segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O modo como se ensina a ciência, desestimula os jovens a aprender?

Nos anos iniciais do Ensino Fundamental não. Alí o ensino é estimulante e desperta a curiosidade e o desejo de saber. Ao passar para os anos finais e para o Ensino Médio, o deslumbramento científico começa a se dissolver. A razão é que se passa a estudar para tirar nota e para passar no vestibular e não para saber. Quando lecionei na Escola Preparatória da Aeronáutica, de 1968 a 1975, em Barbacena, o ensino médio visava a aquisição de conhecimentos e habilidades importantes para a vida, sem preocupação com o que caísse ou não no vestibular. Então conseguíamos despertar o gosto pelo conhecimento e o prazer em descobrir como o mundo funciona nos laboratórios a que se dedicavam duas aulas toda semana. E todo mundo trabalhava diretamente com os equipamentos, em kits para cada dois alunos. Além disso tínhamos a bateria completa de filmes do PSSC, que, mesmo rodados na década de 50, em celulóide de 16mm e preto e branco, eram magníficos.

Realmente esse ensino massacrante de macetes para o vestibular e a insistência em tópicos meramente tecnicistas, para que rendam muitas questões, não leva à compreensão do âmago da natureza e da sociedade que as ciências e as humanidades devem conceder ao egresso do Ensino Básico. Não se deve pensar em encaminhar o estudante para as áreas de exatas, biológicas ou humanas nesse nível. É preciso dar uma visão ampla, global, abrangente de todo o cabedal do conhecimento humano, para fazer uma pessoa culta e apta a compreender o mundo natural e social em que se insere, independentemente da área profissional a que vá se dedicar. Um advogado tem que saber matemática e física, um médico, história e geografia, um engenheiro, biologia e literatura, no nível do Ensino Médio, naturalmente. O vestibular não é para ver se alguém é apto para esta ou aquela área, mas se domina a totalidade dos conteúdos e habilidades previstas para o nível médio.

Especialmente nas ciências naturais, é preciso que o estudante ponha a mão na massa e faça trabalhos experimentais, pesquisas de campo, estudos "in loco" do que se esteja abordando. Que redescubra, nos experimentos, as leis que descrevem o comportamento físico, químico, geológico e biológico da natureza. Que seja capaz de induzí-las e deduzir seus corolários. Que saiba expressar em equações, gráficos, imagens e textos o que aprendeu, comunicando de modo que outros possam assimilar o conhecimento pelo que está dito. Aprender ensinando é o melhor método. Que cada tema a ser abordado o seja em um projeto completo, envolvendo grupos de alunos e professores de múltiplas disciplinas em trabalho conjunto de gestação e parto do conhecimento e na aquisição de habilidades que os apliquem na solução de problemas reais.

Isto também deve ser feito nas ciências humanas e nas disciplinas não científicas, muito especialmente na Filosofia, que não pode ser descurada por ser a que unifica todo o saber e lhe confere perspectiva e sentido. Outras habilidades precisam ser desenvolvidas de forma, até mesmo, lúdica, como o domínio de idiomas estrangeiros, das técnicas de informática e, até mesmo, de eletrotécnica, mecânica, marcenaria, eletrônica, culinária, corte e costura, música, artes plásticas, dança, teatro. Tudo isso em um regime de estudos integrados, em tempo integral.

Infelizmente estamos longe desse ideal. Mas algo pode ser feito e depende, principalmente, da disposição dos professores em abraçar um tipo assim de projeto e arcar com todos os esforços para concretizá-lo, dando muito murro em ponta de faca, caçando muita sarna para se coçar e inventando muita moda para se cansar.

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