quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O tempo passou a existir de acordo com o que já sabemos. Logo, o tempo não pode ser causado, pois seria uma contradição lógica óbvia. Só isso já tornaria o argumento cosmológico de Kalam falso. Concorda?

O tempo não tem uma causa. Nem o seu surgimento pode ser considerado um evento, pois um evento é algo que se dá em um lugar e em um momento. Não havendo espaço nem tempo, não há eventos. E eventos é que podem ter causa. Mesmo assim, por extensão, poder-se-ia considerar a passagem da inexistência para a existência do Universo como um evento, pois logo que ele surgiu, já surgiu expandindo-se e com conteúdo, o que implica que também surgiu o espaço para conter seu conteúdo e o tempo em que ele evolve. Melhor dizendo, o espaço é a cabência do conteúdo. Não há espaço sem conteúdo. Pode-se dizer que o espaço é um atributo do conteúdo. Da mesma forma, tempo decorre das mudanças de estado e configuração. Não há tempo se nada se modifica. Então tempo é um atributo das mudanças. Esse evento, o surgimento do Universo, é singularíssimo, pois é o primeiro de todos, antes do qual não houve nenhum que pudesse lhe servir de causa. Nem houve "antes". Ele pode acontecer sem verificar lei nenhuma da natureza, pois as leis da natureza se aplicam ao que existe, não havendo lei nenhuma sem que exista algo. O que tem isso com o argumento Kalam? Este argumento diz que é impossível que o tempo seja infinito para o passado, pois, se assim o fosse, não teria havido tempo para se chegar até o momento presente. Como o momento presente existe, por absurdo, conclui-se que o tempo teve que ter um começo finitamente afastado para o passado. A falha desse argumento não reside no fato de que o tempo tenha surgido sem causa. Porque, mesmo que ele fosse válido, e o tempo tivesse que ter tido um início há um tempo finito, nada há no argumento que diga que esse início teria que ter tido uma causa ou não. De fato, o tempo teve um início num momento finitamente afastado para o passado, mas não é porque o argumento Kalam diga que assim teria que ser. Poderia não ser. A falha do argumento Kalam consiste em que ele considera que o tempo ser infinito para o passado signifique que ele teve um início num momento infinitamente afastado para o passado. Se assim o fosse, de fato, jamais decorreria tempo suficiente para se chegar ao presente e o argumento estaria correto. Mas, tempo infinito para o passado não significa isso. Significa que o tempo nunca teve um início. Isso é completamente diferente. Não haveria momento nenhum em que o tempo começaria a passar. Todo momento teria um anterior. Então, o eixo dos tempos não seria uma semi-reta, e sim uma reta. Na semi-reta, há uma origem definida. Na reta não. Qualquer ponto de uma reta pode ser arbitrariamente escolhido como a sua origem. Nada impede, pois, que a origem dos tempos seja o momento presente e o tempo se estenda infinitamente para valores negativos e positivos. Isso não impede a existência do momento presente. Então o argumento falha por consideração conceitual. Isso é, não há empecilho lógico para que o tempo sempre venha passando. O que pode dizer se isso é fato ou não são os dados observacionais. E eles indicam que, de fato, houve um momento em que o tempo começou a passar.

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