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domingo, 7 de março de 2010
Inteligência
Vejam a apresentação da palestra que tenho feito sobre Inteligência:
http://www.youtube.com/watch?v=uQ9Vnt6wOqI
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Professores de Castigo
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Em sua edição número 614, de 22 de fevereiro de 2010, à página 92, a revista Época ( http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI122910-15228,00.html ) Comenta a providência que o Secretário de Educação de Nova York, Joel Klein, tomou para evitar que professores incompetentes, mas com estabilidade no emprego, permanecessem em sala de aula, prejudicando os alunos. Colocou-os de castigo! Isso mesmo! Ganham o salário mas ficam o tempo todo do serviço fechados em uma sala sem livros, revistas, computadores, telefones, celulares e nenhum outro contato exterior. Enquanto isto, uma arbitragem do Sindicato dos Professores apura a procedência da acusação. Se for improcedente ele retorna ao trabalho mas se for procedente ele é demitido por justa causa (incompetência). Isto é o que está fazendo falta em nosso país, mesmo nas Universidades e até em nossa UFV. Quantos professores passam nos concursos e depois se revelam um tragédia didática e, até mesmo, de conhecimentos? Muitos até consideram que não é preciso ter didática para lecionar na Pós-graduação. Zombam da Pedagogia. Em parte têm razão, pois há muita incompetência pedagógica. Mas isto não desmerece a pedagogia, como padres pedófilos não desmerecem o clero e comunistas oportunistas não desmerecem o comunismo. É preciso resgatar o mérito no Serviço Público, com bônus ou outras formas de premiar a dedicação e a competência e desestimular a isonomia idiotizante, que iguala preguiçosos e diligentes, burros e inteligentes, folgados e dedicados, desonestos e honestos, incompetentes e competentes, tudo em benefício de um corporativismo malsão e em prejuízo dos contribuintes, que usufruem dos serviços públicos, especialmente da educação. É preciso dar autonomia aos diretores das escolas, mas com uma cobrança séria, por meio de uma avaliação constante, correta, imparcial, conclusiva e consequente, isto é, capaz de tirar-lhe o cargo ou promover-lhe. Esta avaliação tem que ser feita pela Superintendência de Ensino, pelos professores, pelos alunos, pelos egressos, e pelos pais, de alguma forma muito bem estudada para garantir a lisura, a imparcialidade e a impossibilidade de manifestações de desforra ou inveja. Este tipo de avaliação precisa ser sempre aplicado, não só aos diretores e coordenadores, mas a todo professor e funcionário, e o ideal é que não haja estabilidade, para que sempre o servidor público precise demonstrar sua capacidade, diligência, dedicação, criatividade, despreendimento, inteligência, boa vontade, honestidade, compromisso, Não que seja um cordeiro incapaz de idéias próprias e de contestar ordens despropositadas, nem que seja um bajulador de chefias, mas uma pessoa íntegra, digna e defensora dos direitos, principalmente do povo ao qual serve. Certamente que ainda estamos longe disto, mas é preciso que associações de pais façam pressão nesse sentido e que, nas eleições, sejam escolhidos candidatos comprometidos com a erradicação da corrupção no serviço público e com sua qualidade, especialmente na educação.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
O Nada e o Infinito
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É preciso distinguir os conceitos das coisas que eles pretendem significar. Pode-se conceituar e definir qualquer coisa. Que ela exista é outro problema. "Nada", conceitualmente, é meramente uma palavra para designar a ausência de qualquer coisa, de tudo o que se possa conceber que exista. Nada não é uma entidade, como o é o conjunto vazio, que é uma conceito abstrato, real dentro da categoria das realidades conceituais. Mas, na categoria das realidades concretas, isto é, de existência independente de mentes que as concebam, não existe nada que seja "nada". A ausência de espaço (mesmo vazio), de tempo, de conteúdo substancial de qualquer espécie (mesmo espíritos ou deuses), de qualquer tipo de evento, fenômeno ou ocorrência, isto é o que se quer dizer com a palavra "nada". Resta saber: é possível não existir coisa alguma ou evento algum? Ontologicamente não há nenhum impedimento. A existência de algo ao invés de nada é um fato completamente destituído de necessidade. Poderia perfeitamente não existir coisa alguma. Mas existe! Existe o espaço (mas não espaço vazio, o vácuo sim), o tempo e um conteúdo que os preenche, que são campos, matéria, radiação e eventos. Um ser não é aquilo que "é" alguma coisa, mas o que é alguma coisa existindo ao longo do tempo. Caso contrário é um ente puramente conceitual. Denomina-se "Universo" ao conjunto de tudo que concretamente existe (já o conceito de "mundo" é mais amplo, pois abrange as realidades puramente conceituais, axiológicas, culturais e de qualquer outra categoria de realidade que se imagine). Por realidade concreta estou considerando o tempo, o espaço, a matéria, os campos, a radiação, as estruturas formadas por estes conteúdos e os eventos, fenômenos e ocorrências que com eles se dêem (note-se que "energia", não é uma entidade substancial do Universo, mas tão somente um atributo que certas entidades, sistemas e estruturas podem possuir, assim como carga, spin, momento linear etc.).
O problema da possibilidade de inexistência de qualquer coisa é fenomenológico e requer investigação experimental ou observacional, certamente apoiada em modelos teóricos explicativos da realidade. Aí se coloca a “Teoria da Relatividade Geral”. Concebida por Einstein para tentar resolver a questão de como correlacionar medidas em referenciais com aceleração relativa, ela tornou-se uma teoria da gravitação quando Einstein percebeu que o Princípio da Equivalência não era uma mera coincidência, mas um fato fundamental da natureza, como o é a constância da velocidade da luz no vácuo (mas não no vazio, pois no vazio não tem nem luz – aliás, não existe vazio no Universo nem fora dele). Em suma, não se pode localmente distinguir um referencial acelerado de um campo gravitacional. Não localmente sim, pois a terceira derivada do potencial gravitacional, responsável pela "força de maré" representa a "curvatura intrínseca" do espaço-tempo na região. Assim, um corpo sob ação da gravidade, não estaria sujeito a força alguma, mas apenas se moveria inercialmente ao longo das geodésicas do espaço-tempo encurvado pela presença de um conteúdo possuidor de massa ou energia. Ao se fazer a aproximação local pelo espaço-plano tangente ao curvo, tal movimento se apresentaria como resultado de uma interação, dita gravitacional. Para uma compreensão da matemática envolvida, sugiro o livro do Ohanian "Gravitation and Spacetime" de leitura acessível a quem tenha estudado apenas cálculo infinitesimal, pois a geometria diferencial de Riemann é dada no próprio livro. Para um estudo mais aprofundado o melhor é o livro "Gravitation" de Misner-Thorne-Wheeler. Não adianta pretender escapar da matemática, pois não é possível ter um conhecimento, entendimento e compreensão da Relatividade Geral sem matemática (por isto é que eu acho que o cálculo diferencial e integral já devia ser dado no Ensino Médio, já que não é bicho de sete cabeças (apenas seis)).
Poucos anos depois de sua publicação, outros cientistas passaram a buscar soluções das Equações de Einstein (um sistema de equações diferenciais de segunda ordem não lineares, mas lineares na primeira derivada, entre o tensor de curvatura e o tensor momentum-energia do conteúdo), para situações de uma massa puntiforme (uma estrela), o que levou à descoberta teórica dos "Buracos Negros" e para o Universo como um todo. Estas últimas foram achadas pelo abade Lemaître e, num caso especial, por Friedmann. O interessante é que elas mostravam que o Universo não poderia ser estacionário, mas que, necessariamente, estaria se expandindo ou contraindo. Não crendo em tal possibilidade (um preconceito), Einstein introduziu "ad hoc" a "Constante Cosmológica" para que a solução pudesse ser estacionária. Pouco depois, Hubble, em Monte Wilson, descobriu o "red shift" das galáxias distantes, cuja interpretação só podia ser de que o Universo estava "inchando", já que as outras possibilidades eram altamente implausíveis (o movimento real, o desvio gravitacional e a absorção intergaláctica). Este inchamento não é um afastamento por movimento relativo de uma galáxia em relação a outra, mas um crescimento global do próprio espaço, isto é, as galáxias se afastam não porque se movem, mas porque o espaço entre elas cresce. Isto mostra que o espaço não é uma entidade apriorística dentro da qual se distribui o conteúdo do Universo, mas sim algo determinado pelo próprio conteúdo. Ou seja, não há espaço sem conteúdo. O espaço é uma entidade dinâmica do Universo. Do mesmo modo o tempo só existe porque o estado do Universo não permanece invariável. São as mudanças no estado do Universo como um todo que criam o tempo, que também não é apriorístico. Se o estado não mudar, como pode ocorrer com a "morte térmica" do Universo, o tempo não passa. Einstein arrependeu-se de seu vacilo em introduzir a "constante cosmológica", que, todavia, está sendo ressuscitada como uma das possíveis explicações para a dita "energia escura".
Se o Universo está em expansão, retrocedendo no tempo, sua densidade iria aumentando, pois o mesmo conteúdo ocuparia volumes cada vez menores para o passado, até que, num certo momento, a densidade seria matematicamente infinita. Na verdade, antes disto, os pressupostos das soluções de Friedmann (continuidade, homogeneidade e isotropia) não mais seriam obedecidos e a singularidade matemática, de fato, não existiria, pois, então, fenômenos quânticos prevaleceriam sobre a gravitação. O que a teoria do "Big Bang" diz é que um conteúdo primevo extremamente denso, em dado momento, começou a expandir-se, rarefazendo-se e esfriando. Note que não se trata de uma "explosão" de um conteúdo para um espaço vazio circundante, mas um súbito inchamento do próprio espaço. Inclusive, se o Universo for infinito, ele sempre assim o foi, mesmo no Big Bang. Mas infinito é algo sobre o que discorrerei depois. A questão é: e "antes" do Big Bang? Duas possibilidades emergem. Ou o conteúdo (um campo indiferenciado) surgiu naquele momento, em que também surgiram o espaço e o tempo e, portanto, não haveria "antes" nenhum; ou este conteúdo foi o resultado final de um processo de contração de um Universo anterior. Neste caso, o tempo atual também teria surgido ali e o tempo do Universo anterior teria sido encerrado. Para o futuro pode ser que a expansão atinja um máximo e, então, passe a haver uma contração, até se chegar às condições iniciais, iniciando-se outro ciclo de expansão. Ou a expansão será indefinida. A escolha entre estas hipóteses se prende à determinação de parâmetros observacionais, como a densidade global do Universo e a taxa de aceleração da expansão. Os valores atualmente disponíveis parecem indicar que a expansão será indefinida.
A questão não deve ser colocada em termos de se acreditar que o Universo seja finito ou infinito, no tempo e no espaço e se teria havido um surgimento, antes do que não haveria "nada". Isto não é uma questão de crença e sim de verificação fática por meio de observações que permitam inferir o que, de fato, é verdade, ou, pelo menos, indícios seguros nesse sentido. Os dados observacionais concernentes à expansão cósmica e à radiação de fundo de microondas mostram, de forma insofismável, independentemente da teoria cosmológica que se adote, que o Universo não existe indefinidamente para o passado do modo como se apresenta hoje. Este Universo possuiu um momento inicial e isto não é conjectura e sim fato. Se ele será eterno para o futuro ou terminará, ainda é uma questão não respondida de forma cabal, por insuficiência de dados precisos sobre os parâmetros controladores da expansão (densidade de massa-energia e aceleração da expansão). Ao que parece, ele expandir-se-á indefinidamente, mas poderá atingir um estado de energia mínima e entropia máxima, em que a expansão não possuirá aceleração e o estado do Universo permanecerá imutável. Isto seria atingido assintoticamente e, então, cessaria a passagem do tempo, a temperatura tendo chegado (assintoticamente, repito) ao zero absoluto. Esta é sua morte térmica.
O surgimento do conteúdo primordial que passou a expandir com o Big Bang é objeto de especulação em várias teorias, como a das branas e a dos multiversos, que, contudo, ainda estão num estágio hipotético de validade. Não há, contudo, impedimento algum, de ordem física ou metafísica, para que este conteúdo tenha surgido sem que fosse proveniente de nada que lhe antecedesse (aliás, é assim que os teístas criacionistas consideram que ocorreu, pois Deus, um ser transcendental, isto é, extrínseco ao Universo, teria criado tudo sem que proviesse de nada precedente. Já os panteístas consideram que o Universo provém do próprio Deus, numa relação dita de "imanência").
É preciso entender que o surgimento de qualquer coisa sem ter algo precedente de que provenha, não é a mesma coisa que "surgir do nada", pois então estaria se dizendo que existe algo que é o "nada", do qual teria surgido algum conteúdo. Não existe "nada" como entidade e, logo, não é possível que algo provenha do nada. Mas pode não provir de coisa alguma. É preciso ter bem claro na mente a diferença entre "não provir de coisa alguma", que é possível, e "provir do nada", que é impossível. Isto porque qualquer lei de conservação (massa, energia, carga, momento linear, momento angular etc.) refere-se a valores globais de grandezas que medem os atributos conservados em momentos diferentes. Como antes do surgimento do Universo não havia momentos, não se pode aplicar nenhuma lei de conservação para a situação do surgimento do Universo. Aliás, as próprias leis físicas só passaram a existir quando o Universo surgiu, pois elas são descrições do comportamento de seu conteúdo.
Outra questão controversa é a de que o surgimento do Universo não possui "causa". De fato, causa é um atributo de certos eventos, mas não uma necessidade para todo evento. Isto é, nem todo evento é um efeito. Existem eventos incausados e eles são a maioria. No mundo subatômico isto é a regra, exemplificada pelo decaimento radioativo e pela emissão de fótons por átomos excitados (a excitação é condição e não causa). No mundo macroscópico, o caráter probabilístico e indeterminado da natureza é mascarado pela "lei dos grandes números" da probabilidade, fazendo parecer que todo evento tenha causa, isto é, seja determinado por algum que o preceda. Como o surgimento do Universo foi uma ocorrência essencialmente quântica, não precisa ter causa, como de fato não teve. Causalidade é uma inferência induzida da observação cotidiana de eventos na escala de tempos e dimensões acessíveis ao ser humano. Só que todo raciocínio induzido não é garantido e contra-exemplos existem aos milhões.
Outro problema é se o espaço do Universo se estende infinitamente ou não. Precisamos diferenciar infinito de ilimitado. Algo pode ser infinito e limitado bem como finito e ilimitado. Um segmento de reta é limitado, mas possui infinitos pontos. A superfície de uma esfera é finita em tamanho, mas não possui limites. E o Universo? Na dimensão tempo, já vimos que ele tem um limite inferior ou início do tempo (esqueci de contestar o argumento Kalam, mas o farei mais adiante). E no espaço? Tanto pode ser que o Universo seja infinito quanto finito, mas, de qualquer modo, é ilimitado. Note-se que, se o Universo for finito, não existe espaço vazio fora dele. Tudo o que existe está no Universo, inclusive o espaço e o tempo. Não existe "fora do Universo". Ser finito significa que se você for andando sempre para frente acabará chegando aonde saiu, vindo por trás (depois de muitos bilhões de anos, se for à velocidade da luz). Ser infinito significa que se você andar sempre para frente, nunca retornará.
Antes de considerar o caso, há que se fazer uma digressão sobre os conceitos de Universo. O de que estamos falando é o conceito global, isto é, o conjunto de tudo o que existe. Há um conceito mais restrito que é o de "Universo Observável". Como o espaço do Universo está se expandindo (e isto pode ultrapassar a velocidade da luz, pois não é movimento de conteúdo nenhum), existem locais que estão a uma distância que a luz não foi capaz de vencer e nos atingir até hoje, desde o surgimento do Universo, há 13,7 bilhões de anos. Estes locais são impossíveis de observar. Devido à expansão, o limite observável está a 46,5 bilhões de anos-luz. A teoria da inflação cósmica prevê que o Universo total seja, pelo menos, 100 sextilhões de vezes maior que o observável, ou, mesmo, infinito. Outra concepção é a de Multiversos, dos quais o nosso seria um dentre muitos, até infinitos. Tal hipótese carece de comprovação, aliás, por definição, impossível de se ter, daí ser infalseável. Considero que o Universo seja único.
Bom senso é algo que não tem sentido nenhum em ciência. O que vale é o que se verifica. Teorias são modelos descritivos que procuram explicar a realidade por meio de uma linguagem lógica, geralmente matemática. Mas as teorias só o são porque, confrontadas com a realidade, aderem a ela. Caso contrário são hipóteses. O bom senso diz que todo evento é efeito de uma causa. A realidade mostra que não. Aí estão a desintegração radioativa e a emissão de luz para atestar. Outra falha do bom senso é dizer que tudo tem que provir de algo, mesmo sem causa. Assim o é no Universo atual, pois seu conteúdo observa leis de conservação (que não são prescrições e sim descrições). Mas não precisa ser no próprio surgimento do Universo, pois, neste evento, a passagem da inexistência para a existência, não havia conteúdo para seguir lei nenhuma. Nada indica que o Universo tenha que ser eterno para o passado. É uma questão de verificação. Bom senso é preconceito humano, firmado em nosso limitado acesso sensorial à realidade. "Sempre" é outro conceito que se precisa abolir. Porque o Universo englobaria tudo que "sempre" existiu, sem começo nem fim? É claro que pode ter tido um começo e pode ter um fim! Antes e depois desses limites não existiria nada, nem mesmo o "antes" e o "depois". Há que se verificar. Isto tudo que digo não é minha opinião, mas sim o resultado do trabalho de milhares de cosmologistas ao longo das últimas décadas. Há, inclusive, muitas propostas na mesa, em fase de elaboração e submissão a testes, como a teoria das cordas, das branas e a do laço gravitacional. Não há nada errado no que estou dizendo. É só consultar a literatura pertinente ou, até mesmo, a Wikipédia (em inglês, pois em português é muito restrita). Se nos ativermos ao conhecimento em nível colegial, poderemos equivocar-nos, pois muitas simplificações são feitas.
Como o Universo é o conjunto de tudo o que existe, sua energia interna é constante, pois não há nada fora dele que lhe possa fornecer calor ou realizar trabalho sobre ele. Mas a energia interna é o total de todas as energias cinéticas e potenciais. Como a carga elétrica total é nula e está muito bem distribuída, a expansão do Universo não provoca variação na energia potencial elétrica, mas sim na gravitacional, que aumenta com o afastamento relativo. Daí uma diminuição na energia cinética, cuja densidade por partícula é, justamente, a temperatura. Ou seja, a expansão do Universo provoca seu esfriamento. No caso da radiação, a diminuição de sua energia significa diminuição de sua frequência, que atualmente está na faixa de microondas, de 1,9mm de comprimento de onda, equivalente a uma emissão de cavidade (corpo negro) a uma temperatura de 2,7 kelvins.
Os conhecimentos cosmológicos atualmente disponíveis parecem indicar que o Universo seja espacialmente infinito e temporalmente semi-infinito, isto é, teve um início, mas poderá não ter fim. Antes que existisse, não havia coisa alguma, nem espaço vazio, nem tempo, nem conteúdo, situação denominada "nada". Mas não existia algo que fosse o "nada", como não existe coisa alguma fora do Universo, se ele for finito. Não existe nada, nem o "nada". Outra coisa que não existe é espaço vazio. Todo espaço é preenchido por campo, radiação ou matéria. Quando não tem matéria, chama-se vácuo. O que seja a matéria já seria objeto de debate em outro artigo. Em meu blog www.ruckert.pro.br/blog , digitando-se a palavra "matéria" na caixa de busca, poder-se-á encontrar todas as postagens em que isto foi abordado.
Não vejo necessidade de inventar outro nome para o Universo. Parece que sua definição como o conjunto de tudo o que existe, concretamente falando, contempla exatamente o que estamos discutindo. No sentido filosófico do termo, concreto não significa sólido e nem material, mas não abstrato, isto é, que não seja apenas o produto de concepções mentais, mas exista objetivamente fora das mentes como algo tangível, ou seja, passível de apreensão, mesmo que por instrumentos, se nossos sentidos não forem capazes. Isto exclui espíritos, idéias, valores, símbolos e tudo que não seja natural, que, por outro lado, são incluídos no conceito de "mundo". O Universo é, pois, a totalidade da realidade natural. E esta totalidade pode ser finita ou infinita, tanto no tempo quanto no espaço. No entanto, os dados observacionais parecem indicar que seja infinita no espaço e semi-infinita no tempo.
O “argumento Kalam” (Kalam são as escolas teológicas muçulmanas) diz que o Universo não pode ser eterno para o passado, pois se tivesse surgido em um momento infinitamente afastado para o passado, não teria havido tempo para se chegar ao presente, e o presente existe. Este argumento é falacioso, pois ser eterno para o passado não significa ter começado em um momento infinitamente longínquo, mas sim, não ter começado em momento algum. Então todos os momentos são possíveis, inclusive o presente. Os fatos mostram que o Universo teve um começo, mas não pelo argumento Kalam, que é usado para justificar uma das premissas da “prova cosmológica” da existência de Deus, conhecida como a do “motor primo”, que não é válida porque suas duas premissas não são verdadeiras, ou seja, nada impede (lógica e ontologicamente) que o tempo tenha que ter tido um começo e nem há necessidade que todo evento seja efeito de uma causa.
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domingo, 14 de fevereiro de 2010
O prestígio do Magistério
Na página 87 da edição 2151, de 10 de fevereiro de 2010 (http://veja.abril.com.br/100210/prestigio-zero-p-087.shtml), a revista VEJA aborda a questão do desprestígio que a profissão do magistério goza entre os alunos do Ensino Médio que se preparam para um vestibular. Apenas 2% querem ser professores e, mesmo assim, pertencentes ao grupo dos 30% com as piores notas no ENEM. Os melhores alunos aspiram seguir carreira em Medicina, Direito ou Engenharia. Só faz licenciatura e pedagogia quem não tem "cacha" para enfrentar vestibulares mais concorridos. Assim o magistério fica com a borra do fundo da panela, os professores e professoras quase no mesmo nível cultural de trabalhadores sem qualificação.
No tempo em que eu estudava no antigo "Científico" (terminei em 1967), os melhores alunos eram incentivados e desejavam mesmo ser professores, como eu. Não pelo salário, mas pelo serviço que seriam capazes de prestar à humanidade. O que mudou?
Neste interim o ensino democratizou-se exigindo um contingente muitíssimo maior de professores, levando o estado, nos seus três níveis, a reduzir drasticamente o salário do professor público, que hoje, em poder aquisitivo, no início de carreira, é apenas, no meu juízo, uns 20% do que era então. No fim da carreira um professor catedrático do Ensino Médio em escola estadual, poderia receber o equivalente atual de uns dez mil reais. Além disto, eram pessoas de alto prestígio social, como médicos, advogados ou empresários, membros do Rotary Club e similares, possuidores dos poucos automóveis particulares, ainda importados e donos das boas casas da cidade. Isto não faz de ninguém um rico, mas, sem dúvida é atraente para os mais bem dotados academicamente.
Não há dúvida de que o fator primordial para o progresso de uma nação é a educação ampla e de qualidade. Isto precede saúde, habitação, transporte, agricultura, indústria, comércio, emprego e tudo o mais, pois, pela educação, tudo isto será obtido. E uma boa educação se propicia, antes de mais nada, com bons professores. Isto também precede as instalações escolares, os livros didáticos, a merenda escolar, os equipamentos educacionais (carteiras, computadores, laboratórios etc.). É preciso, pois, que a carreira do magistério volte a ser, não apenas dignamente remunerada, mas atrativamente remunerada, o que, no meu entendimento, significa um salário inicial de cinco mil reais, com dedicação exclusiva e 16 horas de sala de aula, restando 24 para preparação, correção de avaliações e reciclagem, que, no magistério, tem que ser contínua (isto é, diária). Assim ocorrendo, em uma geração, teremos substituídos os atuais professores e professoras incompetentes, por um grupo de gabarito, capaz de ser aprovado em concursos exigentes. É claro que, paralelamente, há que se erradicar inteiramente toda e qualquer manobra politiqueira de contratação sem concurso de apaniguados. Isto é possível?
Claro, desde que se tenha a vontade política para tal. E isto acontecerá se os eleitores, ao invés de votarem nos candidatos que prometem a solução de seus problemas pessoais, votem naqueles que tenham compromisso já demonstrado com a educação e com a erradicação da corrupção, a custo até de prejuízo pessoal. Isto não depende de qual partido seja o candidato, pois um politico honesto não vota no que o partido manda, mas no que sua consciência indica, mesmo que contrarie a determinação partidária, se esta for nociva ao interesse público. E um político comprometido com o bem público apresenta projetos construtuivos e luta por sua aprovação, trabalhando duramente para que tudo seja feito no interesse do povo.
As eleições estão aí. Precisamos pensar nisto: Educação é a solução!
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Sobre o amor e liberdade...
Quem ama liberta?
Libertar, no caso em tela, significa permitir que a(o) amada(o) também ame outro(a). Ou que deixe de amá-lo(a). Esta é a questão da liberdade no amor. Exigir reciprocidade, fidelidade, exclusividade e mesmo lealdade, não é dar liberdade. Certamente que se deseja e espera da pessoa amada que lhe seja leal e sincera, mas não se pode exigir. No máximo, caso estas condições não sejam atendidas, que se interrompa o relacionamento (mesmo que não se deixe de amar). E importante frizar, contudo, que o que se chama de “traição”, não é o fato de se ter outro relacionamento amoroso, mas que isto seja feito às escondidas, numa situação em que o traído espera que tal não ocorra. Se houver um consenso de permissão recíproca de outros relacionamentos e isto for cientificado, quando de fato se der, não há traição. E isto é perfeitamente admissível e não significa ausência de amor nem de lealdade. Amor absolutamente não envolve posse. Pretender ser proprietário do ser amado é egoísmo e não amor. O amor genuíno e verdadeiro deixa o ser amado livre para nos amar ou não e para amar a outras pessoas além de nós. Não só amores filiais, paternais ou amizades, mas amor carnal mesmo. É preciso entender que não há, na espécie humana, nenhum impedimento biológico para o amor plural, como acontece em alguns outros animais. A monogamia amorosa é só uma questão cultural e, inclusive, maléfica e fonte de muita infelicidade. Sua origem está mais ligadas a fatores econômicos de herança do que biológicos.
Assim, quem ama verdadeiramente, deixa o amor livre, de forma altruística. Quem prende o ser amado não ama, mas revela seu egoísmo.
Ciúme é um sentimento totalmente malevolo e prejudicial à felicidade da própria pessoa e de quem ela ama.
Algumas pessoas pretendem que quem as ame tenha ciúme e seja possessivo, como uma prova de que ama de fato. Isto é um enganação. Os crimes passionais não têm justificativa nenhuma. Só revelam um psiquismo doentio, além de um extremo egoísmo.
Meu entendimento e meu sentimento é de que o sentimento de posse exclusiva em relaçâo à pessoa amada é um condicionamento puramente cultural e não biológico, na espécie humana. Numa sociedade em que se considere o partilhamento comunitário de todos os bens e do resultado de todo trabalho, o compartilhamento dos cônjuges e dos filhos também se torna natural. Quanto ao medo de que a esposa nos deixe por gostar mais de outra pessoa, isto é um risco que se tem que correr. O remédio é fazer por onde ela nos considere, realmente, melhor do que outros, nos vários aspectos. Pretender que nosso ser amado nos ame por coação legal ou outro tipo de constrangimento à plena liberdade de escolha não definitiva dos parceiros, consecutivos ou simultâneos é uma tirania. Outro aspecto que precisa ser definitivamente abolido do relacionamento conjugal é o econômico. Em nenhuma hipótese se deve considerar que a união dos amantes se dê por conveniência econômica. Isto é, relação conjugal não é meio de vida nem para maridos nem para mulheres. Cada ser adulto e capaz, enquanto não vém a sociedade ácrata, deve prover o seu próprio sustento e compartilhar os deveres de paternidade com aquele ou aquela com o qual o filho ou filha tenha sido feito, enquanto não se sustentem por si mesmos (o que deve ocorrer o mais cedo possível, sem apelo para heranças).
Para mim o ciúme é algo inteiramente descabido.
As pulsões primitivas e o amor
Nada é mais importante do que o amor. Trata-se de algo engendrado pela natureza ao longo da evolução para garantir a sobrevivência da espécie. Enquanto o egoísmo pode ser eficaz para a sobrevivência do indivíduo, é o amor que garante a perenidade da espécie. O sexo foi uma estratégia da natureza para garantir a variabilidade genética e possibilitar múltiplas escolhas na seleção natural. Seria possível, por partenogênese, a existência de espécies apenas com o sexo feminino, que é o essencial, sendo o masculino meramente acessório. O surgimento do sexo, desde os mais primitivos seres vivos, contudo, revelou-se a opção mais eficaz. Eros é, pois, a pulsão mais poderosa, pela qual os indivíduos até mesmo dão a vida.
A sobrevivência da espécie também exige o cuidado com a prole e a proteção da fêmea, atitudes que se sublimaram na componente platônica do amor. Assim o amor evoluiu para um comportamento não só sexual mas também de carinho. A necessidade de proteger o grupo privilegiou aqueles que possuíssem fortes laços de cooperação interpessoal, que é sublimada na amizade.
Duas forças coexistem nas espécies animais: a de competição, egoísta e belicosa, que deseja o poder sobre o outro a ser subjugado e a de cooperação, que se expressa no amor, na compaixão, no altruísmo. A primeira tem suas raízes profundas na necessidade de aplacar a fome fisiológica de alimento e a segunda no impulso de preservação da espécie. Sendo o homem uma espécie altamente evoluída, que atingiu um estágio de consciência psíquica plena e desenvolveu a cultura, essas forças primitivas da natureza foram canalizadas para as expressões refinadas da arte, do engenho e da ciência. São elas que movem o poeta, o guerreiro, o cientista, o sacerdote, o empresário, enfim, todo homem e toda mulher a fazer o que quer que seja na vida.
Em seu livro “O Gene Egoísta”, Richard Dawkins diz que nossos organismos nada mais são do que instrumentos criados pelas moléculas replicantes para perpetuarem-se. Assim os dois instintos primários, da existência e da procriação, forjaram-se na natureza para atender a este imperativo básico do gene: replicar-se. Esta pulsão pode estar contida na própria estrutura subatômica da matéria, de um ponto de vista reducionista. Deste modo, talvez a própria estrutura íntima do Universo seja naturalmente estabelecida para culminar na vida, lembrando as idéias de Teillard de Chardin. Isto não significa que haja um projeto inteligente. Trata-se apenas de como as coisas são por si mesmas, sem razão nem propósito. Mas… não sei. Há que se investigar e discutir.
O amor e a felicidade
Pelo que se pode concluir, o sexo é, pois, um componente essencial da vida e um dos mais relevantes fatores de felicidade. Uma vez preenchidas as condições mínimas de sobrevivência: ar, água, alimento, abrigo (incluindo vestuário) e segurança, a pessoa busca sua felicidade. Dentre os muitos fatores que levam à felicidade, não resta dúvida que o mais relevante é a sensação de ser amado. Mas, para quem já seja sexualmente maduro, não é apenas o amor maternal, paternal e fraternal que contam. Há uma carência do amor erótico. Este é o objetivo buscado. Como nisto há uma reciprocidade, há que se amar para ser amado. Tal fato é tão válido que, mesmo sem correspondência, o ato de amar é fonte de felicidade, mesclada com uma doce tristeza.
Quando o amor é correspondido e se realiza eroticamente, atinge-se um êxtase talvez só comparável aos arroubos místicos. Por maior que seja a pulsão fisiológica para o sexo, da qual, por sublimação surgiu o amor, sua realização dissociada do amor não proporciona nem uma mísera fração da beatitude que o sexo com amor é capaz de conceder. Porque, aí, o sexo não é só fruição, mas, principalmente, doação. Excluído o egoísmo do sexo, incrivelmente, ele propicia um prazer maior ainda. É procurando dar o máximo prazer que se desfruta dele em plenitude. E, para isto, há que se buscar conhecer o parceiro completamente, em corpo e em espírito. Tudo está envolvido. Pudores têm que ser esquecidos. Uma pitada de molecagem sempre é bem-vinda. Mas, no meu entendimento, sem afligir dor e nem constrangimento algum. Só o prazer dos murmúrios, dos perfumes e dos odores, dos toques suaves e dos vigorosos, de todos os recursos disponíveis, sem reservas e sem remorsos. Sem pressa. Esquecido do mundo. Isto é o amor e os orientais são sábios em cultuá-lo, de modo até sagrado. Como diz Chico Buarque na “Valsinha”, como não seria melhor o mundo se o amor fosse o prato do dia de todos.
Amor é um sentir, um pensar, um desejar, um querer e um agir, isto é, uma emoção, um sentimento, um apetite, uma volição e uma ação. Esse complexo de fatos psíquicos caracteriza o amor em todos os planos, piedade, compaixão, solidariedade, afeição, amizade, amor platônico, erotismo. Amor filial, maternal, paternal, fraternal, conjugal, idealista. A intensidade e a seqüência em que eles aparecem podem variar. O amor sempre emociona, enternece, enleva e envolve um desejo de zelo, cuidado e proteção da coisa amada, bem como um anseio de reciprocidade. Mas o amor só se realiza quando é expresso em vontade e esta vontade em ação. Não basta sentir e desejar para amar, é preciso querer, demostrar e provar. O amor envolve dedicação e renúncia, paciência e perseverança, trabalho e recompensa, alegria e tristeza, euforia e depressão. É algo envolvente e inebriante. O amor não é possessivo, ciumento, exclusivista, castrador, sufocante. Pelo contrário, o amor é libertário e altruísta. Não me refiro apenas ao amor erótico, mas a todas as modalidades, inclusive as formas idealistas de amor à verdade, justiça, sabedoria, humanidade e natureza. O amor não pode ser cerceado em sua intensidade e abrangência. Ele não possui limites. Quanto mais intensamente se ama e a mais coisas e pessoas, mais capacidade se tem de amar. E quanto mais se ama, mais se realiza e maior é a felicidade, mesmo que nem sempre ele seja correspondido.
As variantes do amor
Falando-se, então, de amor, e não só de sexo, não há porque impor-se restrições de gênero, número e grau. Entendendo-se o sexo como expressão corporal do amor, a imposição de impedimentos, ou mesmo apenas de inibições a sua plena expressão, certamente é causa de perturbações psicológicas. Note-se que, absolutamente, não estou falando de libertinagem e de nenhum comportamento escandaloso, devasso ou ofensivo. Estou apenas dizendo que a livre expressão pública de afeto entre pessoas do mesmo sexo tem que ser considerada inteiramente normal, se essas pessoas pertencem àquela porção de humanidade que sentem atração natural por feromônios do mesmo sexo. Não se trata de falta de vergonha, se é que possuir vergonha seja, de fato, uma virtude.
Pessoalmente, sinto até certo asco em me imaginar acariciando, quanto mais relacionando-me com outro homem. Mas isto é uma característica de cada um. Amar o sexo oposto, o próprio ou ambos, para mim, é perfeitamente normal e tem que ser aceito pela sociedade com a maior tranqüilidade, mesmo no seio da família. Só acho esquisito certos trejeitos exagerados que alguns gays exibem, que nem mesmo as mulheres fazem. Sou amigo de gays e lésbicas, tão firme na amizade como na de heteros. Nenhum de meus amigos gays jamais insinuou-se para mim de forma sensual.
Do mesmo modo, posso ser amigo de alguma prostituta sem considerar que deva fazer uso dos serviços dela, não me importando com o que alguém possa dizer a respeito. E admito como natural a possibilidade da poligamia e da poliandria. Apesar disto, sou um marido estritamente fiel e monogâmico, mas acho que poderia ter várias mulheres e minha mulher vários maridos. Quanto à Bíblia, não me importo com o que ela diga a respeito. Contudo, a pregação que se atribui a Jesus é a do amor. Então, como condenar quem ama, seja a quem for? Quanto mais as pessoas amarem-se umas às outras, melhor. Não se pode exigir exclusividade e nem fazer restrições ao amor, dizendo a quem se pode ou não amar. Se Jesus mandou amar até os inimigos, não posso entender que se possa recriminar ninguém por amar alguém. E veja-se que não sou cristão.
Poliamor
Muitas pessoas seriam bem mais felizes se pudessem ter mais de um companheiro ou companheira. Afinal, pode acontecer de amarmos sincera e profundamente a mais de uma pessoa. Ou não?. É um assunto polêmico, contra todas as convenções sociais, mas acredito que acontece o tempo todo. Como vivemos numa sociedade monogâmica, os sentimentos são abafados, escondidos, frustrados, calados, amordaçados e podem trazer uma sensação de culpa muito grande, que gera muito sofrimento. Numa sociedade perfeita, as pessoas seriam livres de egoísmo, ciúme, inveja e sentimento de posse. Vi um documentário sobre os mórmons de Utah, que mostrou homens casados com mais de uma mulher, vivendo felizes numa família imensa. Não vi nada de errado, já que todos mostravam alegria e união. Infelizmente o contrário não é permitido entre eles, isto é, uma mulher não pode ter mais de um marido. Nas colônias anarquistas de Santa Catarina, no princípio de Século XX, isto era possível e há um romance do Miguel Sanches Neto, “Um Amor Anarquista”, sobre a Colônia Cecília, que conta um caso assim.
Segundo a natureza humana, será que essa sociedade pluriamorosa seria possível? Será que faz parte do homem, segundo sua biologia, ter ciúmes sexuais de sua parceira, já que foi “programado” para espalhar seus genes com a máxima eficiência e, da mulher, ter ciúmes sentimentais, pois um homem apaixonado tenderia abandonar sua prole para constituir outro núcleo familiar? Será que um dia seria possível uma sociedade em que não se fosse taxado de promíscuo, ou coisa assim, quando se amasse mais de uma pessoa? E será que é mesmo possível amar plenamente mais de uma pessoa? Seria possível apaixonar-se perdidamente por uma pessoa, amando outra? O que fazer neste caso?
A noção de univocidade e exclusividade do amor não é verdadeira. Muitas pessoas ja vivenciaram isto, ou seja, estarem apaixonadas simultaneamente por mais de uma pessoa. A literatura e as artes, inclusive, são pródigas na exploração deste tema. Muitos conflitos existenciais ocorrem por este motivo, uma vez que a sociedade não admite a realização desta possibilidade, o que leva, até, ao suicídio. O conflito é muito grande porque a própria pessoa não admite em si esta dicotomia. E aquela que for o objeto do amor da outra, não está culturalmente disposta a compartilhá-lo com mais ninguém.
Posso afirmar, sem a menor sombra de dúvida, que é perfeitamente possível a pluralidade do amor, entendido de modo completo e no sentido do amor erótico. Isto é: a poligamia e a poliandria são perfeitamente cabíveis e poderiam certamente ser aceitas pela sociedade como coisa inteiramente normal e legalizada, com todas as implicações jurídicas e econômicas envolvidas. Não se trata de imoralidade nenhuma, pelo contrário, seria uma medida salutar para permitir a maximização da felicidade do maior número de pessoas. Certamente de uma forma consentida por todos os envolvidos e com compromisso de fidelidade recíproca, mas não exclusiva. Assim, não só o marido poderia ter mais de uma mulher mas a mulher mais de um marido, formando uma teia na sociedade. É uma nova forma de organização social, diferente da família monogâmica, mas perfeitamente aceitável. Isso tudo faz parte de minha idéia mais ampla de uma sociedade ácrata ou anarquista, sem fronteiras, sem governo, sem dinheiro e sem propriedade, inclusive do cônjuge.
Evidentemente, esta estrutura familiar estendida só poderia ocorrer em uma situação em que o matrimônio não tivesse a componente econômica e todo adulto provesse a si mesmo, sem depender de relacionamentos amorosos para seu sustento. O custeio dos filhos seria, então, rateado pela mãe e pelos pais. Numa sociedade comunitarista, a inexistência de habitações individuais não geraria o problema de decidir quem moraria na casa de quem.
Ciúme é egoísmo
Estou com aqueles que consideram o ciúme uma manifestação de puro e simples egoísmo. Sentir ciúme é pretender que o ser amado seja propriedade sua. Isso não é amor. Sou ateu, mas nunca vi melhor descrição do que é o amor do que o que disse o apóstolo Paulo no capítulo 13 de sua primeira carta aos coríntios:
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, seria como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.
Mesmo que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse amor, não seria nada.
Ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, se não tivesse amor, de nada valeria.
O amor é paciente, o amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante.
Nem escandaloso. Não busca seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor.
Não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.”
O amor é completamente gratuito. Não exige nada em troca, nem reciprocidade nem exclusividade. E se compraz com a felicidade do amado em qualquer circunstância. Ciúme é egoísmo, não amor. Não há posse no amor. E a felicidade é maior pelo amor que se dá e não pelo que se recebe. Mas é ótimo ser amado, sem dúvida. O que não se pode é exigir amor de ninguém e nem que o amado não possa também amar a outrem. Aquele que ama, inclusive, dispõe-se a compartilhar o ser amado. É preciso reverter inteiramente esta noção de propriedade no amor. Isso é sinal de imaturidade. Ama-se e confia-se no amado. O ciumento preocupa-se mais é com a perda de sua imagem, caso venha a ser traído. Mas não há traição se o compartilhamento é consentido. Nada disso haveria se a sociedade admitisse, tranquilamente, a pluralidade simultânea do amor.
sábado, 16 de janeiro de 2010
Localização da Consciência

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Este é um assunto sobre o qual já lí, estudei e refletí longamente, tendo, inclusive, já postado muito, tanto em comunidades do orkut, especialmente a minha, Wolf Edler, quanto em meus dois blogs e meu ning, cujos links estão em meu perfil. É só procurar pelas palavras chave "consciência", "mente", "cérebro" nas caixas de busca.
Preliminarmente quero dizer que as analogias são muito perigosas. Elas podem ilustrar algum aspecto particular de uma teoria, mas não se pode estender ao resto da teoria o que se verifica na analogia. Prefiro não usá-las e tratar diretamente com os conceitos envolvidos e suas relações.
Outra questão que precisa ficar clara é que não existem mistérios de espécie alguma. O que existem são fatos ainda não explicados. A história da ciência e da filosofia nos dão uma confiança muito boa de que qualquer tema, não importa o quão aparentemente misterioso seja, será um dia compreendido e explicado. Há que se dar tempo ao tempo, uma vez que nossa espécie é muito jovem neste planeta, a civilização mais ainda e a ciência, um bebê.
A terceira coisa que quero ressaltar é que o caráter de simplicidade de uma explicação é realmente desejado e preferível, desde que se tenham várias outras que expliquem a mesma coisa de forma mais complicada. Se não houver explicação mais simples, a complicada tem que ser aceita, caso dê conta de explicar.
Isto posto passarei a comentar o tema, que é a consciência e sua localização. Para tal há que se conceituar claramente os termos envolvidos e delinear onde se pretende chegar.
Cérebro
Cérebro é um órgão do sistema nervoso dos animais mais evoluídos No caso dos vertebrados está abrigado na caixa crâneana, junto aos outros órgãos que constituem o "encéfalo". O tecido cerebral, como o do resto do sistema nervoso, é constituído de neurônios e células gliais, além das membranas delimitadoras. Os neurônios possuem dendritos e axônios, pelos quais transitam as mensagens nervosas, por meio de uma inversão de polaridade elétrica de suas membranas, ocasionada por transporte iônico de sódio, potássio e cálcio. Nas sinapses entre dendritos de um neurônio e o axônio de outro, também há transmissão de mensagem nervosa, por meio de portadores químicos que são os neurotransmissores, disponíveis nas células gliais, que, além de fornecê-los, também suporta a estrutura reticular dos neurônios. No ser humano existem cerca de 86 bilhões de neurônios, interligados por cerca centenas de trilhões de sinapses. Tal estrutura ocorre no cérebro, cerebelo, bulbo, medula e nervos. É sobre esta estrutura que está se cogitando que a consciência resida ou não. É importante notar que tal estrutura está completamente conectada com o restante do organismo, isto é, os músculos, os órgãos sensoriais, as vísceras, as glândulas endócrinas, os vasos sanguíneos e o resto, de tal forma que não se pode falar de ocorrências exclusivas do sistema nervoso, sem a participação do resto do organismo.
Mente
Conceitua-se mente como uma "ocorrência", isto é, um acontecimento, um fenômeno que se dá com o animal vivo, que possibilita a coordenação do funcionamento do seu organismo, a percepção do mundo exterior e interior à própria mente, a memória, o pensamento, o raciocínio, a consciência (psíquica e moral), a autoconsciência (o "eu"), as emoções, os sentimentos, os desejos, as volições, as decisões e os demais fatos de ordem não estritamente corpórea, como são os movimentos, as sensações ou o funcionamento visceral. Note-se que a mente não é uma "coisa", isto é, não tem localização, extensão, volume, massa, energia, composição substancial, temperatura, cor, sabor, textura, rigidez ou qualquer propriedade física, química ou biológica. Conceituando-se entidade como tudo o que seja capaz de existir objetivamente, mesmo que não concretamente, isto é, que não seja apenas uma concepção irrealizável, dizemos que a mente é uma "entidade", não material. De que natureza seria, pois? Note-se que não é uma abstração, como um número, uma figura geométrica, um valor ou uma norma, que só existem como idéias. A mente tem existência real no mundo, e, como concebo, no mundo natural, isto é, não é uma entidade cultural (social ou econômica, por exemplo).
Em que consiste o mundo natural? À primeira vista de espaço, tempo, matéria, radiação e campos (note-se que não falei "energia", pois esta não é um tipo de entidade e sim um atributo de entidades). Mas não é só isto. Mais do que isto, o mundo natural é feito de "estruturas" e "ocorrências". Estas são as categorias mais elevadas de entidades naturais. O monte de átomos que compõe o meu corpo só é o meu corpo porque se dispõe de acordo com certa estrutura. E a minha vida é uma ocorrência que se dá com esta estrutura. Galáxias, estrelas, prédios, aparelhos e empresas são estruturas. Furacões, terremotos, relacionamentos, eleições e doenças são ocorrências. A mente é uma ocorrência que se dá com a estrutura do organismo, em especial com o cérebro, mas não só.
Localização da estrutura que gera a mente
Vários experimentos clínicos atestam que a mente é uma ocorrência que se dá principalmente no cérebro (mas não apenas). A literatura neurocientífica está repleta deles. No cérebro, ao que parece, existe uma localização preferencial para o registro de cada informação, mas ela também está registrada em outros locais, de modo que, havendo lesões, é possível uma certa recuperação, até de memórias. Um evento é registrado em vários locais de memorização, segundo cada um de seus aspectos (verbal, visual, emocional, cinestésico etc). Existe uma concepção holográfica dos registros cerebrais, mas não acho que ela seja exclusiva. Considero uma possibilidade muito plausível, mas não de uma forma estrita. Explico: numa fotografia normal o que se registra é a amplitude e a frequência da onda luminosa, mas não a fase e a elongação. Na holografia se registra a elongação e a fase, que são capazes de gerar a amplitude e reconstruir uma imagem, mesmo com um fragmento do holograma, enquanto na foto ordinária, cada fragmento não tem informação sobre o resto da foto. No caso do cérebro isto não é tão radical, mas é possível umas partes substituirem as outras, em suas funções. Todas as funções mentais se dão por excitação de neurônios e transmissão de impulsos entre eles. Esta é uma rede incrivelmente complexa. Seu estudo demanda uma especialização médica bem profunda, especialmente se a pessoa for se tornar pesquisadora, trabalhando com psicólogos, filósofos, engenheiros de computação (para produzir inteligência artificial) e essa turma toda da pesada.
Se a mente é um "epifenômeno" do organismo (especialmente do cérebro) é uma questão de definição do que seja epifenômeno. De fato, a mente não é o cérebro e nem é material (senão se poderia transferir memórias numa seringa). Mas ela acontece em virtude do funcionamento do cérebro. Não considero que isto a caracterize como sendo de natureza transnatural. Trata-se de uma ocorrência natural do organismo, que não sobrevive à sua falência.
Consciência e autoconsciência
A consciência psíquica (consciousness, e não conscience) é a propriedade da mente estar ciente do mundo exterior e de seu processamento interno. A maior parte das sensações provinda dos sentidos (visuais, auditivas, olfativas, gustativas, táteis, térmicas, cinestésicas, álgicas, vestibulares etc), bem como a maior parte do processamento mental, se dá sem que se tome conhecimento do que ocorre. Somente é percebido aquilo que prende a atenção e o pensamento, só em parte, é acompanhado. Estar consciente é estar sabendo o que está acontecendo. No sono, desmaio, anestesia e morte, está-se inconsciente, no último caso, de forma definitiva. A consciência é a mais importante das ocorrências que fazem parte da mente. Ao se dizer que se está sabendo do que acontece, a primeira pergunta é "Quem?". Sim, qual é o ente que tem consciência do que ocorre em sua mente? Tal ente, denominado "eu", é o dono de sua mente e de seu corpo. A "autoconsciência" é esta noção que se tem de si mesmo. Também ela é, segundo as mais recentes pesquisas neurológicas, uma ocorrência mental e, logo, proveniente do funcionamento do organismo, portanto, natural, sem ser material. A noção de si mesmo é dada por uma varredura constante que o cérebro faz do próprio organismo e do mundo, atualizando as informações sobre tudo o que esta ocorrendo com o corpo, a mente e o mundo exterior. O cruzamento dessas informações permite que se tenha a noção da distinção da pessoa em relação ao resto e de que ela continua sendo ela mesma ao longo do tempo, mesmo modificando-se.
A mente e os sentidos
Falou-se que o cérebro seria o "hardware" e a mente o "software" e que o hardware não pode construir o software. Este é um ponto em que as analogias falham. A mente não é, nesta analogia, um software instalado em um hardware em branco, mas sim um tipo de "eprom", em que o software está gravado (e até pode ser modificado), mas não é volátil. A noção de "tabula rasa" é falsa. À medida que o desenvolvimento embrionário e fetal vai ocorrendo, tanto o cérebro quanto os órgãos dos sentido formam-se paralelamente. Então, o protocérebro já vai recebendo impressões dos protosentidos e tudo vai se formando junto. Ao nascer, o bebê já tem muitos registros de percepções em sua memória e, nos primeiros dias e meses, isto cresce tremendamente. Esses impulsos sensoriais, juntamente com as respostas motoras de toda ordem (movimento, choro etc) é que vão formando as ligações sinápticas que estruturam o hardware, juntamente com o software, ao mesmo tempo. Os sentidos são as principais ferramentas para a construção da mente. Tudo provém deles, exceto o que já vem geneticamente pronto, que, além da existência das células nervosas, no ser humano, é pouco, como o instinto de sugar e agarrar. A maior parte é aprendida, como o ato do coito, que nos animais é instintivo. Mesmo na vida adulta, o exercício dos sentidos é capaz de gerar conexões sinápticas e aumentar a inteligência, por exemplo. De fato, nos seres biológicos, o hardware constrói seu próprio software.
Pensamento
Percepção, pensamento e consciência são fatos distintos da mente. O pensamento é uma ocorrência que se dá na mente, como um sentimento, uma emoção, uma percepção, uma volição, uma evocação, uma memorização, um raciocínio etc. E mente nada mais é do que a entidade que consiste em um cérebro em funcionamento atual ou potencial. A mente não é o cérebro, mas não existe sem ele. É um epifenômeno do cérebro, isto é, um acontecimento que se estabelece devido a seu funcionamento, que depende de sua constituição, estrutura e dinâmica. Assim o pensamento é uma sequência de evocações de percepções, de associações, de sentimentos, e de tudo o que o funcionamento do cérebro pode produzir. Note-se que o pensamento pode mesmo ser inconsciente. Certamente para pensar a mente requer que o cérebro funcione e, portanto, consuma energia. Mas o pensamento não é energia, nem tampouco reações químicas. Não é matéria e nem espírito (que, aliás, não existe). Pensamento pertence à categoria de realidades que denominam-se “ocorrências”. Isto é: pensamento é um processo que se dá na mente, um acontecimento, um evento. Para que tal evento ocorra é requerido o fornecimento de energia como, de resto, em todo processo orgânico. Mas esta energia é a fornecida pela metabolização do alimento que se ingere. Ela não provem de fonte externa ao organismo. Energia não é uma entidade e sim um atributo. Não existe energia em si mesma, mas apenas como propriedade de alguma coisa. Como uma cor, por exemplo. Tal ocorrência consiste em transmissões de sinais entre neurônios. Estes sinais caminham pelos dendritos e axônios como uma onda de inversão de polarização de suas membranas, em função da variação da concentração de íons de sódio, potássio e cálcio. A comunicação entre os dendritos e os axônios é feita pelos neurotransmissores, que estão disponíveis no meio glial, tratando-se, pois, de um transporte químico de moléculas. Tais assuntos podem ser vistos em qualquer tratado de anatomia e fisiologia neural.
Uma questão, contudo, é inteiramente pertinente: de onde vém o pensamento? Isto é, o que desencadeia a ocorrência de um pensamento na mente? Várias coisas. Em sua orígem, todo processamento mental provém das sensações que os órgãos dos sentidos levam ao cérebro. São os estímulos visuais, sonoros, térmicos, táteis, olfativos, gustativos bem como dos sentidos que percebem o equilíbrio, o posicionamento do corpo e o funcionamento dos órgãos internos que provocam as primeiras cadeias de transmissões de sinais neurais que se transformam em percepções, assim que interpretados. Em segundo lugar, o próprio cérebro, em seu funcionamento, evoca, por associação ou mesmo aleatoriamente, a percepção de imagens já registradas na memória. E as processa, produzindo novos resultados que passam a ser registrados. Esse fluxo de processamento neural é que é o pensamento. Ele pode se dar de modo consciente ou inconsciente, voluntário ou involuntário. Quando consciente, o “eu” (self) toma ciência da ocorrência. Nos sonhos e alucinações há uma emulação inconsciente da consciência, que, inclusive, pode acarretar respostas motoras (sudorese, micção e mesmo, locomoção, além do movimento dos olhos, característico do estágio REM do sono). Dependendo de seu modo de ser, o pensamento pode ser um raciocínio, uma emoção, um sentimento, uma decisão. Em todos estes casos, o processamento mental desencadeia alterações somáticas (hormonais, vago-simpáticas ou outras), como excitação, taquicardia, sudorese, rubor, palidez, secura na boca, vaso constrição ou dilatação. Todas essas alteração são percebidas pela varredura dos sentidos e registradas na memória com parte da ocorrência, de modo que o processamento mental não é apenas cerebral, mas envolve todo o organismo.
Comentários
O fato da consciência ser uma função orgânica de certos organismos biológicos evoluídos, não implica na recíproca, ou seja, que todo organismo, biológico ou não, tenha consciência. Todavia não há impedimento de que um artefato possa ter consciência. Qual seria? É possível dotar um robô de consciência sim, porque não? Só não se tem é competência tecnológica para isto, por enquanto. Mas pode-se vir a ter dentro de poucas centenas de anos.
As evidências de que os organismos biológicos constroem seu próprio hardware e software são patentes. Primeiro que esta separação em hardware e software, aplicável aos processadores eletrônicos, não se aplica aos sistemas biológicos. Neles a construção do software é feita pela construção do hardware, já com o desenho ajustado para a função que exercerá. Não existe uma estrutura pronta e vazia para acolher dados. Os dados são registrados como informação pela própria formação de conexões no momento do registro. O cérebro é construído não apenas na gestação, mas ao longo de toda a vida, entendendo-se que mudanças de conexões são novos projetos de reforma da estrutura, que estão a todo momento ocorrendo, especialmente durante o sono. Nessas reformas de estrutura é que se fixam na memória cortical as ocorrências experimentadas e temporariamente registradas no sistema límbico. E os registros de memória não são apenas imagens, sons ou outras percepções sensoriais. São também, emoções, sentimentos, raciocínios, desejos, decisões, enfim... tudo o que possa acontecer na mente.
Não há problema nenhum em considerar a mente como epifenômeno gerado pelo cérebro, dizendo que, então, esta geração já seria um processo mental, e, assim, ter-se-ia uma regressão infinita. Nada disso! Isto está parecendo como o argumento Kalam de que o Universo tem que ter um criador, pois senão ou ele teria surgido do nada ou sempre teria existido. No primeiro caso diz-se que o princípio da causalidade impede que o nada gere alguma coisa e no segundo, o argumento Kalam diz que não seria possivel o Universo ter começado em um momento infinitamente afastado para o passado, pois, então, não teria havido tempo para se chegar até o presente, e o presente está aí. Duas falácias. Primeiro que não existe nenhum princípio de causalidade. A atribuição de causa para um evento é um fato eventual e não obrigatório. Segundo que dizer que o Universo sempre existiu não é dizer que seu começo se deu num momento infinitamente distante e sim dizer que não teve começo nenhum, o que é muito diferente. Então é possível que o Universo seja eterno ou que tenha surgido sem causa. Mas isto não é o assunto do tópico. A mente pode ser uma entidade imaterial gerada por uma entidade material sim, porque não? Isto se dá em muitos outros casos: Uma orquestra tocando produz uma música, que não é material. Do mesmo modo que a matéria inanimada produziu a vida, na origem da série evolutiva. O ônus da prova não é provar que a matéria pode gerar a mente mas sim provar que não pode.
Artefatos conscientes
Turing apenas provou que uma máquina de Turing não pode ter consciência. Robôs podem vir a ser construídos com arquiteturas inteiramente diversas, inclusive da própria arquitetura da mente humana, da qual não temos a mínima idéia de como seriam. Portanto não está provado que não se possam construir artefatos dotados de todas as capacidades humanas e, inclusiver de muitas outras que não possuímos, como sintonizar quaisquer frequências de radiação, enxergar raios X, promover uma rede mental de processamento entre eles todos. Não há limite para o que se possa imaginar e, até mais, há possibilidades nem sequer passíveis de serem imaginadas. Esperemos não centenas nem milhares, mas milhões de anos.
Inclusive os robôs poder vir a ser construídos por meio de engenharia biológica e não mecatrônica. Isto é: serem projetadas moléculas de DNA que venha a construir o tipo de ser vivo que se pretenda, átomo por átomo. E a consciência pode vir a ser implementada nesses projetos, quem sabe até em vejetais ou em algum novo reino que venha a ser inventado, tipo animais clorofilados, que façam fotossíntese.
Livre arbítrio
O livre arbítrio é a capacidade de escolha da mente e isto não é privilégio humano. Até uma formiga tem. Tal capacidade decorre do caráter probabilístico do estado quântico de um sistema, ou do Princípio de Incerteza. Se ele não existissem seríamos todos zumbis (que, inclusive, existem, mostrando que a consciência não é um fator determinante para a sobrevivência). Um artefato também pode vir a possuí-la e não simulá-la. Não há impedimento teórico nenhum para isto, só incompetência tecnológica.
O livre arbítrio não é uma ilusão. É um fator real no processamento mental. Ao analisar possíveis futuros de uma ação ou de outra alternativa, como num jogo de xadrez, mas também na vida (casar ou não casar?) a mente pondera e pré-vivencia possíveis situações, comparando o quanto de dor ou prazer elas propiciariam, como base nos conhecimentos atuais. Mas não é só a dor e o prazer que pesam. Há o aspecto ético, os compromissos, como também a chance de promover uma grande virada. Tudo isto é colocado à disposição da mente, que toma uma decisão e age. Não há determinismo nisto, como pensam alguns psicólogos que consideram que sempre se decide pelo que nos beneficia, mesmo que aparentemente não. Existe o verdadeiro altruísmo, em que a pessoa decide em completa oposição a qualquer benefício pessoal.
O livre arbítrio, contudo, não é prova nenhuma de que a mente não seja uma ocorrência do cérebro (e do conjunto do organismo). Até hoje não ví nenhum argumento capaz de derrubar minha concepção monista fisicalista da mente. Não estou me referindo especialmente à consideração da existência de uma alma espiritual, mas mesmo de algum tipo de entidade nem espiritual nem física, que seria a mente, mesmo que não sobreviva ao corpo. O que é preciso entender bem é que físico não significa apenas material: inclui campos, radiação, estruturas e ocorrências, além do espaço e do tempo.
Consciência dos animais
O cérebro é uma condição necessária mas não suficiente para produzir a mente e, nela, a consciência. Nâo existe consciência sem cérebro, mas existe cérebro sem consciência. É preciso distinguir a consciência da autoconsciência. Alguns animais que possuem consciência não possuem autoconsciência. Esta requer uma complexidade maior na estrutura neurológica do que a simples consciência. A partir de que nível a mente animal possui consciência e autoconsciência não é fácil determinar.
Sugiro a leitura destes dois artigos:
http://plato.stanford.edu/entries/cognition-animal ,
http://plato.stanford.edu/entries/consciousness-animal .
Aliás, ambos esclarecem muitos pontos a respeito da cognição e da consciência humanas, já que somos animais, apenas mais evoluídos, mas nada temos de essencialmente diferente. Isto é, não há nenhuma propriedade do ser humano que também não o seja, em grau menor ou, às vezes, maior, propriedades dos animais superiores.
Corrigindo uma interpretação
O livre arbítrio existe exatamente porque o determinismo não existe na natureza. Isto faz parte do mais profundo comportamento daquilo que é o constituinte universal da matéria, da radiação e de todas as estruturas formadas por elas, como o ser humano: o campo. Trata-se do princípio da incerteza ou do caráter probabilístico do estado dos sistemas físicos, que são todos feitos de campo. Como disse o Walter, o corpo, o cérebro, a mente e a consciência decorrem da existência de campos de todo tipo que mantêm as estruturas e seu modo de evolver. A diferença é que, enquanto o corpo e o cérebro são entidades materiais, a mente e a consciência não o são, mas sim um tipo de entidade que denomino de "ocorrências". Examinando mais profundamente o conceito de "epifenômeno", vejo que ele não se aplica convenientemente à mente e à consciência, pois, apesar de serem entidades que "emergem" (e não transcendem) do funcionamento do sistema nervoso, não adquirem uma existência de direito próprio, como seria o caso de epifenômenos. Assim prefiro ficar com o conceito de "ocorrência", que, de fato, mostra que, mesmo não sendo material, a mente só existe como produto do funcionamento de uma entidade material. Não gosto de analogias, mas posso dizer que seria como a música que sai de um aparelho de som. Ela não é material, mas não existe sem que algo material a produza. A música, assim, é uma "ocorrência".
No meu entendimento a mente não é uma ocorrência da consciência e sim uma ocorrência do cérebro. A consciência é uma das funções da mente, não a precedendo. É como uma música. A música não é a partitura em que está escrita e nem as vozes e instrumentos que a executam. A música não está latente nos instrumentos. Soá-los pode não produzir música alguma. Ela é a ocorrência de sua execução. Mas esta ocorrência só se dará se houverem vozes ou instrumentos (podem ser gravações, rádios ou televisões). E a música também não é o som. É um conteúdo do som. Assim a consciência, como aliás, as demais funções psíquicas, como o pensamento, as emoções etc. Tais coisas se dão no cérebro mas não são matéria e nem espírito. São acontecimentos, processos, ocorrências. Não se pode extrair um pensamento numa seringa e injetá-lo em outro cérebro. Nem uma emoção. A consciência, especialmente, é um estado de funcionamento do cérebro. A mente é o cérebro em funcionamento, mesmo inconsciente. A consciência é uma propriedade da mente. Um cérebro recém morto não tem mente nem consciência. Isto se esvai com a morte e deixa de existir. A consciência não é uma estrutura, pois esta é estática. Como ocorrência, a consciência é dinâmica. Ela não "é", mas "está sendo", a todo momento em que estiver ligada. Mas, nos estados inconscientes da mente (sono, desmaio, anestesia) em que o organismo permanece vivo, como as estruturas e registros de memória que geram a consciência estão presentes, ela volta integralmente findo o episódio de inconsciência. Não existe parte não mental da consciência e o espírito não tem energia alguma, simplesmente porque não existe.
Meio Cérebro
Por isto é que analogias não são uma boa coisa. A pessoa pode viver com meio cérebro porque as funções não são rigidamente localizadas. A plasticidade do cérebro permite relocações, além de poder haver multiplicidade de locações para uma mesma função. No caso do instrumento musical, geralmente a emissão de uma nota é associada a certas partes do instrumento, que, faltando, não permitem a execução de toda a música. Mesmo assim, como no caso dos instrumentos de corda e arco, é possível emitir a mesma nota em várias cordas e continuar a música na falta de uma ou mais delas. Mas isto já não acontece no piano, por exemplo. É preciso muito cuidado no uso de analogias, pois elas se prestam para ilustrar apenas um ou outro aspecto do que se está considerando. O sentido reverso, isto é, considerar que uma outra propriedade da analogia também o seja do que está sendo considerado, nem sempre é verdade.
Monismo e dualismo
Na explicação da mente, o monismo considera que ela seja uma ocorrência de uma única natureza, física ou transfísica. No monismo fisicalista, que advogo, a mente é uma ocorrência inteiramente bio-física, sem ser material, contudo. Outra modalidade do monismo é o idealista, que considera que a única realidade são as idéias ou os espíritos, das quais ou dos quais o mundo físico é uma representação quimérica.
A segunda visão é a dualista, que considera a existência simultânea de duas realidades, a física e uma outra, que podem ser os espíritos (dualismo substancial) ou uma realidade de estruturas mentais ou ideais não espirituais (dualismo de propriedades). A primeira concebe que a sede da mente e da consciência seja a "alma", entidade etérea e não física, mas intimamente ligada ao organismo, enquanto vivo. A segundo é o caso de epifenomenalismo, em que a mente e a consciência, mesmo emergindo do cérebro, constituem-se em uma entidade de natureza não física, sem relação causal como determinante de ocorrências físicas no organismo.
Me parece que a realidade da matéria e do mundo físico é bem evidente para que se possa descartar considerá-los como ilusões (hipótese Maya do hinduísmo). De qualquer forma, a realidade do mundo exterior à mente é uma crença, mas apoiada em fortes indícios de sua veracidade. O epifenomenalismo é um conceito inteiramente desnecesário, como um modo de se ficar "em cima do muro". O verdadeiro debate se dá entre o monismo fisicalista e o dualismo de substâncias, este adotado pela quase unanimidade das religiões, com variações. Em algumas a alma morre com o corpo, mas ressucitará com ele após o Juizo Final. Em outras ela sai do corpo e pode ir para o céu ou o inferno (não vou considerar agora a questão da existência e propriedades desses locais). Noutras ela reencarna em outros corpos. Até o presente momento não ví nenhuma evidência ou comprovação da existência de tal tipo de coisa. Além do mais, há uma séria dificuldade na consideração da interação da alma com o corpo.
Concordo integralmente que a mente, com todos os seus atributos, incluindo a consciência, seja uma entidade puramente natural (rejeito, pois, o dualismo de substância) e, como observei, nem sequer vém a ser um epifenômeno do cérebro (dualismo de propriedades). Trata-se de um fenômeno inteiramente biológico (monismo fisicalista), que denomino de ocorrência. Isto significa que a mente emerge do substrato biológico material (o organismo, especialmente o cérebro, mas não só) como um acontecimento que se dá nele, mas, ela mesma, não é material. Só que não possui uma independência que possa lhe caracterizar como algo existente por si mesmo, como acontece com a noção de “alma”. Além da mente, outras entidades são também ocorrências, como a música e muitas entidades sociais, como empresas, associações, religiões, clubes. No caso social, existe o conceito de “representação social”. Segundo Fischer « La représentation sociale est un processus d’élaboration perceptive et mentale de la réalité qui transforme les objets sociaux (personnes, contextes, situations) en catégories symboliques (valeurs, croyances, idéologies) et leur confère un statut cognitif, permettant d’appréhender les aspects de la vie ordinaire par un recadrage de nos propres conduites à l’intérieur des interactions sociales ». Logicamente a mente não é uma “representação social’, neste sentido, mas não deixa de ser uma espécie de “representação” psíquica do processamento fisiológico do cérebro. Mas, insisto, não é “material”, mesmo sendo física. Além da matéria, o espaço, o tempo, a radiação, os campos, as estruturas e as ocorrências são também entidades físicas.
Epifenômeno
Como já disse, revi minhas afirmações anteriores de considerar a mente como "epifenômeno" do cérebro, após pesquisar com mais profundidade o conceito de "epifenômeno". Este é uma ocorrência que emerge das propriedades de do funcionamento de outras, mas se torna de uma nova natureza, incapaz de provocar alguma alteração em eventos que se dêem na estrutura da qual emerge. Se a mente e a consciência fossem epifenômenos, então seriam formadas pelo funcionamento do cérebro mas não atuariam sobre ele. Por exemplo, um raciocínio que leve a uma decisão seria processado todo no cérebro, mas sua percepção consciente se daria pela emergência para a mente. Todavia, a decisão tomada em função do raciocínio não seria feita pela mente e mandada de volta ao cérebro, para execução. O próprio cérebro é que faria isto. A mente seria, pois, uma espécie de "janela" pela qual se perceberia o funcionamento do cérebro, sem nada interferir. Em minha concepção de "ocorrência", a mente é ativa e é nela que se dá o processamento, pois isto é, justamente, uma ocorrência. Então a mente é algo natural, físico, não pertencendo a nenhuma outra categoria, mesmo não sendo material. A consciência e a autoconsciência são processos mentais.
A mente não é uma manifestação da consciência. A consciência é que é uma operação da mente. Não existe consciência sem mente e nem mente sem cérebro. O idealismo e as doutrinas espiritualistas, dentre elas o espiritismo, não possuem base factual nenhuma que as dê suporte. Mediunidade e experiência de quase morte não confirmam nenhuma realidade espiritual extrínseca ao organismo. Tratam-se de alucinações, análogas à esquizofrenia, quando não são puros embustes. O Universo não tem consciência nenhuma, tampouco os seres inanimados.
Quanto aos animais, sim, eles a possuem, em grau maior ou menor. Isto pode ser verificado em vários testes. Não é privilégio do ser humano possuir consciência e autoconsciência e mesmo consciência moral. Animais mais evoluídos sabem quando fazem coisas erradas. Eu vejo isto frequentemente em meus cachorros e cadelas. Primatas, golfinhos, elefantes e até papagaios a exibem nos testes.
A consciência não está em toda parte. Ela está apenas na mente de seres vivos animais com certo grau de complexidade. Não sei se insetos a possuem, mas os vertebrados sim, mesmo ratos. E, talvez, os cefalópodos, dentre os invertebrados. Quanto aos vegetais, penso que não, mesmo as plantas carnívoras.
É interessante notar que a consciência é função de certos setores do cérebro. Algumas lesões causam perda parcial da consciência, sem perda de outras respostas. Por exemplo, há casos de perda parcial da consciência da visão unilateral sem perda real da visão, pois testes mostram que a pessoa, sem saber que vê, consegue pegar um objeto para o qual está olhando. Isto é: a visão está preservada, mas a consciência da visão não. Ha também patologias da consciência da memória de certos fatos, sem perda da memória, isto é, a pessoa não se lembra conscientemente, mas age de acordo com a lembrança em questão.
Baleias e elefantes têm mais neurônios do que homens. Mas também têm mais células corpóreas, sendo a razão do número de neurônios por células corpóreas maior nos seres humanos. Além disto, não é só o número de neurônios que conta para a inteligência e sim o número de neurônios corticais, principalmente frontais e o número de sinapses, bem como a área da superfície do córtex, ampliada pelas dobras externas do cérebro. A consciência só atua no mundo exterior se alguma de suas operações desencadear uma ação motora do organismo que interfira no mundo. De outra forma não há como a consciência ou a mente agir sobre algo externo ao corpo que as abriga. Não existe transmissão de pensamento nem poder da oração ou força do pensamento positivo, exceto como um fator internamente estimulante para que a pessoa não desanime e aja positivamente para a obtenção do que deseja. Em suma, o livro "O Segredo" é a mais completa tapeação.
Consciência e complexidade
Se for possível fazer a conexão neural entre dois cérebros, quantas mentes e quantas consciências haverão? Minha resposta é: uma só! Explico: Mente e consciência não são entidades substanciais que tenham localização, extensão, massa, energia etc. São "ocorrências", acontecimentos, fenômenos, eventos. Não se "possui" uma consciência: "experimenta-se" estar consciente. Uma vez que sistemas biológicos ou eletrônicos capazer de gerar consciência se interconectam, a consciência que eles geram é única. É preciso diferenciar consciência de autoconsciência ("EU", ou EPP - experiência em primeira pessoa, como querem alguns). Consciência é a noção de se estar ciente do processamento mental. Note-se que isto é independente do processamento, mesmo uma percepção. Pode-se "ver" sem estar consciente do que se vê e, inclusive, agir em função desta visão (no sonambulismo, por exemplo). O mesmo se dá com memórias que não se consegue evocar mas que são usadas em ações que as requerem. Esta consciência não está especificamente localizada no cérebro. É importante frizar que a maior parte do processamento mental, inclusive raciocínios, é inconsciente. O afloramento do resultado desse processamento à consciência é que se pode chamar de "intuição" ou os "insights". Já a autoconsciência é uma consciência especial de si mesmo como algo distinto do resto do mundo, inclusive do organismo. Esse "eu" é o dono da mente e do corpo. Isto não é uma "entidade", mas uma constatação da mente, isto é, um processo, uma ocorrência, que é possível se perder. Há patologias de perda do "eu", sem prejuízo da continuidade da vida e mesmo de processos mentais, como memória e raciocínio. Só não se consegue perceber-se a si mesmo como algo distinto e individual. Daí se vê que a mente não pode ser gerada pela consciência e sim o contrário, já que a mente é mais abrangente, sendo a consciência um de seus aspectos.
É claro que estruturas físicas de suficiente complexidade são capazes de gerar mente e consciência, mesmo que não sejam biológicas. Nada há que impeça. O processamento neurológico que faz surgir a mente e, nela, a consciência, fundamentalmente é o mesmo de um ser vivo de menor complexidade, desprovido de consciência (ou, pelo menos de autoconsciência). É só uma questão de complexidade mesmo. O pessoal que pesquisa inteligência artificial já faz dispositivos (redes neurais) que aprendem e se autoregulam. Só que os dispositivos artificiais, constituidos de milhares de processadores em paralelo, são incrivelmente toscos comparados com o cérebro, mesmo de um rato. Então, dar consciência a um robô, é só uma questão de se adquirir a competência necessária.
Outra coisa que precisa ficar clara é que o "eu" não reside em nenhum espírito ou alma. É um acontecimento puramente neurológico.
Esse negócio apregoado pelo Amit Goswami, Fritjof Capra, Deepak Chopra e outros que tais, de que o pensamento influencia a probabilidade quântica de um evento, podendo determiná-lo é inteiramente gratuíto. Não é nada disso. Livros como "Quem somos nós" e "O Segredo", são uma completa enganação.
Só quero reforçar que não é o tamanho nem a densidade do tecido neurológico em relação ao resto do organismo que determinam o nível de inteligência ou consciência (sim: nível e não existência!), mas sim, justamente, a complexidade das conexões e da estrutura (arquitetura) de um modo geral. Reforçando também o caráter não linear, isto é, o todo não é a simples "soma" das partes, mas envolve retroalimentações, influências cruzadas, reforços de todas as potencias etc, etc.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Ensinando, Estimulando e Aprendendo Inteligência
Assisti, neste último domingo, pela Rede Minas de televisão, uma entrevista com o professor Pierluigi Piazzi, do Anglo de São Paulo, sobre o cultivo da inteligência como uma prática pedagógica importantíssima e relegada ao ostracismo na maioria das escolas. No You Tube você pode assistir sua palestra sobre o tema, em oito vídeos encadeados. Esta é uma tecla pela qual me venho batendo desde que comecei a lecionar, em 1968. O mais importante não é passar conhecimentos nem habilidades (que também têm que ser passados) mas desenvolver a inteligência. A escola é como uma Academia Mental. Na verdade, a maior parte do treinamento não é feito na hora da aula, mas na hora de estudo, fora da aula, em que o aluno se torna um estudante e faz a sua calistenia cerebral. Não estou descartando a necessidade da transmissão de valores éticos, estéticos, sociais, sentimentais e de outras ordens. O que insisto é que tem-se que parar de adotar o paradigma educacional de que estudar é absorver conhecimentos, que são as únicas coisas avaliadas nos exames. Isto é só uma parte, e minoritária, do processo ensino-aprendizagem. A aprendizagem de habilidades é outra com o mesmo nível de importância que os conhecimentos. E o desenvolvimento da inteligência é mais importante ainda que estes dois, do mesmo modo que a formação do caráter. Ainda vou tecer mais considerações sobre este assunto em futuras postagens.
O professor Piazzi é especialista e neuropedagogia e autor de três livros sobre o tema, publicados pela editora Aleph: "Aprendendo Inteligência", "Estimulando Inteligência" e "Ensinando Inteligência".
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