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quinta-feira, 18 de março de 2010
Filosofia Científica
Cientifização da Filosofia
Ao longo da história a Filosofia foi gradativamente perdendo lugar para a Ciência. Considero que isto não apenas seja inevitável mas, realmente, bom. E veja que me considero um filósofo. O método filosófico se centra em conceituação, exame, reflexão e conclusão. Tudo isto feito de forma puramente racional, isto é, sem apelo a verificações empíricas. Contudo, à medida que a ciência forneceu meios de se obter tais verificações, as conclusões filosóficas sobre os temas considerados perderam sentido, pois, se concordassem com a ciência, seriam científicas e se discordassem, seriam descartadas. Pode ser que haja algo que resista a toda tentativa científica de abordagem e permaneça estritamente filosófico, mas o que percebo é que o escopo de abrangência da Filosofia tende a diminuir. A não ser que se passe a considerar a Filosofia como uma ciência, fazendo uso de métodos científicos e apenas mantendo o nome de Filosofia em razão dos objetos de estudo a que se dedicar, como ética, epistemologia, metafísica ou outro. Cosmologia já vimos que é ciência. Psicologia também não é mais filosófica, depois da introdução das neurociências. A lógica parece não ser científica, mas há correntes que consideram que ela decorre do comportamento da natureza. Esta proposta de uma Filosofia Científica eu já fiz em várias comunidades do orkut e está em discussão.
Filosofia Científica
Faço, pois, minha proposta de uma nova abordagem da filosofia, que denomino “Filosofia Científica”. Em que consiste? A Filosofia é uma disciplina que se dedica à busca do saber e à obtenção da sabedoria. A Ciência também é uma busca do conhecimento, mas os métodos e os objetos não são os mesmos. A Ciência (os as ciências) busca o conhecimento das entidades e fenômenos de modo sistematizado e fundamentado em evidências e comprovações, pela formulação e testes de hipóteses, com o uso de metodologias que aferem seus modelos explicativos com a realidade objetiva do mundo, tanto natural quanto das idéias. Mas se atém aos níveis imediato e mediato das relações entre seus objetos de estudo. A Filosofia, por sua vez, procura as razões fundamentais, as causas primeiras, as últimas consequências. Não só os “comos”, mas, principalmente, os “porquês”. Nessa busca, principalmente voltada para tirar lições de vida, a Filosofia se vale principalmente da especulação, que consiste na aplicação do raciocínio ao objeto de estudo, para tirar conclusões racionais. É um processo de reflexão sobre a realidade em suas múltiplas facetas, que conduz à formulação de esquemas interpretativos e explicativos. Nesse mister muito valiosos são os conhecimentos de lógica e linguística (no sentido mais amplo de uma ciência dos signos) pois que qualquer explicação é uma representação simbólica da realidade. A Filosofia dita analítica, corrente predominante no mundo anglo-saxão do século XX, envereda por uma abordagem diferente da especulativa, justamente por fazer uso maior dos métodos lógicos e linguísticos. O que eu proponho vai mais adiante. O que estou denominando “Filosofia Científica” é uma abordagem dos objetos pertinentes à Filosofia por uma perspectiva científica. Isto evita a existência de “escolas de pensamento”, colocando as explicações num patamar superior ao de “opiniões” ou “modos de ver”, permitindo que se chegue a um consenso da comunidade filosófica.
Desta maneira, qualquer tema filosófico, é analisado, não só pela reflexão e cotejo de tudo o que já foi dito a respeito com os dados da realidade, mas que as propostas de explicação sejam consideradas com o status de “hipóteses” a serem testadas em suas consequências com o uso de toda a metodologia científica existente. Este tipo de procedimento permite convergir as explicações para uma explicação única, evitando-se “interpretações” segundo as diferentes escolas. É o tipo de coisa que falta, por exemplo, na Psicologia. A Psicanálise é uma interpretação, de acordo com uma escola de pensamento. Não é o que ocorre na Medicina, por exemplo. Quando se descobre uma nova e melhor explicação para certa doença, por exemplo, as anteriores são abandonadas (o que ocorreu, recentemente, com a questão da úlcera gástrica). O mesmo se dá na Física. É esta forma de ser científica que estou propondo para a Filosofia. Quero que neste tópico sejam apresentadas ponderações e argumentos favoráveis e contrários, para que possamos ver a questão de uma modo mais iluminado. Por outro lado também seria interessante que se colocassem de que modo isto poderia (ou não poderia) ser feito no domínio da Metafísica, da Ética, da Estética, da Epistemologia, da Política, da Lógica, da Psicologia e dos outros temas abordados pela Filosofia.
O modelo da Física
O positivismo exclui a metafísica e considera inacessível a busca dos “porquês”, centrando-se na pesquisa científica dos “comos”. O positivismo é uma anti-filosofia. Não estou propondo que a metafísica e a filosofia sejam extintas e nem que se desista da investigação das causas primeiras nem dos fins últimos. O que proponho é que, nesta investigação, mesmo que se aplique a especulação, o critério de aferição da veracidade dos juízos que forem estabelecidos seja um critério científico. As escolas podem existir na escolha das definições, pois estas são arbitrárias. O ideal é a obtenção de um consenso. No caso das ciências, existem comitês que se reúnem periódicamente e dão a chancela às definições que devem ser adotadas pela comunidade. Isto poderia ocorrer com a filosofia. A existência de escolas na sociologia, na psicologia, na filosofia, na economia e em outras ciências, principalmente nas sociais, no meu modo de ser, enfraquece essas ciências, pois revela insegurança no conhecimento. Nas ciências naturais, especialmente nas exatas, a existências de mais de uma explicação alternativa é sempre uma condição provisória, até que uma delas se estabeleça como o padrão. Novas explicações sempre surgem para novos fenômenos, mas elas permanecem como hipóteses até que o consenso geral da comunidade científica as eleve ao estágio de teorias, no qual permanecem até que novos fatos venham requerer sua revisão. Este modelo de estrutura de ciência, mais nitidamente observado na Física, para mim, é um padrão ideal ao qual devem aspirar as demais ciências para que tenham um grau maior de confiabilidade.
A permanência das escolas na Filosofia
Na Física e na Química, quando uma teoria é contestada e substituída por outra, a anterior passa a ser considerada errada ou, no máximo, uma aproximação. Assim ocorreu quando a teoria cinética da matéria sepultou a teoria do calórico, quando a teoria atômica explicou a estrutura da matéria, quando a teoria da relatividade substituiu a mecânica newtoniana, quando a física quântica suplantou a física clássica, quando a teoria eletromagnética soterrou a teoria corpuscular da luz e em várias outras situações. Hoje em dia, a cromodinâmica quântica e a relatividade geral são as teorias estabelecidas para o micro e o macro-cosmo. Mas estão sendo contestadas pelas hipóteses (impropriamente denominadas teorias) das super-cordas e das p-branas. Estas, contudo, ainda não estão estabelecidas (e pode ser que nem o sejam). Mesmo reconhecendo o grande valor de Newton, nenhum físico é adepto de suas teorias. Não é o que ocorre na Filosofia. Novas correntes surgem, mas não substituem as antigas. Ainda existem platônicos, tomistas e kantianos, ao lado de existencialistas, estruturalistas, fenomenologistas e outros “istas”. Ora, se uma nova visão da realidade for proposta, penso que deva mostrar cabalmente que as anteriores estavam erradas, de modo que ninguém mais as adote, exceto como objeto de estudo histórico. Este também é o problema da psicologia, que admite a coexistência de escolas mutuamente exclusivas ao mesmo tempo. Não é possível que a explicação dos fatos psíquicos possa ser igualmente dada por teorias antagônicas. Ou uma ou outra ou nenhuma delas. Por isso é que acho que a psicologia tem que ser integrada à medicina, como parte da neurologia. É este tipo de problema que vejo existir na economia e na sociologia, que me fazem desacreditar de todas as explicações econômicas. Trata-se da falta de “cientificidade”.
O “Salto de Fé” científico
As explicações das ciências se dão por raciocínio indutivo (mesmo na Matemática, como exporei depois). Ao passar do particular para o geral, realmente se dá um “salto de fé”. Prefiro usar o termo “crença”, uma vez que reservo o termo “fé” para uma crença sem fundamento. Ao se estabelecer uma lei física com base em experimentos, a ciência acredita em sua validade enquanto as consequências advindas dela forem corroboradas experimentalmente. Tão logo um fenômeno a contrarie, ela é revisada. Não é o que ocorre com a fé religiosa. Esse mesmo tipo de coisa se dá com os modelos explicativos da origem do Universo. Com base nas teorias existente e nos dados observacionais, traça-se um quadro plausível que explique essa orígem. Desse quadro, com as mesmas teorias, são preditas consequências passíveis de verificação. Enquanto tudo permanecer OK a explicação é mantida. Se outras alternativas forem formuladas, busca-se um “diagnóstico diferencial” que permita optar por uma delas. Quando novos dados observacionais exigirem, correções ao modelo são introduzidas, ou mesmo, uma revisão completa é procedida. É assim que caminha a ciência, que nunca pretende possuir a verdade definitiva.
Matemática, uma ciência experimental
A Matemática é o exemplo de uma estrutura lógica. Contudo não difere essencialmente da Física. Tomemos a teoria dos números. Tudo tem por base os axiomas de Peano. Deles se constroem os números naturais, dos quais saem os inteiros, os racionais, os reais, os complexos, os quatérnios, as matrizes, os tensores, as funções, os funcionais, os operadores, os limites, as derivadas, as integrais, as formas diferenciais e toda a aritmética, a álgebra e a análise. Tudo segue um esquema dedutivo, sobre entidades convenientemente definidas (e as definições são arbitrárias). Poucos axiomas são adicionados. O mesmo se dá na geometria, inclusive as não euclideanas. Mas estes axiomas, de onde vêm? E as leis da lógica, que se usam para deduzir os teoremas? Não é interessante que a Matemática tenha o poder de conseguir prever o comportamento da natureza, quando as leis que descrevem os fenômenos são matematicamente expressas? Isto não é coincidência. Os axiomas só levam a teorias que espelhem a realidade quando são abstrações de ocorrências concretas do mundo real. A operação de soma dos números naturais, advinda da definição de “sucessor” é uma abstração da elementar prática de contagem nos dedos, por exemplo. A mente do matemático não construiu esses axiomas a partir do nada, mas deu uma fundamentação teórica a conhecimentos empíricos do homem desde a pré-história. Mesmo noções sofisticadas, como a dos números reais e de limites (a partir dos cortes de Dedekind ou dos intervalos de Cauchy), são teorizações de noções intuitivas. Todo matemático, ao demonstrar um teorema, em sua mente, constrói imagens concretas e intuitivas do que está pensando e, então, formaliza, na linguagem matemática, o que concluiu. Assim digo, com segurança, que os axiomas matemáticos não diferem das leis físicas, no que diz respeito ao fato de serem generalizações induzidas a partir de observações particulares e aceitos por um ato de “fé”.
Psicologia
A psicologia, para mim, é uma ciência natural, um ramo da neurologia, que faz parte da biologia. Até o momento não vi nenhuma comprovação cabal da existência de uma mente como entidade independente do cérebro. Como em toda ciência, a psicologia deve se libertar da existência de “escolas” e se fixar em fatos, de modo a se ter uma única psicologia, baseada em evidências. Interpretações podem e devem ser propostas, mas consideradas como provisórias até comprovação. Pelo conhecimento que tenho, o cérebro, realmente, não se programa. Sua programação é algo que se desenvolve desde o embrião e se completa ao longo da vida, em função dos estímulos sensoriais. Se uma pessoa completamente desprovida de sentidos pensa ou não, é algo difícil de se estabelecer. Seria preciso que um caso real ocorresse e, então, fossem desenvolvidos métodos experimentais para se investigar que tipo de evidências externas (como um eletroencefalograma ou que aspectos de uma imgem de ressonância magnética nuclear) seriam indicativos do ato de pensar. Não sei se isto já existe. Como um mero palpite, digo que não. Uma experiência interessante poderia ser feita com surdo-mudos de nascença, que não tenham adquirido nenhuma linguagem alternativa à fala. Seu pensamento se daria diretamente com imagens visuais, táteis, térmicas, olfativas e outras não auditivas. Seria um “pensar sem palavras”. Mas pensar sem imagem sensorial nenhuma, não sei se seria possível ou mesmo se este ser teria algum tipo de vida psíquica. Pelo menos, para poder fazer funcionar o próprio organismo, os sentidos internos de funcionamento dos órgãos teriam que existir.
Exatidão das ciências
É preciso entender o que se pretende dizer com o caráter “exato” de uma ciência. Em termos de exatidão do valor de uma grandeza, nenhuma ciência que trata da realidade concreta é exata como a Matemática, que tem por objeto abstrações (números, figuras). A questão, no meu entender, refere-se ao modelamento da realidade que a ciência pretende desenhar. Nas ciências ditas “exatas” (física, química), o modelamento é aceito como um padrão pela comunidade, até que seja derrubado por novas evidências. Nas demais ciências, mormente nas humanas (e economia, por exemplo, é uma ciência humana), não há um modelo padrão da realidade, mas sim múltiplas propostas, segundo diferentes “escolas de pensamento”. É o que ocorre na sociologia, na psicologia e na economia, por exemplo. Neste sentido é que se diz que elas não são exatas, pois não há modelo preditivo algum que permita, uma vez conhecidas as condições de entrada de algum fenômeno por elas descrito, estabelecer uma única saída prevista, mesmo que dentro de certa imprecisão. Na Física e na Química os fenômenos podem ser bem controlados. Mesmo assim há imprecisões, devidas à falta de controle sobre os dados de entrada, como na meteorologia (que, além disto, é extremamente complexa). E não se pode esquecer da incerteza intrínseca que a própria Mecânica Quântica demonstra existir na natureza. Deste modo a resposta pode ser sim ou não, dependendo do que se pretende dizer com esta exatidão.
Corte epistemológico
O fato das ciências terem para objeto aspectos particulares da realidade enquanto a filosofia cuida do todo, no meu entendimento, não impede a aplicação do método científico à filosofia. A questão de que, em filosofia, não se admite o corte epistemológico, segundo o qual as novas explicações superam as anteriores (no sentido de Bachelar). A aplicação do método científico sempre levaria a decidir por esta ou aquela concepção. É isto que desejo ver ocorrer na filosofia, sem renunciar à sua abrangência.
Além da Filosofia Analítica outra concepção que se aproxima desta vertente científica é a “Filosofia Concreta ” de Mário Ferreira dos Santos que, confesso, não conheço em detalhes.
Não gostaria de adjetivar a Filosofia de modo algum. Considero que filosofia é apenas “Filosofia”. Mas gostaria de ver esta rainha estabelecida de uma forma inequívoca e independente de concepções particulares.
Neste sentido é que faço esta proposta, não para encarcerar a Filosofia ou podar qualquer abertura, mas sim para que as discussões sejam levadas a cabo, no debate entre várias correntes, a fim de que se chegue à aceitação generalizada de tal ou qual concepção a respeito de cada tema. Esta também é a maneira como gostaria que fosse a psicologia, a sociologia e a economia, por exemplo.
O método científico
A colocação de que a ciência se constrói a partir do teste de hipóteses a serem verificadas e que elas precisam ser falseáveis para serem científicas é apenas a metade da história (ou, até mesmo, menos da metade). O mais importante da ciência não é o teste das hipóteses mas a formulação das hipóteses. E, para isto, não há método estabelecido. Existem procedimentos, os mais variados, tanto experimentais quanto mentais, para se elaborar uma hipótese. Isto os cientistas não publicam em seus trabalhos de pesquisa. Eles não contam o “pulo do gato”. Não relatam seus palpites frustados. Sim, palpites, opiniões. É assim que eles elaboram as hipóteses e as testam. Mas só publicam as que passam nos testes. As outras vão para o lixo, mas constituem uma importante etapa da construção do conhecimento. O treinamento de um cientista, nos cursos de doutorado, não aborda essas coisas. Na formulação da hipótese entra mais a intuição do que a razão. Entra até o inconsciente. Como se sabe, muitos cientistas obtiveram a solução de seus problemas em sonhos. Há que se aplicar a lógica e o método no trabalho científico, mas eles padecem de um grande defeito: não são criativos. O verdadeiro progresso da ciência se dá sem método. É sem método que as grandes revoluções de mudança de paradigmas ocorrem. São os “insignts” do inconsciente que levaram Planck a trocar uma integral por um somatório e criar a mecânica quântica no estudo da radiação de corpo negro ou Einstein a postular a constância da velocidade da luz ao tentar justificar o sucesso das transformações de Lorentz em explicar o resultado negativo da experiência de Michelson-Morley.
Ética Científica
Seria possível uma abordagem científica da ética? Distinguindo a ética da moral eu diria que enquanto a moral é uma disciplina normativa, isto é, trata das prescrições que devem ser seguidas nas ações humanas, para que sejam conformes aos costumes estabelecidos por certa sociedade, a fim de preservar a convivência, a ética é o estabelecimento dos princípios a que devem se ajustar as prescrições morais e em que devem eles ser baseados. Assim a moral não seria científica (nem mesmo filosófica), mesmo que se leve em conta que as razões para o comportamento moral não estão em nenhuma punição, recompensa ou manutenção da reputação, mas no próprio imperativo do dever, sem recompensa, policiado apenas pela própria consciência. A ética, por outro lado, é filosófica, e inquire a razão e o propósito da conduta moral, o estabelecimento das noções de bem (ou bom) e mal (ou mau), bem como o escalonamento dos valores das ações humanas. A ética, pois, cuida do fazer humano (ou de outro ser consciente) e não das coisas e dos seres. Assim caracterizada pode a ética ser abordada sob uma perspectiva científica e, eu diria até, quantitativa (matemática). Os conceitos de felicidade e prazer, por exemplo, podem ser perfeitamente quantificados e eles possuem relevante papel na definição do valor de uma ação. Não estou fechando questão sobre isto, mas considero possível tal tipo de abordagem. Acho que se pode, inclusive, atribuir o caráter matemático de um “funcional” (próprio do cálculo variacional) e, portanto, considerar como grandeza, o nível de felicidade, cientificamente estabelecido em alguma espécie de escala, como se faz na quantificação da percepção do som, da cor, do cheiro, do sabor, da temperatura, da pressão etc. Tudo medido em termos de níveis de serotonina ou outros neurotransmissores que se mostrem relevantes na questão. O mesmo pode ser desenvolvido com relação à quantificação da dor (tanto física como emocional ou moral). Um aparelho medidor de dor, tipo de pressão arterial ou de glicose poderia ser desenvolvido.
Quanto a uma equação matemática para a medida do nível de felicidade ou do caráter bom ou mal de uma ação, ela ainda não existe. O que eu disse é que poderia ser desenvolvida, como o há para a percepção de cor, por exemplo. Um primeira abordagem seria, por exemplo, atribuir uma escala de nível de satisfação (ou prazer) a partir da medição de algum indicador a ser determinado (por exemplo, nível de serotonina), ou da amplitude de alguma onda eletroencefalográfica. Pesquisas precisariam ser feitas para determinar a correlação entre vários indicativos de prazer e dor. Isto é trabalho para uma linha de pesquisa em alguma (ou várias) universidades, que podem gerar inúmeras teses de doutorado ao longo de muitos anos, até que se tenha um índice confiável e inconteste. Trata-se de um tema interdisciplinar da neurologia e da psicologia (que, alíás, tendem a se unir em uma disciplina só).
De posse desse índice, poder-se-ia calcular uma integral da função desse indíce ao longo do tempo para expressar um valor extensivo, já que o índice seria intensivo. Possivelmente poderia haver mais de um índice, levando à criação de uma espécie de tensor, e à definição do parâmetro indicativo da quantidade de felicidade como, por exemplo, a norma ou o traço desse tensor (haveria que se devinir um “espaço de felicidade”, como existe o “espaço de cores” , tendo que se achar quantas dimensões teria esse espaço (o de cores tem três, isto é, é póssível descrever qualquer cor como um combinação linear de três vetores de base, e não mais que três)). O caráter ético poderia ser expresso como um somatório da quantidade de felicidade a ser criada pela ação, tomado sobre todos os seres que por ela viessem a ser influenciados ao longo do tempo. O mais importante não é se definir precisamente qual é esse valor, mas se conceber que é algo passível de ser determinado, colocando, deste modo, a ética num patamar científico e quantitativo.
domingo, 14 de março de 2010
Nebulosa Borboleta
Concluí hoje a pintura de mais uma tela em acrílico, pintada com pincel chato macio.
NEBULOSA BORBOLETA
NGC 6302
Nebulosa Planetária remanescente de Supernova
Constelação de Escorpião
Descoberto em 1888
Estudada em 1907 por Edward Emerson Barnard
Ascenção reta: 17h 13m 44,211s
Declinação: - 37° 06' 15,94”
Distância: 3.400 anos-luz (1.040 parsecs)
Diâmetro: 1,5anos-luz
Dimensão aparente: 3,0'
Magnitude aparente: +7,1
Magnitude absoluta: -3,0
Velocidade de expansão: 200 km/s (parte central) até 600 km/h (periferia)
ESTRELA CENTRAL
Explosão presumida há 1.900 anos
Temperatura superficial: 200.000 K
quinta-feira, 11 de março de 2010
Primeira Classe de 17 de março
Ouça meu programa semanal de música clássica na rádio FM Universitária, 100,7 MHz de Viçosa, Minas, acessada pelo site http://www.rtv.ufv.br/ ,toda quarta-feira, das 20 às 22 horas.
Neste próximo 17 de março apresentarei:
Sinfonia Manfredo de Tchaikowsky,
Sinfonia Fantástica de Berlioz.
Com comentários.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Dia internacional da mulher
Considero inteiramente inapropriado dedicar-se um dia especial à mulher. Não que eu não tenha considerações pelas mulheres, pelo contrário. Tenho pelas mulheres a consideração que tenho por todos os seres humanos, independente do sexo, acrescido do fato de que, por ser homem, tenho naturalmente uma admiração maior pela figura feminina do que pela masculina. Mas acho que todos os dias são dia da mulher, como o são do homem, e não há dia nenhum especial para o homem. Atribuir-se um dia especial para a mulher é admitir que a mulher não se situa no mesmo pé de igualdade que o homem, e isto deve ser inteiramente desconsiderado. Tenho para mim que, exceto no aspecto estritamente ginecológico, homens e mulheres são exatamente iguais em todos os seus direitos e deveres, em todas as suas potencialidades e capacidades, em tudo o que puder ser atribuído a um e a outro. Ou seja, todo direito do homem é um direito da mulher e todo direito da mulher é um direito do homem, bem como todo dever do homem é um dever da mulher e todo dever da mulher é um dever do homem. Isto inclui o provimento do lar e os serviços domésticos, a atuação na política e no mercado de trabalho, com equitativa distribuição de sexos em todas as atividades humanas, sejam quais forem. Não existe serviço de mulher e serviço de homem: existe simplesmente serviço. Não há nada que um homem seja capaz de fazer que a mulher também não o seja, mas gestar, parir e aleitar só a mulher é capaz. Além disso, o sexo que tipifica toda espécie animal é o feminino, sendo o masculino meramente acessório, para garantir a variabilidade genética. Uma espécie poderia, por partenogênese, sobreviver só com seres femininos, mas não só com seres masculinos. Nossa espécie não deveria ser chamada de "humana", mas sim de "mulherana". É preciso que os homens se conscientizem de seu papel secundário na espécie e deixem de ser idiotas ao menosprezar a mulher. Já escrevi um texto sobre isto neste blog. Procurem pelo título "Espécie Mulherana".
Mesmo assim quero parabenizar todas as mulheres, não só por este dia, mas por todos, e, a propósito, deixar aqui um poema que escrevi anos atrás sobre este dia:
Quero que em ti se realize, em plenitude,
tudo o que está dito nesta mensagem de coragem.
Hoje que o mundo comemora teu dia, pensa e medita…
Teus são todos os dias e não só hoje.
Porque és plena de todo direito, como ser humano.
E o mundo te pertence, basta que o domines.
E não permitas que homem algum usurpe teu lugar.
Que é o mesmo dele em qualquer atividade.
E assim, ombreados em igualdade,
possam, ambos os sexos, construir para o futuro
um mundo decente e aprazível para todos.
Basta que assumas os mesmos deveres e obrigações,
e te consideres responsável, como toda pessoa,
por ti mesma e por todos que te cercam.
Assim tu crescerás e serás completa como humana.
E vencerás, conquistando o lugar que te é reservado,
e até então te foi tomado e usurpado.
Usufruindo dos direitos e benesses que te são devidos,
não por concessão mas por direito inalienável,
que possuis por simplesmente ser da espécie.
E que assim fazendo sejas feliz e realizada,
pois teu é o mundo, o céu e as estrelas.
domingo, 7 de março de 2010
Inteligência
Vejam a apresentação da palestra que tenho feito sobre Inteligência:
http://www.youtube.com/watch?v=uQ9Vnt6wOqI
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Professores de Castigo
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Em sua edição número 614, de 22 de fevereiro de 2010, à página 92, a revista Época ( http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI122910-15228,00.html ) Comenta a providência que o Secretário de Educação de Nova York, Joel Klein, tomou para evitar que professores incompetentes, mas com estabilidade no emprego, permanecessem em sala de aula, prejudicando os alunos. Colocou-os de castigo! Isso mesmo! Ganham o salário mas ficam o tempo todo do serviço fechados em uma sala sem livros, revistas, computadores, telefones, celulares e nenhum outro contato exterior. Enquanto isto, uma arbitragem do Sindicato dos Professores apura a procedência da acusação. Se for improcedente ele retorna ao trabalho mas se for procedente ele é demitido por justa causa (incompetência). Isto é o que está fazendo falta em nosso país, mesmo nas Universidades e até em nossa UFV. Quantos professores passam nos concursos e depois se revelam um tragédia didática e, até mesmo, de conhecimentos? Muitos até consideram que não é preciso ter didática para lecionar na Pós-graduação. Zombam da Pedagogia. Em parte têm razão, pois há muita incompetência pedagógica. Mas isto não desmerece a pedagogia, como padres pedófilos não desmerecem o clero e comunistas oportunistas não desmerecem o comunismo. É preciso resgatar o mérito no Serviço Público, com bônus ou outras formas de premiar a dedicação e a competência e desestimular a isonomia idiotizante, que iguala preguiçosos e diligentes, burros e inteligentes, folgados e dedicados, desonestos e honestos, incompetentes e competentes, tudo em benefício de um corporativismo malsão e em prejuízo dos contribuintes, que usufruem dos serviços públicos, especialmente da educação. É preciso dar autonomia aos diretores das escolas, mas com uma cobrança séria, por meio de uma avaliação constante, correta, imparcial, conclusiva e consequente, isto é, capaz de tirar-lhe o cargo ou promover-lhe. Esta avaliação tem que ser feita pela Superintendência de Ensino, pelos professores, pelos alunos, pelos egressos, e pelos pais, de alguma forma muito bem estudada para garantir a lisura, a imparcialidade e a impossibilidade de manifestações de desforra ou inveja. Este tipo de avaliação precisa ser sempre aplicado, não só aos diretores e coordenadores, mas a todo professor e funcionário, e o ideal é que não haja estabilidade, para que sempre o servidor público precise demonstrar sua capacidade, diligência, dedicação, criatividade, despreendimento, inteligência, boa vontade, honestidade, compromisso, Não que seja um cordeiro incapaz de idéias próprias e de contestar ordens despropositadas, nem que seja um bajulador de chefias, mas uma pessoa íntegra, digna e defensora dos direitos, principalmente do povo ao qual serve. Certamente que ainda estamos longe disto, mas é preciso que associações de pais façam pressão nesse sentido e que, nas eleições, sejam escolhidos candidatos comprometidos com a erradicação da corrupção no serviço público e com sua qualidade, especialmente na educação.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
O Nada e o Infinito
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É preciso distinguir os conceitos das coisas que eles pretendem significar. Pode-se conceituar e definir qualquer coisa. Que ela exista é outro problema. "Nada", conceitualmente, é meramente uma palavra para designar a ausência de qualquer coisa, de tudo o que se possa conceber que exista. Nada não é uma entidade, como o é o conjunto vazio, que é uma conceito abstrato, real dentro da categoria das realidades conceituais. Mas, na categoria das realidades concretas, isto é, de existência independente de mentes que as concebam, não existe nada que seja "nada". A ausência de espaço (mesmo vazio), de tempo, de conteúdo substancial de qualquer espécie (mesmo espíritos ou deuses), de qualquer tipo de evento, fenômeno ou ocorrência, isto é o que se quer dizer com a palavra "nada". Resta saber: é possível não existir coisa alguma ou evento algum? Ontologicamente não há nenhum impedimento. A existência de algo ao invés de nada é um fato completamente destituído de necessidade. Poderia perfeitamente não existir coisa alguma. Mas existe! Existe o espaço (mas não espaço vazio, o vácuo sim), o tempo e um conteúdo que os preenche, que são campos, matéria, radiação e eventos. Um ser não é aquilo que "é" alguma coisa, mas o que é alguma coisa existindo ao longo do tempo. Caso contrário é um ente puramente conceitual. Denomina-se "Universo" ao conjunto de tudo que concretamente existe (já o conceito de "mundo" é mais amplo, pois abrange as realidades puramente conceituais, axiológicas, culturais e de qualquer outra categoria de realidade que se imagine). Por realidade concreta estou considerando o tempo, o espaço, a matéria, os campos, a radiação, as estruturas formadas por estes conteúdos e os eventos, fenômenos e ocorrências que com eles se dêem (note-se que "energia", não é uma entidade substancial do Universo, mas tão somente um atributo que certas entidades, sistemas e estruturas podem possuir, assim como carga, spin, momento linear etc.).
O problema da possibilidade de inexistência de qualquer coisa é fenomenológico e requer investigação experimental ou observacional, certamente apoiada em modelos teóricos explicativos da realidade. Aí se coloca a “Teoria da Relatividade Geral”. Concebida por Einstein para tentar resolver a questão de como correlacionar medidas em referenciais com aceleração relativa, ela tornou-se uma teoria da gravitação quando Einstein percebeu que o Princípio da Equivalência não era uma mera coincidência, mas um fato fundamental da natureza, como o é a constância da velocidade da luz no vácuo (mas não no vazio, pois no vazio não tem nem luz – aliás, não existe vazio no Universo nem fora dele). Em suma, não se pode localmente distinguir um referencial acelerado de um campo gravitacional. Não localmente sim, pois a terceira derivada do potencial gravitacional, responsável pela "força de maré" representa a "curvatura intrínseca" do espaço-tempo na região. Assim, um corpo sob ação da gravidade, não estaria sujeito a força alguma, mas apenas se moveria inercialmente ao longo das geodésicas do espaço-tempo encurvado pela presença de um conteúdo possuidor de massa ou energia. Ao se fazer a aproximação local pelo espaço-plano tangente ao curvo, tal movimento se apresentaria como resultado de uma interação, dita gravitacional. Para uma compreensão da matemática envolvida, sugiro o livro do Ohanian "Gravitation and Spacetime" de leitura acessível a quem tenha estudado apenas cálculo infinitesimal, pois a geometria diferencial de Riemann é dada no próprio livro. Para um estudo mais aprofundado o melhor é o livro "Gravitation" de Misner-Thorne-Wheeler. Não adianta pretender escapar da matemática, pois não é possível ter um conhecimento, entendimento e compreensão da Relatividade Geral sem matemática (por isto é que eu acho que o cálculo diferencial e integral já devia ser dado no Ensino Médio, já que não é bicho de sete cabeças (apenas seis)).
Poucos anos depois de sua publicação, outros cientistas passaram a buscar soluções das Equações de Einstein (um sistema de equações diferenciais de segunda ordem não lineares, mas lineares na primeira derivada, entre o tensor de curvatura e o tensor momentum-energia do conteúdo), para situações de uma massa puntiforme (uma estrela), o que levou à descoberta teórica dos "Buracos Negros" e para o Universo como um todo. Estas últimas foram achadas pelo abade Lemaître e, num caso especial, por Friedmann. O interessante é que elas mostravam que o Universo não poderia ser estacionário, mas que, necessariamente, estaria se expandindo ou contraindo. Não crendo em tal possibilidade (um preconceito), Einstein introduziu "ad hoc" a "Constante Cosmológica" para que a solução pudesse ser estacionária. Pouco depois, Hubble, em Monte Wilson, descobriu o "red shift" das galáxias distantes, cuja interpretação só podia ser de que o Universo estava "inchando", já que as outras possibilidades eram altamente implausíveis (o movimento real, o desvio gravitacional e a absorção intergaláctica). Este inchamento não é um afastamento por movimento relativo de uma galáxia em relação a outra, mas um crescimento global do próprio espaço, isto é, as galáxias se afastam não porque se movem, mas porque o espaço entre elas cresce. Isto mostra que o espaço não é uma entidade apriorística dentro da qual se distribui o conteúdo do Universo, mas sim algo determinado pelo próprio conteúdo. Ou seja, não há espaço sem conteúdo. O espaço é uma entidade dinâmica do Universo. Do mesmo modo o tempo só existe porque o estado do Universo não permanece invariável. São as mudanças no estado do Universo como um todo que criam o tempo, que também não é apriorístico. Se o estado não mudar, como pode ocorrer com a "morte térmica" do Universo, o tempo não passa. Einstein arrependeu-se de seu vacilo em introduzir a "constante cosmológica", que, todavia, está sendo ressuscitada como uma das possíveis explicações para a dita "energia escura".
Se o Universo está em expansão, retrocedendo no tempo, sua densidade iria aumentando, pois o mesmo conteúdo ocuparia volumes cada vez menores para o passado, até que, num certo momento, a densidade seria matematicamente infinita. Na verdade, antes disto, os pressupostos das soluções de Friedmann (continuidade, homogeneidade e isotropia) não mais seriam obedecidos e a singularidade matemática, de fato, não existiria, pois, então, fenômenos quânticos prevaleceriam sobre a gravitação. O que a teoria do "Big Bang" diz é que um conteúdo primevo extremamente denso, em dado momento, começou a expandir-se, rarefazendo-se e esfriando. Note que não se trata de uma "explosão" de um conteúdo para um espaço vazio circundante, mas um súbito inchamento do próprio espaço. Inclusive, se o Universo for infinito, ele sempre assim o foi, mesmo no Big Bang. Mas infinito é algo sobre o que discorrerei depois. A questão é: e "antes" do Big Bang? Duas possibilidades emergem. Ou o conteúdo (um campo indiferenciado) surgiu naquele momento, em que também surgiram o espaço e o tempo e, portanto, não haveria "antes" nenhum; ou este conteúdo foi o resultado final de um processo de contração de um Universo anterior. Neste caso, o tempo atual também teria surgido ali e o tempo do Universo anterior teria sido encerrado. Para o futuro pode ser que a expansão atinja um máximo e, então, passe a haver uma contração, até se chegar às condições iniciais, iniciando-se outro ciclo de expansão. Ou a expansão será indefinida. A escolha entre estas hipóteses se prende à determinação de parâmetros observacionais, como a densidade global do Universo e a taxa de aceleração da expansão. Os valores atualmente disponíveis parecem indicar que a expansão será indefinida.
A questão não deve ser colocada em termos de se acreditar que o Universo seja finito ou infinito, no tempo e no espaço e se teria havido um surgimento, antes do que não haveria "nada". Isto não é uma questão de crença e sim de verificação fática por meio de observações que permitam inferir o que, de fato, é verdade, ou, pelo menos, indícios seguros nesse sentido. Os dados observacionais concernentes à expansão cósmica e à radiação de fundo de microondas mostram, de forma insofismável, independentemente da teoria cosmológica que se adote, que o Universo não existe indefinidamente para o passado do modo como se apresenta hoje. Este Universo possuiu um momento inicial e isto não é conjectura e sim fato. Se ele será eterno para o futuro ou terminará, ainda é uma questão não respondida de forma cabal, por insuficiência de dados precisos sobre os parâmetros controladores da expansão (densidade de massa-energia e aceleração da expansão). Ao que parece, ele expandir-se-á indefinidamente, mas poderá atingir um estado de energia mínima e entropia máxima, em que a expansão não possuirá aceleração e o estado do Universo permanecerá imutável. Isto seria atingido assintoticamente e, então, cessaria a passagem do tempo, a temperatura tendo chegado (assintoticamente, repito) ao zero absoluto. Esta é sua morte térmica.
O surgimento do conteúdo primordial que passou a expandir com o Big Bang é objeto de especulação em várias teorias, como a das branas e a dos multiversos, que, contudo, ainda estão num estágio hipotético de validade. Não há, contudo, impedimento algum, de ordem física ou metafísica, para que este conteúdo tenha surgido sem que fosse proveniente de nada que lhe antecedesse (aliás, é assim que os teístas criacionistas consideram que ocorreu, pois Deus, um ser transcendental, isto é, extrínseco ao Universo, teria criado tudo sem que proviesse de nada precedente. Já os panteístas consideram que o Universo provém do próprio Deus, numa relação dita de "imanência").
É preciso entender que o surgimento de qualquer coisa sem ter algo precedente de que provenha, não é a mesma coisa que "surgir do nada", pois então estaria se dizendo que existe algo que é o "nada", do qual teria surgido algum conteúdo. Não existe "nada" como entidade e, logo, não é possível que algo provenha do nada. Mas pode não provir de coisa alguma. É preciso ter bem claro na mente a diferença entre "não provir de coisa alguma", que é possível, e "provir do nada", que é impossível. Isto porque qualquer lei de conservação (massa, energia, carga, momento linear, momento angular etc.) refere-se a valores globais de grandezas que medem os atributos conservados em momentos diferentes. Como antes do surgimento do Universo não havia momentos, não se pode aplicar nenhuma lei de conservação para a situação do surgimento do Universo. Aliás, as próprias leis físicas só passaram a existir quando o Universo surgiu, pois elas são descrições do comportamento de seu conteúdo.
Outra questão controversa é a de que o surgimento do Universo não possui "causa". De fato, causa é um atributo de certos eventos, mas não uma necessidade para todo evento. Isto é, nem todo evento é um efeito. Existem eventos incausados e eles são a maioria. No mundo subatômico isto é a regra, exemplificada pelo decaimento radioativo e pela emissão de fótons por átomos excitados (a excitação é condição e não causa). No mundo macroscópico, o caráter probabilístico e indeterminado da natureza é mascarado pela "lei dos grandes números" da probabilidade, fazendo parecer que todo evento tenha causa, isto é, seja determinado por algum que o preceda. Como o surgimento do Universo foi uma ocorrência essencialmente quântica, não precisa ter causa, como de fato não teve. Causalidade é uma inferência induzida da observação cotidiana de eventos na escala de tempos e dimensões acessíveis ao ser humano. Só que todo raciocínio induzido não é garantido e contra-exemplos existem aos milhões.
Outro problema é se o espaço do Universo se estende infinitamente ou não. Precisamos diferenciar infinito de ilimitado. Algo pode ser infinito e limitado bem como finito e ilimitado. Um segmento de reta é limitado, mas possui infinitos pontos. A superfície de uma esfera é finita em tamanho, mas não possui limites. E o Universo? Na dimensão tempo, já vimos que ele tem um limite inferior ou início do tempo (esqueci de contestar o argumento Kalam, mas o farei mais adiante). E no espaço? Tanto pode ser que o Universo seja infinito quanto finito, mas, de qualquer modo, é ilimitado. Note-se que, se o Universo for finito, não existe espaço vazio fora dele. Tudo o que existe está no Universo, inclusive o espaço e o tempo. Não existe "fora do Universo". Ser finito significa que se você for andando sempre para frente acabará chegando aonde saiu, vindo por trás (depois de muitos bilhões de anos, se for à velocidade da luz). Ser infinito significa que se você andar sempre para frente, nunca retornará.
Antes de considerar o caso, há que se fazer uma digressão sobre os conceitos de Universo. O de que estamos falando é o conceito global, isto é, o conjunto de tudo o que existe. Há um conceito mais restrito que é o de "Universo Observável". Como o espaço do Universo está se expandindo (e isto pode ultrapassar a velocidade da luz, pois não é movimento de conteúdo nenhum), existem locais que estão a uma distância que a luz não foi capaz de vencer e nos atingir até hoje, desde o surgimento do Universo, há 13,7 bilhões de anos. Estes locais são impossíveis de observar. Devido à expansão, o limite observável está a 46,5 bilhões de anos-luz. A teoria da inflação cósmica prevê que o Universo total seja, pelo menos, 100 sextilhões de vezes maior que o observável, ou, mesmo, infinito. Outra concepção é a de Multiversos, dos quais o nosso seria um dentre muitos, até infinitos. Tal hipótese carece de comprovação, aliás, por definição, impossível de se ter, daí ser infalseável. Considero que o Universo seja único.
Bom senso é algo que não tem sentido nenhum em ciência. O que vale é o que se verifica. Teorias são modelos descritivos que procuram explicar a realidade por meio de uma linguagem lógica, geralmente matemática. Mas as teorias só o são porque, confrontadas com a realidade, aderem a ela. Caso contrário são hipóteses. O bom senso diz que todo evento é efeito de uma causa. A realidade mostra que não. Aí estão a desintegração radioativa e a emissão de luz para atestar. Outra falha do bom senso é dizer que tudo tem que provir de algo, mesmo sem causa. Assim o é no Universo atual, pois seu conteúdo observa leis de conservação (que não são prescrições e sim descrições). Mas não precisa ser no próprio surgimento do Universo, pois, neste evento, a passagem da inexistência para a existência, não havia conteúdo para seguir lei nenhuma. Nada indica que o Universo tenha que ser eterno para o passado. É uma questão de verificação. Bom senso é preconceito humano, firmado em nosso limitado acesso sensorial à realidade. "Sempre" é outro conceito que se precisa abolir. Porque o Universo englobaria tudo que "sempre" existiu, sem começo nem fim? É claro que pode ter tido um começo e pode ter um fim! Antes e depois desses limites não existiria nada, nem mesmo o "antes" e o "depois". Há que se verificar. Isto tudo que digo não é minha opinião, mas sim o resultado do trabalho de milhares de cosmologistas ao longo das últimas décadas. Há, inclusive, muitas propostas na mesa, em fase de elaboração e submissão a testes, como a teoria das cordas, das branas e a do laço gravitacional. Não há nada errado no que estou dizendo. É só consultar a literatura pertinente ou, até mesmo, a Wikipédia (em inglês, pois em português é muito restrita). Se nos ativermos ao conhecimento em nível colegial, poderemos equivocar-nos, pois muitas simplificações são feitas.
Como o Universo é o conjunto de tudo o que existe, sua energia interna é constante, pois não há nada fora dele que lhe possa fornecer calor ou realizar trabalho sobre ele. Mas a energia interna é o total de todas as energias cinéticas e potenciais. Como a carga elétrica total é nula e está muito bem distribuída, a expansão do Universo não provoca variação na energia potencial elétrica, mas sim na gravitacional, que aumenta com o afastamento relativo. Daí uma diminuição na energia cinética, cuja densidade por partícula é, justamente, a temperatura. Ou seja, a expansão do Universo provoca seu esfriamento. No caso da radiação, a diminuição de sua energia significa diminuição de sua frequência, que atualmente está na faixa de microondas, de 1,9mm de comprimento de onda, equivalente a uma emissão de cavidade (corpo negro) a uma temperatura de 2,7 kelvins.
Os conhecimentos cosmológicos atualmente disponíveis parecem indicar que o Universo seja espacialmente infinito e temporalmente semi-infinito, isto é, teve um início, mas poderá não ter fim. Antes que existisse, não havia coisa alguma, nem espaço vazio, nem tempo, nem conteúdo, situação denominada "nada". Mas não existia algo que fosse o "nada", como não existe coisa alguma fora do Universo, se ele for finito. Não existe nada, nem o "nada". Outra coisa que não existe é espaço vazio. Todo espaço é preenchido por campo, radiação ou matéria. Quando não tem matéria, chama-se vácuo. O que seja a matéria já seria objeto de debate em outro artigo. Em meu blog www.ruckert.pro.br/blog , digitando-se a palavra "matéria" na caixa de busca, poder-se-á encontrar todas as postagens em que isto foi abordado.
Não vejo necessidade de inventar outro nome para o Universo. Parece que sua definição como o conjunto de tudo o que existe, concretamente falando, contempla exatamente o que estamos discutindo. No sentido filosófico do termo, concreto não significa sólido e nem material, mas não abstrato, isto é, que não seja apenas o produto de concepções mentais, mas exista objetivamente fora das mentes como algo tangível, ou seja, passível de apreensão, mesmo que por instrumentos, se nossos sentidos não forem capazes. Isto exclui espíritos, idéias, valores, símbolos e tudo que não seja natural, que, por outro lado, são incluídos no conceito de "mundo". O Universo é, pois, a totalidade da realidade natural. E esta totalidade pode ser finita ou infinita, tanto no tempo quanto no espaço. No entanto, os dados observacionais parecem indicar que seja infinita no espaço e semi-infinita no tempo.
O “argumento Kalam” (Kalam são as escolas teológicas muçulmanas) diz que o Universo não pode ser eterno para o passado, pois se tivesse surgido em um momento infinitamente afastado para o passado, não teria havido tempo para se chegar ao presente, e o presente existe. Este argumento é falacioso, pois ser eterno para o passado não significa ter começado em um momento infinitamente longínquo, mas sim, não ter começado em momento algum. Então todos os momentos são possíveis, inclusive o presente. Os fatos mostram que o Universo teve um começo, mas não pelo argumento Kalam, que é usado para justificar uma das premissas da “prova cosmológica” da existência de Deus, conhecida como a do “motor primo”, que não é válida porque suas duas premissas não são verdadeiras, ou seja, nada impede (lógica e ontologicamente) que o tempo tenha que ter tido um começo e nem há necessidade que todo evento seja efeito de uma causa.
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