domingo, 10 de janeiro de 2010

Deus e a Física Quântica





Física Quântica e relativística é, simplesmente, Física, pois a natureza é quântica e relativística. E não tem nada de esotérico e de sobrenatural. Esta história de que a Física Quântica tem alguma coisa a ver com uma propalada “Consciência Cósmica” não tem fundamento. A Física Quântica não dá suporte nenhum para a crença na existência de Deus. Se grandes físicos foram teístas, outros tantos foram ateístas, e isto não conta contra nem a favor do teísmo nem do ateísmo. Argumento de autoridade é balela. O que importa são os fatos em si e não quem os contou. Tenho a mente aberta para toda e qualquer possibilidade, mas que sejam muito bem fundamentadas em evidências ou, pelo menos, em fortíssimos indícios. Ainda não vi nada disso no esoterismo quântico. Amit Goswami, Fritjof Capra, Deepak Chopra e outros que tais, pelo que posso inferir, são grandissíssimos enganadores.
Como a existência de Deus não é uma evidência sensorial primária, sua veritação precisa ser obtida por comprovação que se baseie em cadeias de comprovações que, na última instância, fundamentar-se-á em evidências sensoriais diretas, mesmo que auxiliadas por instrumentos. O ônus da prova recai sobre a comprovação de sua existência e não da inexistência. Assim, a priori, considera-se que Deus não exista, até que se prove que exista. Se não se provar que Deus existe, é para se supor que não exista, mas se não se provar que Deus não existe, não se pode considerar que exista, mas apenas que possa existir. Evidentemente, qualquer crença na existência ou inexistência de Deus, não se reveste de argumento a favor ou contra isto, mas, se for acompanhada de um elenco de fortes indícios, num ou noutro sentido, pode embasar a maior plausibilidade da existência ou da inexistência. Meus conhecimentos indicam a maior plausibilidade da inexistência, daí minha posição ateísta cética.
O fato de não se ter explicações naturais acabadas e inquestionáveis sobre questões ainda em aberto na ciência, como as origens do Universo, da vida e da consciência, não significa que elas não existam e que se deva, então, abandonar a busca de explicações naturais e aceitar as sobrenaturais. Inclusive porque as aventadas explicações sobrenaturais não explicitam os pormenores dos mecanismos do que se propõem a explicar, como se exige das explicações naturais. Considero muito mais gratuito e exótico introduzir a existência de Deus no processo explicativo, do que admitir que ainda não se sabe qual é a explicação. A Cosmologia, a Física, a Biologia e a Neurociência estão envidando ingentes esforços para chegar lá, e não se pode arguir que já houve tempo suficiente para isto, pois a espécie humana, a civilização e a ciência são extremamente jovens neste planeta.
A se usar de prudência, como recomendo, há que se deixar a questão em aberto e ficar sem a resposta, por enquanto e isto pode perdurar por muitas e muitas dezenas ou centenas de anos. Mas, a não ser que se obtenham provas cabais de que a explicação seja a interveniência de Deus, e que se mostre pormenorizadamente como esta interveniência se deu, além de se obter uma descrição completa e verificável das propriedades de Deus que não sejam meras “doxas” ou informações tiradas das suspeitíssimas “Escrituras Sagradas”, não me sinto capaz de aceitar Deus como explicação para coisa alguma.
Estou cansado de ver cientistas mostrarem que tal ou qual fenômeno não consegue ser explicado pelos conhecimentos atuais da Física ou da Biologia e, então, tirarem do bolso da casaca que “logo”, tem-se que considerar que a explicação é a interveniência de Deus. Posso até admitir que possa ser, mas de forma alguma, até agora, isto ficou comprovado. E, como já disse, o ônus da prova é este.
A sensação que se tem de que os pensamentos, sentimentos, emoções, lembranças, enfim, toda a vida psíquica residem “fora” do corpo, de fato pode levar a supor que exista uma entidade extra, a “alma” que fosse a sede do psiquismo, enquanto certas sensações, como dor, frio, coçeira e outras parecem residir no local de sua ocorrência no corpo. Isto é uma ilusão. Nem as sensações se dão no próprio lugar nem o psiquismo se dá fora do corpo. É no interior de cérebro que essas ocorrências se sucedem. Experimentos com portadores de lesões cerebrais e, atualmente, técnicas de imageria neurológica permitem localizar todas essas ocorrências, se bem que ainda não sejam capazes de identificar seus conteúdos. É uma questão de tempo e se chegará lá. O apelo a noções transnaturais, como a de “espírito” não se faz necessário. Acreditar que se possua alma porque se tem este sentimento não pode servir de base à comprovação de sua existência. Dizer que se precisa primeiro “crer” para então “ver” é uma incoerência. A crença é capaz de fazer ver qualquer coisa, como bicho-papão, papai-noel, fadas, duendes, saci-pererê e assim por diante. Dizer que se vê no que se crê não tem cabimento. Se for assim, tudo que se quiser que seja verdade o será, basta acreditar, como se proclama no famigerado livro “O segredo”.
Pretender achar o significado dos fenômenos quânticos em saberes mitológicos, para mim, de fato, é ingenuidade. Certamente que a Física Quântica e a Relatividade possuem um alto componente filosófico, se não formos pragmatistas, como muitos cientistas adeptos do positivismo. A ciência não deve apenas investigar “como” o mundo funciona, mas também, “porquê”. É válido se fazer um cotejo entre as interpretações da Mecânica Quântica e vários mitos, sob um aspecto crítico, mostrando as coincidências. Isto não dá aos mitos nenhum “status” de validade e nem se pode basear neles para construir as interpretações, que têm que ser gestadas por reflexão filosófica sobre as evidências observacionais das conclusões teóricas.
Há muitos indícios de que Deus não existe. Primeiro temos que descartar, de pronto a noção de que Deus seja onipotente, onisciente e bom, pois a existência do mal, de pronto, mostra que tal tipo de ser é contraditório e, logo, não pode existir, pois se ele tem o poder de evitar o mal e não o faz é porque não é bom. Fiquemos só com a onipotência e a onisciência. Isto é, Deus não é bom. Em suma, abandonemos o teísmo e fiquemos só com o deísmo e o panteísmo como nossas possibilidades.
Pelo Deísmo Deus apenas criou o Universo e largou de lado e pelo Panteísmo, Deus está impregnado no Universo. Nos dois casos é um ser com inteligência, vontade e sensibilidade, só que o deísta é extrínseco ao Universo. Na concepção deísta, o Universo teve um começo em que foi criado por Deus, que sempre existiu, mas não faz parte do Universo. Fora Deus, então não havia nada. O conteúdo do Universo não é parte do conteúdo de Deus, senão ele seria natural e integrado ao Universo. O problema de Deus ter feito surgir tudo sem que antes houvesse nada é semelhante ao do surgimento de tudo sem Deus nenhum, apenas que tem um agente causador, mas o conteúdo continua provindo de nada. E mais, se Deus é uma coisa que pode existir eternamente sem ter sido criado por ninguém, porque não o próprio Universo? Caímos no panteísmo, isto é, Deus é o próprio Universo. Só que um Universo com inteligência, vontade e sensibilidade, isto é, a tal consciência cósmica e o tal desenho inteligente.
Para haver a consciência cósmica seria preciso que existissem formas de intercomunicação direta e quase instantânea entre todas as partes do Universo. Pode ser que isto seja possível e existem estudos dessas possibilidades, ainda inconclusivos. Mas vejo dois problemas. O primeiro é que, na verdade, o panteísmo considera Deus não exatamente como o próprio Universo, mas como uma entidade “imanente” a ele, isto é grudada como um imã mas distinta, mais ou menos como se entende o corpo e a alma de uma pessoa. No deísmo, Deus não é imanente, mas extrínseco. Nos dois casos há o problema da natureza da substância de Deus não ser física, isto é, nem campo, nem matéria, nem radiação, e, ao mesmo tempo, interagir com o mundo físico. Ainda não se conseguiu observar este tipo de ocorrência. Outro problema é que o Universo não demonstra seguir uma evolução inteligente coisa nenhuma. Na verdade a evolução é bem caótica e completamente imperfeita. Porque existem doenças, por exemplo?
A haver algum Deus, a maior plausibilidade seria pela concepção deista, isto é, um ser onipotente responsável pela criação do Universo, mas não provedor contínuo de sua existência, deixada a cargo das leis que lhe regulam o funcionamento. Isto se estende à vida dos seres humanos, ou seja, orações seriam inteiramente inócuas. No entanto, mesmo nesta concepção, como sua existência não é evidente, há que se provar que exista. E não há prova alguma disso, pelo que eu conheça. A existência de qualquer modalidade de deus não é necessária para se explicar coisa alguma. Então, para que supor que exista?
Nem a Física Quântica nem a Relatividade proporcionam o mais leve indício de que exista alguma inteligência planejadora e ordenadora dos eventos da natureza. As denominadas “Leis Físicas”, não são determinações apriorísticas a serem seguidas pela natureza, mas sim, súmulas descritivas do comportamento observado nos fenômenos naturais. A noção de ordem, harmonia e beleza da natureza é improcedente. Singularmente há um prevalecimento da ordem e da beleza na região em que nos encontramos e na escala de dimensões espaciais e durações temporais a que temos acesso. Todavia no macro e no microcosmo, bem como na mini e na microbiosfera, domina uma situação extremamente belicosa e caótica, verdadeiramente horripilante. Germes e anticorpos permanecem numa infindável batalha, muitas vezes vencida pelos primeiros, redundando em doenças, que, por si só, mostram a imperfeição da natureza. Nos núcleos das galáxias a situação é de uma terrível predação de massas umas pelas outras, sem o estabelecimento de nenhum padrão de ordem. Isto acontece também no cinturão de asteróides. Mesmo num nível mais próximo do humano, nos oceanos e nas selvas, presas e predadores vivem em contínuo embate. Entre os insetos é o mesmo que se dá. Leis, como a da Gravitação Universal, que descrevem como os planetas orbitam o Sol, aparentemente produzem um funcionamento harmônico do Sistema Solar porque este é muito rarefeito e a ação do Sol sobrepuja enormemente a interação mútua entre os planetas. Mas isto não se dá no cinturão dos asteróides ou nos anéis de Saturno, em que o comportamento caótico predomina. A dinâmica da atmosfera é outro exemplo de que as leis na natureza não conduzem a harmonia nenhuma. Não estou dizendo que tudo é caótico. Existem sistema muito bem regulados, como os organismos vivos. Mas não são perfeitos, tanto é que existem doenças. Na vida social os conflitos interpessoais, o crime e a maldade deixam patente a imperfeição da denominada “criação”. O apelo à perfeição da natureza como testemunho da existência de Deus, portanto, não procede. Ou então tal entidade é incompetente, não possuindo os atributos de onipotência e bondade que lhe são conferidos.

9 comentários:

Pedro disse...

Muito bom esse artigo, parabéns! Eu estou no primeiro período do meu Bacharelado em Física pela UFMG, o motivo pelo qual eu escolhi a física são os desafios da qravitação quântica da TGU.... antes eu tinha(ou tenho) tendência a acreditar que tudo propenção para uma maior harmonia e estabilidade, porém estou a revisar tudo agora....ah, atentes de querer ser físico eu queria ser filósofo...

Wolf Edler disse...

Pedro, como físico você também pode ser um filósofo. Veja a biobliografia das disciplias do Curso de Filosofia e vá lendo-as todas em paralelo ao curso de Física. Bertrand Russell fez assim. Cursou Matemática e tornou-se um filósofo, dos grandes.

Anônimo disse...

Voltamos aos paradigmas de Cantor,Gauss e Lambert, sobre leis que na forma do espaço e pela busca ideal de leis sobre o infinito, figurativamente na evolução inesgotável,temos que nos sujeitar a inoperabilidade cordial,que promove a difusão dessas correntes associativas e a diluição de nossa própria coerência, causandao recíproca futuras aberrações,talvez essa falsa estabilidade de concordância seja futuramente nossa inibitório destino. "A dualidade entre fatos e decisões leva à validação do conhecimento fundado nas ciências da natureza e desta forma elimina-se a práxis vital do âmbito destas ciências. A divisão positivista entre valores e fatos, longe de indicar uma solução, define um problema." (Jürgen Habermas)

Julio disse...

A maior evidência da existência de Deus, é a a insistência humana em desacreditar sua própria percepção natural. Pois que necessidade haveria de ter que desacreditar algo que já não existe em si mesmo? Não acreditar em Deus é despir de sua glória ímpar qual humano, é desistir da sua própria existência.

Ernesto von Rückert disse...

De modo nenhum, Júlio. Não existe uma percepção natural de Deus. Todos somos ateus de nascença. A noção de Deus é cultural. Como foi uma invenção e ela provoca efeitos danosos na humanidade, é preciso desconstrui-la. A gloria impar do ser humano não tem nada a ver com Deus e sim com suas características naturais, extremamente singulares, pelo manos aqui na Terra, no presente momento.

André Vareiro disse...

[1]

Podemos dizer a grosso modo que a realidade é "tudo que existe" . Desse modo é tido como o que é existente, aquilo que existe fora da mente. Mas dentro da mente também. A ilusão quando existente, é real e verdadeira em si mesma. Ela não nega sua natureza. Ela diz sim a si mesma. Existem realidades na mente: Ideias, números e acredito que se possa incluir a experiência que a imaginação proporciona como realidade também. Isso nos afeta de modo às vezes tão drástico quanto a experiencia dada diretamente dos sentidos. O mito, a fantasia, as artes, etc.. Tanto uma dor física como uma forte ideia e sentimento podem alterar nosso comportamento e disposição. Deus pode ser que não exista, mas pra mim Ele é Real. Porque eu simplesmente quero que seja. A ideia desse ente mesmo que imaginário é muito forte. Acho que temos uma vida pra construir uma resposta em relação ao mistério. Desse modo a fé estaria mais próxima de realização artística do que das analises científicas. É claro que nenhuma pessoa de cultura e educação razoáveis ignora as descobertas e pesquisas científicas.

A realidade difere da existência porque essa está condicionada aos sentidos imediatos (os 5) e sua extensão perceptiva que são os instrumentos científicos. Realidade e existência são sinônimos quando ignoramos experiências que não estão sob a condição desses cinco sentidos. Mas realidade diferente ocorrem como por exemplo o SONHO.

Essa experiência do sonho foi central para o nosso desenvolvimento. O surgimento do próprio homo sapiens tem relação com a possibilidade que tivemos de sonhar. Antes da descoberta da utilização do fogo segundo as pesquisas mais recentes em neurociência os hominídeos gastavam quase 20horas por dia pra poderem se alimentar porque os alimentos crus são menos eficientes quanto a sua absorção pelo organismo. Mesmo que por um bom período nós ainda não tínhamos o conhecimento para produzi-lo,
ele foi guardado quando encontrado na natureza (relâmpagos, vulcões, etc). Quando se começa a utilizar o fogo e cozinhar os alimentos temos um salto no desenvolvimento cerebral. E outro fato importante se dá: o homem consegue dormir com menos peso no estômago, porque sua digestão é melhor e também dorme mais profundamente pois as noites passam a ser mais seguras com uma fogueira que protege dos predadores. Nesse momento com a utilização e com o domínio do fogo, consequentemente o homem sonha mais e aquela realidade fantástica do sonho faz com comecemos a criar uma outra. Um mundo "espiritual". Nossos sentimentos agora tem cores, figuras e personagens. Os seres humanos encontram seus primeiros deuses aí e eles representam seus desejos mais íntimos que eles (nós) nem conheciam. Esse é um dos elementos mais importantes dos mitos. As primeiras pinturas nas cavernas surgem nessa época. O homem aprende a criar. E com menos tempo necessário pra se alimentar ele pode se dedicar ao lazer, a brincadeira, a imaginação e até mesmo estreitar seus laços afetivos. Hoje o quadro mudou muito mas a ciência ainda representa esse fogo que nos dá mais oportunidade para o ócio criativo. E mesmo que se avance mais mil anos de explicação da natureza ainda haverá, acredito eu, o MISTÉRIO.

[1]

André Vareiro disse...

[2]

A mente humana, o otimismo científico queira ou não, não pode deixar de ser finita. O desejo de que o conhecimento através da mente humana se expanda infinitamente e saiba tudo, exatamente TUDO SOBRE O UNIVERSO em cada mínimo detalhe é apenas um desejo, um objetivo, uma meta, nunca um fato. O Homem dominaria o conhecimento absoluto sobre o Tempo, o Espaço e a constituição de cada elemento existente? E o que é conhecimento senão controle e poder? Quando conhecemos algo podemos interferir sobre ele, não é mesmo? Conhecendo ABSOLUTAMENTE TUDO NO UNIVERSO poderíamos interferir e moldar a existência em praticamente todas as suas dimensões. Seríamos como Deuses na existência?

O poder é um valor e fruto de um desejo. Mas diante do mistério, não é possível realizar um outro movimento?

Não podemos colocar uma miligrama de mistério como sendo sempre impossível de se alcançar, mas que não signifique que nossa espécie deva abandonar a vontade de conhecer mais de forma a propiciar cada vez maior bem a mais seres?

Acredito que esse minusculo ponto que deixamos em aberto ao mistério é onde começa a POESIA.

"A poesia compreende aspectos metafísicos (no sentido de sua imaterialidade) e da possibilidade de esses elementos transcenderem ao mundo fático. Esse é o terreno que compete verdadeiramente ao poeta"

Aristóteles, Poética

Essa dimensão poética, artística e imaginativa do seres humanos começou com a possibilidade de dormir mais tranquilamente nas cavernas, mas ainda é essencial e provavelmente continuará sendo.

E mais:

Reconhecer que nunca teremos o CONHECIMENTO ABSOLUTO é uma postura de HUMILDADE e CONSCIÊNCIA.

E esse valor é de importância suis generis pra nós humanos porque é exatamente dessa mesma raiz da palavra que provêm o significado de Ser Humano: Humus.

"Humildade vem do latim humus que significa "filhos da terra". Refere-se à qualidade daqueles que não tentam se projetar sobre as outras pessoas, nem mostrar ser superior a elas. A Humildade é considerada como a virtude que dá o sentimento exato do nosso bom senso ao nos avaliarmos em relação às outras pessoas."

Em poucas palavras, humildade quer dizer que devemos ter "os pés no chão". Pense quanto a limitação da mente humana. Sabemos que ela é limitada, mas não sabemos o quanto ela é limitada, por isso devemos sempre descobrir mais e mais, sem esquecer da responsabilidade que temos. O limite, não conhecemos e é a apenas nessa medida que ocorre o ilimitado.

[2]

André Vareiro disse...

[3]

Nessa fração de mistério que nós nos desprendemos, nós nos desapegamos, ao mesmo tempo que nos alivia dessa obsessão de poder e controle, faz com que podemos
transformar-la no que quisermos. E ela nos transforma no que desejarmos, porque também somos feitos de sonhos.

Se você quer que essa dimensão da sua relação psíquica com o incognoscível seja um Pai ou um Rei, um Deus Pessoal ela será. Como fizeram os Hebreus e de certa forma Zaratustra.

Se você quer ela seja uma família, uma tribo, um panteão que irá te encorajar. Ela será. Como fizeram os Hindus, Gregos, Romanos, Yorubás, Incas, Astecas, Escandinavos e a maioria dos povos.

Se você não quer conjecturar sobre ela, mas apenas manter um silêncio de respeito e viver sua vida da melhor maneira possível buscando o fim do sofrimento para todos. Essa dimensão será assim. Como fez Buda.

Se você quer que essa fração seja o Amor o qual tem força de unir os homens na alegria e no sofrimento da vida, ela será. Como fez Cristo que encarnou essa dimensão do mistério em suas ações e palavras.

Ou pode ser algo que nós quisermos. O homem tem LIBERDADE ABSOLUTA nesse quesito.

A fé então seria uma disposição mental e Deus um símbolo, uma construção do coração humano onde poderia conter seus mais elevados valores.

O interessante é que se o homem cria (ou encontra) Deus, esse símbolo, imagem, ideia, conceito o transforma também.

Então Deus pode ser que não exista não é certeza, a não ser pra aquele que presencia algum milagre. Se qualquer um de nós visse Jesus ressuscitando Lázaro e ele mesmo se dizendo o Filho de Deus e um com ele, aí poderíamos dizer que Deus existia com certeza. Bom, eu nunca presenciei nenhum milagre e muito menos estive na Galileia há mais 2013 anos atrás. Aliás, há tanta controvérsia quanto a esse relatos que prefiro ficar apenas com a mensagem central e as palavras de Jesus. Mas quando digo que acredito em Deus, estou dizendo que essa dimensão que se relaciona com o mistério, com o incognoscível
que sim está na minha mente, é REAL. Posso até orar para essa realidade que tanto sentido quanto.

Esse modo, ao meu ver, é uma maneira digna e não arbitrária de se ter fé. Mas não parece se relacionar com o ateísmo, teísmo, deísmo, panteísmo ou que seja.

Talvez eu posso dizer que eu não creia a priori, mas no ato de CRIAR me dou a liberdade de crer a posteriori.

Eu diria que é um passo a diante do agnosticismo.

Somos crentes ingênuos, depois perdemos a fé, em seguida nos tornamos ateus dogmáticos, depois ateus céticos ou agnósticos e depois?

Em seguida eu passei a ter essa concepção que não sei bem como definir.

[3]

André Vareiro disse...

"Como foi uma invenção e ela provoca efeitos danosos na humanidade, é preciso desconstrui-la. "

É aqui que eu descordo. O fato de ser uma invenção não provoca efeitos danosos na humanidade, e sim o fato do homem não reconhecer que é uma invenção. Devemos valorizar a invenção, a imaginação e a criatividade e a primeira coisa é reconhece-la, pois senão Deus torna-se um instrumento de poder e não de liberdade. As grandes guerras e desastres no mundo acontecem não por motivos religiosos, mas por conta de economia e poder. A religião é usada tanto como instrumento de dominação quanto de resistência, se cada homem descobrisse que tem liberdade de interpretar e vivenciar essa realidade em seu próprio íntimo e que isso é digno não estaríamos mais sujeitos a manipulações. O que faríamos seria uma troca de experiências dessa realidade singular de cada um. Não seria preciso negar a história das religiões e dos mitos, mas revisa-las a luz de uma nova consciência. Nós criamos (ou encontramos) Deus e essa força, essa potência e disposição mental pode nos transformar. Tudo depende de como nos posicionamos em relação a ela.

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