quinta-feira, 11 de março de 2010

Primeira Classe de 17 de março



Ouça meu programa semanal de música clássica na rádio FM Universitária, 100,7 MHz de Viçosa, Minas, acessada pelo site http://www.rtv.ufv.br/ ,toda quarta-feira, das 20 às 22 horas.
Neste próximo 17 de março apresentarei:
Sinfonia Manfredo de Tchaikowsky,
Sinfonia Fantástica de Berlioz.
Com comentários.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia internacional da mulher


Considero inteiramente inapropriado dedicar-se um dia especial à mulher. Não que eu não tenha considerações pelas mulheres, pelo contrário. Tenho pelas mulheres a consideração que tenho por todos os seres humanos, independente do sexo, acrescido do fato de que, por ser homem, tenho naturalmente uma admiração maior pela figura feminina do que pela masculina. Mas acho que todos os dias são dia da mulher, como o são do homem, e não há dia nenhum especial para o homem. Atribuir-se um dia especial para a mulher é admitir que a mulher não se situa no mesmo pé de igualdade que o homem, e isto deve ser inteiramente desconsiderado. Tenho para mim que, exceto no aspecto estritamente ginecológico, homens e mulheres são exatamente iguais em todos os seus direitos e deveres, em todas as suas potencialidades e capacidades, em tudo o que puder ser atribuído a um e a outro. Ou seja, todo direito do homem é um direito da mulher e todo direito da mulher é um direito do homem, bem como todo dever do homem é um dever da mulher e todo dever da mulher é um dever do homem. Isto inclui o provimento do lar e os serviços domésticos, a atuação na política e no mercado de trabalho, com equitativa distribuição de sexos em todas as atividades humanas, sejam quais forem. Não existe serviço de mulher e serviço de homem: existe simplesmente serviço. Não há nada que um homem seja capaz de fazer que a mulher também não o seja, mas gestar, parir e aleitar só a mulher é capaz. Além disso, o sexo que tipifica toda espécie animal é o feminino, sendo o masculino meramente acessório, para garantir a variabilidade genética. Uma espécie poderia, por partenogênese, sobreviver só com seres femininos, mas não só com seres masculinos. Nossa espécie não deveria ser chamada de "humana", mas sim de "mulherana". É preciso que os homens se conscientizem de seu papel secundário na espécie e deixem de ser idiotas ao menosprezar a mulher. Já escrevi um texto sobre isto neste blog. Procurem pelo título "Espécie Mulherana".
Mesmo assim quero parabenizar todas as mulheres, não só por este dia, mas por todos, e, a propósito, deixar aqui um poema que escrevi anos atrás sobre este dia:

Quero que em ti se realize, em plenitude,
tudo o que está dito nesta mensagem de coragem.
Hoje que o mundo comemora teu dia, pensa e medita…
Teus são todos os dias e não só hoje.
Porque és plena de todo direito, como ser humano.
E o mundo te pertence, basta que o domines.
E não permitas que homem algum usurpe teu lugar.
Que é o mesmo dele em qualquer atividade.
E assim, ombreados em igualdade,
possam, ambos os sexos, construir para o futuro
um mundo decente e aprazível para todos.
Basta que assumas os mesmos deveres e obrigações,
e te consideres responsável, como toda pessoa,
por ti mesma e por todos que te cercam.
Assim tu crescerás e serás completa como humana.
E vencerás, conquistando o lugar que te é reservado,
e até então te foi tomado e usurpado.
Usufruindo dos direitos e benesses que te são devidos,
não por concessão mas por direito inalienável,
que possuis por simplesmente ser da espécie.
E que assim fazendo sejas feliz e realizada,
pois teu é o mundo, o céu e as estrelas.

domingo, 7 de março de 2010

Inteligência



Vejam a apresentação da palestra que tenho feito sobre Inteligência:

http://www.youtube.com/watch?v=uQ9Vnt6wOqI

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Professores de Castigo


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Em sua edição número 614, de 22 de fevereiro de 2010, à página 92, a revista Época (  http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI122910-15228,00.html ) Comenta a providência que o Secretário de Educação de Nova York, Joel Klein, tomou para evitar que professores incompetentes, mas com estabilidade no emprego, permanecessem em sala de aula, prejudicando os alunos. Colocou-os de castigo! Isso mesmo! Ganham o salário mas ficam o tempo todo do serviço fechados em uma sala sem livros, revistas, computadores, telefones, celulares e nenhum outro contato exterior. Enquanto isto, uma arbitragem do Sindicato dos Professores apura a procedência da acusação. Se for improcedente ele retorna ao trabalho mas se for procedente ele é demitido por justa causa (incompetência). Isto é o que está fazendo falta em nosso país, mesmo nas Universidades e até em nossa UFV. Quantos professores passam nos concursos e depois se revelam um tragédia didática e, até mesmo, de conhecimentos? Muitos até consideram que não é preciso ter didática para lecionar na Pós-graduação. Zombam da Pedagogia. Em parte têm razão, pois há muita incompetência pedagógica. Mas isto não desmerece a pedagogia, como padres pedófilos não desmerecem o clero e comunistas oportunistas não desmerecem o comunismo. É preciso resgatar o mérito no Serviço Público, com bônus ou outras formas de premiar a dedicação e a competência e desestimular a isonomia idiotizante, que iguala preguiçosos e diligentes, burros e inteligentes, folgados e dedicados, desonestos e honestos, incompetentes e competentes, tudo em benefício de um corporativismo malsão e em prejuízo dos contribuintes, que usufruem dos serviços públicos, especialmente da educação. É preciso dar autonomia aos diretores das escolas, mas com uma cobrança séria, por meio de uma avaliação constante, correta, imparcial, conclusiva e consequente, isto é, capaz de tirar-lhe o cargo ou promover-lhe. Esta avaliação tem que ser feita pela Superintendência de Ensino, pelos professores, pelos alunos, pelos egressos, e pelos pais, de alguma forma muito bem estudada para garantir a lisura, a imparcialidade e a impossibilidade de manifestações de desforra ou inveja. Este tipo de avaliação precisa ser sempre aplicado, não só aos diretores e coordenadores, mas a todo professor e funcionário, e o ideal é que não haja estabilidade, para que sempre o servidor público precise demonstrar sua capacidade, diligência, dedicação, criatividade, despreendimento, inteligência, boa vontade, honestidade, compromisso, Não que seja um cordeiro incapaz de idéias próprias e de contestar ordens despropositadas, nem que seja um bajulador de chefias, mas uma pessoa íntegra, digna e defensora dos direitos, principalmente do povo ao qual serve. Certamente que ainda estamos longe disto, mas é preciso que associações de pais façam pressão nesse sentido e que, nas eleições, sejam escolhidos candidatos comprometidos com a erradicação da corrupção no serviço público e com sua qualidade, especialmente na educação.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Nada e o Infinito


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É preciso distinguir os conceitos das coisas que eles pretendem significar. Pode-se conceituar e definir qualquer coisa. Que ela exista é outro problema. "Nada", conceitualmente, é meramente uma palavra para designar a ausência de qualquer coisa, de tudo o que se possa conceber que exista. Nada não é uma entidade, como o é o conjunto vazio, que é uma conceito abstrato, real dentro da categoria das realidades conceituais. Mas, na categoria das realidades concretas, isto é, de existência independente de mentes que as concebam, não existe nada que seja "nada". A ausência de espaço (mesmo vazio), de tempo, de conteúdo substancial de qualquer espécie (mesmo espíritos ou deuses), de qualquer tipo de evento, fenômeno ou ocorrência, isto é o que se quer dizer com a palavra "nada". Resta saber: é possível não existir coisa alguma ou evento algum? Ontologicamente não há nenhum impedimento. A existência de algo ao invés de nada é um fato completamente destituído de necessidade. Poderia perfeitamente não existir coisa alguma. Mas existe! Existe o espaço (mas não espaço vazio, o vácuo sim), o tempo e um conteúdo que os preenche, que são campos, matéria, radiação e eventos. Um ser não é aquilo que "é" alguma coisa, mas o que é alguma coisa existindo ao longo do tempo. Caso contrário é um ente puramente conceitual. Denomina-se "Universo" ao conjunto de tudo que concretamente existe (já o conceito de "mundo" é mais amplo, pois abrange as realidades puramente conceituais, axiológicas, culturais e de qualquer outra categoria de realidade que se imagine). Por realidade concreta estou considerando o tempo, o espaço, a matéria, os campos, a radiação, as estruturas formadas por estes conteúdos e os eventos, fenômenos e ocorrências que com eles se dêem (note-se que "energia", não é uma entidade substancial do Universo, mas tão somente um atributo que certas entidades, sistemas e estruturas podem possuir, assim como carga, spin, momento linear etc.).

O problema da possibilidade de inexistência de qualquer coisa é fenomenológico e requer investigação experimental ou observacional, certamente apoiada em modelos teóricos explicativos da realidade. Aí se coloca a “Teoria da Relatividade Geral”. Concebida por Einstein para tentar resolver a questão de como correlacionar medidas em referenciais com aceleração relativa, ela tornou-se uma teoria da gravitação quando Einstein percebeu que o Princípio da Equivalência não era uma mera coincidência, mas um fato fundamental da natureza, como o é a constância da velocidade da luz no vácuo (mas não no vazio, pois no vazio não tem nem luz – aliás, não existe vazio no Universo nem fora dele). Em suma, não se pode localmente distinguir um referencial acelerado de um campo gravitacional. Não localmente sim, pois a terceira derivada do potencial gravitacional, responsável pela "força de maré" representa a "curvatura intrínseca" do espaço-tempo na região. Assim, um corpo sob ação da gravidade, não estaria sujeito a força alguma, mas apenas se moveria inercialmente ao longo das geodésicas do espaço-tempo encurvado pela presença de um conteúdo possuidor de massa ou energia. Ao se fazer a aproximação local pelo espaço-plano tangente ao curvo, tal movimento se apresentaria como resultado de uma interação, dita gravitacional. Para uma compreensão da matemática envolvida, sugiro o livro do Ohanian "Gravitation and Spacetime" de leitura acessível a quem tenha estudado apenas cálculo infinitesimal, pois a geometria diferencial de Riemann é dada no próprio livro. Para um estudo mais aprofundado o melhor é o livro "Gravitation" de Misner-Thorne-Wheeler. Não adianta pretender escapar da matemática, pois não é possível ter um conhecimento, entendimento e compreensão da Relatividade Geral sem matemática (por isto é que eu acho que o cálculo diferencial e integral já devia ser dado no Ensino Médio, já que não é bicho de sete cabeças (apenas seis)).

Poucos anos depois de sua publicação, outros cientistas passaram a buscar soluções das Equações de Einstein (um sistema de equações diferenciais de segunda ordem não lineares, mas lineares na primeira derivada, entre o tensor de curvatura e o tensor momentum-energia do conteúdo), para situações de uma massa puntiforme (uma estrela), o que levou à descoberta teórica dos "Buracos Negros" e para o Universo como um todo. Estas últimas foram achadas pelo abade Lemaître e, num caso especial, por Friedmann. O interessante é que elas mostravam que o Universo não poderia ser estacionário, mas que, necessariamente, estaria se expandindo ou contraindo. Não crendo em tal possibilidade (um preconceito), Einstein introduziu "ad hoc" a "Constante Cosmológica" para que a solução pudesse ser estacionária. Pouco depois, Hubble, em Monte Wilson, descobriu o "red shift" das galáxias distantes, cuja interpretação só podia ser de que o Universo estava "inchando", já que as outras possibilidades eram altamente implausíveis (o movimento real, o desvio gravitacional e a absorção intergaláctica). Este inchamento não é um afastamento por movimento relativo de uma galáxia em relação a outra, mas um crescimento global do próprio espaço, isto é, as galáxias se afastam não porque se movem, mas porque o espaço entre elas cresce. Isto mostra que o espaço não é uma entidade apriorística dentro da qual se distribui o conteúdo do Universo, mas sim algo determinado pelo próprio conteúdo. Ou seja, não há espaço sem conteúdo. O espaço é uma entidade dinâmica do Universo. Do mesmo modo o tempo só existe porque o estado do Universo não permanece invariável. São as mudanças no estado do Universo como um todo que criam o tempo, que também não é apriorístico. Se o estado não mudar, como pode ocorrer com a "morte térmica" do Universo, o tempo não passa. Einstein arrependeu-se de seu vacilo em introduzir a "constante cosmológica", que, todavia, está sendo ressuscitada como uma das possíveis explicações para a dita "energia escura".

Se o Universo está em expansão, retrocedendo no tempo, sua densidade iria aumentando, pois o mesmo conteúdo ocuparia volumes cada vez menores para o passado, até que, num certo momento, a densidade seria matematicamente infinita. Na verdade, antes disto, os pressupostos das soluções de Friedmann (continuidade, homogeneidade e isotropia) não mais seriam obedecidos e a singularidade matemática, de fato, não existiria, pois, então, fenômenos quânticos prevaleceriam sobre a gravitação. O que a teoria do "Big Bang" diz é que um conteúdo primevo extremamente denso, em dado momento, começou a expandir-se, rarefazendo-se e esfriando. Note que não se trata de uma "explosão" de um conteúdo para um espaço vazio circundante, mas um súbito inchamento do próprio espaço. Inclusive, se o Universo for infinito, ele sempre assim o foi, mesmo no Big Bang. Mas infinito é algo sobre o que discorrerei depois. A questão é: e "antes" do Big Bang? Duas possibilidades emergem. Ou o conteúdo (um campo indiferenciado) surgiu naquele momento, em que também surgiram o espaço e o tempo e, portanto, não haveria "antes" nenhum; ou este conteúdo foi o resultado final de um processo de contração de um Universo anterior. Neste caso, o tempo atual também teria surgido ali e o tempo do Universo anterior teria sido encerrado. Para o futuro pode ser que a expansão atinja um máximo e, então, passe a haver uma contração, até se chegar às condições iniciais, iniciando-se outro ciclo de expansão. Ou a expansão será indefinida. A escolha entre estas hipóteses se prende à determinação de parâmetros observacionais, como a densidade global do Universo e a taxa de aceleração da expansão. Os valores atualmente disponíveis parecem indicar que a expansão será indefinida.

A questão não deve ser colocada em termos de se acreditar que o Universo seja finito ou infinito, no tempo e no espaço e se teria havido um surgimento, antes do que não haveria "nada". Isto não é uma questão de crença e sim de verificação fática por meio de observações que permitam inferir o que, de fato, é verdade, ou, pelo menos, indícios seguros nesse sentido. Os dados observacionais concernentes à expansão cósmica e à radiação de fundo de microondas mostram, de forma insofismável, independentemente da teoria cosmológica que se adote, que o Universo não existe indefinidamente para o passado do modo como se apresenta hoje. Este Universo possuiu um momento inicial e isto não é conjectura e sim fato. Se ele será eterno para o futuro ou terminará, ainda é uma questão não respondida de forma cabal, por insuficiência de dados precisos sobre os parâmetros controladores da expansão (densidade de massa-energia e aceleração da expansão). Ao que parece, ele expandir-se-á indefinidamente, mas poderá atingir um estado de energia mínima e entropia máxima, em que a expansão não possuirá aceleração e o estado do Universo permanecerá imutável. Isto seria atingido assintoticamente e, então, cessaria a passagem do tempo, a temperatura tendo chegado (assintoticamente, repito) ao zero absoluto. Esta é sua morte térmica.

O surgimento do conteúdo primordial que passou a expandir com o Big Bang é objeto de especulação em várias teorias, como a das branas e a dos multiversos, que, contudo, ainda estão num estágio hipotético de validade. Não há, contudo, impedimento algum, de ordem física ou metafísica, para que este conteúdo tenha surgido sem que fosse proveniente de nada que lhe antecedesse (aliás, é assim que os teístas criacionistas consideram que ocorreu, pois Deus, um ser transcendental, isto é, extrínseco ao Universo, teria criado tudo sem que proviesse de nada precedente. Já os panteístas consideram que o Universo provém do próprio Deus, numa relação dita de "imanência").

É preciso entender que o surgimento de qualquer coisa sem ter algo precedente de que provenha, não é a mesma coisa que "surgir do nada", pois então estaria se dizendo que existe algo que é o "nada", do qual teria surgido algum conteúdo. Não existe "nada" como entidade e, logo, não é possível que algo provenha do nada. Mas pode não provir de coisa alguma. É preciso ter bem claro na mente a diferença entre "não provir de coisa alguma", que é possível, e "provir do nada", que é impossível. Isto porque qualquer lei de conservação (massa, energia, carga, momento linear, momento angular etc.) refere-se a valores globais de grandezas que medem os atributos conservados em momentos diferentes. Como antes do surgimento do Universo não havia momentos, não se pode aplicar nenhuma lei de conservação para a situação do surgimento do Universo. Aliás, as próprias leis físicas só passaram a existir quando o Universo surgiu, pois elas são descrições do comportamento de seu conteúdo.

Outra questão controversa é a de que o surgimento do Universo não possui "causa". De fato, causa é um atributo de certos eventos, mas não uma necessidade para todo evento. Isto é, nem todo evento é um efeito. Existem eventos incausados e eles são a maioria. No mundo subatômico isto é a regra, exemplificada pelo decaimento radioativo e pela emissão de fótons por átomos excitados (a excitação é condição e não causa). No mundo macroscópico, o caráter probabilístico e indeterminado da natureza é mascarado pela "lei dos grandes números" da probabilidade, fazendo parecer que todo evento tenha causa, isto é, seja determinado por algum que o preceda. Como o surgimento do Universo foi uma ocorrência essencialmente quântica, não precisa ter causa, como de fato não teve. Causalidade é uma inferência induzida da observação cotidiana de eventos na escala de tempos e dimensões acessíveis ao ser humano. Só que todo raciocínio induzido não é garantido e contra-exemplos existem aos milhões.

Outro problema é se o espaço do Universo se estende infinitamente ou não. Precisamos diferenciar infinito de ilimitado. Algo pode ser infinito e limitado bem como finito e ilimitado. Um segmento de reta é limitado, mas possui infinitos pontos. A superfície de uma esfera é finita em tamanho, mas não possui limites. E o Universo? Na dimensão tempo, já vimos que ele tem um limite inferior ou início do tempo (esqueci de contestar o argumento Kalam, mas o farei mais adiante). E no espaço? Tanto pode ser que o Universo seja infinito quanto finito, mas, de qualquer modo, é ilimitado. Note-se que, se o Universo for finito, não existe espaço vazio fora dele. Tudo o que existe está no Universo, inclusive o espaço e o tempo. Não existe "fora do Universo". Ser finito significa que se você for andando sempre para frente acabará chegando aonde saiu, vindo por trás (depois de muitos bilhões de anos, se for à velocidade da luz). Ser infinito significa que se você andar sempre para frente, nunca retornará.

Antes de considerar o caso, há que se fazer uma digressão sobre os conceitos de Universo. O de que estamos falando é o conceito global, isto é, o conjunto de tudo o que existe. Há um conceito mais restrito que é o de "Universo Observável". Como o espaço do Universo está se expandindo (e isto pode ultrapassar a velocidade da luz, pois não é movimento de conteúdo nenhum), existem locais que estão a uma distância que a luz não foi capaz de vencer e nos atingir até hoje, desde o surgimento do Universo, há 13,7 bilhões de anos. Estes locais são impossíveis de observar. Devido à expansão, o limite observável está a 46,5 bilhões de anos-luz. A teoria da inflação cósmica prevê que o Universo total seja, pelo menos, 100 sextilhões de vezes maior que o observável, ou, mesmo, infinito. Outra concepção é a de Multiversos, dos quais o nosso seria um dentre muitos, até infinitos. Tal hipótese carece de comprovação, aliás, por definição, impossível de se ter, daí ser infalseável. Considero que o Universo seja único.

Bom senso é algo que não tem sentido nenhum em ciência. O que vale é o que se verifica. Teorias são modelos descritivos que procuram explicar a realidade por meio de uma linguagem lógica, geralmente matemática. Mas as teorias só o são porque, confrontadas com a realidade, aderem a ela. Caso contrário são hipóteses. O bom senso diz que todo evento é efeito de uma causa. A realidade mostra que não. Aí estão a desintegração radioativa e a emissão de luz para atestar. Outra falha do bom senso é dizer que tudo tem que provir de algo, mesmo sem causa. Assim o é no Universo atual, pois seu conteúdo observa leis de conservação (que não são prescrições e sim descrições). Mas não precisa ser no próprio surgimento do Universo, pois, neste evento, a passagem da inexistência para a existência, não havia conteúdo para seguir lei nenhuma. Nada indica que o Universo tenha que ser eterno para o passado. É uma questão de verificação. Bom senso é preconceito humano, firmado em nosso limitado acesso sensorial à realidade. "Sempre" é outro conceito que se precisa abolir. Porque o Universo englobaria tudo que "sempre" existiu, sem começo nem fim? É claro que pode ter tido um começo e pode ter um fim! Antes e depois desses limites não existiria nada, nem mesmo o "antes" e o "depois". Há que se verificar. Isto tudo que digo não é minha opinião, mas sim o resultado do trabalho de milhares de cosmologistas ao longo das últimas décadas. Há, inclusive, muitas propostas na mesa, em fase de elaboração e submissão a testes, como a teoria das cordas, das branas e a do laço gravitacional. Não há nada errado no que estou dizendo. É só consultar a literatura pertinente ou, até mesmo, a Wikipédia (em inglês, pois em português é muito restrita). Se nos ativermos ao conhecimento em nível colegial, poderemos equivocar-nos, pois muitas simplificações são feitas.

Como o Universo é o conjunto de tudo o que existe, sua energia interna é constante, pois não há nada fora dele que lhe possa fornecer calor ou realizar trabalho sobre ele. Mas a energia interna é o total de todas as energias cinéticas e potenciais. Como a carga elétrica total é nula e está muito bem distribuída, a expansão do Universo não provoca variação na energia potencial elétrica, mas sim na gravitacional, que aumenta com o afastamento relativo. Daí uma diminuição na energia cinética, cuja densidade por partícula é, justamente, a temperatura. Ou seja, a expansão do Universo provoca seu esfriamento. No caso da radiação, a diminuição de sua energia significa diminuição de sua frequência, que atualmente está na faixa de microondas, de 1,9mm de comprimento de onda, equivalente a uma emissão de cavidade (corpo negro) a uma temperatura de 2,7 kelvins.

Os conhecimentos cosmológicos atualmente disponíveis parecem indicar que o Universo seja espacialmente infinito e temporalmente semi-infinito, isto é, teve um início, mas poderá não ter fim. Antes que existisse, não havia coisa alguma, nem espaço vazio, nem tempo, nem conteúdo, situação denominada "nada". Mas não existia algo que fosse o "nada", como não existe coisa alguma fora do Universo, se ele for finito. Não existe nada, nem o "nada". Outra coisa que não existe é espaço vazio. Todo espaço é preenchido por campo, radiação ou matéria. Quando não tem matéria, chama-se vácuo. O que seja a matéria já seria objeto de debate em outro artigo. Em meu blog www.ruckert.pro.br/blog , digitando-se a palavra "matéria" na caixa de busca, poder-se-á encontrar todas as postagens em que isto foi abordado.

Não vejo necessidade de inventar outro nome para o Universo. Parece que sua definição como o conjunto de tudo o que existe, concretamente falando, contempla exatamente o que estamos discutindo. No sentido filosófico do termo, concreto não significa sólido e nem material, mas não abstrato, isto é, que não seja apenas o produto de concepções mentais, mas exista objetivamente fora das mentes como algo tangível, ou seja, passível de apreensão, mesmo que por instrumentos, se nossos sentidos não forem capazes. Isto exclui espíritos, idéias, valores, símbolos e tudo que não seja natural, que, por outro lado, são incluídos no conceito de "mundo". O Universo é, pois, a totalidade da realidade natural. E esta totalidade pode ser finita ou infinita, tanto no tempo quanto no espaço. No entanto, os dados observacionais parecem indicar que seja infinita no espaço e semi-infinita no tempo.

O “argumento Kalam” (Kalam são as escolas teológicas muçulmanas) diz que o Universo não pode ser eterno para o passado, pois se tivesse surgido em um momento infinitamente afastado para o passado, não teria havido tempo para se chegar ao presente, e o presente existe. Este argumento é falacioso, pois ser eterno para o passado não significa ter começado em um momento infinitamente longínquo, mas sim, não ter começado em momento algum. Então todos os momentos são possíveis, inclusive o presente. Os fatos mostram que o Universo teve um começo, mas não pelo argumento Kalam, que é usado para justificar uma das premissas da “prova cosmológica” da existência de Deus, conhecida como a do “motor primo”, que não é válida porque suas duas premissas não são verdadeiras, ou seja, nada impede (lógica e ontologicamente) que o tempo tenha que ter tido um começo e nem há necessidade que todo evento seja efeito de uma causa.
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domingo, 14 de fevereiro de 2010

O prestígio do Magistério



Na página 87 da edição 2151, de 10 de fevereiro de 2010 (http://veja.abril.com.br/100210/prestigio-zero-p-087.shtml), a revista VEJA aborda a questão do desprestígio que a profissão do magistério goza entre os alunos do Ensino Médio que se preparam para um vestibular. Apenas 2% querem ser professores e, mesmo assim, pertencentes ao grupo dos 30% com as piores notas no ENEM. Os melhores alunos aspiram seguir carreira em Medicina, Direito ou Engenharia. Só faz licenciatura e pedagogia quem não tem "cacha" para enfrentar vestibulares mais concorridos. Assim o magistério fica com a borra do fundo da panela, os professores e professoras quase no mesmo nível cultural de trabalhadores sem qualificação.
No tempo em que eu estudava no antigo "Científico" (terminei em 1967), os melhores alunos eram incentivados e desejavam mesmo ser professores, como eu. Não pelo salário, mas pelo serviço que seriam capazes de prestar à humanidade. O que mudou?
Neste interim o ensino democratizou-se exigindo um contingente muitíssimo maior de professores, levando o estado, nos seus três níveis, a reduzir drasticamente o salário do professor público, que hoje, em poder aquisitivo, no início de carreira, é apenas, no meu juízo, uns 20% do que era então. No fim da carreira um professor catedrático do Ensino Médio em escola estadual, poderia receber o equivalente atual de uns dez mil reais. Além disto, eram pessoas de alto prestígio social, como médicos, advogados ou empresários, membros do Rotary Club e similares, possuidores dos poucos automóveis particulares, ainda importados e donos das boas casas da cidade. Isto não faz de ninguém um rico, mas, sem dúvida é atraente para os mais bem dotados academicamente.
Não há dúvida de que o fator primordial para o progresso de uma nação é a educação ampla e de qualidade. Isto precede saúde, habitação, transporte, agricultura, indústria, comércio, emprego e tudo o mais, pois, pela educação, tudo isto será obtido. E uma boa educação se propicia, antes de mais nada, com bons professores. Isto também precede as instalações escolares, os livros didáticos, a merenda escolar, os equipamentos educacionais (carteiras, computadores, laboratórios etc.). É preciso, pois, que a carreira do magistério volte a ser, não apenas dignamente remunerada, mas atrativamente remunerada, o que, no meu entendimento, significa um salário inicial de cinco mil reais, com dedicação exclusiva e 16 horas de sala de aula, restando 24 para preparação, correção de avaliações e reciclagem, que, no magistério, tem que ser contínua (isto é, diária). Assim ocorrendo, em uma geração, teremos substituídos os atuais professores e professoras incompetentes, por um grupo de gabarito, capaz de ser aprovado em concursos exigentes. É claro que, paralelamente, há que se erradicar inteiramente toda e qualquer manobra politiqueira de contratação sem concurso de apaniguados. Isto é possível?
Claro, desde que se tenha a vontade política para tal. E isto acontecerá se os eleitores, ao invés de votarem nos candidatos que prometem a solução de seus problemas pessoais, votem naqueles que tenham compromisso já demonstrado com a educação e com a erradicação da corrupção, a custo até de prejuízo pessoal. Isto não depende de qual partido seja o candidato, pois um politico honesto não vota no que o partido manda, mas no que sua consciência indica, mesmo que contrarie a determinação partidária, se esta for nociva ao interesse público. E um político comprometido com o bem público apresenta projetos construtuivos e luta por sua aprovação, trabalhando duramente para que tudo seja feito no interesse do povo.
As eleições estão aí. Precisamos pensar nisto: Educação é a solução!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Sobre o amor e liberdade...






Quem ama liberta?

Libertar, no caso em tela, significa permitir que a(o) amada(o) também ame outro(a). Ou que deixe de amá-lo(a). Esta é a questão da liberdade no amor. Exigir reciprocidade, fidelidade, exclusividade e mesmo lealdade, não é dar liberdade. Certamente que se deseja e espera da pessoa amada que lhe seja leal e sincera, mas não se pode exigir. No máximo, caso estas condições não sejam atendidas, que se interrompa o relacionamento (mesmo que não se deixe de amar). E importante frizar, contudo, que o que se chama de “traição”, não é o fato de se ter outro relacionamento amoroso, mas que isto seja feito às escondidas, numa situação em que o traído espera que tal não ocorra. Se houver um consenso de permissão recíproca de outros relacionamentos e isto for cientificado, quando de fato se der, não há traição. E isto é perfeitamente admissível e não significa ausência de amor nem de lealdade. Amor absolutamente não envolve posse. Pretender ser proprietário do ser amado é egoísmo e não amor. O amor genuíno e verdadeiro deixa o ser amado livre para nos amar ou não e para amar a outras pessoas além de nós. Não só amores filiais, paternais ou amizades, mas amor carnal mesmo. É preciso entender que não há, na espécie humana, nenhum impedimento biológico para o amor plural, como acontece em alguns outros animais. A monogamia amorosa é só uma questão cultural e, inclusive, maléfica e fonte de muita infelicidade. Sua origem está mais ligadas a fatores econômicos de herança do que biológicos.
Assim, quem ama verdadeiramente, deixa o amor livre, de forma altruística. Quem prende o ser amado não ama, mas revela seu egoísmo.
Ciúme é um sentimento totalmente malevolo e prejudicial à felicidade da própria pessoa e de quem ela ama.
Algumas pessoas pretendem que quem as ame tenha ciúme e seja possessivo, como uma prova de que ama de fato. Isto é um enganação. Os crimes passionais não têm justificativa nenhuma. Só revelam um psiquismo doentio, além de um extremo egoísmo.
Meu entendimento e meu sentimento é de que o sentimento de posse exclusiva em relaçâo à pessoa amada é um condicionamento puramente cultural e não biológico, na espécie humana. Numa sociedade em que se considere o partilhamento comunitário de todos os bens e do resultado de todo trabalho, o compartilhamento dos cônjuges e dos filhos também se torna natural. Quanto ao medo de que a esposa nos deixe por gostar mais de outra pessoa, isto é um risco que se tem que correr. O remédio é fazer por onde ela nos considere, realmente, melhor do que outros, nos vários aspectos. Pretender que nosso ser amado nos ame por coação legal ou outro tipo de constrangimento à plena liberdade de escolha não definitiva dos parceiros, consecutivos ou simultâneos é uma tirania. Outro aspecto que precisa ser definitivamente abolido do relacionamento conjugal é o econômico. Em nenhuma hipótese se deve considerar que a união dos amantes se dê por conveniência econômica. Isto é, relação conjugal não é meio de vida nem para maridos nem para mulheres. Cada ser adulto e capaz, enquanto não vém a sociedade ácrata, deve prover o seu próprio sustento e compartilhar os deveres de paternidade com aquele ou aquela com o qual o filho ou filha tenha sido feito, enquanto não se sustentem por si mesmos (o que deve ocorrer o mais cedo possível, sem apelo para heranças).
Para mim o ciúme é algo inteiramente descabido.

As pulsões primitivas e o amor

Nada é mais importante do que o amor. Trata-se de algo engendrado pela natureza ao longo da evolução para garantir a sobrevivência da espécie. Enquanto o egoísmo pode ser eficaz para a sobrevivência do indivíduo, é o amor que garante a perenidade da espécie. O sexo foi uma estratégia da natureza para garantir a variabilidade genética e possibilitar múltiplas escolhas na seleção natural. Seria possível, por partenogênese, a existência de espécies apenas com o sexo feminino, que é o essencial, sendo o masculino meramente acessório. O surgimento do sexo, desde os mais primitivos seres vivos, contudo, revelou-se a opção mais eficaz. Eros é, pois, a pulsão mais poderosa, pela qual os indivíduos até mesmo dão a vida.
A sobrevivência da espécie também exige o cuidado com a prole e a proteção da fêmea, atitudes que se sublimaram na componente platônica do amor. Assim o amor evoluiu para um comportamento não só sexual mas também de carinho. A necessidade de proteger o grupo privilegiou aqueles que possuíssem fortes laços de cooperação interpessoal, que é sublimada na amizade.
Duas forças coexistem nas espécies animais: a de competição, egoísta e belicosa, que deseja o poder sobre o outro a ser subjugado e a de cooperação, que se expressa no amor, na compaixão, no altruísmo. A primeira tem suas raízes profundas na necessidade de aplacar a fome fisiológica de alimento e a segunda no impulso de preservação da espécie. Sendo o homem uma espécie altamente evoluída, que atingiu um estágio de consciência psíquica plena e desenvolveu a cultura, essas forças primitivas da natureza foram canalizadas para as expressões refinadas da arte, do engenho e da ciência. São elas que movem o poeta, o guerreiro, o cientista, o sacerdote, o empresário, enfim, todo homem e toda mulher a fazer o que quer que seja na vida.
Em seu livro “O Gene Egoísta”, Richard Dawkins diz que nossos organismos nada mais são do que instrumentos criados pelas moléculas replicantes para perpetuarem-se. Assim os dois instintos primários, da existência e da procriação, forjaram-se na natureza para atender a este imperativo básico do gene: replicar-se. Esta pulsão pode estar contida na própria estrutura subatômica da matéria, de um ponto de vista reducionista. Deste modo, talvez a própria estrutura íntima do Universo seja naturalmente estabelecida para culminar na vida, lembrando as idéias de Teillard de Chardin. Isto não significa que haja um projeto inteligente. Trata-se apenas de como as coisas são por si mesmas, sem razão nem propósito. Mas… não sei. Há que se investigar e discutir.

O amor e a felicidade

Pelo que se pode concluir, o sexo é, pois, um componente essencial da vida e um dos mais relevantes fatores de felicidade. Uma vez preenchidas as condições mínimas de sobrevivência: ar, água, alimento, abrigo (incluindo vestuário) e segurança, a pessoa busca sua felicidade. Dentre os muitos fatores que levam à felicidade, não resta dúvida que o mais relevante é a sensação de ser amado. Mas, para quem já seja sexualmente maduro, não é apenas o amor maternal, paternal e fraternal que contam. Há uma carência do amor erótico. Este é o objetivo buscado. Como nisto há uma reciprocidade, há que se amar para ser amado. Tal fato é tão válido que, mesmo sem correspondência, o ato de amar é fonte de felicidade, mesclada com uma doce tristeza.
Quando o amor é correspondido e se realiza eroticamente, atinge-se um êxtase talvez só comparável aos arroubos místicos. Por maior que seja a pulsão fisiológica para o sexo, da qual, por sublimação surgiu o amor, sua realização dissociada do amor não proporciona nem uma mísera fração da beatitude que o sexo com amor é capaz de conceder. Porque, aí, o sexo não é só fruição, mas, principalmente, doação. Excluído o egoísmo do sexo, incrivelmente, ele propicia um prazer maior ainda. É procurando dar o máximo prazer que se desfruta dele em plenitude. E, para isto, há que se buscar conhecer o parceiro completamente, em corpo e em espírito. Tudo está envolvido. Pudores têm que ser esquecidos. Uma pitada de molecagem sempre é bem-vinda. Mas, no meu entendimento, sem afligir dor e nem constrangimento algum. Só o prazer dos murmúrios, dos perfumes e dos odores, dos toques suaves e dos vigorosos, de todos os recursos disponíveis, sem reservas e sem remorsos. Sem pressa. Esquecido do mundo. Isto é o amor e os orientais são sábios em cultuá-lo, de modo até sagrado. Como diz Chico Buarque na “Valsinha”, como não seria melhor o mundo se o amor fosse o prato do dia de todos.
Amor é um sentir, um pensar, um desejar, um querer e um agir, isto é, uma emoção, um sentimento, um apetite, uma volição e uma ação. Esse complexo de fatos psíquicos caracteriza o amor em todos os planos, piedade, compaixão, solidariedade, afeição, amizade, amor platônico, erotismo. Amor filial, maternal, paternal, fraternal, conjugal, idealista. A intensidade e a seqüência em que eles aparecem podem variar. O amor sempre emociona, enternece, enleva e envolve um desejo de zelo, cuidado e proteção da coisa amada, bem como um anseio de reciprocidade. Mas o amor só se realiza quando é expresso em vontade e esta vontade em ação. Não basta sentir e desejar para amar, é preciso querer, demostrar e provar. O amor envolve dedicação e renúncia, paciência e perseverança, trabalho e recompensa, alegria e tristeza, euforia e depressão. É algo envolvente e inebriante. O amor não é possessivo, ciumento, exclusivista, castrador, sufocante. Pelo contrário, o amor é libertário e altruísta. Não me refiro apenas ao amor erótico, mas a todas as modalidades, inclusive as formas idealistas de amor à verdade, justiça, sabedoria, humanidade e natureza. O amor não pode ser cerceado em sua intensidade e abrangência. Ele não possui limites. Quanto mais intensamente se ama e a mais coisas e pessoas, mais capacidade se tem de amar. E quanto mais se ama, mais se realiza e maior é a felicidade, mesmo que nem sempre ele seja correspondido.

As variantes do amor

Falando-se, então, de amor, e não só de sexo, não há porque impor-se restrições de gênero, número e grau. Entendendo-se o sexo como expressão corporal do amor, a imposição de impedimentos, ou mesmo apenas de inibições a sua plena expressão, certamente é causa de perturbações psicológicas. Note-se que, absolutamente, não estou falando de libertinagem e de nenhum comportamento escandaloso, devasso ou ofensivo. Estou apenas dizendo que a livre expressão pública de afeto entre pessoas do mesmo sexo tem que ser considerada inteiramente normal, se essas pessoas pertencem àquela porção de humanidade que sentem atração natural por feromônios do mesmo sexo. Não se trata de falta de vergonha, se é que possuir vergonha seja, de fato, uma virtude.
Pessoalmente, sinto até certo asco em me imaginar acariciando, quanto mais relacionando-me com outro homem. Mas isto é uma característica de cada um. Amar o sexo oposto, o próprio ou ambos, para mim, é perfeitamente normal e tem que ser aceito pela sociedade com a maior tranqüilidade, mesmo no seio da família. Só acho esquisito certos trejeitos exagerados que alguns gays exibem, que nem mesmo as mulheres fazem. Sou amigo de gays e lésbicas, tão firme na amizade como na de heteros. Nenhum de meus amigos gays jamais insinuou-se para mim de forma sensual.
Do mesmo modo, posso ser amigo de alguma prostituta sem considerar que deva fazer uso dos serviços dela, não me importando com o que alguém possa dizer a respeito. E admito como natural a possibilidade da poligamia e da poliandria. Apesar disto, sou um marido estritamente fiel e monogâmico, mas acho que poderia ter várias mulheres e minha mulher vários maridos. Quanto à Bíblia, não me importo com o que ela diga a respeito. Contudo, a pregação que se atribui a Jesus é a do amor. Então, como condenar quem ama, seja a quem for? Quanto mais as pessoas amarem-se umas às outras, melhor. Não se pode exigir exclusividade e nem fazer restrições ao amor, dizendo a quem se pode ou não amar. Se Jesus mandou amar até os inimigos, não posso entender que se possa recriminar ninguém por amar alguém. E veja-se que não sou cristão.

Poliamor

Muitas pessoas seriam bem mais felizes se pudessem ter mais de um companheiro ou companheira. Afinal, pode acontecer de amarmos sincera e profundamente a mais de uma pessoa. Ou não?. É um assunto polêmico, contra todas as convenções sociais, mas acredito que acontece o tempo todo. Como vivemos numa sociedade monogâmica, os sentimentos são abafados, escondidos, frustrados, calados, amordaçados e podem trazer uma sensação de culpa muito grande, que gera muito sofrimento. Numa sociedade perfeita, as pessoas seriam livres de egoísmo, ciúme, inveja e sentimento de posse. Vi um documentário sobre os mórmons de Utah, que mostrou homens casados com mais de uma mulher, vivendo felizes numa família imensa. Não vi nada de errado, já que todos mostravam alegria e união. Infelizmente o contrário não é permitido entre eles, isto é, uma mulher não pode ter mais de um marido. Nas colônias anarquistas de Santa Catarina, no princípio de Século XX, isto era possível e há um romance do Miguel Sanches Neto, “Um Amor Anarquista”, sobre a Colônia Cecília, que conta um caso assim.
Segundo a natureza humana, será que essa sociedade pluriamorosa seria possível? Será que faz parte do homem, segundo sua biologia, ter ciúmes sexuais de sua parceira, já que foi “programado” para espalhar seus genes com a máxima eficiência e, da mulher, ter ciúmes sentimentais, pois um homem apaixonado tenderia abandonar sua prole para constituir outro núcleo familiar? Será que um dia seria possível uma sociedade em que não se fosse taxado de promíscuo, ou coisa assim, quando se amasse mais de uma pessoa? E será que é mesmo possível amar plenamente mais de uma pessoa? Seria possível apaixonar-se perdidamente por uma pessoa, amando outra? O que fazer neste caso?
A noção de univocidade e exclusividade do amor não é verdadeira. Muitas pessoas ja vivenciaram isto, ou seja, estarem apaixonadas simultaneamente por mais de uma pessoa. A literatura e as artes, inclusive, são pródigas na exploração deste tema. Muitos conflitos existenciais ocorrem por este motivo, uma vez que a sociedade não admite a realização desta possibilidade, o que leva, até, ao suicídio. O conflito é muito grande porque a própria pessoa não admite em si esta dicotomia. E aquela que for o objeto do amor da outra, não está culturalmente disposta a compartilhá-lo com mais ninguém.
Posso afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que é perfeitamente possível a pluralidade do amor, entendido de modo completo e no sentido do amor erótico. Isto é: a poligamia e a poliandria são perfeitamente cabíveis e poderiam certamente ser aceitas pela sociedade como coisa inteiramente normal e legalizada, com todas as implicações jurídicas e econômicas envolvidas. Não se trata de imoralidade nenhuma, pelo contrário, seria uma medida salutar para permitir a maximização da felicidade do maior número de pessoas. Certamente de uma forma consentida por todos os envolvidos e com compromisso de fidelidade recíproca, mas não exclusiva. Assim, não só o marido poderia ter mais de uma mulher mas a mulher mais de um marido, formando uma teia na sociedade. É uma nova forma de organização social, diferente da família monogâmica, mas perfeitamente aceitável. Isso tudo faz parte de minha idéia mais ampla de uma sociedade ácrata ou anarquista, sem fronteiras, sem governo, sem dinheiro e sem propriedade, inclusive do cônjuge.
Evidentemente, esta estrutura familiar estendida só poderia ocorrer em uma situação em que o matrimônio não tivesse a componente econômica e todo adulto provesse a si mesmo, sem depender de relacionamentos amorosos para seu sustento. O custeio dos filhos seria, então, rateado pela mãe e pelos pais. Numa sociedade comunitarista, a inexistência de habitações individuais não geraria o problema de decidir quem moraria na casa de quem.

Ciúme é egoísmo

Estou com aqueles que consideram o ciúme uma manifestação de puro e simples egoísmo. Sentir ciúme é pretender que o ser amado seja propriedade sua. Isso não é amor. Sou ateu, mas nunca vi melhor descrição do que é o amor do que o que disse o apóstolo Paulo no capítulo 13 de sua primeira carta aos coríntios:
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, não seria nada.
Ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, de nada valeria.
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante.
Nem escandaloso. Não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
O amor é completamente gratuito. Não exige nada em troca, nem reciprocidade nem exclusividade. E se compraz com a felicidade do amado em qualquer circunstância. Ciúme é egoísmo, não amor. Não há posse no amor. E a felicidade é maior pelo amor que se dá e não pelo que se recebe. Mas é ótimo ser amado, sem dúvida. O que não se pode é exigir amor de ninguém e nem que o amado não possa também amar a outrem. Aquele que ama, inclusive, dispõe-se a compartilhar o ser amado. É preciso reverter inteiramente esta noção de propriedade no amor. Isso é sinal de imaturidade. Ama-se e confia-se no amado. O ciumento preocupa-se mais é com a perda de sua imagem, caso venha a ser traído. Mas não há traição se o compartilhamento é consentido. Nada disso haveria se a sociedade admitisse, tranquilamente, a pluralidade simultânea do amor.

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