Este artigo saiu na Physical Review Letters, mas eu não sou assinante. É preciso entender que em física da matéria condensada e no estado sólido existem interpretações de fenômenos que se dão "como se" o elétron tivesse massa negativa, mas não que ele realmente a tenha. Preciso ler o artigo para interpretar. Na relatividade geral e nas teorias de campo não é prevista a existência de massa negativa. Os tachions, por exemplo, são partículas hipotéticas de massa imaginária, mas não negativa. Tachions, todavia, não existem.
Postagens do pensamento, textos, poemas, fotos, musicas, atividades, comentarios e o que mais for de interesse filosófico, científico, cultural, artístico ou pessoal de Ernesto von Rückert.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
O que é o amor? Vale tudo para viver um grande amor?
Nada é mais importante do que o amor. Trata-se de algo engendrado pela natureza ao longo da evolução para garantir a sobrevivência da espécie. Enquanto o egoísmo pode ser eficaz para a sobrevivência do indivíduo, é o amor que garante a perenidade da espécie. O sexo foi uma estratégia da natureza para garantir a variabilidade genética e possibilitar múltiplas escolhas na seleção natural. Seria possível, por partenogênese, a existência de espécies apenas com o sexo feminino, que é o essencial, sendo o masculino meramente acessório. O surgimento do sexo, desde os mais primitivos seres vivos, contudo, revelou-se a opção mais eficaz. Eros é, pois, a pulsão mais poderosa, pela qual os indivíduos até mesmo dão a vida.
A sobrevivência da espécie também exige o cuidado com a prole e a proteção da fêmea, atitudes que se sublimaram na componente platônica do amor. Assim o amor evoluiu para um comportamento não só sexual mas também de carinho. A necessidade de proteger o grupo privilegiou aqueles que possuíssem fortes laços de cooperação interpessoal, que é sublimada na amizade.
Duas forças coexistem nas espécies animais: a de competição, egoísta e belicosa, que deseja o poder sobre o outro a ser subjugado e a de cooperação, que se expressa no amor, na compaixão, no altruísmo. A primeira tem suas raízes profundas na necessidade de aplacar a fome fisiológica de alimento e a segunda no impulso de preservação da espécie. Sendo o homem uma espécie altamente evoluída, que atingiu um estágio de consciência psíquica plena e desenvolveu a cultura, essas forças primitivas da natureza foram canalizadas para as expressões refinadas da arte, do engenho e da ciência. São elas que movem o poeta, o guerreiro, o cientista, o sacerdote, o empresário, enfim, todo homem e toda mulher a fazer o que quer que seja na vida.
Em seu livro “O Gene Egoísta”, Richard Dawkins diz que nossos organismos nada mais são do que instrumentos criados pelas moléculas replicantes para perpetuarem-se. Assim os dois instintos primários, da existência e da procriação, forjaram-se na natureza para atender a este imperativo básico do gene: replicar-se. Esta pulsão pode estar contida na própria estrutura subatômica da matéria, de um ponto de vista reducionista. Deste modo, talvez a própria estrutura íntima do Universo seja naturalmente estabelecida para culminar na vida, lembrando as idéias de Teillard de Chardin. Isto não significa que haja um projeto inteligente. Trata-se apenas de como as coisas são por si mesmas, sem razão nem propósito. Mas… não sei. Há que se investigar e discutir.
Pelo que se pode concluir, o sexo é, pois, um componente essencial da vida e um dos mais relevantes fatores de felicidade. Uma vez preenchidas as condições mínimas de sobrevivência: ar, água, alimento, abrigo (incluindo vestuário) e segurança, a pessoa busca sua felicidade. Dentre os muitos fatores que levam à felicidade, não resta dúvida que o mais relevante é a sensação de ser amado. Mas, para quem já seja sexualmente maduro, não é apenas o amor maternal, paternal e fraternal que contam. Há uma carência do amor erótico. Este é o objetivo buscado. Como nisto há uma reciprocidade, há que se amar para ser amado. Tal fato é tão válido que, mesmo sem correspondência, o ato de amar é fonte de felicidade, mesclada com uma doce tristeza.
Quando o amor é correspondido e se realiza eroticamente, atinge-se um êxtase talvez só comparável aos arroubos místicos. Por maior que seja a pulsão fisiológica para o sexo, da qual, por sublimação surgiu o amor, sua realização dissociada do amor não proporciona nem uma mísera fração da beatitude que o sexo com amor é capaz de conceder. Porque, aí, o sexo não é só fruição, mas, principalmente, doação. Excluído o egoísmo do sexo, incrivelmente, ele propicia um prazer maior ainda. É procurando dar o máximo prazer que se desfruta dele em plenitude. E, para isto, há que se buscar conhecer o parceiro completamente, em corpo e em espírito. Tudo está envolvido. Pudores têm que ser esquecidos. Uma pitada de molecagem sempre é bem-vinda. Mas, no meu entendimento, sem afligir dor e nem constrangimento algum. Só o prazer dos murmúrios, dos perfumes e dos odores, dos toques suaves e dos vigorosos, de todos os recursos disponíveis, sem reservas e sem remorsos. Sem pressa. Esquecido do mundo. Isto é o amor e os orientais são sábios em cultuá-lo, de modo até sagrado. Como diz Chico Buarque na “Valsinha”, como não seria melhor o mundo se o amor fosse o prato do dia de todos.
Amor é um sentir, um pensar, um desejar, um querer e um agir, isto é, uma emoção, um sentimento, um apetite, uma volição e uma ação. Esse complexo de fatos psíquicos caracteriza o amor em todos os planos, piedade, compaixão, solidariedade, afeição, amizade, amor platônico, erotismo. Amor filial, maternal, paternal, fraternal, conjugal, idealista. A intensidade e a seqüência em que eles aparecem podem variar. O amor sempre emociona, enternece, enleva e envolve um desejo de zelo, cuidado e proteção da coisa amada, bem como um anseio de reciprocidade. Mas o amor só se realiza quando é expresso em vontade e esta vontade em ação. Não basta sentir e desejar para amar, é preciso querer, demostrar e provar. O amor envolve dedicação e renúncia, paciência e perseverança, trabalho e recompensa, alegria e tristeza, euforia e depressão. É algo envolvente e inebriante. O amor não é possessivo, ciumento, exclusivista, castrador, sufocante. Pelo contrário, o amor é libertário e altruísta. Não me refiro apenas ao amor erótico, mas a todas as modalidades, inclusive as formas idealistas de amor à verdade, justiça, sabedoria, humanidade e natureza. O amor não pode ser cerceado em sua intensidade e abrangência. Ele não possui limites. Quanto mais intensamente se ama e a mais coisas e pessoas, mais capacidade se tem de amar. E quanto mais se ama, mais se realiza e maior é a felicidade, mesmo que nem sempre ele seja correspondido.
Estou com aqueles que consideram o ciúme uma manifestação de puro e simples egoísmo. Sentir ciúme é pretender que o ser amado seja propriedade sua. Isso não é amor. Sou ateu, mas nunca vi melhor descrição do que é o amor do que o que disse o apóstolo Paulo no capítulo 13 de sua primeira carta aos coríntios:
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, não seria nada.
Ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, de nada valeria.
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante.
Nem escandaloso. Não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
O amor é completamente gratuito. Não exige nada em troca, nem reciprocidade nem exclusividade. E se compraz com a felicidade do amado em qualquer circunstância. Ciúme é egoísmo, não amor. Não há posse no amor. E a felicidade é maior pelo amor que se dá e não pelo que se recebe. Mas é ótimo ser amado, sem dúvida. O que não se pode é exigir amor de ninguém e nem que o amado não possa também amar a outrem. Aquele que ama, inclusive, dispõe-se a compartilhar o ser amado. É preciso reverter inteiramente esta noção de propriedade no amor. Isso é sinal de imaturidade. Ama-se e confia-se no amado. O ciumento preocupa-se mais é com a perda de sua imagem, caso venha a ser traído. Mas não há traição se o compartilhamento é consentido. Nada disso haveria se a sociedade admitisse, tranquilamente, a pluralidade simultânea do amor.
Assim compreendido, pode-se concluir que, realmente, viver um grande amor vale o sacrifício de outros projetos, como carreira e enriquecimento. Estas coisas têm menos valor. Mas é importante que a pessoa esteja consciente que o investimento em um grande amor não tem retorno garantido. Que se saiba que tudo pode der errado e nem por isso se arrependa do que se fez. E não se pode amar pensando no que se vai ganhar com isto. Ama-se e pronto! Gratuitamente e sem remorsos. Quem assim pauta sua vida, não só pelo amor a pessoas, mas pelo amor à humanidade e a causas nobres e idealistas, nunca se verá acabrunhado com os dissabores, pois sua mente paira sobranceira sobre as picuinhas da vida, até mesmo sobre as necessidades básicas e se porta como o bemaventurado que esquece de si mesmo e vive para a vida e para o bem de todos e de tudo.
O que o Sr. Dr. pensa a respeito da união civil entre parceiros do mesmo sexo?
Tão normal quanto entre parceiros de sexo oposto. Esta questão da homosexualidade, heterosexualidade, bissexualidade ou asexualidade é de origem genética, havendo pessoas que sentem atração física por outra do mesmo, do oposto, de ambos ou de nenhum sexo. Isto é normal e apresenta uma proporção fixa nas várias etnias e culturas. A diferença está apenas na aceitação social. Considero que o amor tem que ser realizado de que forma for. Quanto mais amor entre as pessoas, melhor o mundo fica. Não se pode restringir a quem se deve ou não se deve amar. E se o amor deve ser realizado, então todas as implicações jurídicas dele decorrentes têm que ser estabelecidas da mesma forma. Considero, inclusive, a possibilidade da pluralidade amorosa simultânea, isto é, a poligamia, tanto poliginia quanto poliandria ou qualquer combinação possível. Isto, em absoluto, não tem nada a ver com devassidão ou libertinagem. Nada disso. Estou falando de relacionamentos sérios e compromissados, com mais de uma outra pessoa do mesmo ou do sexo oposto. Envolvendo amor, carinho, cuidado, respeito, responsabilidade. De forma adulta, consequente e, até mesmo, legalizada.
O que você acha do pós-modernismo, movimento que prega que a historicidade é o fator determinante para os juízos de verdade, ou seja, a ciência não tem a supremacia dos juízos sobre o que correto continua...
Não concordo. O que a ciência busca é exatamente fugir da historicidade e isto é o que deve ser feito. O que se precisa é justamente evitar que juizos a respeito da realidade dependam o máximo possível da conjuntura presente, sempre que possível. É claro que não se consegue escapar inteiramente, pois sempre se trabalha com os conhecimentos que se tem, no momento. Mas é preciso se libertar de pontos de vista ideológicos, religiosos, políticos, raciais, culturais. É mister se buscar a completa isenção o máximo possível. Isto é difícil, mas é assim que considero que precisa ser. É claro que não se consegue nem se pretende obter o conhecimento final: ele é sempre provisório e precisa ser revisto a todo momento. Mas é o melhor que se tem. Verdade é uma adequação entre o discurso e a realidade. Mas a realidade em si mesma é desconhecida. O que se tem é a sua percepção pelas mentes, que precisam buscar o máximo consenso entre as descrições que fazem, isto é, buscar as palavras cujo sentido seja aceito pela maioria e estabelecer as relações que elas guardam entre sí, pela correspondência entre os conceitos e o que pretendem representar. O que a ciência busca é a máxima objetividade possível. Os mitos são descrições em termos de conceitos inventados, impossíveis de se verificar. Os conceitos da ciência, por outro lado, são estabelecidos de forma a poderem ser verificados, contestados e substituídos, caso sejam inadequados.
domingo, 12 de setembro de 2010
A medicina moderna é uma ciência?
Em parte ciência, em parte arte, no sentido mais amplo da palavra, pois a medicina não apenas busca conhecer a estrutura e o funcionamento do corpo humano, incluindo os problemas estruturais e de funcionamento, como também desenvolver e aplicar métodos de cura clínica e cirúrgica para tais problemas. Os dois aspectos estão intimamente relacionados, podendo o médico ser um engenheiro biológico ou um cientista, pesquisador da cura de doenças, com a colaboração de químicos, físicos e outros cientistas.
Como o senhor definiria arte?
Em sua verdadeira concepção, arte é o prodígio de insuflar vida a uma imagem, um som, um texto ou um movimento. Em si, eles são apenas comunicações visuais, auditivas ou cinéstésicas mas, pela arte, transformam-se em objetos de comoção estética, emoção, prazer. Transcendem sua realidade física e se convertem em um bem de valor cultural, testemunho de um ato criativo do artista em externar o que lhe vem de dentro, o modo como interpreta o mundo, eivado de suas vivências e de sua cosmovisão, bem como de sua perícia e de seu trabalho, além, é claro, de seu sentimento e sua inteligência. O artista, assim, é como se fosse um deus, capaz de vivificar uma tela, um mármore, um violino ou o movimento de seu próprio corpo numa entidade etérea e incorpórea, plasmada de beleza e luz.
Na acepção mais básica possível, arte é o fazer e seu produto, englobando aí o artesanato, a engenharia, a indústria e as belas-artes. Em oposição, ciência é o conhecer, o saber, também englobando aí, nesta acepção básica,saberes empíricos e mitológicos. Numa acepção mais restrita, a arte (neste caso, as belas-artes) é um fazer enquanto comprometido com levar à fruição de um prazer sensorial e intelectual, advindo de alguma qualidade do produto, denominada estética, que leve a isto, não importando outras qualidades que possa ter, de caráter utilitário ou outros. Assim, a arte é inútil.
Acho que a arte, como criação, é um construto intelectual do homem em que ele usa sua sensibilidade, inteligência, vontade, habilidades, técnica adquirida e talento nato para fazer uma representação do mundo real ou imaginário, almejando levar ao apreciador uma sensação de prazer no ato de percebê-la, consistente em uma emoção advinda da interpretação feita pela inteligência do que a sensibilidade comunica.
Esse caráter estético pode ser considerado do ponto de vista do autor ou do apreciador. Um quadro pintado por um macaco pode não ser arte na intenção do autor, mas pode o ser na apreensão do apreciador. Do ponto de vista do autor a arte tem a intenção de provocar tal prazer. Notem-se três coisas: A arte não tem compromisso com mensagem alguma, exceto a estética. O prazer estético não tem nada a ver com beleza, o conceito de belo é outro. O feio pode ser arte. Finalmente, como qualquer ação humana, a arte não pode se furtar a ter um valor ético, que pode deliberadamente ser descartado, mas não deixa de estar presente.
Minha opinião é de que a arte não tem utilidade. Não é este o seu propósito. Mas justamente para as inutilidades, o supérfluo, é que faz sentido se lutar pela vida. O necessário à sobrevivência é mínimo. O que distingue o homem é almejar o inútil e se comprazer nisto. Trabalha-se para, afinal, se conseguir ser feliz e se é feliz quando se desfruta da vida com prazer. A arte dá esse prazer. A arte não precisa levar mensagem alguma para ser arte. Basta, do ponto de vista do apreciador, dar prazer em ser contemplada. Do ponto de vista do criador, certamente, a arte não é mero externar de sentimentos e emoções. É, principalmente, um produto da inteligência, do trabalho, da vontade. O quadro feito pelo macaco não é uma obra de arte porque não foi produzido intencionalmente para tal. Mas pode ser apreciado como tal, se levar a quem o vê uma sensação de prazer estético. É claro que eu estou descartando a atitude imbecil de fingir que gosta ou entende de arte para dar a impressão de ser intelectual.
Dizer que a arte é inútil envolve uma ambiguidade proposital. A questão é o conceito de "útil". No sentido pragmático, do que é necessário para a sobrevivência, a arte não tem utilidade. Mas ela se presta a promover o bem estar e a elevar o nível de felicidade. Quanto ao caráter formativo, no sentido de passar uma mensagem transestética, de valor ético ou ideológico, a arte se presta muito bem para tal, mas este não é o seu compromisso. Uma obra de arte conserva o seu valor estético mesmo que seja comprometida com nada ou que o seja com valores equivocados. Mas, é claro, a ética perpassa todo o fazer humano e, logo, não há como escapar. Mas a arte não precisa ter um compromisso, digamos, pedagógico. Todavia pode tê-lo e mais do que tudo, presta-se admiravelmente para tal. Assim é a minha arte: enquanto provoca a comoção estética, instiga a mente a questionar o significado da existência.
Esta questão das inutilidades, da arte e de muita coisa nas ciências, na verdade é a mola mestra do progresso, não só técnico e material, mas, principalmente, cultural. Vejam minha especialidade em física: Cosmologia. Serve para quê? Para o mesmo que servem a poesia, a música, as belas artes: para elevar a mente, expressar o sentimento de deslumbramento frente ao Universo e, principalmente, em relação ao prodígio que somos nós mesmos. Não tem nenhum valor prático e nem precisa ter. É para o inútil que a humanidade aplica tanto esforço em produzir além do necessário para a mera sobrevivência. É nas inutilidades que se compraz o homem e alcança a felicidade de gozar um prazer inteiramente descompromissado.
Quanto à questão do belo e da relação entre o belo e a arte é preciso, antes de tudo, ver que são conceitos disjuntos. A noção de beleza tem a ver com a percepção do mundo por um ser sensiente e consciente. A arte tem a ver com certa produção de um ser inteligente. Um ninho de passarinho não é uma obra de arte. Assim alguma coisa é bela se provoca no observador sentimentos prazerosos ao percebê-la. Pode ser algo inteiramente natural ou um produto intencionalmente feito para provocar este tipo de emoção, dita estética. Assim concebida, a beleza de uma obra de arte não é necessariamente superior à beleza da natureza. Mas também não é necessariamente inferior. Depende de que obra de arte se está apreciando.
Uma característica importante da arte é que o artista tem que ser livre. A arte por encomenda só tem valor quando quem a encomenda deixa o artista livre. Mozart e Haydn compunham sob encomenda, mas Mozart, especialmente, fazia o que queria. Isto porque Mozart era um gênio e Haydn um grandioso talento. Já Beethoven rebelou-se completamente das encomendas. É claro que, mesmo sendo livre, a arte pode não ser boa, mas se não for livre é certo que não será boa. Note que disse boa, e não bela. O belo, na arte, não é necessariamente belo, na acepção corriqueira da palavra. A beleza da arte não é a beleza do que ela retrata. O artista pode passar ao apreciador algo feio como recurso de comunicação do que pretende externar com sua arte. Mas, fazendo-o com valor artístico, esse feio é belo.
Artista é isso: quem é capaz de expressar o sentimento em algo palpável, que outrem possa contemplar e captar. Mas arte não é só emoção e sentimento: é reflexão sobre como colocar o que se pretende, é inteligência, é trabalho, é vontade. São as idas e vindas, as decisões e indecisões. É o cansaço em cima da obra, até que se chegue ao que se concebeu. E, finalmente, o júbilo do parto, a contemplação da própria criação, aquela satisfação interna de ser um criador e não apenas uma criatura. Dá vontade de reter tudo consigo. Mas não se pode esquecer-se de ganhar a vida. E vender também é uma arte. A arte só vale se for para o outro, para o povo, para disseminar a beleza e, principalmente revelar uma postura de quem acredita na vida e nos valores maiores da humanidade. Assim sendo, rejubile-se o artista, pois é colega de Deus (supondo que exista).
Como o senhor definiria arte?
Em sua verdadeira concepção, arte é o prodígio de insuflar vida a umaimagem, um som, um texto ou um movimento. Em si, eles são apenas comunicações visuais, auditivas ou cinéstésicas mas, pela arte, transformam-se em objetos de comoção estética, emoção, prazer. Transcendemsua realidade física e se convertem em um bem de valor cultural, testemunhode um ato criativo do artista em externar o que lhe vém de dentro, o modocomo interpreta o mundo, eivado de suas vivências e de sua cosmovisão, bemcomo de sua perícia e de seu trabalho, além, é claro, de seu sentimento esua inteligência. O artista, assim, é como se fosse um deus, capaz devivificar uma tela, um mármore, um violino ou o movimento de seu própriocorpo numa entidade etérea e incorpórea, plasmada de beleza e luz.
Na acepção mais básica possível, arte é o fazer e seu produto, englobando aí o artesanato, a engenharia, a indústria e as belas-artes. Em oposição,ciência é o conhecer, o saber, também englobando aí, nesta acepção básica,saberes empíricos e mitológicos. Numa acepção mais restrita, a arte (nestecaso, as belas-artes) é um fazer enquanto comprometido com levar à fruiçãode um prazer sensorial e intelectual, advindo de alguma qualidade doproduto, denominada estética, que leve a isto, não importando outrasqualidades que possa ter, de caráter utilitário ou outros. Assim, a arte éinútil.
Acho que a arte, como criação, é um construto intelectual do homem em queele usa sua sensibilidade, inteligência, vontade, habilidades, técnicaadquirida e talento nato para fazer uma representação do mundo real ouimaginário, almejando levar ao apreciador uma sensação de prazer no ato depercebê-la, consistente em uma emoção advinda da interpretação feita pelainteligência do que a sensibilidade comunica.
Esse caráter estético pode ser considerado do ponto de vista do autor ou doapreciador. Um quadro pintado por um macaco pode não ser arte na intenção do autor, mas pode o ser na apreensão do apreciador. Do ponto de vista do autor a arte tem a intenção de provocar tal prazer. Notem-se três coisas: A arte não tem compromisso com mensagem alguma, exceto a estética. O prazerestético não tem nada a ver com beleza, o conceito de belo é outro. O feiopode ser arte. Finalmente, como qualquer ação humana, a arte não pode sefurtar a ter um valor ético, que pode deliberadamente ser descartado, masnão deixa de estar presente.
Minha opinião é de que a arte não tem utilidade. Não é este o seu propósito. Mas justamente para as inutilidades, o supérfluo, é que faz sentido se lutar pela vida. O necessário à sobrevivência é mínimo. O que distingue o homem é almejar o inútil e se comprazer nisto. Trabalha-se para, afinal, se conseguir ser feliz e se é feliz quando se desfruta da vida com prazer. A arte dá esse prazer. A arte não precisa levar mensagem alguma para ser arte. Basta, do ponto de vista do apreciador, dar prazer em ser contemplada. Do ponto de vista do criador, certamente, a arte não é mero externar de sentimentos e emoções. É, principalmente, um produto da inteligência, do trabalho, da vontade. O quadro feito pelo macaco não é uma obra de arte porque não foi produzido intencionalmente para tal. Mas pode ser apreciado como tal, se levar a quem o vê uma sensação de prazer estético. É claro que eu estou descartando a atitude imbecil de fingir que gosta ou entende de arte para dar a impressão de ser intelectual.
Dizer que a arte é inútil envolve uma ambiguidade proposital. A questão é oconceito de "útil". No sentido pragmático, do que é necessário para asobrevivência, a arte não tem utilidade. Mas ela se presta a promover o bemestar e a elevar o nível de felicidade. Quanto ao caráter formativo, nosentido de passar uma mensagem transestética, de valor ético ou ideológico,a arte se presta muito bem para tal, mas este não é o seu compromisso. Umaobra de arte conserva o seu valor estético mesmo que seja comprometida comnada ou que o seja com valores equivocados. Mas, é claro, a ética perpassatodo o fazer humano e, logo, não há como escapar. Mas a arte não precisa ter um compromisso, digamos, pedagógico. Todavia pode tê-lo e mais do que tudo, presta-se admiravelmente para tal. Assim é a minha arte: enquanto provoca a comoção estética, instiga a mente a questionar o significado da existência.
Esta questão das inutilidades, da arte e de muita coisa nas ciências, naverdade é a mola mestra do progresso, não só técnico e material, mas,principalmente, cultural. Vejam minha especialidade em física: Cosmologia.Serve para quê? Para o mesmo que servem a poesia, a música, as belas artes:para elevar a mente, expressar o sentimento de deslumbramento frente aoUniverso e, principalmente, em relação ao prodígio que somos nós mesmos. Não tem nenhum valor prático e nem precisa ter. É para o inútil que a humanidade aplica tanto esforço em produzir além do necessário para a merasobrevivência. É nas inutilidades que se compraz o homem e alcança afelicidade de gozar um prazer inteiramente descompromissado.
Quanto à questão do belo e da relação entre o belo e a arte é preciso, antes de tudo, ver que são conceitos disjuntos. A noção de beleza tem a ver com a percepção do mundo por um ser sensiente e consciente. A arte tem a ver com certa produção de um ser inteligente. Um ninho de passarinho não é uma obra de arte. Assim alguma coisa é bela se provoca no observador sentimentos prazerosos ao percebê-la. Pode ser algo inteiramente natural ou um produto intencionalmente feito para provocar este tipo de emoção, dita estética. Assim concebida, a beleza de uma obra de arte não é necessariamente superior à beleza da natureza. Mas também não é necessariamente inferior. Depende de que obra de arte se está apreciando.
Uma característica importante da arte é que o artista tem que ser livre. Aarte por encomenda só tem valor quando quem a encomenda deixa o artistalivre. Mozart e Haydn compunham sob encomenda, mas Mozart, especialmente,fazia o que queria. Isto porque Mozart era um gênio e Haydn um grandiosotalento. Já Beethoven rebelou-se completamente das encomendas. É claro que,mesmo sendo livre, a arte pode não ser boa, mas se não for livre é certo que não será boa. Note que disse boa, e não bela. O belo, na arte, não énecessariamente belo, na acepção corriqueira da palavra. A beleza da artenão é a beleza do que ela retrata. O artista pode passar ao apreciador algofeio como recurso de comunicação do que pretende externar com sua arte. Mas, fazendo-o com valor artístico, esse feio é belo.
Artista é isso: quem é capaz de expressar o sentimento em algo palpável, que outrem possa contemplar e captar. Mas arte não é só emoção e sentimento: é reflexão sobre como colocar o que se pretende, é inteligência, é trabalho, é vontade. São as idas e vindas, as decisões e indecisões. É o cansaço em cima da obra, até que se chegue ao que se concebeu. E, finalmente, o júbilo do parto, a contemplação da própria criação, aquela satisfação interna de ser um criador e não apenas uma criatura. Dá vontade de reter tudo consigo. Mas não se pode esquecer-se de ganhar a vida. E vender também é uma arte. A arte só vale se for para o outro, para o povo, para disseminar a beleza e, principalmente revelar uma postura de quem acredita na vida e nos valores maiores da humanidade. Assim sendo, rejubile-se o artista, pois é colega de Deus (supondo que exista).