-se um quadro plausível que explique essa orígem. Desse quadro, com as mesmas teorias, são preditas consequências passíveis de verificação. Enquanto tudo permanecer OK a explicação é mantida. Se outras alternativas forem formuladas, busca-se um “diagnóstico diferencial” que permita optar por uma delas. Quando novos dados observacionais exigirem, correções ao modelo são introduzidas, ou mesmo, uma revisão completa é procedida. É assim que caminha a ciência, que nunca pretende possuir a verdade definitiva.

Matemática, uma ciência experimental

A Matemática é o exemplo de uma estrutura lógica. Contudo não difere essencialmente da Física. Tomemos a teoria dos números. Tudo tem por base os axiomas de Peano. Deles se constroem os números naturais, dos quais saem os inteiros, os racionais, os reais, os complexos, os quatérnios, as matrizes, os tensores, as funções, os funcionais, os operadores, os limites, as derivadas, as integrais, as formas diferenciais e toda a aritmética, a álgebra e a análise. Tudo segue um esquema dedutivo, sobre entidades convenientemente definidas (e as definições são arbitrárias). Poucos axiomas são adicionados. O mesmo se dá na geometria, inclusive as não euclideanas. Mas estes axiomas, de onde vêm? E as leis da lógica, que se usam para deduzir os teoremas? Não é interessante que a Matemática tenha o poder de conseguir prever o comportamento da natureza, quando as leis que descrevem os fenômenos são matematicamente expressas? Isto não é coincidência. Os axiomas só levam a teorias que espelhem a realidade quando são abstrações de ocorrências concretas do mundo real. A operação de soma dos números naturais, advinda da definição de “sucessor” é uma abstração da elementar prática de contagem nos dedos, por exemplo. A mente do matemático não construiu esses axiomas a partir do nada, mas deu uma fundamentação teórica a conhecimentos empíricos do homem desde a pré-história. Mesmo noções sofisticadas, como a dos números reais e de limites (a partir dos cortes de Dedekind ou dos intervalos de Cauchy), são teorizações de noções intuitivas. Todo matemático, ao demonstrar um teorema, em sua mente, constrói imagens concretas e intuitivas do que está pensando e, então, formaliza, na linguagem matemática, o que concluiu. Assim digo, com segurança, que os axiomas matemáticos não diferem das leis físicas, no que diz respeito ao fato de serem generalizações induzidas a partir de observações particulares e aceitos por um ato de “fé”.

Psicologia

A psicologia, para mim, é uma ciência natural, um ramo da neurologia, que faz parte da biologia. Até o momento não vi nenhuma comprovação cabal da existência de uma mente como entidade independente do cérebro. Como em toda ciência, a psicologia deve se libertar da existência de “escolas” e se fixar em fatos, de modo a se ter uma única psicologia, baseada em evidências. Interpretações podem e devem ser propostas, mas consideradas como provisórias até comprovação. Pelo conhecimento que tenho, o cérebro, realmente, não se programa. Sua programação é algo que se desenvolve desde o embrião e se completa ao longo da vida, em função dos estímulos sensoriais. Se uma pessoa completamente desprovida de sentidos pensa ou não, é algo difícil de se estabelecer. Seria preciso que um caso real ocorresse e, então, fossem desenvolvidos métodos experimentais para se investigar que tipo de evidências externas (como um eletroencefalograma ou que aspectos de uma imgem de ressonância magnética nuclear) seriam indicativos do ato de pensar. Não sei se isto já existe. Como um mero palpite, digo que não. Uma experiência interessante poderia ser feita com surdo-mudos de nascença, que não tenham adquirido nenhuma linguagem alternativa à fala. Seu pensamento se daria diretamente com imagens visuais, táteis, térmicas, olfativas e outras não auditivas. Seria um “pensar sem palavras”. Mas pensar sem imagem sensorial nenhuma, não sei se seria possível ou mesmo se este ser teria algum tipo de vida psíquica. Pelo menos, para poder fazer funcionar o próprio organismo, os sentidos internos de funcionamento dos órgãos teriam que existir.

Exatidão das ciências

É preciso entender o que se pretende dizer com o caráter “exato” de uma ciência. Em termos de exatidão do valor de uma grandeza, nenhuma ciência que trata da realidade concreta é exata como a Matemática, que tem por objeto abstrações (números, figuras). A questão, no meu entender, refere-se ao modelamento da realidade que a ciência pretende desenhar. Nas ciências ditas “exatas” (física, química), o modelamento é aceito como um padrão pela comunidade, até que seja derrubado por novas evidências. Nas demais ciências, mormente nas humanas (e economia, por exemplo, é uma ciência humana), não há um modelo padrão da realidade, mas sim múltiplas propostas, segundo diferentes “escolas de pensamento”. É o que ocorre na sociologia, na psicologia e na economia, por exemplo. Neste sentido é que se diz que elas não são exatas, pois não há modelo preditivo algum que permita, uma vez conhecidas as condições de entrada de algum fenômeno por elas descrito, estabelecer uma única saída prevista, mesmo que dentro de certa imprecisão. Na Física e na Química os fenômenos podem ser bem controlados. Mesmo assim há imprecisões, devidas à falta de controle sobre os dados de entrada, como na meteorologia (que, além disto, é extremamente complexa). E não se pode esquecer da incerteza intrínseca que a própria Mecânica Quântica demonstra existir na natureza. Deste modo a resposta pode ser sim ou não, dependendo do que se pretende dizer com esta exatidão.

Corte epistemológico

O fato das ciências terem para objeto aspectos particulares da realidade enquanto a filosofia cuida do todo, no meu entendimento, não impede a aplicação do método científico à filosofia. A questão de que, em filosofia, não se admite o corte epistemológico, segundo o qual as novas explicações superam as anteriores (no sentido de Bachelar). A aplicação do método científico sempre levaria a decidir por esta ou aquela concepção. É isto que desejo ver ocorrer na filosofia, sem renunciar à sua abrangência.
Além da Filosofia Analítica outra concepção que se aproxima desta vertente científica é a “Filosofia Concreta ” de Mário Ferreira dos Santos que, confesso, não conheço em detalhes.
Não gostaria de adjetivar a Filosofia de modo algum. Considero que filosofia é apenas “Filosofia”. Mas gostaria de ver esta rainha estabelecida de uma forma inequívoca e independente de concepções particulares.
Neste sentido é que faço esta proposta, não para encarcerar a Filosofia ou podar qualquer abertura, mas sim para que as discussões sejam levadas a cabo, no debate entre várias correntes, a fim de que se chegue à aceitação generalizada de tal ou qual concepção a respeito de cada tema. Esta também é a maneira como gostaria que fosse a psicologia, a sociologia e a economia, por exemplo.

O método científico

A colocação de que a ciência se constrói a partir do teste de hipóteses a serem verificadas e que elas precisam ser falseáveis para serem científicas é apenas a metade da história (ou, até mesmo, menos da metade). O mais importante da ciência não é o teste das hipóteses mas a formulação das hipóteses. E, para isto, não há método estabelecido. Existem procedimentos, os mais variados, tanto experimentais quanto mentais, para se elaborar uma hipótese. Isto os cientistas não publicam em seus trabalhos de pesquisa. Eles não contam o “pulo do gato”. Não relatam seus palpites frustados. Sim, palpites, opiniões. É assim que eles elaboram as hipóteses e as testam. Mas só publicam as que passam nos testes. As outras vão para o lixo, mas constituem uma importante etapa da construção do conhecimento. O treinamento de um cientista, nos cursos de doutorado, não aborda essas coisas. Na formulação da hipótese entra mais a intuição do que a razão. Entra até o inconsciente. Como se sabe, muitos cientistas obtiveram a solução de seus problemas em sonhos. Há que se aplicar a lógica e o método no trabalho científico, mas eles padecem de um grande defeito: não são criativos. O verdadeiro progresso da ciência se dá sem método. É sem método que as grandes revoluções de mudança de paradigmas ocorrem. São os “insignts” do inconsciente que levaram Planck a trocar uma integral por um somatório e criar a mecânica quântica no estudo da radiação de corpo negro ou Einstein a postular a constância da velocidade da luz ao tentar justificar o sucesso das transformações de Lorentz em explicar o resultado negativo da experiência de Michelson-Morley.

Ética Científica

Seria possível uma abordagem científica da ética? Distinguindo a ética da moral eu diria que enquanto a moral é uma disciplina normativa, isto é, trata das prescrições que devem ser seguidas nas ações humanas, para que sejam conformes aos costumes estabelecidos por certa sociedade, a fim de preservar a convivência, a ética é o estabelecimento dos princípios a que devem se ajustar as prescrições morais e em que devem eles ser baseados. Assim a moral não seria científica (nem mesmo filosófica), mesmo que se leve em conta que as razões para o comportamento moral não estão em nenhuma punição, recompensa ou manutenção da reputação, mas no próprio imperativo do dever, sem recompensa, policiado apenas pela própria consciência. A ética, por outro lado, é filosófica, e inquire a razão e o propósito da conduta moral, o estabelecimento das noções de bem (ou bom) e mal (ou mau), bem como o escalonamento dos valores das ações humanas. A ética, pois, cuida do fazer humano (ou de outro ser consciente) e não das coisas e dos seres. Assim caracterizada pode a ética ser abordada sob uma perspectiva científica e, eu diria até, quantitativa (matemática). Os conceitos de felicidade e prazer, por exemplo, podem ser perfeitamente quantificados e eles possuem relevante papel na definição do valor de uma ação. Não estou fechando questão sobre isto, mas considero possível tal tipo de abordagem. Acho que se pode, inclusive, atribuir o caráter matemático de um “funcional” (próprio do cálculo variacional) e, portanto, considerar como grandeza, o nível de felicidade, cientificamente estabelecido em alguma espécie de escala, como se faz na quantificação da percepção do som, da cor, do cheiro, do sabor, da temperatura, da pressão etc. Tudo medido em termos de níveis de serotonina ou outros neurotransmissores que se mostrem relevantes na questão. O mesmo pode ser desenvolvido com relação à quantificação da dor (tanto física como emocional ou moral). Um aparelho medidor de dor, tipo de pressão arterial ou de glicose poderia ser desenvolvido.

Quanto a uma equação matemática para a medida do nível de felicidade ou do caráter bom ou mal de uma ação, ela ainda não existe. O que eu disse é que poderia ser desenvolvida, como o há para a percepção de cor, por exemplo. Um primeira abordagem seria, por exemplo, atribuir uma escala de nível de satisfação (ou prazer) a partir da medição de algum indicador a ser determinado (por exemplo, nível de serotonina), ou da amplitude de alguma onda eletroencefalográfica. Pesquisas precisariam ser feitas para determinar a correlação entre vários indicativos de prazer e dor. Isto é trabalho para uma linha de pesquisa em alguma (ou várias) universidades, que podem gerar inúmeras teses de doutorado ao longo de muitos anos, até que se tenha um índice confiável e inconteste. Trata-se de um tema interdisciplinar da neurologia e da psicologia (que, alíás, tendem a se unir em uma disciplina só).
De posse desse índice, poder-se-ia calcular uma integral da função desse indíce ao longo do tempo para expressar um valor extensivo, já que o índice seria intensivo. Possivelmente poderia haver mais de um índice, levando à criação de uma espécie de tensor, e à definição do parâmetro indicativo da quantidade de felicidade como, por exemplo, a norma ou o traço desse tensor (haveria que se devinir um “espaço de felicidade”, como existe o “espaço de cores” , tendo que se achar quantas dimensões teria esse espaço (o de cores tem três, isto é, é póssível descrever qualquer cor como um combinação linear de três vetores de base, e não mais que três)). O caráter ético poderia ser expresso como um somatório da quantidade de felicidade a ser criada pela ação, tomado sobre todos os seres que por ela viessem a ser influenciados ao longo do tempo. O mais importante não é se definir precisamente qual é esse valor, mas se conceber que é algo passível de ser determinado, colocando, deste modo, a ética num patamar científico e quantitativo.

domingo, 14 de março de 2010

Nebulosa Borboleta


Concluí hoje a pintura de mais uma tela em acrílico, pintada com pincel chato macio.

NEBULOSA BORBOLETA
NGC 6302
Nebulosa Planetária remanescente de Supernova
Constelação de Escorpião
Descoberto em 1888
Estudada em 1907 por Edward Emerson Barnard
Ascenção reta: 17h 13m 44,211s
Declinação: - 37° 06' 15,94”
Distância: 3.400 anos-luz (1.040 parsecs)
Diâmetro: 1,5anos-luz
Dimensão aparente: 3,0'
Magnitude aparente: +7,1
Magnitude absoluta: -3,0
Velocidade de expansão: 200 km/s (parte central) até 600 km/h (periferia)
ESTRELA CENTRAL
Explosão presumida há 1.900 anos
Temperatura superficial: 200.000 K

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