quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O que acha dos novos projetos pedagógicos que pendem aprovação? Estava na Veja desta semana. (Cooperativismo, criatividade, pensamento própio e senso crítico poderão ser acrescentados à política escolar)

Acho que é preciso uma reformulação completa da estrutura do processo educativo formal das escolas. O que existe é uma catástrofe. Não cumpre a finalidade a que se propõe, que é preparar a infância e a juventude para os desafios e responsabilidades da vida adulta, bem como ensinar a viver de forma a dar significado à própria vida e alcançar a felicidade. O ensino não se presta apenas a formar profissionais competentes para o mercado de trabalho. Isto é apenas um aspecto, que parece ser o único abordado e, mesmo assim, mal.
Dentre tudo o que está faltando, sem dúvida, esses itens (cooperação - não cooperativismo, criatividade, pensamento próprio, senso crítico) são de grande importância, mas não só eles. Bom caráter, inteligência, sensibilidade, diligência, tolerância, cultura geral, iniciativa, originalidade e muitos outros ficam a dever no rol de conhecimentos, habilidades e comportamentos a serem cultivados por iniciativa da escola. Não com a criação de disciplinas específicas e sim com a abordagem de tudo isso no contexto das já existentes. Por outro lado, muitos ítens desnecessários deveriam ser retirados e o currículo obrigatório se focar no essencial, deixando um leque de possibilidades optativas à escolha de cada um, como artes plásticas, música etc. Noções básicas disso tudo, todavia, seriam dadas a todos. Considero, por exemplo, que os primeiros anos do Ensino Fundamental só precisaria ter as disciplinas de português e matemática, sendo os conteúdos de ciências, geografia e história abordados dentro delas.
O processo educativo, que é o processo de induzir o aprendizado para a vida, firma-se nos pilares do aprimoramento da inteligência e da sensibilidade (em todos os seus matizes), aquisição de conhecimentos (informação, entendimento e compreensão), desenvolvimento de habilidades (cognitivas, psico-motoras e afetivas), estabelecimento de competências (pessoais, sociais e profissionais), formação da personalidade e do caráter (incluindo a educação moral, dos sentimentos e do desejo, a disciplina da vontade e a firmeza da ação) e, o mais importante, o cultivo da sabedoria, especialmente para o julgamento e a tomada de decisões. Não se pode esquecer que a saúde é essencial para a conquista da felicidade. Assim sendo a escola precisa cuidar do condicionamento físico e da formação de bons hábitos alimentares.
Tirando a mal trabalhada aquisição de conhecimentos, tudo o mais é deixado de lado pela escola, que não forma ninguém para a vida e acaba sendo um estorvo na vida dos alunos, que prefeririam mil vezes não estar lá. Uma escola eficaz, eficiente e proveitosa tem que ser uma escola agradável e cativante, em que a mocidade curta o prazer de frequentá-la e nela desenvolver as atividades adrede projetadas para o cumprimento de sua missão, incontornável para o processo social. E isto só pode ser feito em uma escola que seja pública, de tempo integral, com todos os professores em dedicação exclusiva e atrativamente remunerados. Uma escola particular assim seria caríssima e eliminaria a oportunidade da convivência entre ricos e pobres, brancos e negros, ateus e crentes, de forma a exercitar a tolerância e a solidariedade.
Uma proposta que tem a minha grade admiração e que eu gostaria de ver implantada em todo o Brasil (e no mundo) é a da "Escola da Ponte", de Portugal, de iniciativa do professor José Pacheco. Procurem por este nome nos mecanismos de busca que vocês terão uma noção da maravilha de proposta pedagógica que é. Trata-se de uma escola sem salas de aula e sem séries curriculares. Todo o espaço da escola é ocupado por bibliotecas, laboratórios, oficinas, estúdios, salas de estudo, parques recreativos, quadras esportivas, além das dependências administrativas. Os alunos não se matriculam em séries e nem têm classes nem disciplinas a cursar. Tudo é feito por meio de projetos, digamos, 300 projetos para os anos finais do Ensino Fundamental. Os projetos são interdiscilinares e possuem pré-requisitos, mas, desde que atendidos, podem ser feitos na sequência que se desejar. São trabalhados em grupos pequenos (até quatro), envolvendo alunos de diferentes idades, em dedicação exclusiva e horário integral até acabar. Os professores ficam entre os alunos, disponíveis para orientar e ajudar. Na média são feitos dois projetos por semana. Quando prontos são apresentados a uma banca de professores que os aprova ou não. Aprovado um, passa-se a outro, em que cada aluno se incluirá em nova equipe. Caso reprova-do, faz-se novamente. O aluno é considerado aprovado no nível quando completa todos os projetos, no tempo que conseguir. Há projetos práticos de horticultura, marcenaria, eletrotécnica, hidráulica, mecânica, culinária, corte e costura, para todos, de ambos os sexos, além, é claro, matemática, ciências, geografia etc., sempre interdisciplinares. Ainda não se tem aulas práticas de educação sexual, contudo... (a objeção dos pais seria muito grande). Como, por enquanto, é só uma escola com esse projeto, não há como aceitar nem conceder transferências. Se todas fossem assim, isto seria normal.
Vejam o artigo http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_da_Ponte e os links nele existentes.

Ask me anything (pergunte-me o que quiser)

Nenhum comentário:

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails