quinta-feira, 31 de julho de 2008

O amor do filósofo

Quem acha que filósofo não pode namorar está inteiramente equivocado sobre o que seja um filósofo. Qualquer um que reflita suficientemente sobre o significado da vida pode concluir que o amor é algo essencial à vida. Logo o filósofo não pode deixar de ser o grande amante, não só de sua namorada ou esposa, mas de toda a humanidade, da vida, da natureza. Amar é um sentir, um pensar, um desejar, um querer e um agir, isto é, uma emoção, um sentimento, um apetite, uma volição e uma ação. Mas também é uma intelecção, refletida, consentida, explicitada e assumida. Esse complexo de fatos psíquicos caracteriza o amor em todos os planos, piedade, compaixão, solidariedade, afeição, amizade, amor platônico, erotismo. Amor filial, maternal, paternal, fraternal, conjugal, idealista. A intensidade e a sequência em que eles aparecem pode variar. O amor sempre emociona, enternece, e envolve um desejo de zelo, cuidado e proteção da coisa amada, bem como um desejo de reciprocidade. Mas o amor só se realiza quando é expresso em consentimento e vontade e essa vontade em ação. Não basta sentir e desejar para amar, é preciso querer e provar. O amor envolve dedicação e renúncia, paciência e perseverança, trabalho e recompensa, alegria e tristeza, euforia e depressão. É algo envolvente e inebriante. O amor não é possessivo, ciumento, exclusivista, castrador, sufocante. Pelo contrário, o amor é libertário e altruísta. Não me refiro apenas ao amor erótico mas a todas as modalidades, inclusive as formas idealistas de amor à verdade, à justiça, à sabedoria, à humanidade, à natureza. O amor não pode ser cerceado em sua intensidade e abrangência. Ele não possui limites. Quanto mais se ama a mais coisas e pessoas, mais capacidade se tem de amar. E quanto mais se ama, mais se realiza e maior é a felicidade, mesmo que nem sempre seja correspondido. E certamente, é algo de que se possa contemplar em sua estética e fruir o máximo prazer que é amar o amor.
Quando associado ao erotismo e plenamente realizado no intercurso sexual, então o amor é uma das mais sublimes realizações do ser humano.
Quem já leu o Kama Sutra sabe como os indianos prezam o comportamento gentil do homem como um requisito essencial para o prazer do amor. As religiões dharmicas consideram o sexo como um componente fundamental do aperfeiçoamento e da elevação do ser humano aos níveis mais elevados de espiritualidade. Mas não o sexo comesinho, baseado em uma lascívia crua e brutal. É certo que um tempero de vigor e de molecagem faz parte de um relacionamento amoroso que inclua o sexo bem feito. Mas, tanto o homem quanto a mulher sabem os momentos em que o ardor do desejo faz levar a carícias mais fortes. Contudo a plena realização do sexo só se dará num envolvimento amoroso que se caracterize, para começar, por uma grande admiração recíproca dos parceiros. E, depois, por todo um cotidiano (mesmo quando desprovido de qualquer conotação sexual) sempre cercado de atenções e demonstrações de afeto. O homem e a mulher serão muito mais receptivos e desejosos do contato físico se o contato mental estiver num nível elevado. E, principalmente, quando se considera que o sexo não é a finalidade última do relacionamento, mas um componente (extremamente importante) de um leque de outros que fazem a vida a dois ser uma das experiências mais maravilhosas que se pode fruir nesta vida.
O sexo é um componente essencial da vida e um dos mais relevantes fatores de felicidade. Uma vez preenchidas as condições mínimas de sobrevivência (ar, água, alimento, abrigo (incluindo vestuário), segurança) a pessoa busca sua felicidade. Dentre os muitos fatores que levam à felicidade, não resta dúvida que o mais relevante é a sensação de ser amado. Mas, para quem já seja sexualmente maduro, não é apenas o amor maternal, paternal e fraternal que contam. Há uma carência do amor erótico. Este é o objetivo buscado por todos. E, como nisto há uma reciprocidade, há que se amar para ser amado. Isto é tão válido que, mesmo sem correspondência, o ato de amar é fonte de felicidade (mas de uma felicidade mesclada com uma doce tristeza). E, quando o amor é correspondido e se realiza eroticamente, atinge-se um êxtase talvez só comparável aos arroubos místicos. Por maior que seja a pulsão fisiológica para o sexo (da qual, por sublimação surgiu o amor), sua realização dissociada do amor não proporciona nem uma mísera fração da beatitude que o sexo com amor é capaz de conceder. Porque, aí, o sexo não é só fruição mas, principalmente, doação. Excluído o egoísmo do sexo, incrivelmente, ele propicia um prazer maior ainda. É procurando dar o máximo prazer que se desfruta dele em plenitude. E, para isto, há que se buscar conhecer a(o) parceira(o) completamnte, em corpo e em espírito. Tudo está envolvido. Pudores têm que ser esquecidos. Uma pitada de molecagem sempre é bem-vinda. Mas, no meu entendimento, sem afligir dor e nem constrangimento algum. Só o prazer dos murmúrios, dos perfumes e dos odores, dos toques suaves e dos vigorosos, de todos os recursos disponíveis, sem reservas e sem remorsos. Sem pressa. Esquecido do mundo. Isto é o amor e os orientais são sábios em cultuá-lo de modo até sagrado. Como diz Chico Buarque na “Valsinha”, como não seria melhor o mundo se o amor fosse o prato do dia de todos.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Considerações sobre o Tempo

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O tempo e a poesia da ciência

Richard Dawkins, em sua brilhante obra “Desvendando o arco-íris” comenta que o poeta inglês Keats havia dito que Newton tirara toda a poesia do arco-íris, ao decompô-lo em suas cores primárias pelo prisma. Ao se iniciar a corrida espacial, no carnaval de 1961, Ângela Maria estourou com a marchinha “A Lua é dos Namorados”, de Armando Cavalcanti. Em geral há um sentimento de que a ciência tira a poesia do mundo ao explicá-lo. Nada mais incorreto. Pelo contrário (e o livro de Dawkins exatamente se dedica a demonstrar isto), o entendimento mais profundo dos maravilhosos mecanismos da natureza é que nos enche de deslumbramento e, mesmo, de um sentimento de enlevo, ao nos percebermos partícipes desta exuberância que é o Cosmos. E, nisso tudo, está o tempo. Estamos inseridos nele, como tudo o mais. Há uma imbricação impossível de ser demolida entre tempo, espaço, matéria, energia, existência, vida e consciência e, em decorrência, tudo o que é produzido pelo pensar e fazer humanos, como a poesia e a música em especial, que são as artes cujo objeto se desenvolve no tempo e não no espaço. Assim, um entendimento dos fundamentos físicos do tempo talvez nos faça poder apreciar ainda mais a beleza de tudo o que a literatura já produziu sobre o tema. É o que intento desenvolver em seqüência, num linguajar que acredito acessível ao não especialista.

Espaço e tempo

Em primeiro lugar é preciso entender que o espaço e o tempo não são elementos aprioristicamente estabelecidos sobre os quais se assenta o conteúdo substancial do Universo, que são os campos e suas concentrações (a matéria). Se o Universo teve um começo (pode ser que não, isto é, que sempre existiu), então, neste começo também se deu o surgimento do tempo e do espaço com o seu conteúdo (isto é, tudo!). Não há sentido em se questionar o que havia antes porque, simplesmente, não havia “antes”. O tempo não existia (nem o espaço). Não existe espaço sem conteúdo e nem tempo sem movimento. Espaço é uma capacidade de caber algo, isto é, o conjunto dos lugares possíveis para algo estar. Vácuo é um espaço sem matéria, preenchido só por campos. Isto existe. Mas vazio, isto é, um espaço sem coisa alguma, não existe no Universo. O conceito físico de “nada” é o da ausência de tudo, inclusive de espaço e tempo. Antes de existir o Universo não existia nada. Só para ficar claro, o conteúdo do Universo é o “campo”, uma entidade cujas concentrações constituem as sub-partículas formadoras da matéria e cujas alterações promovem as interações entre as partículas, responsáveis por tudo o que ocorre (inclusive o pensamento). O campo e a matéria possuem atributos, como energia (ou massa, outra maneira de concebê-la nas concentrações), carga, movimento, rotação, torção e outras. Na concepção fisicalista e reducionista (que advogo), não se faz necessária a interveniência de qualquer tipo de entidade extrínseca ao Universo físico (algo como espírito) para explicar seu surgimento, sua evolução e sua estrutura (nela incluída a estrutura da mente e o psiquismo). Passemos, pois, ao tempo.

A gênese do espaço e do tempo

Se no Universo só houvesse uma única partícula, todo o espaço seria apenas esta partícula. E como ela seria necessariamente imóvel (pois movimento é uma mudança de posição relativa e não haveria outra coisa em relação à qual a posição da partícula pudesse mudar). Além disso, partícula, por definição, não possui estrutura, de modo que não pode se deformar nem girar. Então nada se alteraria. Havendo uma segunda partícula, tudo muda de figura. Elas podem se aproximar ou se afastar. Pode haver, pois, mudança na configuração e no estado do Universo, isto é, das duas partículas. Surge aí o espaço e o tempo, pois podem existir localizações variadas para uma partícula em relação à outra e, havendo alteração, podem ser caracterizados momentos, como a propriedade que indica cada diferente situação. O fundamental disso tudo é que o espaço e o tempo não precedem o conteúdo do Universo, mas surgem com ele, em razão da dinâmica do seu estado (entende-se por configuração a disposição dos elementos de um sistema e por estado o modo pelo qual esta configuração se estabelece, isto é, a condição de sua evolução). Outra descrição, mais correta, é feita, não em termos de partículas, mas do campos. Enquanto o campo do Universo todo é inteiramente homogêneo e imutável, o tempo não passa. Uma vez que ocorram alterações em sua densidade, podem-se caracterizar estados distintos, isto é, há mudança (ou movimento, no sentido mais amplo do termo) e, logo, momentos, isto é, tempo. No Universo real, na verdade, desde sua formação, miríades de concentrações e rarefações se formaram, modificando-se, surgindo o espaço como a coleção de todos os lugares preenchidos pelo campo e o tempo, como a coleção dos diferentes momentos.

O sentido do fluxo do tempo

Uma característica fundamental do tempo é que, sendo uma coleção de momentos (como o espaço é uma coleção de lugares), esta coleção é ordenada, isto é, dados dois momentos distintos, um deles é anterior e o outro posterior. Este ordenamento é estabelecido por uma propriedade chamada entropia. A entropia é definida pelo logaritmo da probabilidade do estado macroscópico. O estado macroscópico é descrito pelas variáveis globais que o caracterizam, enquanto o estado microscópico é definido pela coleção de todas as variáveis de cada partícula constitutiva. A um dado estado macroscópico pode corresponder um número extremamente grande de estados microscópicos. A razão do número de estados microscópicos correspondentes a um dado estado macroscópico para o número total de estados microscópicos possíveis é a probabilidade daquele estado macroscópico. O logaritmo disto é a entropia. Pois bem, o tempo flui no sentido em que a entropia aumenta. A evolução do estado do Universo se dá do menos provável para o mais provável.

A quantização do tempo

Outra coisa interessante a considerar é se o fluxo do tempo é contínuo ou discreto (isto é, se dá-se por saltos). Imagine que, no Universo inteiro, cessasse todas as alterações, todo o movimento. O estado do Universo permaneceria inalterado. Elétrons não girariam em torno dos núcleos, a luz cessaria de se propagar, os astros interromperiam seus movimentos orbitais, objetos estacionariam a sua queda, corações não bateriam, os pensamentos ficariam suspensos. Então não haveria passagem do tempo. É como se fosse um filme cuja projeção se interrompesse. Assim que tudo voltasse a prosseguir, o fluxo do tempo seria restaurado e aquela interrupção não poderia ser detectada absolutamente por nada. Quem sabe isto já não ocorreu um sem número de vezes desde que você iniciou esta leitura. A quantização do tempo é, pois, uma coisa que, exista ou não, não faz diferença. A Teoria da Relatividade e a Mecânica Quântica supõem o tempo contínuo. Mas não uniforme e absoluto.

A medida do tempo

Se o tempo flui, é possível medí-lo, isto é, dizer o quanto de tempo se passou entre dois dados momentos (momento ou instante, no tempo, é como o ponto na reta, enquanto duração ou intervalo e como o comprimento do segmento de reta, que é o pedaço de reta existente entre dois pontos distintos, pertencentes a ela). Medir é comparar grandezas de mesma espécie, dizendo o quanto uma contém da outra. Para medir intervalos de tempo há que se tomar um deles como termo de comparação, denominado “unidade de tempo”. Uma propriedade a ser exigida da unidade é a sua reprodutibilidade, isto é, deve-se poder sempre obtê-la novamente com a mesma grandeza. Para o tempo isto é um problema, pois é impossível, uma vez decorrido certo intervalo, voltar atrás para conferir se outro intervalo é igual a ele. Então é preciso considerar que o novo intervalo seja igual, por definição, sem conferir. Para isto são usados fenômenos ditos periódicos, isto é, que voltam sempre a se repetir. Por exemplo, os dias, o ano, as batidas do coração ou o balançar de um pêndulo. Se vai-se medir um tempo em dias, tem-se que supor que todos os dias são iguais. Não há como medir a duração de hoje comparando-a com a de ontem, pois ontem não volta mais. Pode-se comparar os dias com as oscilações de certo pêndulo e ver se conferem, mas aí tem-se que supor que as oscilações sempre levam o mesmo tempo. Por comparações desse tipo, entre diversas possíveis unidades de tempo, viu-se que os dias não são todos iguais, que os anos também não são, que os pêndulos podem variar. Bem… até o momento, o que se supõe que seja mais regular e reprodutível é o período de oscilação da luz de uma cor exatamente bem definida. Usa-se a luz emitida pelo decaimento do átomo de césio (o isótopo 133), entre os dois níveis hiperfinos de seu estado fundamental. Como este é um tempo muito pequeno, fixou-se como unidade o segundo, que é um tempo 9.192.631.770 vezes maior. Daí se constrói o relógio atômico, a partir do qual os outros relógios são aferidos.

A relatividade do tempo

Pode parecer que o tempo, assim definido, é algo que flui de modo homogêneo em todo o Universo, como supunha Newton. Mas não. Para cada um, o tempo flui com a velocidade “1″, isto é, 1 minuto por minuto, 1 hora por hora, 1 dia por dia. Mas, comparando os fluxos de um lugar com outro, pode não ser “1″. Assim, em outra galáxia, que tenha certa velocidade em relação à nossa, o tempo lá pode passar à razão de 50 minutos por hora em relação a nós, isto é, a cada hora nossa passam 50 minutos lá. Isto é a relatividade do tempo. É claro que estou falando de relógios que medem o tempo com a mesma unidade. Eles lá, para si mesmos, medem o fluxo normal de 60 minutos por hora. É o chamado “tempo próprio”. Isto foi descoberto por Einstein e já foi confirmado por experiências com o decaimento radioativo dos mésons “mü”, provenientes de raios cósmicos na alta atmosfera e outros experimentos. Existem fórmulas para calcular isto. A intensidade do campo gravitacional no local também altera a marcha dos relógios (e de tudo o mais, como o crescimento dos pelos da barba, por exemplo). Portanto, no Universo, o tempo é realmente algo determinado pelas condições locais da densidade de matéria e do seu movimento e não uma coisa que existe independentemente. Isto também ocorre com as distâncias. Em suma, o espaço e o tempo não são como um palco no qual os personagens representam a peça. Eles também são personagens da peça.

Tempo físico e tempo psicológico

Os seres vivos possuem um modo interno de perceber a passagem do tempo e desencadear vários comportamentos, como o ciclo sazonal das plantas e de animais, ou mesmo, os ciclos circadianos de sono e vigília, por exemplo. No caso dos seres conscientes, como os animais superiores (ou dispositivos artificiais que venham a possuí-la) há outro fator que é a percepção mental interna da passagem do tempo. Essa percepção nem sempre é coincidente com a marcha física do tempo. Isto pode variar de pessoa para pessoa, em função da idade, do estado de espírito ou por ação de drogas. Em geral, à medida que se envelhece, cada ano é uma fração menor da existência, por isso parece um intervalo menor. Outro fator que faz o tempo parecer passar mais depressa é a monotonia. Quanto mais variada for a vivência cotidiana da pessoa mais parece que o tempo demora a passar. Atividades desagradáveis sempre parecem demorar mais que as agradáveis. Mas, tirando essas condições, é notável como a mente tem um cronômetro interno razoavelmente bem calibrado, o que pode ser observado pelo fato comum de pessoas que sempre precisam acordar a certa hora, em geral, despertam poucos minutos antes do despertador tocar e o desligam.

Tempo, música e literatura

Classificando-se as artes segundo os sentidos que impressionam, a literatura e a música unem-se na categoria das que são comunicadas pela audição, já que a escrita é uma mera representação simbólica de sons, como se fora uma gravação codificada da fala, que modernamente ocorre em mídias óticas e magnéticas. Por outro lado, elas podem também ser classificadas, conjuntamente, em artes cujo objeto se desenvolve no tempo, em oposição às artes plásticas, em que o objeto se desenvolve no espaço. A escrita ideográfica, em que os signos não representam fonemas, mas conceitos, também só pode ser interpretada na seqüência temporal dos ideogramas, que não são contemplados simultaneamente, no seu todo, como numa pintura. Vê-se deste modo, que, na própria sistematização que a estética faz das belas artes, música e literatura ocupam células vizinhas do esquema, estando, portanto, unidas por um ponto de vista estrutural. Em que pese a existência da poesia concreta, na qual a expressão artística do poema se manifesta, inclusive, pelo aspecto pictórico, normalmente a poesia é feita para ser declamada (ou cantada, se for a letra de uma música). Então é uma arte que se desenvolve no tempo. A apreensão mental do conteúdo da música e da poesia é feita pela parte do cérebro ligada à audição e sua memorização se dá de uma forma seqüencial, isto é, ordenada no tempo e não numa totalidade simultânea, como ocorre com a memorização de uma gravura.

Referências

Uma discussão adicional sobre o tempo pode ser encontrada nos artigos da Wikipedia:

http://en.wikipedia.org/wiki/Time
http://en.wikipedia.org/wiki/Philosophy_of_space_and_time
http://en.wikipedia.org/wiki/Arrow_of_time
http://en.wikipedia.org/wiki/Spacetime

Alguns livros sobre o assunto:

Reichenbach, H. “The Philosophy of Space and Time”. Dover, NY, 1958
Grünbaum, A. “Philosophical Problems of Space and Time”. Reidel, Holland, 1973.
Margenau, H. “The Nature of Physical Reality”. Oxbow, Woodbridge, 1977

terça-feira, 29 de julho de 2008

Homossexualismo e Poliamor




Origem da homossexualidade

A origem do comportamento homossexual não é uma questão de opinião e sim de pesquisa científica e, pelo que depreendo, o caráter genético possui uma força maior que o adquirido. As quatro modalidades de orientação sexual (heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade e assexualidade) são distribuídas pela população em proporções independentes do grupo étnico, social, nacional, etário ou sexual (85%, 3%, 12% e 0,01%, respectivamente). Tal caráter encontra-se registrado na porção do Sistema Límbico relacionada com o sentido do olfato e reage positiva ou negativamente à percepção dos feromônios exalados (que são conscientemente inodoros na espécie humana). Este fato é cromossômico, revelando-se insensível à administração de hormônios (testosterona ou estrogênios). Portanto, se a natureza contempla esta possibilidade, mesmo as pessoas que acreditem em Deus e, em decorrência, de que a natureza seja obra sua, por coerência, devem admitir que isto faça parte de seus planos e não que seja pecaminoso. Assim, a condenação religiosa à homossexualidade carece de fundamento.Desta maneira, a homossexualidade não consiste em um comportamento eletivo, passível de condenação se socialmente danoso, como, por exemplo, o roubo, o furto, o assassinato, a calúnia, a difamação e, no que se prende a este artigo, o preconceito.Da mesma forma que ninguém escolhe a cor da pele com que nasce, nem o sexo, local e data, também não escolhe a orientação sexual. Este fato primordial é a base da rejeição ao preconceito de cor, sexo, nacionalidade e orientação sexual. Outras características, mesmo não sendo natas, também, de certa forma, em muitos casos, estão fora de uma liberdade consciente de escolha, como o idioma materno e a religião professada, pois são induzidos pelo grupo social em que a criança se desenvolve, que pode não ser aquele em que nasceu. Neste sentido, também não se pode admitir preconceito a respeito desses aspectos.Todavia, há casos em que a opção religiosa pode ser objeto de restrição, se a religião em questão envolver comportamentos criminosos, como, por exemplo, sacrifícios de crianças em rituais satânicos. Mesmo não chegando a tais extremos, um país laico e democrático, como deveriam ser todos, não pode admitir comportamentos religiosos que firam as liberdades individuais, como o preconceito em relação às orientações sexuais que algumas religiões exibem. Isto não vai contra o princípio de liberdade religiosa, uma vez que a própria religião está ferindo um princípio mais amplo.Em suma, tem-se liberdade de fazer tudo o que não fira a liberdade alheia ou os direitos universais da pessoa humana e, mesmo, do resto da natureza. Ou ainda: pode-se tolerar qualquer comportamento que não prejudique a ninguém, nisto incluindo até a poligamia e a poliandria. Mas a intolerância é intolerável.

Uma lei contra o preconceito

Considero que a igualdade de direitos seja um princípio tão fundamental que a lei, em nenhuma de suas determinações, deveria sequer mencionar o sexo, a cor da pele, a religião professada, a classe social, a filiação ideológica ou a orientação sexual da pessoa. Isto é, todos os deveres e direitos dos cidadãos têm que ser universais, com o banimento de qualquer privilégio de toda ordem. Não vejo necessidade de nenhuma lei que explicite direitos específicos de grupos, qualquer que seja a característica que permita diferenciá-los dentro da sociedade, sejam minoria ou maioria.Isto vale, por exemplo, para políticos, magistrados, policiais, funcionários públicos, militares, negros, mulheres ou outra categoria, em seus direitos e deveres trabalhistas ou de qualquer ordem, que não podem diferir dos direitos e deveres comuns a todo cidadão. Só posso admitir restrições de idade, devido à falta de maturidade, para dirigir automóveis ou exercer certas ocupações.O que acabei de dizer é um princípio geral, que poderia admitir exceções em casos de cabal justificativa. Mas que, certamente, não inclui o fato de deputados não poderem ser processados por crimes como todo cidadão, nem de que crianças assassinas não possam ser julgadas e condenadas como adultos ou ainda da existência de prisão especial para portadores de diploma superior. Este também é o caso das cotas raciais para ingresso às universidades, em minha opinião, preconceituosas. Portanto considero que uma lei contra o preconceito homofóbico não seja necessária, já que isto está inteiramente abrigado no direito mais amplo, garantido pela Constituição.

As pulsões primitivas e o amor

Nada é mais importante do que o amor. Trata-se de algo engendrado pela natureza ao longo da evolução para garantir a sobrevivência da espécie. Enquanto o egoísmo pode ser eficaz para a sobrevivência do indivíduo, é o amor que garante a perenidade da espécie. O sexo foi uma estratégia da natureza para garantir a variabilidade genética e possibilitar múltiplas escolhas na seleção natural. Seria possível, por partenogênese, a existência de espécies apenas com o sexo feminino, que é o essencial, sendo o masculino meramente acessório. O surgimento do sexo, desde os mais primitivos seres vivos, contudo, revelou-se a opção mais eficaz. Eros é, pois, a pulsão mais poderosa, pela qual os indivíduos até mesmo dão a vida.A sobrevivência da espécie também exige o cuidado com a prole e a proteção da fêmea, atitudes que se sublimaram na componente platônica do amor. Assim o amor evoluiu para um comportamento não só sexual mas também de carinho. A necessidade de proteger o grupo privilegiou aqueles que possuíssem fortes laços de cooperação interpessoal, que é sublimada na amizade.Duas forças coexistem nas espécies animais: a de competição, egoísta e belicosa, que deseja o poder sobre o outro a ser subjugado e a de cooperação, que se expressa no amor, na compaixão, no altruísmo. A primeira tem suas raízes profundas na necessidade de aplacar a fome fisiológica de alimento e a segunda no impulso de preservação da espécie. Sendo o homem uma espécie altamente evoluída, que atingiu um estágio de consciência psíquica plena e desenvolveu a cultura, essas forças primitivas da natureza foram canalizadas para as expressões refinadas da arte, do engenho e da ciência. São elas que movem o poeta, o guerreiro, o cientista, o sacerdote, o empresário, enfim, todo homem e toda mulher a fazer o que quer que seja na vida.Em seu livro “O Gene Egoísta”, Richard Dawkins diz que nossos organismos nada mais são do que instrumentos criados pelas moléculas replicantes para perpetuarem-se. Assim os dois instintos primários, da existência e da procriação, forjaram-se na natureza para atender a este imperativo básico do gene: replicar-se. Esta pulsão pode estar contida na própria estrutura subatômica da matéria, de um ponto de vista reducionista. Deste modo, talvez a própria estrutura íntima do Universo seja naturalmente estabelecida para culminar na vida, lembrando as idéias de Teillard de Chardin. Isto não significa que haja um projeto inteligente. Trata-se apenas de como as coisas são por si mesmas, sem razão nem propósito. Mas… não sei. Há que se investigar e discutir.

O amor e a felicidade

Pelo que se pode concluir, o sexo é, pois, um componente essencial da vida e um dos mais relevantes fatores de felicidade. Uma vez preenchidas as condições mínimas de sobrevivência: ar, água, alimento, abrigo (incluindo vestuário) e segurança, a pessoa busca sua felicidade. Dentre os muitos fatores que levam à felicidade, não resta dúvida que o mais relevante é a sensação de ser amado. Mas, para quem já seja sexualmente maduro, não é apenas o amor maternal, paternal e fraternal que contam. Há uma carência do amor erótico. Este é o objetivo buscado. Como nisto há uma reciprocidade, há que se amar para ser amado. Tal fato é tão válido que, mesmo sem correspondência, o ato de amar é fonte de felicidade, mesclada com uma doce tristeza.Quando o amor é correspondido e se realiza eroticamente, atinge-se um êxtase talvez só comparável aos arroubos místicos. Por maior que seja a pulsão fisiológica para o sexo, da qual, por sublimação surgiu o amor, sua realização dissociada do amor não proporciona nem uma mísera fração da beatitude que o sexo com amor é capaz de conceder. Porque, aí, o sexo não é só fruição, mas, principalmente, doação. Excluído o egoísmo do sexo, incrivelmente, ele propicia um prazer maior ainda. É procurando dar o máximo prazer que se desfruta dele em plenitude. E, para isto, há que se buscar conhecer o parceiro completamente, em corpo e em espírito. Tudo está envolvido. Pudores têm que ser esquecidos. Uma pitada de molecagem sempre é bem-vinda. Mas, no meu entendimento, sem afligir dor e nem constrangimento algum. Só o prazer dos murmúrios, dos perfumes e dos odores, dos toques suaves e dos vigorosos, de todos os recursos disponíveis, sem reservas e sem remorsos. Sem pressa. Esquecido do mundo. Isto é o amor e os orientais são sábios em cultuá-lo, de modo até sagrado. Como diz Chico Buarque na “Valsinha”, como não seria melhor o mundo se o amor fosse o prato do dia de todos.Amor é um sentir, um pensar, um desejar, um querer e um agir, isto é, uma emoção, um sentimento, um apetite, uma volição e uma ação. Esse complexo de fatos psíquicos caracteriza o amor em todos os planos, piedade, compaixão, solidariedade, afeição, amizade, amor platônico, erotismo. Amor filial, maternal, paternal, fraternal, conjugal, idealista. A intensidade e a seqüência em que eles aparecem podem variar. O amor sempre emociona, enternece, enleva e envolve um desejo de zelo, cuidado e proteção da coisa amada, bem como um anseio de reciprocidade. Mas o amor só se realiza quando é expresso em vontade e esta vontade em ação. Não basta sentir e desejar para amar, é preciso querer, demostrar e provar. O amor envolve dedicação e renúncia, paciência e perseverança, trabalho e recompensa, alegria e tristeza, euforia e depressão. É algo envolvente e inebriante. O amor não é possessivo, ciumento, exclusivista, castrador, sufocante. Pelo contrário, o amor é libertário e altruísta. Não me refiro apenas ao amor erótico, mas a todas as modalidades, inclusive as formas idealistas de amor à verdade, justiça, sabedoria, humanidade e natureza. O amor não pode ser cerceado em sua intensidade e abrangência. Ele não possui limites. Quanto mais intensamente se ama e a mais coisas e pessoas, mais capacidade se tem de amar. E quanto mais se ama, mais se realiza e maior é a felicidade, mesmo que nem sempre ele seja correspondido.

As variantes do amor

Falando-se, então, de amor, e não só de sexo, não há porque impor-se restrições de gênero, número e grau. Entendendo-se o sexo como expressão corporal do amor, a imposição de impedimentos, ou mesmo apenas de inibições a sua plena expressão, certamente é causa de perturbações psicológicas. Note-se que, absolutamente, não estou falando de libertinagem e de nenhum comportamento escandaloso, devasso ou ofensivo. Estou apenas dizendo que a livre expressão pública de afeto entre pessoas do mesmo sexo tem que ser considerada inteiramente normal, se essas pessoas pertencem àquela porção de humanidade que sentem atração natural por feromônios do mesmo sexo. Não se trata de falta de vergonha, se é que possuir vergonha seja, de fato, uma virtude.Pessoalmente, sinto até certo asco em me imaginar acariciando, quanto mais relacionando-me com outro homem. Mas isto é uma característica de cada um. Amar o sexo oposto, o próprio ou ambos, para mim, é perfeitamente normal e tem que ser aceito pela sociedade com a maior tranqüilidade, mesmo no seio da família. Só acho esquisito certos trejeitos exagerados que alguns gays exibem, que nem mesmo as mulheres fazem. Sou amigo de gays e lésbicas, tão firme na amizade como na de heteros. Nenhum de meus amigos gays jamais insinuou-se para mim de forma sensual. Do mesmo modo, posso ser amigo de alguma prostituta sem considerar que deva fazer uso dos serviços dela, não me importando com o que alguém possa dizer a respeito. E admito como natural a possibilidade da poligamia e da poliandria. Apesar disto, sou um marido estritamente fiel e monogâmico, mas acho que poderia ter várias mulheres e minha mulher vários maridos. Quanto à Bíblia, não me importo com o que ela diga a respeito. Contudo, a pregação que se atribui a Jesus é a do amor. Então, como condenar quem ama, seja a quem for? Quanto mais as pessoas amarem-se umas às outras, melhor. Não se pode exigir exclusividade e nem fazer restrições ao amor, dizendo a quem se pode ou não amar. Se Jesus mandou amar até os inimigos, não posso entender que se possa recriminar ninguém por amar alguém. E veja-se que não sou cristão.

Poliamor

Muitas pessoas seriam bem mais felizes se pudessem ter mais de um companheiro ou companheira. Afinal, pode acontecer de amarmos sincera e profundamente a mais de uma pessoa. Ou não?. É um assunto polêmico, contra todas as convenções sociais, mas acredito que acontece o tempo todo. Como vivemos numa sociedade monogâmica, os sentimentos são abafados, escondidos, frustrados, calados, amordaçados e podem trazer uma sensação de culpa muito grande, que gera muito sofrimento. Numa sociedade perfeita, as pessoas seriam livres de egoísmo, ciúme, inveja e sentimento de posse. Vi um documentário sobre os mórmons de Utah, que mostrou homens casados com mais de uma mulher, vivendo felizes numa família imensa. Não vi nada de errado, já que todos mostravam alegria e união. Infelizmente o contrário não é permitido entre eles, isto é, uma mulher não pode ter mais de um marido. Nas colônias anarquistas de Santa Catarina, no princípio de Século XX, isto era possível e há um romance do Miguel Sanches Neto, “Um Amor Anarquista”, sobre a Colônia Cecília, que conta um caso assim.Segundo a natureza humana, será que essa sociedade pluriamorosa seria possível? Será que faz parte do homem, segundo sua biologia, ter ciúmes sexuais de sua parceira, já que foi “programado” para espalhar seus genes com a máxima eficiência e, da mulher, ter ciúmes sentimentais, pois um homem apaixonado tenderia abandonar sua prole para constituir outro núcleo familiar? Será que um dia seria possível uma sociedade em que não se fosse taxado de promíscuo, ou coisa assim, quando se amasse mais de uma pessoa? E será que é mesmo possível amar plenamente mais de uma pessoa? Seria possível apaixonar-se perdidamente por uma pessoa, amando outra? O que fazer neste caso?A noção de univocidade e exclusividade do amor não é verdadeira. Muitas pessoas ja vivenciaram isto, ou seja, estarem apaixonadas simultaneamente por mais de uma pessoa. A literatura e as artes, inclusive, são pródigas na exploração deste tema. Muitos conflitos existenciais ocorrem por este motivo, uma vez que a sociedade não admite a realização desta possibilidade, o que leva, até, ao suicídio. O conflito é muito grande porque a própria pessoa não admite em si esta dicotomia. E aquela que for o objeto do amor da outra, não está culturalmente disposta a compartilhá-lo com mais ninguém.Posso afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que é perfeitamente possível a pluralidade do amor, entendido de modo completo e no sentido do amor erótico. Isto é: a poligamia e a poliandria são perfeitamente cabíveis e poderiam certamente ser aceitas pela sociedade como coisa inteiramente normal e legalizada, com todas as implicações jurídicas e econômicas envolvidas. Não se trata de imoralidade nenhuma, pelo contrário, seria uma medida salutar para permitir a maximização da felicidade do maior número de pessoas. Certamente de uma forma consentida por todos os envolvidos e com compromisso de fidelidade recíproca, mas não exclusiva. Assim, não só o marido poderia ter mais de uma mulher mas a mulher mais de um marido, formando uma teia na sociedade. É uma nova forma de organização social, diferente da família monogâmica, mas perfeitamente aceitável. Isso tudo faz parte de minha idéia mais ampla de uma sociedade ácrata ou anarquista, sem fronteiras, sem governo, sem dinheiro e sem propriedade, inclusive do cônjuge. Evidentemente, esta estrutura familiar estendida só poderia ocorrer em uma situação em que o matrimônio não tivesse a componente econômica e todo adulto provesse a si mesmo, sem depender de relacionamentos amorosos para seu sustento. O custeio dos filhos seria, então, rateado pela mãe e pelos pais. Numa sociedade comunitarista, a inexistência de habitações individuais não geraria o problema de decidir quem moraria na casa de quem.

Ciúme é egoísmo

Estou com aqueles que consideram o ciúme uma manifestação de puro e simples egoísmo. Sentir ciúme é pretender que o ser amado seja propriedade sua. Isso não é amor. Sou ateu, mas nunca vi melhor descrição do que é o amor do que o que disse o apóstolo Paulo no capítulo 13 de sua primeira carta aos coríntios:“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, não seria nada.Ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, de nada valeria.O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante.Nem escandaloso. Não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”O amor é completamente gratuito. Não exige nada em troca, nem reciprocidade nem exclusividade. E se compraz com a felicidade do amado em qualquer circunstância. Ciúme é egoísmo, não amor. Não há posse no amor. E a felicidade é maior pelo amor que se dá e não pelo que se recebe. Mas é ótimo ser amado, sem dúvida. O que não se pode é exigir amor de ninguém e nem que o amado não possa também amar a outrem. Aquele que ama, inclusive, dispõe-se a compartilhar o ser amado. É preciso reverter inteiramente esta noção de propriedade no amor. Isso é sinal de imaturidade. Ama-se e confia-se no amado. O ciumento preocupa-se mais é com a perda de sua imagem, caso venha a ser traído. Mas não há traição se o compartilhamento é consentido. Nada disso haveria se a sociedade admitisse, tranquilamente, a pluralidade simultânea do amor.

domingo, 27 de julho de 2008

Filosofia Científica

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Apresento minha proposta de uma nova abordagem da Filosofia, que denomino "Filosofia Científica". Em que consiste? A Filosofia é uma disciplina que se dedica à busca do saber e à obtenção da sabedoria. A Ciência é uma busca do conhecimento e conhecimento, calcado em informação, é base para o saber. Os métodos e os objetos das duas disciplinas não são os mesmos. A Ciência busca o conhecimento das entidades e fenômenos de modo sistematizado e fundamentado em evidências e comprovações, pela formulação e testes de hipóteses, com o uso de metodologias que aferem seus modelos explicativos com a realidade objetiva do mundo, tanto natural quanto cultural e das idéias. Mas se atém aos níveis imediato e mediato das relações entre seus objetos de estudo. A Filosofia, por sua vez, procura as razões fundamentais, as causas primeiras, as últimas conseqüências. Não só "como", mas, principalmente, "porque" e “para que”. Nesta busca, principalmente voltada para tirar lições de vida, a Filosofia se vale principalmente da especulação, que consiste na aplicação do raciocínio ao objeto de estudo, para tirar conclusões racionais. É um processo de reflexão sobre a realidade em suas múltiplas facetas, que conduz à formulação de esquemas interpretativos e explicativos. Neste mister, muito valiosos são os conhecimentos de lógica e lingüística (no sentido mais amplo de uma ciência dos signos), pois qualquer explicação é uma representação simbólica da realidade. A Filosofia dita analítica, corrente predominante no mundo anglo-saxão do século XX, envereda por uma abordagem diferente da especulativa, justamente por fazer uso maior dos métodos lógicos e lingüísticos. O que eu proponho vai além.

“Filosofia Científica" é uma abordagem dos objetos pertinentes à Filosofia por uma perspectiva científica. Isto evita a existência de "escolas de pensamento", colocando as explicações num patamar superior ao de "opiniões" ou "modos de ver", permitindo que se chegue a um consenso da comunidade filosófica. Desta maneira, qualquer tema filosófico é analisado não só pela reflexão e cotejo de tudo o que já foi dito a respeito com os dados da realidade, mas que as propostas de explicação sejam consideradas com o status de "hipóteses" a serem testadas em suas conseqüências com o uso de toda a metodologia científica existente. Este tipo de procedimento permite convergir as explicações para uma explicação única, evitando-se "interpretações" segundo as diferentes escolas. É o tipo de coisa que falta, por exemplo, na Psicologia. A Psicanálise é uma interpretação, de acordo com uma escola de pensamento. Não é o que ocorre na Medicina, por exemplo. Quando se descobre uma nova e melhor explicação para certa doença, por exemplo, as anteriores são abandonadas (o que ocorreu, recentemente, com a questão da úlcera gástrica). O mesmo se dá na Física. É esta forma de ser científica que estou propondo para a Filosofia. Que sejam apresentadas ponderações e argumentos favoráveis e contrários, para que a questão possa ser vista de uma modo mais iluminado. De que modo isto poderia (ou não poderia) ser feito no domínio da Metafísica, da Ética, da Estética, da Epistemologia, da Política, da Lógica, da Psicologia e dos outros temas abordados pela Filosofia? Isto é o que pretendo discutir.

Seria possível uma abordagem científica da Ética? Distinguindo a Ética da Moral eu diria que enquanto a Moral é uma disciplina normativa, isto é, trata das prescrições que devem ser seguidas nas ações humanas para que sejam conformes aos costumes estabelecidos por certa sociedade, a fim de preservar a convivência, a Ética é o estabelecimento dos princípios a que devem se ajustar as prescrições morais e em que devem eles ser baseados. Assim a Moral não seria científica (nem mesmo filosófica), mesmo que se leve em conta que as razões para o comportamento moral não estão em nenhuma punição, recompensa ou manutenção da reputação, mas no próprio imperativo do dever, sem recompensa, policiado apenas pela própria consciência. A Ética, por outro lado, é filosófica, e inquire a razão e o propósito da conduta moral, o estabelecimento das noções de bem (ou bom) e mal (ou mau), bem como o escalonamento dos valores das ações humanas. A Ética, pois, cuida do fazer humano (ou de outro ser consciente) e não das coisas e dos seres. Assim caracterizada, pode a Ética ser abordada sob uma perspectiva científica e, eu diria até, quantitativa (matemática). Os conceitos de felicidade e prazer, por exemplo, podem ser perfeitamente quantificados e eles possuem relevante papel na definição do valor de uma ação. Não estou fechando questão sobre isto, mas considero possível tal tipo de abordagem. Acho que se pode, inclusive, atribuir o caráter matemático de um "funcional" (próprio do cálculo variacional) e, portanto, considerar como grandeza, o nível de felicidade, cientificamente estabelecido em alguma espécie de escala, como se faz na quantificação da percepção do som, da cor, do cheiro, do sabor, da temperatura, da pressão etc. Tudo medido em termos de níveis de serotonina ou outros neurotransmissores que se mostrem relevantes na questão. Mais ou menos como a proposta da Meta-Ética científica do Genismo, exceto que faço atribuir a quantificação a um funcional e não a uma função. O mesmo pode ser desenvolvido com relação à quantificação da dor (tanto física como emocional ou moral). Um aparelho medidor de dor, tipo de pressão arterial ou de glicose poderia ser desenvolvido.

Em função desta medida é possível atribuir um valor quantitativo ao caráter ético de uma ação pela capacidade de maximização da felicidade para o maior número de seres (não apenas pessoas). Este é um dos critérios de valor para a eticidade de uma ação. Outros dois não seriam passíveis de quantificação, quais sejam a possibilidade de se erigir tal ação como norma universal de conduta e a que seja o tipo de ação que se deseja que seja praticada sobre si mesmo.

O positivismo exclui a metafísica e considera inacessível a busca dos "porquês", centrando-se na pesquisa científica dos "comos". O positivismo é uma anti-Filosofia. Não estou propondo que a Metafísica e a Filosofia sejam extintas e nem que se desista da investigação das causas primeiras nem dos fins últimos. O que proponho é que, nesta investigação, mesmo que se aplique a especulação, o critério de aferição da veracidade dos juízos que forem estabelecidos seja um critério científico. As escolas podem existir na escolha das definições, pois estas são arbitrárias. O ideal é a obtenção de um consenso. No caso das ciências, existem comitês que se reúnem periodicamente e dão a chancela às definições que devem ser adotadas pela comunidade. Isto poderia ocorrer com a Filosofia. A existência de escolas na Sociologia, na Psicologia, na Filosofia, na Economia e em outras ciências, principalmente nas sociais, no meu modo de pensar, enfraquece essas ciências, pois revela insegurança no conhecimento. Nas ciências naturais, especialmente nas exatas, a existências de mais de uma explicação alternativa é sempre uma condição provisória, até que uma delas se estabeleça como o padrão. Novas explicações sempre surgem para novos fenômenos, mas elas permanecem como hipóteses até que o consenso geral da comunidade científica as eleve ao estágio de teorias, no qual permanecem até que novos fatos venham requerer sua revisão. Este modelo de estrutura de ciência, mais nitidamente observado na Física, para mim, é um padrão ideal, ao qual devem aspirar as demais ciências, para que tenham um grau maior de confiabilidade.

Na Física e na Química, quando uma teoria é contestada e substituída por outra, a anterior passa a ser considerada errada ou, no máximo, uma aproximação. Assim ocorreu quando a teoria cinética da matéria sepultou a teoria do calórico, quando a teoria atômica explicou a estrutura da matéria, quando a teoria da relatividade substituiu a mecânica newtoniana, quando a física quântica suplantou a física clássica, quando a teoria eletromagnética soterrou a teoria corpuscular da luz e em várias outras situações. Hoje em dia, a cromodinâmica quântica e a relatividade geral são as teorias estabelecidas para o micro e o macro-cosmo. Mas estão sendo contestadas pelas hipóteses (impropriamente denominadas teorias) das super-cordas e das p-branas. Estas, contudo, ainda não estão estabelecidas (e pode ser que nem o sejam). Mesmo reconhecendo o grande valor de Newton, nenhum físico é adepto de suas teorias. Não é o que ocorre na Filosofia. Novas correntes surgem, mas não substituem as antigas. Ainda existem platônicos, tomistas e kantianos, ao lado de existencialistas, estruturalistas, fenomenologistas e outros "istas". Ora, se uma nova visão da realidade for proposta, penso que deva mostrar cabalmente que as anteriores estavam erradas, de modo que ninguém mais as adote, exceto como objeto de estudo histórico. Este também é o problema da Psicologia, que admite a coexistência de escolas mutuamente exclusivas. Não é possível que a explicação dos fatos psíquicos possa ser igualmente dada por teorias antagônicas. Ou uma, ou outra, ou nenhuma delas. Por isto é que acho que a Psicologia tem que ser integrada à Medicina, como parte da Neurologia. É este tipo de problema que vejo existir na Economia e na Sociologia, que me fazem desacreditar de todas as explicações econômicas. Trata-se da falta de "cientificidade".

O fato das ciências terem para objeto aspectos particulares da realidade enquanto a Filosofia cuida do todo, no meu entendimento, não impede a aplicação do método científico à Filosofia. A questão é que, em Filosofia, não se admite o corte epistemológico, segundo o qual as novas explicações superam as anteriores (no sentido de Bachelar). A aplicação do método científico sempre levaria a decidir por esta ou aquela concepção. É isto que desejo ver ocorrer na Filosofia, sem renunciar à sua abrangência. A Filosofia Analítica é uma concepção que se aproxima dessa vertente científica. Outra é a "Filosofia Concreta " de Mário Ferreira dos Santos que, confesso, não conheço em detalhes.

Não gostaria de adjetivar a Filosofia de modo algum. Considero que filosofia é apenas "Filosofia". Mas gostaria de ver esta rainha estabelecida de uma forma inequívoca e independente de concepções particulares. Neste sentido é que faço esta proposta, não para encarcerar a Filosofia ou podar qualquer abertura, mas sim para que as discussões sejam levadas a cabo, no debate entre várias correntes, a fim de que se chegue à aceitação generalizada de tal ou qual concepção a respeito de cada tema. Esta também é a maneira como gostaria que fosse a Psicologia, a Sociologia e a Economia, por exemplo.

No meu entendimento, o método científico não é uma camisa de força para a Filosofia, como pode parecer. Inclusive porque é preciso entender bem o que seja "Metodo Científico". Nos compêndios sobre Metodologia da Ciência descarta-se como não científico qualquer trabalho que não siga um rígido esquema que, nas teses de doutorado, incluem: "revisão bibliográfica", "materiais e métodos", "procedimento experimental", "análise e discussão" e " conclusões". Nisto tudo está embutida uma "hipótese" a ser testada. Não se menciona em lugar nenhum o "metodo de formulação da hipótese". Mas é aí que reside o segredo da ciência e o gênio do cientista. Contudo é importante que se frise que qualquer hipótese, seja como for formulada, só terá aceitação como explicação científica da realidade, se passar pelo crivo da comprovação, mediante os mais variados e rigorosos testes. Por exemplo, consideremos a questão realismo versus idealismo. Seriam as idéias uma realidade que precede o mundo exterior (que seria por elas construído, como o queria Platão) ou o mundo exterior é uma realidade básica e independente de qualquer sujeito consciente que o observe. Não é possível que algo tão relevante seja deixado como um posicionamento individual, uma "opinião". Se uma dessas concepções for verdadeira a outra será falsa e vice-versa. Então, para mim, a Filosofia Científica iria buscar algum procedimento que permita decidir entre as duas concepções de tal modo que não reste a menor dúvida sobre qual é a correta, para quem quer que tenha raciocínio suficiente para entender. Assim também deve ocorrer a respeito de qualquer outro assunto, evidentemente dentro dos conhecimentos disponíveis, de tal sorte que a conclusão possa ser revista, sempre que novos dados venham surgir.

A colocação de que a Ciência se constrói a partir do teste de hipóteses a serem verificadas e que elas precisam ser falseáveis para serem científicas é apenas metade da história (ou, até mesmo, menos da metade). O mais importante da Ciência não é o teste das hipóteses mas sua formulação. E para isto não há método estabelecido. Existem procedimentos, os mais variados, tanto experimentais quanto mentais, para se elaborar uma hipótese. Isto os cientistas não publicam em seus trabalhos de pesquisa. Eles não contam o “pulo do gato”. Não relatam seus palpites frustados. Sim, palpites, opiniões. É assim que eles elaboram as hipóteses e as testam. Mas só publicam as que passam nos testes. As outras vão para o lixo, mas constituem uma importante etapa da construção do conhecimento. O treinamento de um cientista, nos cursos de doutorado, não aborda essas coisas. Na formulação da hipótese entra mais a intuição que a razão. Entra o inconsciente. Como se sabe, muitos cientistas obtiveram a solução de seus problemas em sonhos. Há que se aplicar a lógica e o método no trabalho científico, mas eles padecem de um grande defeito: não são criativos. O verdadeiro progresso da ciência se dá sem método. É sem método que as grandes revoluções de mudança de paradigmas ocorrem. São os “insights” do inconsciente que levaram Planck a trocar uma integral por um somatório e criar a Mecânica Quântica no estudo da radiação de corpo negro ou Einstein a postular a constância da velocidade da luz ao tentar justificar o sucesso das transformações de Lorentz em explicar o resultado negativo da experiência de Michelson-Morley.

A coexistência de várias posições filosóficas, muitas vezes antagônicas, ainda em pauta como conhecimento vivo (e não apenas como objeto de estudo histórico), revela uma grande fraqueza da Filosofia, que é não possuir um critério de aferição da veracidade de suas proposições, de tal modo que, a cada momento, em razão dos conhecimentos até então disponíveis, uma única linha mestra prevaleça e seja aceita pela comunidade filosófica "in totum" como a correta interpretação da realidade. Tal situação não ocorre apenas na Filosofia, mas também na Sociologia, na Economia e ainda, mas cada vez menos, na Psicologia. Não que na Física, na Química, na Biologia, na Geologia não existam propostas alternativas às linhas mestras de cada época. Mas estas propostas permanecem marginais até que algum fato inqüestionável as coloque como o paradigma, que passa a ser aceito pela comunidade como um todo. Os cientistas estão sempre considerando possibilidades alternativas (eu mesmo, em meu mestrado, estudei as conseqüências cosmológicas da admissão de uma possível massa de repouso não nula para o fóton, que pudesse ser observacionalmente verificada, já que os experimentos impõem um valor limítrofe inferior a a ela, mas um valor menor poderia ter conseqüências cosmológicas). No entanto, a cada momento, uma só explicação é admitida na comunidade como um todo.

Considerar a Matemática como ciência ou não, depende do que se está entendendo por ciência. Numa acepção mais ampla, como conhecimento comprovado e sistematizado, certamente que é, mesmo que seu objeto seja abstrato. A questão se prende às categorias de realidades. Existem realidades naturais bem como outras, de ordem lógica, estrutural, normativa ou outras. Daí termos ciências naturais, sociais, normativas, lógicas etc. Restringir o status científico apenas ao tipo de conhecimento que trata das realidades palpáveis não me parece razoável. Mas, como grande parte das discussões filosóficas é semântica e semântica é uma questão de convenção, basta que se declare, a priori, com que acepção tal ou qual termo está sendo empregado. Assim eu pergunto se são ciência a Lingüística, a Sociologia, a Política, o Direito, a História e outras. Poder-se-ia dizer que ciência tem por objeto o estudo de entidades que estão no mundo, mesmo que não sejam naturais, como as leis. Assim, como os objetos da Matemática (números, figuras, relações) são puramente mentais, ela não seria ciência, como a Lógica. A concepção de Matemática como uma linguagem apenas, não diz toda a verdade acerca dela. Sem contar que a Matemática surgiu de problemas concretos. Na verdade há uma relação mais profunda entre a capacidade da Matemática em descrever e prever o comportamento do mundo do que se pensa. O que parece é que a Matemática e a Lógica são como são, não por uma questão puramente concernente ao mundo das idéias, mas que este mundo é um reflexo da realidade natural ser como é. Se fossem diferentes, outras seriam a Lógica e a Matemática. O princípio do terceiro excluído da lógica dicotômica é consoante com uma interpretação determinista (ou mecanicista) do Universo. A interpretação probabilística (que Popper e Einstein rejeitavam) leva a uma "lógica difusa" que parece ser a que, de fato, prevalece. Portanto, a asserção de Laplace é inteiramente irrealizável, por um indeterminismo intrínseco da natureza (que não deve ser confundido com a aleatoriedade estatística dos fenômenos complexos, advinda do desconhecimento de todos os fatores envolvidos).

O critério de falseabilidade, de Popper, é um fortíssimo instrumento de verificação do caráter científico de uma teoria mas, no meu entendimento, sua inaplicabilidade não descarta liminarmente algum conhecimento como não científico. A Matemática e a Filosofia, por este critério, não poderiam ser ciência. No entanto, numa concepção não tão restrita de ciência, elas o são. Outras que não atendem ao critério de Popper são a História, a Economia e a Sociologia, por exemplo.

A técnica, apesar de envolver conhecimento não científico, tem sua validade estabelecida pelo critério de utilidade, eficiência e eficácia. Mas, a cada dia, as tecnologias (Engenharia, Medicina) se valem mais da Ciência para cumprirem seus objetivos. Quanto à Arte, em si, não é um conhecimento, mesmo que tenha que se valer de técnicas para se expressar.

A proposta de uma "Filosofia Científica" consiste justamente em tirar da Filosofia todo e qualquer adjetivo. Não é matematizar, linguistificar, nem cientificar (de modo estrito) a Filosofia, mas levar às suas proposições um critério de validação, de forma tal que se possa aceitá-las ou rejeitá-las como sendo verdadeiras ou falsas, de um modo objetivo. Não só um critério de validação, mas também um método de abordagem, que não seja apenas especulativo ou reflexivo mas, de certa forma, semelhante ao que usa o cientista, não para testar suas hipóteses, mas para formulá-las.

João Carlos Holland de Barcelos, o Jocax, criador do Genismo, tem uma proposta bastante semelhante de uma "Ciência Expandida" que abrigaria a Filosofia. No sítio do Genismo da Teia da Rede Mundial pode ser achada esta proposta. Acredito que é possível se estabelecer uma convergência desses objetivos, justamente cientificando a Filosofia e considerando-a como uma das ciências, bem como a Matemática.

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