O campo que existia quando começou o Big Bang não era gravitacional apenas. Era um campo unificado de todas as interações e todas as formas de matéria possíveis, de forma indiferenciada. À medida que a expansão provocou a queda na densidade de energia desse campo as simetrias começaram a ser quebradas, uma por uma, e as interações foram se separando, bem como as quantizações dos constituintes da matéria, isto é, formaram-se os bósons e os férmions primordiais, como os glúons, quarks, fótons, W, Z, elétrons, neutrinos e as outras mais pesadas de meia vida curta. A matéria prima não é o campo gravitacional mas esse campo de tudo.
Postagens do pensamento, textos, poemas, fotos, musicas, atividades, comentarios e o que mais for de interesse filosófico, científico, cultural, artístico ou pessoal de Ernesto von Rückert.
domingo, 3 de julho de 2011
Professor, trocar ideia por aqui é muito ruim. Não tens outro lugar na net onde eu tenha mais espaço pra eu escrever?
Vá para o orkut. Lá eu tenho uma comunidade chamada Wolf Edler para discutir qualquer coisa. Minha identidade no orkut também é Wolf Edler.
O que o senhor acha da aposta de Pascal?
Medrosa e um insulto a Deus, caso exista. Se não se tem nenhuma prova de que Deus existe, mesmo que não se tenha de que não exista, deve-se considerar que não existe. Isto não dá à pessoa o direito de ser um malfeitor. Não é a existência de Deus que faz com que o bem deva ser feito e o mal rejeitado. É o próprio valor do bem. Se uma pessoa acha que Deus não existe e pauta sua vida pela prática do bem, não por medo de Deus, então, mesmo que Deus exista, não há como essa pessoa ser castigada, a não ser que Deus seja injusto. Não é preciso crer em Deus como salvaguarda de uma possível condenação por ateísmo. Isto seria uma atitude mesquinha e traiçoeira, esta sim, passível de punição.
Eu escrevi um texto a respeito sobre sermos ateus e teístas ao mesmo tempo. Ele tá aqui. Algumas coisas precisam de revisão, admito, mas a mensagem básica ainda é compreensível. http://www.formspring.me/laerciomjr/q/184511232521301858 .
Lí o texto mencionado e comento. Certamente que para se dizer que se crê ou descrê em Deus há que se, primeiro, defini-lo. Cristãos não creem em Brahma, Shiva ou Vishnu. Mas nem o Deus abrahãmico, cultuado pelos judeus, cristãos e muçulmanos é um velho de barbas. Esta imagem é meramente pictórica e vale como forma divina apenas para os incultos (mesmo que sejam maioria). Nenhum teólogo dessas religiões considera que Deus tenha alguma forma, pois se trata de um espírito, mesmo que seja uma pessoa, isto é, que tenha personalidade, uma mente, inteligência, vontade sensibilidade. E, certamente, poder para intervir na natureza à revelia de sua leis. Isto é o que chamo de "mágico". Nesta entidade pessoal eu, absolutamente, não creio (e certamente nem no velho de barbas ou em qualquer outro deus antropomorfizado, zoomorfizado ou astromorfizado, como os do politeísmo greco-romano, germânico, escandinavo, celta, eslavo, egípcio, babilônico, persa, maia, asteca, hinduísta ou outros que tais). São todos invenções dos povos primitivos, mesmo que altamente refinadas e consubstanciadas em um corpo doutrinário tão complexo e sutil como as teologias judaica, cristã ou muçulmana.
E quanto a outra concepção de Deus? Para começar, Deus, se existir, não seria uma abstração, mas uma entidade concreta, no sentido ontológico e não físico do termo, ou seja, cuja existência não depende de mentes que a concebam. Mesmo que seja um ser não pessoal ou, até mesmo, que se confunda com o próprio Universo. Dizer que Deus não seja pessoal é dizer que ele não é um "eu", possuidor de mente e consciência e todas os atributos dessa condição.
Outra noção de Deus advém do honoteísmo hinduísta, que considera Brahman (não confundir com Brahma) como uma realidade tanto imanente quanto transcendente, mas não pessoal, o que leva ao panenteísmo, pois no panteísmo deus é apenas imanente, mas não transcendente. Brahman seria o poder transcedental de propiciar o surgimento, o crescimento e a transformação de tudo o que existe, que, então, passaria a fazer parte de Brahman (imanência). O ser humano teria uma consciência transcendental essencial, atman, que faria parte de Brahman. Nesta concepção, Brahman não seria um "eu", mas, como o conjunto unido de todas as consciências, teria uma consciência. Brahman seria o princípio de todas as leis que regem o funcionamento da natureza. O entendimento do significado de Brahman, para os hinduístas, foge da compreensão humana. Mas, certamente, trata-se de um conceito completamente diferente de Deus. Existiria isto?
No meu entendimento não há, também, como provar que sim ou que não. Apesar de ser mais plausível do que a noção abrahãmica do Deus pessoal, não vejo que seja necessário uma concepção assim para explicar a existência e a evolução do Universo e da vida. Para mim tudo pode ocorrer por conta própria, sem nenhum princípio regente e por mero acaso. Esta é a hipótese nula, isto é, a que se deve admitir como válida se nada houver em contrário. Então, para se considerar a existência de algum princípio transcendental que faz com que tudo ocorra como se dá, haveria que se achar um "diagnóstico diferencial", que indicasse que este seria, realmente, o caso. Ainda não conheço nenhum.
Para terminara quero dizer que essas concepções que defendo, absolutamente, não significam presunção, pretensão ou impaciência. Sou uma pessoa inteiramente aberta a dar o braço a torcer, tão logo seja convencido de meu engano e já fiz isto várias vezes na vida, inclusive quando deixei de ser católico e me tornei ateu. Tenho me dedicado ao estudo de todas as possibilidades, mas não tenho visto argumentos que me tirem do ateísmo. E veja que eu nutro o sincero desejo de estar equivocado. Porém não consigo admitir que a fé, no que quer que seja, possa ser usada como critério de verdade.
Professor, o que pensa a respeito do conceito junguiano dos arquétipos e egrégoras?
Tenho para mim que o inconsciente coletivo, os arquétipos psicológicos e as egrégoras, simplesmente, não existem. Essas concepções junguianas se fundamentam em uma abordagem, eu diria mesmo, mística, do psiquismo, que não encontra suporte na realidade. Não há como nenhuma ocorrência experimentada pela humanidade, mesmo que ao longo de milhares de anos, possa ser incorporada à carga genética que é transmitida ao recém-nascido. Os instintos são formados, ao longo da cadeia evolutiva, por alterações aleatórias nos genes, que são transmitidas e preservadas pela seleção natural. Nenhuma experiência adquirida em vida é geneticamente transmitida, por mais reforçada que seja. Pode-se cortar a cauda de milhares de gerações de ratos que os novos ratinhos nascerão sempre com cauda. Em suma: não existe inconsciente coletivo. Quanto aos arquétipos, como fazem parte do conceito de inconsciente coletivo, como sendo os padrões de comportamentos a que a pessoa se veria induzida inconscientemente a imitar, não existem como algo inato. Mas tais modelos podem ser inculcados na mente por aprendizado, especialmente se forem associados a situações traumáticas. Finalmente, as egrégoras são noções completamente desprovidas de sentido. Seriam elas uma espécie de espírito coletivo que emergiria de uma coletividade de pessoas, sendo formado pela "energia" que delas emanaria quando reunidas para algum propósito, como os fiéis em uma igreja, os médicos, enfermeiros e doentes em um hospital, os torcedores em um estádio, os sócios de um clube ou coisa semelhante. Ora, isto advém de uma noção errônea do conceito de energia. O máximo que a energia de uma reunião de pessoas pode fazer é aquecer o ambiente. Energia não é uma entidade. O Universo não é feito de matéria e energia e sim de matéria, radiação e campos. Essas é que são entidades e elas podem possuir ou não energia, como um atributo, como massa, carga, localização, extensão, movimento, rotação, vibração ou outros. Não existe "energia pura", que não seja a propriedade de um sistema composto de matéria, radiação ou campos. Quando uma partícula de matéria se aniquila com a sua correspondente de antimatéria, o par não se transforma em energia, mas em fótons, que carreiam a energia correspondente à massa das partículas, de acordo com a equação E=mc² . Não se pode, pois, dizer que um espírito seja feito de energia, nem uma egrégora. A substância de que os espíritos são feitos (caso existam, é claro) seria uma outra espécie de substância, que não matéria nem radiação nem campos de interação. Isto se considerarmos os espíritos como entidades da natureza, como o quer o espiritismo, mas não como o concebem as religiões cristãs e muçulmanas. Ainda não tenho conhecimento de nenhuma comprovação cabal, inequívoca e independente de crença de que existam espíritos de qualquer espécie.
Professor, o conceito mais sábio de Deus e deuses que eu me referia era o arcano. Só que aqui não tem espaço pra passar as referências pra conhecer esses conceitos...
Pelo que sei, arcanos são as cartas do Tarô. Não sou suficientemente versado em Teosofia, Esoterismo, Cabala, Astrologia, Rosacrucismo e esses assuntos para saber o significado de cada uma. Mas penso que o conceito de Deus seja de algo mais elevado do que as entidades arcanas.
Os sábios que digo são os iniciados. Os Cultos de Mistério foram a origem das religiões, que mais tarde forma vulgarizadas pelas massas por uma minoria que queria controlá-las. Pq um Deus que não seja o das massas não pode ser Deus? Pq daí seria provável?
Nunca disse que uma concepção diferente da de Deus que o povo possui não possa ser chamada de Deus. Há que se ver que concepção seja esta, para saber se se encaixa naquilo que se exige para que algo seja considerado Deus. E o que é isso? Primeiro que o conceito de Deus se refere a um ser e não a princípios, por exemplo. Esse ser não precisa ser uma pessoa, isto é, pode não ter um psiquismo: mente, consciência, inteligência, vontade, sensibilidade, memória, personalidade, temperamento, caráter e todos os outros atributos psíquicos de um ser que seja uma pessoa, especialmente um "eu". Mas, para ser chamado de Deus, este ser tem que ter poderes de intervir na natureza à revelia de suas leis e promover alterações não naturais. Se não for assim ele é simplesmente um ser da natureza. Ele tem que ser a causa de fenômenos que a natureza, por si mesma, não seja capaz de realizar. Sem isto não é um Deus. Mas não precisa ser um espírito, seja lá o que isto for.