Sou brasileiro e não quero deixar o Brasil. Pelo contrário, quero ficar para melhorá-lo em tudo o que ele não tem de bom. O que não gosto no brasileiro e sempre faço o maior esforço, na vida pessoal e profissional, para ver se conserto é o seguinte:
1. Preguiça – Fico impressionado como grande parte do povo brasileiro é preguiçoso. Nem um pouco diligente, operoso e trabalhador. Para mim esta é uma das principais razões do atraso nacional. Aceitam tudo mais ou menos para não ter o trabalho de fazer bem feito. Não arregaçam as mangas e pegam duro no trabalho para que o resultado seja excelente. Contentam-se com o sofrível para não se cansar.
2. Irresponsabilidade – Outra falha grave: falta de compromisso, descaso, indiferença. Não cumprem o que ficou combinado, se isto lhe causar prejuízo. Trato é trato e tem que ser cumprido, mesmo que se tome prejuízo. Não é uma questão de ser mais vantajoso. É uma questão de honra. Chegam atrasados e fazem descaso da pontualidade. E quem é pontual é tido como enjoado. Não cumprem prazos de entrega e prometem o que não vão conseguir cumprir, só para não perder a encomenda. Isto é venalidade.
3. Mediocridade – Tem a ver com a preguiça. Ninguém quer saber de nada. Ter conhecimentos é considerado um estorvo. Ninguém estuda a não ser que seja absolutamente necessário. É uma falta de cultura geral generalizada e mesmo no seu campo profissional, poucos são os que vão além do que é exigido. Daí a mediocridade geral. Não se lê. Apenas se vê idiotamente televisão, o que é embotante para o cérebro.
4. Maledicência – É terrível como o brasileiro adora falar mal dos outros e fazer fofoca, ao invés de procurar levar as pessoas a uma conduta correta. Passar horas falando dos outros parece ser o esporte preferido e nada construtivo para o bem geral.
5. Tolerância – Não estou falando em tolerância com respeito a modos de pensar e viver diferentes. Estou falando em tolerar erros, dos outros e de si mesmo. Isto é terrível. Não se reclama, não se toma providências contra pessoas que não cumprem o combinado. Deixa-se para lá, para não ter dor de cabeça. Não se é exigente com a qualidade dos serviços e produtos que se compra e que se vende. Tanto faz, está bom assim… Desse jeito nunca seremos uma nação verdadeiramente de primeiro mundo.
6. Jeitinho – É terrível como o brasileiro gosta de “dar um jeitinho” e não resolver os problemas da forma correta. Isto tem a ver com preguiça também. Assim fica tudo “gambiarrado”, à moda do MacGyver. Não digo que isto muitas vezes não seja criatividade. A questão é que “gambiarras” só podem ser admitidas de forma excepcional, para resolver “provisoriamente” uma questão urgente que não se tem como resolver da forma correta. Só que o brasileiro deixa o provisoriamente para sempre e as coisas ficam por isso mesmo. Aí é que é o problema.
7. Omissão – As pessoas nunca tem a ver com nada de errado de que tomam conhecimento. Não tomam iniciativa de consertar o que vêm errado, não se envolvem com os problemas que não lhe dizem diretamente a respeito, não se arriscam para consertar os malfeitos. Omitem-se em denunciar as falcatruas dos governantes e o que vêm sendo feito errado pelos outros só para não ter dor de cabeça. Ora, que se tenha a dor de cabeça, mas não se deixe as coisas acontecerem erradas sem tomar uma atitude. Todo mundo tem sempre a ver com tudo aquilo de que toma conhecimento. Não pode lavar as mãos e dizer que não tem nada a ver com o caso. Se está sabendo, tem a ver sim. E se não faz nada a respeito, é um calhorda.
8. Credulidade – O brasileiro acredita em quase tudo sem verificar a validade. Esta falta de ceticismo é extremamente prejudicial. Não só nas crenças em superstições e pseudo-ciências, como astrologia, numerologia, simpatias e benzeduras, mas nas promessas falsas de políticos em campanha e na conversa fiada de negociantes inescrupulosos. Falta muita racionalidade no pensar do brasileiro em relação às ocorrências do cotidiano. A proliferações de religiões que prometem prosperidade em troca do dízimo é uma vergonha. Mesmo aquelas que prometem a salvação em troca da prática do bem. Fazer o bem é algo que se tem que fazer por seu valor intrínseco e não por recompensa de nenhuma espécie, nem pela salvação eterna. É sempre bom checar a validade das promessas de qualquer ordem.
Além dessas atitudes que elenquei, quero ressaltar que não gosto de calor, de futebol, de esportes em geral, de malhação, de carnaval, de funk, de axé, de comício, de política, de economia, de negócios, de velório, de feiúra, de cerveja, de fumo (nem dos outros), de ver TV. Mas isto são minhas idiossincrasias. Não acho que sejam coisas erradas em si. Mas também não gosto de empáfia, fofoca, sebosismo, gabolice, confiança excessiva, gente folgada, entrona, espaçosa, mentirosa, turrona e fanfarrona. E isto eu acho que é errado mesmo. Também não gosto de burro nem de ignorante, mas dou um desconto se for uma boa pessoa, pois não tem culpa de ser assim. Mas burro e ignorante teimoso é dose.
Por outro lado gosto de muita coisa: de amar, de namorar, de pensar, de ler, de estudar, de filosofar, de cantar, de tocar piano, de música clássica, de ópera, de poesia, de escrever, de pintar, de desenhar, de compor, de conversar, de passear, de viajar, de fotografar, de boa comida, de vinho, de chá, de destilados, de internetar, de programar, de assistir bons filmes, de matemática, de física, de cosmologia, de astronomia, de biologia, de filosofia, de geologia, de geografia, de história, enfim, de centenas de coisas que me estimulem o cérebro e os sentidos de forma refinada.
Em relação ao Brasil e ao povo brasileiro, gosto de sua solidariedade, sua hospitalidade, sua alegria, sua criatividade e sua irreverência (mas nem tanto).
Postagens do pensamento, textos, poemas, fotos, musicas, atividades, comentarios e o que mais for de interesse filosófico, científico, cultural, artístico ou pessoal de Ernesto von Rückert.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
O que você não gosta no povo brasileiro?
Aviso aos navegantes
Estou com o tempo muito restrito para responder ao Formspring e as perguntas chegam à razão de sete por dia. Não conseguirei responder a mais de duas. Já existem 430 acumuladas, algumas com um ano. Já respondi a quase 1700, em um ano que estou aqui. Não tem outro jeito. Tenham paciência.
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Comparando com 10 anos atrás, você acha que hoje em dia é mais ou é menos perigoso sair do namoro virtual e ir para algo Real?
Mais perigoso, porque cada vez mais aumenta o número de pessoas mal-intencionadas e dispostas a enganar os outros para tirar algum proveito. Mas isto não significa que se deva descartar esta possibilidade, se se tomar as devidas cautelas. Mesmo nos relacionamentos não virtuais há riscos. O que não se pode é assumir compromissos antes de um conhecimento direto mais profundo. É importante, no meu entender, em todo relacionamento amoroso, que ele seja baseado apenas no amor e nas afinidades e não em outros aspectos, especialmente econômicos. Depois que o relacionamento já estiver consolidado em bases afetivas apenas, pode-se assumir outros compromissos, como o apoio mútuo, inclusive econômico. Essas cautelas não se aplicam apenas aos relacionamentos de origem virtual. Mas não se pode dizer não ao amor só por causa das cautelas.
O que vem por último no átomo? Quark? E antes disso?
A matéria é constituída de átomos, que possuem um núcleo com prótons e nêutrons, envolvidos por elétrons. O espaço entre eles é preenchido pelo campo elétrico no núcleo. Além disso existem partículas instáveis que são emitidas e absorvidas dentro do núcleo, como vários mésons e os campos das interações nucleares fraca e forte. Os prótons e nêutrons são bárions, constituídos de quarks (1up, 2down=neutron; 2up,1down=próton). Os elétrons são léptons não constituídos de nada mais fundamental do que eles mesmos. Todas estas partículas elementares (quarks e leptons) são quantizações de algum campo de matéria. A teoria das supercordas considera que elas sejam cordas em forma de anéis, ao invés de esferas. A teoria das branas considera que essas cordas sejam tubos enrolados. De que seriam feitos esses tubos ou essas cordas? De concentrações do campo de matéria. De fato, o componente básico de todo o conteúdo do Universo, tanto das partículas materiais, que são férmions, quanto das mensageiras das interações, que são bósons, é, simplesmente "campo", que não é feito de nada mais primitivo do que ele. Há vários tipos de campo, da matéria bariônica, leptônica, dos bósons das interações forte (gluons), fraca (W e Z), eletromagnética (fóton). A interação gravitacional também seria mediada por um bóson, o graviton. Mas ainda não há uma teoria comprovada que o inclua num mesmo esquema dos outros, o que a teoria das supercordas e branas pretende. Só que ainda é uma hipótese e não uma teoria. Para todos os efeitos, a gravitação é o resultado do encurvamento e, possivelmente torção, do espaço-tempo.
o campo gravitacional não será exercido pela masssa do átomo?
Sim, não só pela massa dos átomos mas por todo o conteúdo energético do sistema gravitante. A própria massa de um átomo ou molécula inclui a massa de repouso de suas partículas constitutivas e o conteúdo de energia, devidamente convertido em massa por E=mc², proveniente das interações e dos movimentos existentes dentro do sistema. Isto inclui as energias cinéticas translacionais, rotacionais e vibracionais, relativas ao centro de massa do sistema e as energias potenciais elétricas e nucleares e, até mesmo, gravitacionais, pois a gravitação é autoalimentada.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Professor, O que o senhor acha do argumento da contingência? Até mais!
O Willian Craig argumenta que:
1. Tudo o que existe tem uma explicação para a existência.
2. Se a existência do Universo tem uma explicação, ela é Deus.
3. O Universo existe.
4. De 1 e 3 segue-se que a existência do Universo tem uma explicação.
5. De 2 e 4 segue-se que Deus é a explicação para a existência do Universo.
Este argumento é logicamente válido, mas a conclusão é falsa porque as premissas 1 e 2 são falsas. A 3 é óbvia.
O primeiro problema é que o significado de explicação tomado na premissa 2 não é o mesmo da premissa 1.
Explicação não é sinônimo de causa. Tudo o que existe, ou sempre existiu ou passou a existir num momento. O evento da passagem da inexistência para a existência pode ou não ter causa. Causa é um evento que determina a ocorrência de outro. Eu disse determina, e não possibilita. O que possibilita chama-se condição. Nem todo evento possui causa, mas sempre possui condição. Isto acontece a todo momento, por exemplo, com o decaimento radioativo e com a emissão de fótons por átomos excitados. Então não é obrigatória que a passagem do Universo da inexistência para a existência tenha que ter tido uma causa, mesmo que tenha uma explicação. A explicação pode ser que tenha sido um evento fortuito, sem nada que o provocasse.
Na segunda premissa está se considerando que a palavra explicação signifique causa e que ela seja Deus.
É claro que o que está se entendendo por Deus neste contexto não é o ser pessoal que as religiões abrahãmicas concebem. Trata-se de uma entidade extrínseca ao Universo, portanto não substancialmente constituída de matéria, radiação e campos, sem extensão espacial e sem duração temporal, pois, sem o Universo, nada disso existe e Deus existiria. A propriedade essencial dessa entidade é seu poder de agir à revelia das leis naturais, podendo fazer surgir qualquer coisa sem que seja proveniente de algo precedente, como aconteceu com o surgimento do Universo, pois não havia nada de que ele pudesse provir, caso contrário ele já existiria e estaria apenas sofrendo uma transformação. Ou então Deus faria o Universo de si mesmo, o que seria tão exótico quanto surgir de nada, pois Deus não é natural. O que a premissa 2 deveria dizer é que, se o surgimento do Universo teve uma causa, ela seria extrínseca ao Universo, tendo sido provocada por algo que se enquadra no conceito acima descrito de Deus. Nisto está subentendido que todo evento é uma ocorrência que tem que se dar com algum ser, ou seja, com algum ente que exista. Se causa é um tipo de evento que provoca outro evento, então a causa é uma ocorrência vivenciada por algum ser. No caso do surgimento do Universo, este ser causador seria Deus. Até aí está certo.
Para levar à conclusão 4, contudo, seria preciso que a premissa 1 fosse mudada para "Tudo o que existe tem uma causa para passar a existir". Isto não é verdade, pois algo pode existir sem nunca ter surgido (que é o caso do próprio Deus) e pode surgir sem ter causa para tal. Há que se conferir experimental ou observacionalmente, no caso do Universo, em que caso ele se enquadra.
Este argumento é chamado "da contingência" porque o Universo não é algo que necessariamente tem que existir. Ele poderia não existir, é claro. Por isto é chamado de "contingente". Mas o que é contingente não necessariamente tem que ter uma causa para existir. Esta questão é crucial. A idéia de que todo evento seja um efeito, isto é, um evento que tem causa, provém da observação dos eventos cotidianos acessíveis à observação humana direta, por sua escala de dimensões e durações, em que os eventos são efeitos. Então, por indução, generalizou-se isto como um princípio. Um raciocínio indutivo, contudo, é derrubado por um único contraexemplo. No mundo subatômico, causa nem sempre ocorre, como já exemplifiquei. Logo não existe esse princípio de que todo evento seja um efeito. Então não podemos supor que, cosmologicamente, os eventos seja efeitos, dentre eles o surgimento do Universo.
Que a existência do Universo tenha uma explicação é certo, mas que tenha uma causa não. A explicação pode ser um surgimento sem causa. Sem ter do que provir é certo, tenha ou não causa.
Então, se o surgimento do Universo não precisa ter causa, não se pode dizer que ele foi criado por Deus.
Note-se que este meu raciocínio não prova que ele não foi criado por Deus, mas apenas que não é necessário que tenha sido assim.
Mesmo que tenha sido criado por Deus, tal Deus não é, necessariamente, o ser concebido pelas religiões abrahãmicas, em especial, não tem nada a ver com os atributos de providência, bondade, justiça e outros considerados pelas religiões.
Todavia, não havendo necessidade de se invocar Deus para criar o Universo, podendo ele ter surgido sem causa e sem origem, porque supor uma causa e uma origem?
Sabemos que a gravidade é uma força de atração. Podemos dizer que a única coisa que impede a gravidade de unir novamente toda a matéria numa singularidade é a energia escura??
Considerando que essa interação repulsiva, impropriamente denominada "energia escura" foi a responsável pela aceleração da expansão inicial do espaço que foi o Big Bang, mesmo que ela não atuasse mais, a inércia dessa expansão poderia promovê-la indefinidamente, se o ímpeto primitivo tivesse sido muito grande, o que as medidas observacionais mostram que é o caso. Como parece que este campo dilatador do espaço continua a agir, mesmo que menos intensamente, então é mais óbvio ainda que a atração gravitacional não será capaz, no Universo como um todo, de refrear a expansão para que o espaço passe a se contrair e leve a um futuro Big Crunch. O interessante é que a "energia escura" atua sobre o espaço, enquanto a gravitação atua sobre o conteúdo presente no espaço, o que é muito diferente.